00:00Quem tá falando aqui sou eu, Dudu MC.
00:06Eu cresci numa família muito grande.
00:08Eu morava num quintal, né?
00:10Eu, as minhas tias logo ao lado, no barraco ao lado,
00:14meu tio morando num porão da casa da minha avó.
00:17Aí era isso, era um barraco de madeira assim no quintal
00:20e a casa da minha avó construída assim.
00:30Cara, todo mundo muito aficionado por futebol.
00:33Meu pai jogava bola, meu irmão jogava bola,
00:35minha mãe foi de bola, meu avô era goleiro.
00:37E eu vim ali meio que da linhada estranha, né?
00:40Horrível jogando bola.
00:42Sempre fui apaixonado em skate.
00:43E eu conheci o rap através do skate.
00:46E na Praça dos Namorados e no Tancredão
00:49foram as primeiras vezes que eu vi uma batalha de rima
00:52acontecendo na minha frente, de verdade.
00:53Esse cara me dá nojo.
00:55Você não é bom na improvisada voltar a vender miolho.
00:59Eu lembro que eles estavam discutindo sobre história, mano.
01:01E eu tinha, sei lá, eu era uma criança,
01:03devia ter pros meus nove ali, dez anos.
01:05Foi a primeira vez que eu vi.
01:07E isso foi muito chocante, né?
01:08Porque os caras estavam rimando e falando sobre, sei lá,
01:11deuses gregos ou qualquer coisa assim.
01:13Eu fiquei tipo, mano, que loucura, mano.
01:15Eu me identifico com isso que eles estão falando.
01:17E não só isso, mas a afirmação de estilo,
01:20todo mundo, todos eles com a roupa larga,
01:22todo mundo com o próprio cabelo.
01:23E com estilo que na época ainda não era uma tendência.
01:25E esse boné te faz correr igual o touro?
01:28Eu vou garimpar o seu lixo, mas acho ouro dos toros.
01:31Pois o que é valioso pra ti, pra mim, não é nada.
01:34E é por isso que agora eu te acabo nessa levada.
01:37Você vê pessoas assumindo a própria raiz, assim,
01:39não só como negros, mas como periferia, tá ligado?
01:43Reafirmando essa cultura.
01:44Então eu quero saber quem são essas pessoas,
01:46o que é que eles estão falando,
01:47como é que faz pra eu botar meu nome nessa parada.
01:49Um dia eu fiquei sabendo que ia acontecer uma batalha
01:53no meu bairro, no Itararé.
01:55E foi na Praça do Itararé, no Projeto Boca a Boca.
01:58Eu me preparei a semana toda pra chegar naquele lugar, mano.
02:01Eu lembro que eu fiquei com aquilo tudo na semana.
02:03Aí teve um dia que eu desci com a minha camisa do super-homem,
02:06bermuda da escola ainda.
02:08Eu tinha acabado de sair da escola, já passei em casa,
02:10peguei meu skate e tava descendo pra pracinha.
02:12Aí minha tia me viu e falou,
02:13eu tô indo pra onde essa hora?
02:15Eu tô indo fazer um show, tio.
02:16Eu tô indo fazer um show, vai ser meu primeiro show.
02:19E vai ser lá na pracinha, aparece lá pra viver.
02:32Eu lembro que quando minha mãe foi saber que eu tava rimando,
02:36eu já tava na semifinal, sei lá.
02:39Tava sozinho, tinha colocado meu nome, tava ali batalhando.
02:42E todo mundo ficou chocado, né?
02:43Da minha família, todo mundo em volta, os amigos, porque ninguém sabia que eu fazia aquilo.
02:47E assim que eu me batalhei pela primeira vez, eu já tinha na minha cabeça.
02:51Eu falei, é isso.
02:53É isso, eu vou viver disso aqui.
02:56A minha vida, eu falo que foi um grande improviso,
02:57mas não foi tão improvisada porque o hip-hop e as pessoas que estavam ao meu entorno,
03:03os meus amigos ali, me deram uma visão muito genuína
03:07sobre como a vida ia ser difícil pra gente,
03:10como que a gente tava buscando fazer ser complicado de fato,
03:13como a gente estaria sacrificando várias coisas pra aquilo.
03:16Não digo porque o fator da música, de viver da música, seja difícil ou sei lá o que for.
03:20É porque a gente tava tentando começar um movimento num estado
03:23que não tinha um histórico grande de apoio àquilo,
03:27seja como cultura, seja como fomento econômico.
03:29Então eu, como vim da cultura de rua,
03:32eu entendia que a minha posição era diferente.
03:34Se eu quisesse acessar um outro espaço,
03:36como músico, talvez,
03:37eu teria que chegar com uma seriedade
03:39e com um planejamento que não foi feito antes.
03:42Eu teria que me levar a sério
03:43ao ponto de entender que mesmo sendo uma criança,
03:46sendo o que for,
03:47eu sou uma pessoa negra,
03:49eu vim da periferia,
03:51tudo que eu fizer vai impactar no meu futuro,
03:53mas as minhas escolhas podem impactar no futuro de mais pessoas.
04:13Quando eu fui pras músicas de estúdio,
04:17eu senti que eu tava, tipo, no meu lugar ali
04:19porque as batalhas eram tudo o que eu gostava, mano.
04:22As batalhas, eu amo as batalhas,
04:23as batalhas me deram tudo o que eu tenho,
04:25são a base da minha vida.
04:26Quando eu fui pro estúdio,
04:28eu tinha que entender que a mensagem
04:30que eu tava passando era outra,
04:32que a música, ela é uma parada
04:34que tem muito mais camadas do que a gente entende
04:37e que o rap em si é uma parada
04:39muito maior do que a gente entende.
04:48Participar do Poesia 6 foi incrível
04:50porque pra mim é como eu disse, né?
04:53A gente tava naquele momento de virada de chave do cenário, né?
04:56Foi um boom, né?
04:58No rap nacional, pra música, pra gente,
05:00foi algo muito divisor de águas.
05:02É um dos divisores de águas da minha carreira
05:04e participar disso com todos esses nomes grandes da cena
05:07foi algo incrível, né?
05:09Porque hoje você vê aí todos esses artistas
05:12tão levando a carreira pra outro nível,
05:14todo mundo indo pra televisão, atuando, fazendo de tudo.
05:27Ainda quero alcançar um nível maior dentro do Espírito Santo
05:33como artista, não digo isso em questão monetária,
05:36o que quer que seja,
05:37eu digo mais a participação no cenário cultural,
05:40quero retornar mais pro meu estado,
05:43coisas que eu tenho a fazer.
05:44E eu tenho um projeto a longo prazo, assim, na minha vida
05:48que é estar desenvolvendo cada vez mais projetos
05:51ligados à cultura, à música,
05:52aqui dentro do estado
05:53e o planejo de estar fazendo isso aí
05:55em breve, se tudo der certo, né?
05:57Quero ser artista até o dia da minha morte, mano.
05:59Quero me relacionar com a cultura
06:01até o dia que não der mais,
06:02até o dia que ela me expulsar,
06:04ou sei lá, mas...
06:05Meu sonho é esse.
06:06Meu sonho é estar tornando cada vez mais sonhos
06:08aqui no nosso território possível.
06:10Tá bom, eu vou te dizer,
06:13desiste do rap,
06:14vai lá em casa consertar minha TV.
06:19Eu não tenho nem um tropado na mão.
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