00:27Puxa, mas nós tivamos sorte mesmo, hein?
00:30Precisávamos de um corpo com certas características e logo, logo apareceu. Maravilha!
00:36Mas também viveram um país com tanta violência, corpos é que não faltam, né?
00:42Para qualquer situação, aliás.
00:43Bom, aqui está. Inês Ferreira de Souza.
00:47Esta é a certidão de nascimento. É falsa, mas não tem a menor importância, porque esta da certidão também não
00:54é a morta.
00:54E nós temos aqui um papel com o tipo sanguíneo da Inês.
01:00É só isso. Tudo certo? Ótimo. Sem certeza.
01:03Sem certeza mesmo que ninguém mais vai examinar este corpo depois de você?
01:06Claro.
01:07Pode ficar tranquilo. Ótimo.
01:10Ótimo. É assim que eu gosto.
01:12E aqui está o que lhe foi prometido.
01:18Bom plantão, hein?
01:21Obrigado.
01:31Eu não aguento viver mais um segundo de minha vida com essa dúvida.
01:34Eu tenho que ter certeza. Eu tenho que saber se esse corpo ocupa o corpo da Inês.
01:39Eu tenho que ter certeza.
01:41Amém.
02:12Amém.
02:45Amém.
02:46É ela, Furnato.
02:49Não tenho mais nenhuma dúvida.
02:53É a minha Inês, Furnato.
03:09Eu não acredito porque nem em filme de suspense a gente vê uma história dessa.
03:13Mas eu não estou entendendo essa surpresa de vocês.
03:16Estava tudo tão claro, meu Deus.
03:18As duas estavam mancomunadas desde o princípio.
03:20Eu falei, eu avisei, eu tentei abrir os olhos do papai.
03:23Eu não acredito.
03:25A história do acidente de carro.
03:27A falsa amnésia.
03:29O modo como ele foi obrigado a introduzir aquela estranha dentro da casa dele,
03:33no nosso condomínio, no meio da nossa família.
03:38Mas num momento desses, eu dava tudo pra ver.
03:42Cala a boca, Maria Regina.
03:44Não é possível que você está se vangloriando da desgraça do meu pai.
03:47Espera aí.
03:48Afinal de contas, o que foi que elas levaram?
03:51O que ele tirou aqui da memorial.
03:52Dinheiro nosso, que ele desviava pro próprio bolso.
03:55Tentou dar o golpe na gente, saiu e foi tosqueado.
03:59Não é possível.
04:01Por mais que isso seja verdade, ela não pode estar falando assim.
04:04Maria Antônia, eu sou o pai.
04:05Espera um pouquinho, espera um pouquinho.
04:06Maria Regina, pra onde elas foram?
04:09Desapareceram, mamãe.
04:10Sumiram sem deixar vestígio.
04:12Eu mesma fui me certificar disso.
04:14Eu estive lá no escritório da advogadazinha, conversando com um colega dela, outra dessas criaturas cordijão.
04:20E acreditem, o coitado estava a paz, amor.
04:23Ele não queria acreditar que a amiga fosse uma golpista.
04:26O advogadozinho estava chocado também.
04:29Ai, coitado do pai.
04:31Pois eu não tenho a menor pena dele.
04:33Quis fazer o papel de otário.
04:35Agora a raposa dos negócios, o imperador do mármore...
04:39Será como veio ao mundo lá em Pernambuco.
04:41Nunca amandou.
04:43Pois eu não posso acreditar, Regina.
04:45Como você é do mal, a gente está falando do nosso pai.
04:48Sabe que eu tenho senso de amor?
04:49Mas que senso de amor é esse, meu Deus?
04:51Me diz, parece uma hiena louca e rindo da desgraça do meu pai.
04:55O seu papai só achou o que estava procurando.
04:58Ninguém mandou casar com uma vagabunda.
04:59Na testa dela piscava um letreiro.
05:01Loupista.
05:02Loupista.
05:04Só não vi quem não queria, não é, mamãe?
05:06Até vocês viram, na verdade.
05:09Olha aqui, Maria Regina.
05:11É verdade, sim.
05:12Eu acho que todos aqui sabiam que a Inês era uma...
05:16Era uma dissimulada, uma fingida.
05:19Mas só tem uma coisa, minha filha.
05:20A menos que você esteja totalmente descompensada,
05:23não vejo razão para você estar gargalhando,
05:25porque essa história não tem a menor graça.
05:28Regina, você é nojenta.
05:30Você é capaz dos sentimentos mais baixos de um ser humano.
05:33Você me choca.
05:34Pera aí, garota.
05:35É a segunda vez nos últimos dias que você parte para cima de mim
05:38com esse palavreado.
05:40Tudo bem que você é mais nova,
05:41os seus miolos ainda não devem ser bem formados.
05:43Por que tanto veneno dentro de você?
05:46Eu chego a ter pena de você, Regina.
05:51Pena porque você deve ser infeliz.
05:53É isso que você é.
05:56Pode até ser, irmãzinha.
05:58Mas não mais infeliz que o seu paizinho queria com esse maluco.
06:01Isso eu te garanto.
06:02Para.
06:03Para, Regina.
06:03Agora chega.
06:04Bicha de comédia.
06:05Não é filho de graça nisso, não.
06:07Deixa, Maria Antônia.
06:08Não é pai dela, não.
06:09Ela é filha de chocadela.
06:10Você não tem pai.
06:11Márcia, que é isso, Márcia.
06:13Olha que eu não vou ficar aqui ouvindo as sandices dessa louca.
06:16Eu vou embora e vou dar apoio para o meu pai,
06:19porque é isso que ele merece.
06:20Vai.
06:20Vai se humilhar, vai.
06:21Agora não se esqueça, Márcia Eduarda,
06:24que por causa daquela vigarista, ele te deu as costas.
06:27Enquanto eu, não.
06:29Eu defendi o que era seu da sanha daquelas duas.
06:32Por causa disso, fui eu que apanhei na cara.
06:34Fui eu que levei uma surra de cinto.
06:37É muito fácil para você agora
06:38prestar solidariedade para o seu paizinho querido
06:41quando você está com 16% da Marmoria Algarida.
06:43Pois eu vou pegar esses 16% e colocar à disposição do meu pai, tá?
06:49Você me deu uma excelente ideia, Regina.
06:51E eu tenho certeza que em dois tempos
06:54a parte dele vai ser muito maior que a sua.
06:59Vai!
07:01Calma, porra!
07:04Irresponsável!
07:08Vai.
07:10Depois cresce para ver se entende a vida.
07:12Chega, Regina.
07:13Mas que inferno isso, meu Deus!
07:15Ah, não, mamãe.
07:16Você não vai ter a cara de pau
07:18de me dizer que ficou triste com isso tudo.
07:19Não.
07:20Não vou.
07:22Eu não vou dizer para você que eu esteja surpresa, minha filha.
07:25Porque eu não estou surpresa.
07:27Eu sabia que alguma coisa ia acontecer.
07:29Eu sabia que a Inês ia tirar o dinheiro do seu pai.
07:31Mas...
07:32Mas não dessa maneira.
07:33Chegar a bepenar o Valdomiro, não.
07:36Achava que ia ser de outro jeito.
07:38Agora eu vou lhe fazer uma pergunta.
07:41Você acha que ele merece passar por isso?
07:45Não, minha filha.
07:47Ninguém merece passar por uma vergonha dessas.
07:50Nem o seu pai, apesar de tudo que ele me fez.
07:53Portanto, a melhor coisa a fazer agora
07:55é o que disse a Márcia.
07:56Vamos esquecer a briga do passado
07:57e vamos prestar apoio ao seu pai.
08:01Pois não contem comigo para isso.
08:03Eu quero mais o que o papai se dane.
08:10Não é, minha filha.
08:12A minha, Maria Regina, não é.
08:13Eu amamentei essa menina.
08:15A Maria Regina sempre foi uma criança meiga.
08:18Meu Deus, o que aconteceu, Figueira?
08:21É, Dona Leonor.
08:22Eu que convivo com ela todos os dias.
08:24Eu posso lhe dizer que ela mudou.
08:25Mudou bastante.
08:27Ela anda descontrolada.
08:30Amarga, ressentida com Deus e o mundo.
08:32Ela não é a mesma pessoa que eu conheci e que eu me casei.
08:34Ela mudou.
08:37Todos nós mudamos, Figueira.
08:40Especialmente o seu Valdomiro.
08:44Tá bom.
08:45Mas aqui nessa família eu só sou cunhado
08:47e eu não tenho direito de criticar ninguém.
08:49Nem mesmo a Regina.
08:53O que você acha, meu Cristal?
08:55Não sei.
08:58Você tem alguma coisa em mente, mãe?
09:00Olha.
09:02Eu acho que tudo que o Valdomiro precisa agora é do apoio da família.
09:08Será que o seu Valdomiro vai aceitar os 16% da Márcia?
09:12Sim, porque para uma raposa feupuda feito ele, 16%?
09:17Até que é um belo cacife, hein?
09:19E se ele quiser voltar a batalhar pela presidência, hein, Figueira?
09:24Será?
09:26Será?
09:29O que eu vim aqui foi para lhe dar o meu apoio.
09:34Aquilo que eu perdi, minha filha, ninguém pode me devolver.
09:37Não.
09:38A gente pode recuperar o que o senhor perdeu.
09:40A gente pode ir atrás da Inês também.
09:42A Inês morreu, Márcia.
09:44O quê, pai?
09:45Não.
09:46Não disseram ainda.
09:49A Inês está morta, Márcia.
09:51Ela foi assassinada.
09:53Eu podia impedir.
09:55Ela tentou me avisar aqui mesmo neste quarto.
10:00E agora...
10:01Meu Deus do céu, o que eu sou?
10:04Eu já não sei mais.
10:06Eu...
10:06Eu me esqueci de...
10:12...eu vou aguentar tanto Deus!
10:15Marcia...
10:46Mas então...
10:48Então nós estávamos enganados, não?
10:54Meu Deus, coitada dessa moça.
10:57Coitado do Valdomiro.
11:00Coitado mesmo, viu, mãe?
11:03Se você visse o estado que ele estava naquele hotel.
11:09Ele até me pediu para ir no enterro.
11:13Márcia.
11:15Quando vai ser isso?
11:17Amanhã.
11:22Para de rir, Regina. É a morte de um ser humano, poxa.
11:26Mas você consegue conceber um final mais delicioso para essa história?
11:31Regina, essa moça foi assassinada por um bando de marginais.
11:34Isso podia ter acontecido com um dos nossos filhos.
11:36Será que você não percebe isso?
11:38Que agora ficou claro que o desaparecimento do Rafa tem tudo a ver com essa história.
11:43Você não lembra que o tal sujeito mandou lembranças para o teu pai?
11:47Pois é.
11:48Eles queriam que o seu Valdomiro saísse de perto da pobre coitada.
11:52Só isso.
11:52Uma vez eu disse para o meu pai...
11:55O último rei que tentou fazer a família engolir uma Inês...
11:59Só conseguiu fazer isso depois dela morta.
12:03Será que o seu Valdomiro vai nos obrigar a beijar a mão da defunta também?
12:08Agora é tarde, papai.
12:10Inês é morta.
12:14Você só pode ser doente mesmo, Maria Regina.
12:17Para ficar alegre com a morte de um ser humano hoje.
12:22Eu não estou...
12:23Alegre, Figueira.
12:27Estou feliz.
12:29Bom, pelo menos agora resta um consolo para o meu pai, né?
12:33Antes, do jeito que a coisa estava...
12:35Ele tinha sido enganado pela Inês...
12:37Roubado pela própria mulher.
12:39Agora, pelo menos ele sabe que ela também foi vítima desse golpe.
12:43Ela morreu.
12:44É muito triste, mas...
12:46Sei lá, pelo menos traído ele não foi, né?
12:49Será mesmo que não?
12:51O que é isso, Ivan?
12:52A Inês morreu.
12:53Eu acho que isso elimina qualquer suspeita que a gente pudesse ter com relação a ela, né?
12:58Sei lá.
12:59Você já ouviu falar de queima de arquivo?
13:02Bom, Ivan, de que que adianta ficar especulando agora, não diz?
13:06Vai trazer a Inês de volta?
13:07Ou o dinheiro?
13:09Não vai.
13:11Amanhã ela vai ser enterrada.
13:12Eu acho que a melhor coisa é enterrar junto com ela toda essa história horrorosa, viu?
13:17E se a Regina não resolver ficar a explicação do meu pai...
13:22Ele vai acabar superando tudo isso.
14:12Por que o caixão estava fechado no velório, pai?
14:16A Inês ficou com o rosto muito ferido, filha.
14:19O Rodomiro preferiu que a gente guardasse memória dela bonita, viva.
14:26Geninha, que data que eles vão colocar na lápide da Inês?
14:30A gente não sabe quando foi que ela nasceu.
14:34Ah, meu Deus.
14:50Então, por que que você me deixou?
14:59Por que que você não volta, Inês?
15:05Devolve a minha vida, Inês.
15:10Devolve o amor.
15:11Oh, foi que você me deixou?
15:19Não vai?
15:22Amém.
15:50Amém.
16:21Amém.
17:01Amém.
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