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  • há 3 meses

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00:00Bruno Dalri, editor-chefe da TV Gazeta, do G1 e do Globo Esporte.
00:05Na época da pandemia, qual era a sua função na frente da Gazeta?
00:11O que você estava fazendo e o que você estava delegando?
00:14Então, era a mesma função.
00:16Eu era responsável, como sou hoje, por cuidar do telejornalismo,
00:23ou seja, de todos os nossos programas, do Bom Dia Espírito Santo,
00:26do Gazeta Meio Dia e do Boa Noite Espírito Santo.
00:28E também do Jornal do Campo, que acabou, no meio da pandemia,
00:32sendo um espaço que teve que tratar do assunto, porque ela também afetou o meio rural.
00:39Então, eu tinha que administrar toda essa equipe, além da equipe do G1 e do Globo Esporte,
00:45que no final acabaram todos se unindo em uma grande cobertura.
00:49Então, basicamente, a minha função era coordenar essas pessoas,
00:54dar o direcionamento editorial para todos esses veículos.
00:58Nós tivemos um aumento de tempo de produção da Globo,
01:01a gente produzia menos conteúdo na época da pandemia,
01:03a gente teve que produzir mais conteúdo local,
01:06a gente abriu mais espaço para que a pandemia pudesse ser abordada nos telejornais,
01:11de maneira que as pessoas pudessem ter acesso a uma informação gratuita,
01:15produzida por jornalismo profissional,
01:17e que pudesse ajudar a população a tomar uma decisão,
01:22porque a gente vivia num momento de muita desinformação,
01:29num momento em que as pessoas precisavam da imprensa profissional,
01:33então a gente tinha esse desafio de coordenar essa cobertura editorial toda.
01:58Na televisão foi ao contrário.
02:01A gente precisou ter todas as equipes trabalhando aqui,
02:04porque a gente precisava estar com os repórteres na rua,
02:07aonde o fato acontecia.
02:09A gente não teve a opção de trabalhar em home office.
02:11Televisão é imagem.
02:13Televisão precisa de entrevistar as pessoas.
02:15Então, eu não tive como colocar ninguém da equipe em home office.
02:18Um jornal se apresenta do estúdio.
02:20Um cinegrafista tem que estar na rua fazendo uma imagem.
02:23Então, nós não tivemos nada de trabalho home office.
02:26Toda a equipe trabalhou presencialmente,
02:29porque precisava estar nos hospitais, nos postos de saúde, nos cemitérios,
02:34entrevistando agentes e autoridades públicas naquele momento.
02:38Ou seja, não teve nenhuma escala, vamos chamar assim, híbrida,
02:44que pudesse permitir que uma semana um folgasse ou na outra alguém trabalhasse.
02:49Não.
02:49A gente manteve a rotina normal da redação,
02:52que precisou adotar rigorosos protocolos de segurança
02:56para prevenir que as pessoas não pegassem a Covid.
03:00Mas a gente trabalhou totalmente presencial.
03:02Eu vinha para a redação todos os dias.
03:05Até podia fazer home office,
03:06mas eu entendi que o meu lugar era aqui.
03:11Se a equipe toda estava aqui, eu também tinha que estar aqui.
03:13Então, todo mundo trabalhou presencialmente,
03:17sem nenhuma opção de escala home office,
03:19porque a gente tinha que estar onde a notícia estava,
03:21a gente tinha que mostrar o que as pessoas sentiam,
03:23a gente tinha que relatar as dores dessas pessoas.
03:26E isso precisa ser feito logo.
03:27Isso não dá para delegar,
03:29isso não tem como você pedir imagem de participação de telespectador.
03:32É o jornalismo profissional que vai fazer essa apuração na rua precisa,
03:37que vai sentir o ambiente, que vai sentir o entrevistado.
03:41Ou seja, era um trabalho praticamente de 24 horas por dia,
03:46porque a gente precisava de equipe o tempo inteiro em todos os jornais.
03:49E para além dos jornais locais, a gente tinha o desafio de atender a rede nacional,
03:53que tinha uma cobertura totalmente tematizada para a Covid.
03:57Então, a gente tinha que contar as histórias do Espírito Santo também para o Brasil.
04:01Então, nós tivemos um trabalho complexo de ser dirigido,
04:06um trabalho que teve uma união muito forte das equipes e um comprometimento muito grande,
04:12uma preocupação enorme com a saúde das equipes e com o emocional das equipes.
04:16Isso foi muito difícil de administrar,
04:18porque a gente tinha, ao mesmo tempo que produzir um conteúdo de qualidade,
04:21entregar um jornalismo profissional,
04:23também se preocupar com essas pessoas.
04:25O desconhecido amedrontava todo mundo,
04:28as pessoas vinham com medo para o trabalho.
04:31E a gente precisava dar uma injeção de ânimo.
04:33Olha, a gente está junto, a empresa está junto com você,
04:36eu estou junto com você, o seu trabalho é importante nesse momento.
04:39O contexto histórico do que a gente está vivendo
04:42precisa ser registrado para que as gerações futuras tenham acesso a isso.
04:47Mas, ainda assim, as pessoas tinham medo.
04:48E é natural que tivessem medo.
04:50As pessoas vinham trabalhar e deixavam suas famílias em casa.
04:53Pais, mães vinham trabalhar, os filhos ficavam em casa.
04:56A pessoa tinha medo de voltar e levar a doença para dentro de casa.
04:59Então, administrar o emocional do time também foi muito difícil,
05:02porque era preciso entender a nossa missão de jornalista,
05:06mas também era completamente possível entender o drama pessoal,
05:11que cada um tinha.
05:12Cada um tinha uma história diferente,
05:14pessoas que perderam entes queridos e trabalharam com a gente.
05:17Então, todo mundo tinha a sua razão
05:20para querer se preservar naquele momento e estar em casa.
05:23E a missão de fazer jornalismo e de deixar esse registro histórico
05:27falou mais alto e a gente cumpriu a nossa missão,
05:30ainda que todos, praticamente toda a redação foi contaminada pela Covid.
05:35Em alguns momentos a gente teve uma baixa grande,
05:38em outros menos, mas, enfim,
05:40todo mundo acabou contaminado,
05:42o que também gerou um outro desafio,
05:45que era administrar as substituições,
05:47porque os programas tinham que ir para o ar,
05:49os jornais tinham que ir para o ar,
05:51e isso também gerou um estresse entre a equipe,
05:55um novo medo do fazer o novo,
05:59a forma de contar as histórias mudaram,
06:01a televisão nunca fez entrevista,
06:04ou fazia muito pouco entrevista por vídeo,
06:06isso passou a ser mais rotina,
06:08só que uma entrevista por vídeo também não traz a emoção
06:11que a televisão precisa levar para a casa das pessoas,
06:14então a gente precisava se esforçar para estar perto do povo,
06:17e aí vários mecanismos foram criados,
06:21a gente entrevistava com dois microfones,
06:23para que o repórter pudesse estar perto do entrevistado,
06:26e conseguir captar a sensibilidade naquele momento,
06:29isso é diferente de você fazer uma entrevista por vídeo,
06:32mas tinham casos que não dava para se fazer uma entrevista
06:34com a pessoa presencial,
06:36a gente entrevistou pacientes contaminados,
06:39nesse caso a gente não colocaria a nossa equipe em risco,
06:41então a entrevista teria que ser feita por vídeo,
06:43mas onde a gente pôde se adequar para tentar levar
06:47para a população o retrato mais fiel da pandemia,
06:51a gente se adequou,
06:52e o principal deles foi esse,
06:54ter a equipe na rua,
06:55onde a coisa estava acontecendo.
06:57Eu queria me responder uma pergunta para você,
07:00que você se cuidava,
07:02que faz o que,
07:03como você se delegava,
07:05essas questões,
07:06essas questões,
07:08você falou sobre o emocional,
07:10você cuidava,
07:11com a atenção com a emocional das pessoas,
07:13então eles tinham o seu guarda-feira,
07:15mas na posição que você estava,
07:18na posição que você está até hoje,
07:19você cuidava do seu emocional,
07:21tem muitas pessoas,
07:23ali,
07:24que estão ali esperando uma,
07:26por assim dizer,
07:27uma ordem sua,
07:28uma,
07:28uma,
07:30você viu a palavra aqui agora,
07:31orientação sua,
07:33para aquilo que você teve que ser feito,
07:34mas do seu lado,
07:35do seu lado pessoal,
07:36porque você também estava pensando,
07:38de trabalhar de fora de casa,
07:39de estar com a família,
07:40chegar aqui,
07:40o que for também,
07:41de alguma forma,
07:42como você lidava com isso,
07:44estando na posição que você estava naquele momento?
07:46Então,
07:47eu costumo dizer que televisão,
07:48eu não,
07:48televisão não se faz sozinho,
07:50televisão só,
07:50só é possível fazer televisão com uma equipe,
07:53então eu não fiz nada sozinho,
07:54eu tive uma equipe,
07:55que me ajudou,
07:56uma equipe que me ajuda até hoje,
07:59em que a gente conversava o tempo todo,
08:01e que as orientações,
08:02iam sendo repassadas,
08:04de maneira cascateada,
08:05então não era uma,
08:07eu não,
08:07não tinha condição,
08:09de falar com todo mundo ao mesmo tempo,
08:10então,
08:10todos os editores dos jornais,
08:12entraram,
08:13numa participação mais ativa,
08:15nesse momento,
08:17a chefia de redação,
08:18precisou ocupar,
08:19uma função também,
08:20de acolhimento muito maior,
08:22eu não fiz nada disso sozinho,
08:24eu fui parte,
08:26de um todo,
08:28que precisava de um acolhimento,
08:29então a palavra acolhimento,
08:30foi muito forte naquela época,
08:31todo mundo tinha que acolher,
08:32a chefia de redação,
08:33tinha que acolher,
08:34os editores tinham que acolher,
08:36então a gente fez isso,
08:36a várias mãos,
08:38é claro que tinha um direcionamento central,
08:41que eu passava,
08:42mas que era feito por todo mundo,
08:44eu não fiz isso sozinho,
08:45eu fiz isso com o apoio de todos os colegas,
08:49e isso só funcionou,
08:50porque todos os colegas,
08:52estavam imbuídos do mesmo propósito,
08:56não é fácil,
08:57e eu acho que não é fácil para ninguém,
08:58não foi para os meus colegas,
09:01passar por esse momento,
09:03acolher no momento,
09:04que você também precisa de acolhimento,
09:06não é fácil,
09:07mas eu sempre fui uma pessoa de muita fé,
09:09eu sempre tive muita fé,
09:11tenho muita fé,
09:12sou muito temente a Deus,
09:14então eu entrego muito a minha vida a Deus,
09:17e é assim que eu sempre fiz,
09:20desde 10, 12 anos de idade,
09:24então eu saí de casa,
09:25e entregava a minha vida a Deus naquele dia,
09:27e eu tinha certeza que eu ia voltar,
09:28porque Deus estava me protegendo,
09:30essa é a minha crença,
09:32nem todo mundo tem que ter a mesma crença,
09:34então eu me confortava muito na minha fé,
09:37eu buscava amparo na minha fé,
09:40e na minha família,
09:41que estava em casa,
09:42minha mulher estava em casa,
09:43e meus dois filhos estavam em casa,
09:44então era meu porto seguro,
09:47então eu tive um acolhimento muito grande da minha família,
09:51e tive um acolhimento interno muito grande,
09:54que foi da minha fé,
09:55e eu acho que eu tenho certeza absoluta de que eu consegui fazer isso,
09:59porque eu sou um cara de fé,
10:01porque eu acho que Deus me usou como instrumento naquele momento,
10:05a minha crença não me permite atribuir isso a qualquer outra coisa,
10:11a terapia que eu faço,
10:15a análise que eu faço,
10:17não,
10:17para mim é muito claro,
10:18naquele momento,
10:19quem me conduziu foi Deus,
10:20e quem guiou meu caminho ali foi Deus,
10:23então foi por isso que eu consegui
10:25atravessar aqueles três anos da pandemia,
10:27com sequelas,
10:28porque eu também tive a doença,
10:30mas com serenidade de poder tomar as decisões que precisavam ser tomadas,
10:35não foi fácil,
10:37ainda que você tenha fé,
10:38ainda que você tenha uma crença forte em Deus como eu tenho,
10:43você é ser humano,
10:44a gente tem as nossas vulnerabilidades,
10:46e a gente tem o medo,
10:47e o medo desconhecido é uma coisa difícil de administrar,
10:51porque a gente não sabia o que ia acontecer no dia seguinte,
10:55na hora seguinte,
10:56então eu tinha o meu medo próprio,
10:59eu tinha o medo com a equipe,
11:00a segurança era sempre em primeiro lugar,
11:02nisso a gente falava todo dia,
11:03gente, a segurança da equipe é em primeiro lugar,
11:05a segurança é em primeiro lugar,
11:06não tem notícia que vale a segurança de vocês,
11:09de ninguém,
11:10por mais importante que seja,
11:12não tem notícia que vale a segurança das equipes,
11:14só que era um fato novo a toda hora,
11:18era um fato que toda hora nos colocava à prova,
11:21vamos fazer isso,
11:22não vamos fazer isso,
11:23até que ponto podemos ir,
11:23não vamos mais entrar em posto de saúde,
11:25não vamos entrevistar mais alguém,
11:27então isso gera uma tensão interna,
11:30que durante a pandemia não acabava,
11:32era um negócio 24 horas por dia,
11:357 dias por semana,
11:36não dá para dizer assim,
11:38durante a pandemia eu parei e relaxei por 3 dias,
11:41não,
11:41durante a pandemia começou no dia 10 de março,
11:44até ela acabar,
11:47até as minhas férias,
11:48que eu tentei parar um pouquinho assim,
11:50por algum momento,
11:50eu estava conectado aqui,
11:51mas eu me desligava um pouco desse ambiente,
11:53ia para outro,
11:53mas estava trabalhando,
11:54porque eu não achava justo,
11:57eu estar de férias,
11:58num momento em que,
12:00era imprescindível a minha presença aqui,
12:03então,
12:05eu respondendo a sua pergunta,
12:06eu acho que,
12:07como eu consegui,
12:09isso,
12:10é com a minha fé,
12:11eu acho que foi,
12:13foi Deus que me guiou,
12:14assim,
12:14eu não tenho outra,
12:16não atribuo isso a mais ninguém,
12:17assim,
12:17a minha família,
12:18que me deu um amparo muito grande,
12:19e a Deus.
12:21Ainda que amparado pela sua fé,
12:23pela sua prensa,
12:24pelo seu professor de vírus,
12:25pelo seu professor de família,
12:27e claro,
12:27o apoio dos meus colegas,
12:29que também estão sendo educados,
12:32com a doença internada,
12:34e incubada,
12:35mas,
12:36antes disso acontecer,
12:37nesse meio tempo,
12:38os principais medos que eu tinha,
12:41não só em ponto profissional,
12:42quando a gente passou por uma fase,
12:43de sentido de medo,
12:45de muitas pessoas,
12:45nossa,
12:46a gente está fechando,
12:48a atenção retendo,
12:51e também pessoalmente falando,
12:53porque imagina,
12:54aqui nessa casa,
12:55se eu for,
12:55eu tenho dois filhos,
12:56mas,
12:56sua família vai além,
12:58da parede só da sua casa,
13:00então,
13:00onde estavam ali,
13:01seus pais mesmo,
13:02que encontram o Bruno Dalvi,
13:03profissional,
13:04e o Bruno Dalvi,
13:05pai de família?
13:07Então,
13:07eu não consigo dividir,
13:08o Bruno Dalvi,
13:09de profissional,
13:09e o Bruno Dalvi,
13:10de pai de família,
13:11porque eu sou um Bruno Dalvi só,
13:12então,
13:13os conflitos,
13:14os medos,
13:15as aflições,
13:15estão dentro de uma única pessoa,
13:18eu nunca tive medo,
13:22de demissão,
13:23nunca tive medo,
13:24de ter que fazer isso,
13:24com a minha equipe,
13:27não acho que a empresa,
13:28como não fez isso,
13:30faria,
13:31naquele momento,
13:33a minha única preocupação,
13:34sempre foi,
13:36que a gente conseguisse,
13:37cumprir a nossa missão,
13:39de produzir um jornalismo,
13:40de qualidade,
13:41num momento crítico,
13:42histórico,
13:42que o mundo vivia,
13:44de maneira,
13:45da que as pessoas,
13:45que produziam,
13:47esse jornalismo,
13:47tivessem condição,
13:49emocional,
13:50psicológica,
13:50técnica,
13:50de segurança,
13:51para fazer isso,
13:53essa era uma preocupação,
13:54que se transformava no medo,
13:55porque toda hora,
13:55que a equipe saia para a rua,
13:56você ficava com esse medo,
13:57poxa,
13:57será que essa equipe,
13:58vai conseguir fazer isso,
13:59vai encontrar alguém,
13:59vai pegar covid,
14:01vai,
14:02então,
14:02era um medo,
14:03mas que estava amparado,
14:04por uma preparação nossa,
14:06também,
14:06de tentar cercar,
14:08tudo que a gente podia cercar,
14:10para preservar a equipe,
14:12então,
14:12esse medo,
14:13assim,
14:14meu medo,
14:15era alguém ficar doente,
14:16meu medo,
14:16era alguém,
14:18ficar internado,
14:19em estado grave,
14:20meu medo,
14:20era os familiares,
14:21das pessoas,
14:21que trabalham com a gente,
14:23contraírem a doença,
14:24esse era meu medo,
14:25não o medo de,
14:27ah,
14:27a empresa vai demitir alguém,
14:29ah,
14:30não,
14:30acho que,
14:31emprego se arruma o outro,
14:33mas e a vida,
14:33que era naquele momento,
14:34o bem mais precioso,
14:36que se discutia,
14:36a gente não sabia o que fazer,
14:38a ciência ainda estava,
14:40desvendando uma coisa nova,
14:42então,
14:43eu sou muito humano,
14:46nesse aspecto,
14:48eu sou uma pessoa,
14:49muito humana,
14:49então,
14:50eu me preocupo muito,
14:51com cada um,
14:51e cada um,
14:52eu converso,
14:53de maneira diferente,
14:54então,
14:54eu sempre chamava um no canto,
14:55vem cá,
14:56como é que está na sua casa,
14:57vem cá,
14:57o que você está passando,
14:58você está precisando de alguma coisa,
14:59ah,
15:00vamos tentar dar uma folga,
15:01de dois dias,
15:01para fulano,
15:02vamos tentar dar uma folga,
15:03de um dia,
15:04para não sei quem,
15:05e assim,
15:05a gente ia administrando,
15:07dentro do que era possível fazer,
15:09para que as pessoas,
15:09tivessem o mínimo de conforto,
15:11mental,
15:13para conseguir trabalhar,
15:14então,
15:14acho que esse era o maior medo,
15:17o lado pessoal,
15:20eu tinha muito medo,
15:21em relação aos meus filhos,
15:23como era uma doença,
15:24muito desconhecida,
15:25e eu era o único,
15:25que saia de casa,
15:26naquele momento,
15:27minha esposa,
15:28conseguiu ficar o tempo inteiro,
15:30dentro de casa,
15:30e meus dois filhos também,
15:31porque as escolas fecharam,
15:33então,
15:33eu era a única pessoa,
15:34que saia de casa,
15:35e eu sempre saia,
15:36e voltava com aquela culpa,
15:37eu chegava em casa,
15:38arrancando sapato,
15:39botando dentro de sacola,
15:40porque ninguém sabia,
15:40como o vírus passava,
15:41no início,
15:43aí eu tirava toda a roupa,
15:43eu botava dentro de um saco de lixo,
15:45e levava para a área de serviço,
15:47para jogar dentro da máquina,
15:48e lavar minha roupa sozinha,
15:49que não podia misturar com ninguém,
15:50que eu não sabia,
15:51meu medo era passar a doença,
15:53para eles,
15:54então,
15:55todo dia era essa rotina,
15:56eu saia de casa,
15:57eu não voltava para almoçar em casa,
15:58para não ter que ficar circulando,
16:00indo e vindo,
16:01e chegava em casa,
16:02fazia todo esse ritual,
16:05sapato na porta,
16:06roupa na porta,
16:07eu ficava só de cueca,
16:08na porta de casa,
16:09do prédio,
16:10botava tudo,
16:11o negócio,
16:11e entrava rapidinho,
16:12sem nada,
16:12e ia correndo tomar banho,
16:14e aquela rotina que todo mundo fez,
16:15que é um pouco doida,
16:16é álcool em tudo,
16:18a compra do supermercado,
16:19a gente não saía,
16:20então chegava a compra em casa,
16:22passava álcool em tudo,
16:23era um negócio que ficou meio paranoico,
16:26na nossa cabeça,
16:28e a minha preocupação era essa,
16:29eu sou o único que estou saindo,
16:30eu sou o único que estou indo trabalhar,
16:32se alguém ficar doente aqui em casa,
16:34eu que trouxe o vírus para dentro de casa,
16:36então,
16:36essa era a minha preocupação,
16:38todos os dias eu saí do trabalho,
16:40nas minhas orações da manhã,
16:41o que eu pedia era essa,
16:42Senhor, me proteja,
16:43para que eu consiga proteger minha família também,
16:45até o dia que foi possível,
16:47e aí eu fui contaminado,
16:48então não consegui proteger.
16:50Eu também sei que eu queria entrar,
16:58com todos os cuidados,
17:00o óculos de gel,
17:00a cueca ali na porta da casa,
17:03a sapato da espécie da sacola,
17:04eu tenho que falar para você,
17:05ver como você falou,
17:06você era a única pessoa da sua casa,
17:07estava saindo hoje em dia,
17:09estava ali numa lente,
17:10com várias outras pessoas,
17:12circulando realmente,
17:13enquanto o vírus também circulava,
17:15o vírus que foi efetivo.
17:16Quando se veio o seu diagnóstico,
17:18quando se veio o seu diagnóstico,
17:19quando se veio o seu diagnóstico,
17:22como se veio o seu diagnóstico,
17:23para você, para a sua família,
17:25para os seus colegas,
17:26como se você foi enfrentando essa doença,
17:28até a sua ter sido o problema,
17:29até a sua vida.
17:30Então,
17:32no domingo de eleição,
17:33que é a eleição daquele ano de 2001,
17:36se não me falha a memória,
17:37acho que foi eleição,
17:37se não foi eleição,
17:40esse pedaço você corta,
17:41só para eu saber,
17:41a gente teve eleição em 2021?
17:46Então,
17:46a pandemia foi em 2020,
17:48né?
17:50Então,
17:51foi esse ano,
17:51foi em novembro,
17:53prorrogado,
17:54então foi isso.
17:56No ano que eu fiquei doente,
17:58foi o primeiro ano da pandemia,
18:002020,
18:01e por causa da pandemia,
18:02a eleição foi adiada.
18:03Então,
18:03no domingo,
18:04a gente teve a cobertura da votação,
18:06e eu vim para cá,
18:07junto da equipe,
18:09e trabalhei a noite inteira,
18:11eu saí daqui,
18:11era meia-noite.
18:12Na segunda de manhã,
18:14eu acordei com um leve resfriado,
18:16e aí já tínhamos todo um protocolo,
18:18eu não vim trabalhar,
18:19não dava para fazer a testagem da Covid ainda.
18:21Me tranquei dentro de um quarto,
18:23para já não ter contato com minha esposa e meus filhos.
18:26Aí,
18:27no terceiro dia,
18:29ou quarto,
18:30ou quinto,
18:30agora eu não vou me lembrar o dia,
18:33eu fiz a testagem.
18:34E aí,
18:35pouco tempo depois,
18:36saiu o resultado,
18:37e aí era positivo.
18:38Então,
18:38eu peguei naquela última semana,
18:40era a semana da eleição final,
18:42e só eu estava contaminado.
18:44Aí,
18:45o primeiro momento,
18:46é assim,
18:47é aquele choque,
18:47caramba,
18:48peguei a Covid.
18:49E,
18:49era no fim do ano,
18:51e eu tinha visto ao longo do ano inteiro,
18:53tudo que a gente tinha reportado.
18:55Gente morrendo,
18:56pessoas tendo falta de ar,
18:57falta de leito no hospital,
18:59e aí,
18:59passa um flash na cabeça,
19:01né?
19:01Caramba,
19:01agora eu vou passar por isso tudo.
19:03E aí,
19:04eu liguei para um médico,
19:06para o meu médico,
19:06e perguntei,
19:07você topa me atender e ficar comigo nessa jornada agora,
19:10e como é que isso vai ser?
19:11Ele falou,
19:12topo,
19:12estamos juntos.
19:13Vamos testar logo a sua esposa e seus filhos.
19:16Testaram todos contaminados também.
19:18Aí,
19:18aquilo para mim foi o primeiro baque.
19:20Eu falei,
19:20caramba,
19:20minha esposa é contaminada,
19:21e meus dois filhos também.
19:23Então,
19:24aí,
19:24acabamos a quarentena e ficamos todos os quatro lá em casa.
19:27E aí,
19:28eu passei bem.
19:30Os quatro,
19:31cinco,
19:32seis dias,
19:33eu fiquei em casa.
19:34Minha esposa teve sintomas um pouco mais leves,
19:37as crianças não tiveram sintomas.
19:40E aí,
19:43fui medicado com o que era possível naquela época,
19:46sempre muito fiel ao que dizia a ciência.
19:50O meu médico,
19:51é um médico que eu respeito muito,
19:53que eu confio muito nele.
19:54Então,
19:55não parti para nenhum tratamento mirabolante,
19:57para nenhum tratamento que não estivesse comprovado cientificamente.
20:01Condenava com veemência esse tipo de coisa.
20:04E fiz o que era possível fazer.
20:06Aí,
20:07no sexto dia,
20:07eu dormi.
20:09E como é que era a rotina?
20:10Todo dia,
20:11o meu médico me ligava.
20:12Bruno,
20:13coloca o oxímetro no dedo,
20:16me passa,
20:16como é que está o oxigênio?
20:18De manhã,
20:18de tarde,
20:19de noite.
20:20média pressão em casa,
20:22e média temperatura.
20:23E foi indo bem,
20:25nos seis primeiros dias,
20:27sem nenhuma intercorrência.
20:28Eu dormi.
20:30E no dia seguinte,
20:32eu não me lembro que dia da semana que era mais,
20:34no dia seguinte,
20:35eu não acordei,
20:36no horário que eu acordava,
20:37porque eu estava habituado a acordar.
20:39E aí,
20:39eu só fui acordar meio dia.
20:41O médico estava desesperado,
20:43porque ele ligava para o meu celular e não atendia.
20:44Ligava para o da minha esposa e não atendia.
20:46Até que ele foi achar um contato em comum comigo,
20:49e meio dia eu também estava acordando e ele me ligou.
20:52E aí,
20:52quando eu atendi o telefone,
20:53ele,
20:54Bruno,
20:54o que está acontecendo?
20:55Que eu precisava falar com você desde sete horas para a gente fazer as medições,
20:58e você não me atendeu.
20:59Aí eu falei,
21:00eu acordei só agora,
21:01estou muito mole,
21:02estou sentindo muita fraqueza,
21:03mas vou fazer as medições agora.
21:06E aí,
21:06botei o oxímetro na mão.
21:07Quando eu botei o oxímetro no dedo,
21:09estava dando 86.
21:11E naquele momento,
21:12eu já tinha noticiado,
21:14a gente já tinha noticiado que abaixo de 95,
21:16você tinha que ir para o hospital.
21:17Quando eu olhei 86,
21:18eu falei,
21:19caramba,
21:19estou na vala.
21:21Aí eu falei com ele,
21:22doutor Lauro,
21:2386.
21:24Aí ele falou,
21:24você vai para o hospital agora.
21:26Do jeito que você está em casa,
21:27você entra dentro do carro e vai para o hospital,
21:29que eu te encontro lá.
21:30Aí eu fui para o hospital.
21:32Aí,
21:32nesse momento,
21:32eu já estava com a cabeça totalmente transtornada.
21:35Dei um abraço aos meus filhos,
21:36porque eu não sabia o que ia me encontrar no hospital.
21:38Mas eu já sabia que se eu estava com 86,
21:40eu ia ser entubado.
21:42Aí cheguei no hospital,
21:44fui logo fazer uma tomografia.
21:46Aí a tomografia,
21:48para me assustar mais ainda,
21:50veio com 75% dos pulmões comprometidos.
21:53Eu tinha,
21:53ou seja,
21:5325% de pulmão não comprometido.
21:57Dali mesmo,
21:58eu tive que ir para a UTI.
21:59Ele falou,
22:00você não vai ficar aqui,
22:00não tem condição,
22:01você tem que ir para a UTI,
22:02porque você tem total indicação de ser entubado.
22:05Só que eu estava ainda com os parâmetros muito bons,
22:08apesar de estar com a oxigenação muito baixa.
22:11Então,
22:12eu não fui entubado de imediato.
22:14fui transferido para a UTI e ali fiquei.
22:17Só que eu fui debilitando muito,
22:19debilitando,
22:20debilitando muito.
22:21E aí,
22:23teve um momento que eu precisei de ser entubado,
22:26mas sempre ele me falou tudo.
22:28A única coisa que eu pedia era,
22:30não esconda nada de mim.
22:31Primeiro,
22:31porque a gente noticiou essa história
22:33quase um ano.
22:34E a gente virou quase médico.
22:36Você sabe,
22:36vê aqueles negócios tudinhos.
22:37Então,
22:38não me esconde nada.
22:38Conta sempre a verdade.
22:40E assim ele fez.
22:42Tudo ele me contava.
22:43Então,
22:43até momentos antes de eu ser entubado com a máscara,
22:46ele falou,
22:46olha,
22:47nós vamos ter que fazer isso para preservar seu pulmão.
22:49Depois da intubação,
22:50você não lembra de nada.
22:52Eu voltei quatro dias depois da intubação.
22:58e aí o que mais me machuca nessa história toda
23:03é que é um momento muito reservado que eu vivi
23:06e que eu nunca abri para a lista,
23:08que é muita amiga minha,
23:09que fez uma tese de doutorado
23:10sobre como foram os dias dos profissionais de redação,
23:14e acabei contando isso para ela.
23:16Porque isso mexe com coisas muito íntimas
23:20que ficaram marcadas na minha família.
23:23A minha filha, por exemplo,
23:25tinha na época seis anos.
23:26E ao final daquele ano,
23:28ela estava,
23:30ela tinha formatura
23:31na creche onde ela estudava.
23:34E todos os dias eu falava por celular
23:36com eles do quarto.
23:39Eles não tinham dimensão do que era,
23:41minha esposa não falou abertamente,
23:42mas eu conseguia falar com eles.
23:44E por alguns dias eu não consegui falar.
23:46Então, minha esposa foi sozinha
23:47na formatura
23:49e eu não estava.
23:51até hoje a música
23:53que ela ouviu
23:55na formatura,
23:57ela não consegue ouvir
23:58porque ela chora.
23:59Então, aquilo me marca até hoje
24:01porque eu não consegui ainda
24:03entender que aquilo foi parte
24:04de um momento
24:06e que eu superei,
24:08mas ainda eu carrego essa culpa
24:10de, poxa,
24:11eu não pude estar na formatura
24:12da minha filha
24:13e sei que ela sentiu isso.
24:15Porque no início,
24:17eu não sabia muito bem,
24:18a gente tentava colocar a música
24:19lá em casa,
24:19ela me mostrando o vídeo
24:20no DVD,
24:21a hora que entrava a música
24:22e ela chorava.
24:22Ela chorava.
24:23E aí minha esposa falava.
24:25Depois eu falava,
24:25Bruna,
24:25melhor a gente não tentar
24:26porque ela não está legal.
24:28E isso acontece até hoje.
24:30Então,
24:32você saber que você não pode
24:33ir na formatura da sua filha,
24:35aquilo me tirou do eixo, sabe?
24:38Era o que me doía mais.
24:42E o meu outro filho também,
24:43que não tinha total entendimento
24:47do que estava acontecendo,
24:50com uma apreensão muito grande,
24:52porque o pai está internado
24:53e toda hora vendo notícia,
24:54por mais que a gente
24:56preservou eles de ver televisão,
24:58ter acesso à internet,
25:00você acaba ficando sabendo
25:01de um mínimo ali de coisas
25:02que aconteceram.
25:04Então,
25:04tinha uma preocupação muito grande,
25:06toda hora ele perguntava
25:07se eu ia morrer,
25:07perguntava para a mãe
25:08se eu ia morrer.
25:10A Laura,
25:11que é a minha filha menor,
25:12também,
25:13não com essas palavras,
25:14mas a minha esposa
25:15relata que
25:16tinha esse sentimento
25:18e a própria minha esposa,
25:18que estava com Covid em casa,
25:21teve que ficar com os dois
25:23e eu no hospital.
25:25Então,
25:25tudo isso fica
25:26um sentimento de culpa
25:27muito grande,
25:27de uma ausência muito grande
25:29por uma doença
25:30que,
25:31talvez,
25:32se todo mundo tivesse
25:32se protegido
25:33como as autoridades pediam,
25:36talvez não tivesse passado
25:38para tanta gente.
25:39Então,
25:39isso é algo
25:40que me machucou
25:41e que me machuca muito.
25:43É voltar
25:44num pedaço
25:46da minha história,
25:47num retrato
25:48da minha história
25:48que eu queria
25:49que ficasse esquecido,
25:50sabe?
25:50O guardado,
25:53mesmo que ele não tenha
25:54cicatrizado 100%,
25:56é um pedacinho
25:58que eu queria guardar
26:00com...
26:01Eu não sei bem
26:02o sentimento
26:03qual seria,
26:04mas aconteceu,
26:05foi um fato,
26:07mas que não me traz
26:08boas lembranças,
26:10boas memórias,
26:11especialmente pela minha filha.
26:12Essa história da minha filha
26:13é muito marcante
26:14porque,
26:14por um pai
26:15não estar na formatura
26:16da filha,
26:17que é pequeno,
26:18que ele é muito simbólico,
26:19ainda que seja
26:19uma formatura simples,
26:20tem uma festa,
26:22tem outros pais
26:24ali presentes
26:25e ela não conseguia
26:26ver o pai dela lá.
26:28Então,
26:28quando isso foi contado
26:29para mim,
26:30aumenta a sensação
26:32de culpa,
26:32parece,
26:33poxa,
26:33será que eu não me
26:33protegi o suficiente?
26:34Será que eu não me
26:37cuidei?
26:38E a rotina do hospital
26:39também é uma rotina
26:40muito difícil.
26:42Eu acho que a
26:43Covid tem duas dores
26:45muito fortes.
26:46A primeira dor
26:47é a dor
26:48da falta de ar.
26:50Não tem nada pior
26:51do que você
26:53respirar,
26:53conseguir encher o peito
26:54e faltar ar.
26:55Essa é uma dor.
26:57E a segunda dor
26:58é a solidão,
26:59porque você fica
27:00dentro de um leito
27:01de UTI
27:01sem acesso a ninguém,
27:02só os médicos.
27:03Eu fiquei em um leito
27:03de UTI
27:04que era separado,
27:05só tinha eu lá dentro,
27:06mas eu não tinha
27:07acesso a ninguém.
27:08Então,
27:08eu acho que as duas
27:09dores maiores
27:10são até maiores
27:10do que as dores físicas.
27:12Ainda que eu tinha
27:12dor física,
27:13porque depois de internado
27:14e curado da Covid,
27:15eu ainda tive
27:16duas pneumonia.
27:19Nada,
27:20e ó que dói,
27:21que tosse dói,
27:22que tossir demais dói,
27:23que...
27:24Mas nada é pior
27:25do que a dor
27:26da solidão
27:26e a dor
27:27da falta de ar.
27:28A dor da falta
27:29de ar é...
27:30não tem...
27:31eu nunca encontrei
27:32até hoje
27:33nenhuma palavra
27:33para expressar
27:34o que que é
27:35você respirar
27:36e não conseguir
27:37encher o pulmão
27:38de ar
27:39e puxar
27:40e o ar não vir,
27:41puxar
27:42e o ar não vir
27:42e você enche o pulmão
27:44mas o ar não vem
27:45e você sente
27:45que está com falta de ar
27:46e está com fraqueza.
27:47Então,
27:48são duas dores assim,
27:49que se eu pudesse escolher
27:51eu queria sentir
27:52a dor física,
27:52seja ela qual for,
27:54porque eu não sei
27:56se existe dor maior
27:57do que a falta de ar.
28:00a falta de ar
28:01é algo assim
28:01que você não sabe
28:05será que vai até o final
28:06e se não for até o final
28:07aí eu morro sufocado?
28:08Sabe aquela sensação
28:09de eu vou morrer sufocado?
28:10Ainda que depois
28:11com suporte de oxigênio
28:12que eu fiquei por muito tempo
28:13com suporte elevado
28:15de oxigênio
28:16é muito mais tranquilo
28:17aí você vê
28:17que você consegue
28:19respirar melhor, né?
28:20Mas tudo fica...
28:23tudo ganha um outro significado
28:24quando você está na UTI.
28:27você não pode se levantar
28:28todo dia
28:29você não toma banho
28:30todo dia
28:30você não pode fazer
28:32movimentos bruscos
28:33todo dia
28:35e aí
28:35começa a fisioterapia
28:37minha fisioterapia respiratória
28:38depois durou seis meses
28:40porque
28:40meu comprometimento
28:41pulmonar foi muito grande
28:42então eu tive que fazer
28:43fisioterapia respiratória
28:44e tudo isso aconteceu
28:46sem eu ter nenhuma comorbidade
28:48eu não tenho nenhuma comorbidade
28:49eu não tomo remédio
28:50para nenhuma comorbidade
28:52e tive
28:54tudo que você pensar
28:55de agravamento
28:56que a Covid pode ter
28:56eu tive
28:59sem ter nada
29:00sem ter nenhuma comorbidade
29:01sem ter nenhum
29:02nenhum fator de risco
29:03que pudesse me levar
29:04a ter um agravamento
29:06do quadro
29:07como eu tive
29:09então você está sendo
29:10ganhando
29:11um novo
29:11estado
29:12e aí volta
29:16a minha
29:16então volta
29:17o pai
29:18do meu personal
29:19que tem falado
29:20que não tem
29:20a solidão
29:21na sua vida
29:22como que é
29:23esse retor
29:23que enxerga
29:24ele como
29:25muitas pessoas
29:26mudam essa palavra
29:27mesmo
29:27como um renascimento
29:28para você
29:29porque tem essa fase
29:30de todo esse sítio
29:31que você veio
29:32enfrentar
29:33a sua filha
29:34com o filho
29:35para a sua esposa
29:36e você volta
29:36para casa
29:37e você volta
29:38a trabalhar
29:38porque você não tem
29:40vontade nesse primeiro momento
29:41ao necessário
29:41da sua situação
29:43como que você define
29:44esse retorno?
29:48eu acho que a vida
29:49tem que ser vivida hoje
29:50com muita intensidade
29:52muita, muita, muita
29:54porque quando você está
29:55num lugar
29:56mesmo que eu não tivesse
29:57certeza que eu pudesse
29:58morrer ou não
29:59isso passa pela sua cabeça
30:00eu, na minha fé
30:01acreditava que eu não ia morrer
30:02eu tinha muita fé
30:03eu dentro da UTI
30:05eu rezava todos os dias
30:06do terço com a minha mãe
30:07com uma amiga dela
30:08que reza terço também
30:09e com o meu pai
30:10então todo dia
30:11seis horas da tarde
30:12a gente rezava o terço
30:13então eu tinha muita fé
30:14que eu não ia morrer
30:16que Deus ia me salvar
30:19e por ser muito religioso
30:23eu voltei
30:24e saí com essa visão
30:25de que a gente tem que viver
30:26o dia de hoje
30:26o passado ficou para trás
30:28e deve servir de referência
30:29o futuro a gente pode planejar
30:31até um determinado momento
30:32mas eu preciso aproveitar
30:33hoje 100%
30:34com tudo que ele tem
30:35para oferecer
30:36porque
30:37ali eu vi que a vida
30:38é por um fio
30:39e aí
30:40não é só por um fio
30:41é por um milésimo de segundo
30:43então quando você vê
30:43que a vida é um milésimo de segundo
30:45e quando você está internado
30:46você vê que você é igual
30:47a todo mundo
30:49isso eu também
30:49sempre tive muito claro
30:50a gente é igual a todo mundo
30:51todo mundo é igual
30:54mas ali está todo mundo
30:55na mesma situação
30:56então eu via pessoas
30:57do lado que morriam
30:58eu via pessoas
30:59gente nova
31:00saindo morrendo
31:01gente
31:03idosa saindo morrendo
31:05e por que eu sabia
31:06ninguém me falava
31:07mas eu via
31:08a maca fechada
31:09e toda coberta
31:09então eu tinha noção
31:10de que aquela pessoa morreu
31:12ninguém precisava me falar aquilo
31:14então você vê que a vida
31:16precisa ganhar um outro significado
31:18porque se ela não tiver
31:19um outro significado
31:20a gente só está sobrevivendo
31:21a gente não está vivendo
31:23e aí o viver hoje
31:26é tentar
31:28não recuperar esse tempo passado
31:30porque eu acho que eu não vou recuperar
31:31nunca mais
31:31mas é tentar
31:33dar aos meus filhos
31:35o que eu não pude dar
31:36naqueles
31:37naqueles 30 dias
31:38em que eu fiquei internado
31:39e depois nos
31:4030 dias que eu tive que ficar
31:42afastado do trabalho
31:43porque eu precisei ficar acamado
31:44e depois nos 6 meses
31:46fazendo
31:48a fisioterapia
31:49então eu
31:50olho para os meus filhos
31:52hoje
31:52e olho para
31:53minha esposa
31:54e sempre penso
31:55eu preciso dar
31:57para eles
31:58o melhor que eu posso
31:59porque
32:01não é uma recompensa
32:03que eu tenho que dar
32:04para eles
32:04eu não estou recompensando
32:06eles de nada
32:06mas por um momento
32:07muito importante
32:08da vida dos meus filhos
32:10que era adolescência
32:11a minha filha
32:12estava entrando
32:12para a alfabetização
32:14meu filho tinha 10 anos
32:15também estava
32:16num momento
32:16que precisava
32:17de pai e mãe
32:17em casa o tempo todo
32:18e minha esposa
32:19ainda estava doente
32:20naquele momento
32:21eu estava ausente
32:22então eram duas
32:25faces da mesma família
32:26que precisavam
32:27de ajuda
32:29e a minha esposa
32:30foi muito forte
32:31ela teve que cuidar
32:31dos meus dois filhos
32:32sozinha
32:34porque
32:35como vai colocar alguém
32:36dentro de casa
32:37expor outra pessoa
32:39e ela foi uma guerreira
32:41porque ela conseguiu doente
32:42e ela me jura até hoje
32:43que a falta de ar dela
32:45não foi tão grande
32:46e eu até hoje
32:47não sei se isso é só
32:48para me confortar
32:49por tudo que eu passei
32:51mas eu sinto
32:52que eu devo
32:52algo a eles
32:53até hoje
32:56é uma
32:59não sei dizer
33:01parece que eu devo
33:02algo
33:03eu devo algo
33:04aquele momento
33:04que eu não consegui
33:06e que eu não sei
33:07se eu vou conseguir
33:08entregar
33:10quando você fala
33:11de filho
33:12é o que mais
33:13comove
33:14então saber
33:15que a minha filha
33:16não consegue
33:17ouvir a música
33:18da formatura dela
33:19hoje
33:19porque ela chora
33:21eu penso
33:22será que um dia
33:22eu vou conseguir
33:23ressignificar isso
33:24na cabeça dela
33:25e permitir
33:26que ela ouça
33:27essa música
33:28e entenda
33:29que eu estava
33:30internado
33:30e que eu não fui
33:31porque
33:33eu não quis
33:34eu não pude
33:35então
33:36eu espero
33:37que a adulta
33:37ela tenha
33:38essa compreensão
33:39de que
33:39papai não foi
33:40porque eu estava
33:42impossibilitado
33:43hoje ela não tem
33:44essa compreensão ainda
33:45mas eu espero
33:46que ela tenha
33:46o meu filho
33:47é a mesma coisa
33:48um adolescente
33:49de 14 anos
33:50começando a entrar
33:51na adolescência
33:51também precisa
33:53de um suporte
33:53de pai e mãe
33:54e minha esposa
33:55doente também em casa
33:57então eu me pergunto
33:58até hoje
34:00o que que por ele
34:01eu tenho que fazer
34:02talvez também
34:02para ele entender
34:03que naquele momento
34:04o pai não estava presente
34:07porque não podia
34:09porque se eu pudesse
34:11eu saia do hospital
34:12cheio de fio
34:13cheio de tubo
34:14na boca
34:14cheio de
34:15para ir lá
34:16poder
34:18estar
34:18onde eu precisava
34:19estar
34:19com meus dois filhos
34:20naquele momento
34:21e com a minha esposa
34:22eu não ajudei
34:23minha esposa
34:24imagina
34:24no momento
34:25em que ela precisava
34:25cuidar de duas crianças
34:26dela mesmo
34:28e ela não teve
34:29minha ajuda
34:30e eu sou marido
34:32e eu acho
34:33que eu tinha que ajudar
34:33e eu não estava lá
34:35então
34:36é tudo
34:38é uma situação
34:39tudo muito difícil
34:39ainda de equacionar
34:41na minha cabeça
34:41sabe
34:41e aonde que eu busco
34:43conforto na fé
34:44eu acho que nada acontece
34:45na vida da gente
34:46sem que tenha
34:48a anuência de Deus
34:49então se ele
34:50se eu passei por isso
34:52é
34:55é porque alguma lição
34:56eu tive que tirar
34:57é porque minha família
34:59teve alguma lição
35:00para tirar
35:01é
35:01e porque a gente
35:03passaria por isso
35:04porque tinha que passar
35:05ninguém é melhor
35:06que ninguém
35:08é
35:08e tem algum propósito
35:10talvez eu não tenha
35:11entendido ainda
35:11esse propósito
35:12minha família não tem
35:13entendido ainda
35:14mas um dia
35:15quem sabe
35:15essa resposta aparece
35:16e talvez ela pode
35:17não aparecer também
35:18e vai estar tudo bem
35:20é
35:21é
35:22o que eu posso fazer
35:23eu não vou ser contaminado
35:24quem sou eu
35:25eu sou um ser humano
35:26como qualquer outro
35:28e mesmo que eu fique
35:29sem essa resposta
35:31está valendo
35:32valeu a pena
35:34e espero que
35:36possa
35:37conseguir ainda
35:38recuperar essa parte
35:39que eu fiquei fora
35:39dos meus filhos
35:40que é a parte que hoje
35:41mais me comode
35:42que é a parte que hoje
35:42mais me toca
35:44para quem é pai
35:48não
35:50eu
35:52não
35:58isso
35:59eu
35:59não
36:02não
36:22Não, eu sempre amei meus filhos
36:24com a maior intensidade
36:26que eu posso amar.
36:28A Covid não me fez amá-los mais
36:30porque eu acho que não tem espaço para eu amá-los
36:32e os dois como eu amo.
36:36Os meus dois filhos
36:37sempre foram, desde pequeno,
36:38sempre acompanharam a gente na igreja.
36:43Era um momento também, por exemplo,
36:44que o meu filho estava na catequese,
36:46teve que parar a catequese
36:47e não pôde fazer, depois teve que voltar.
36:51Então, todo domingo,
36:52a minha família é família de ir para a igreja,
36:54a gente vai para a igreja.
36:54Então, tem uma relação
36:57com a religião muito forte lá em casa.
36:59E isso ajuda muito
37:01na compreensão deles,
37:02de entender.
37:03E eu sempre falei
37:05que, olha,
37:06nenhum fio de cabelo
37:07cai da cabeça da gente
37:09se não for da vontade de Deus.
37:11Isso está lá na Bíblia.
37:12Então, vamos entender isso.
37:14E a relação com os meus filhos é essa.
37:16Domingo,
37:17todo mundo quer, não quer,
37:18nós vamos para a igreja.
37:19Tem horário de ir para a igreja,
37:20sagrado de ir para a igreja.
37:20A gente não começa a semana
37:21sem não ir ao domingo.
37:23E quando a gente falta
37:25à igreja do domingo,
37:26a semana não tem,
37:28eu falo sempre lá em casa,
37:29a semana não é igual
37:30porque a gente não foi à igreja.
37:31Tem que ir.
37:33No início,
37:34o adolescente não quer,
37:35não gosta,
37:36agora está entrando mais na rotina.
37:38Mas, assim,
37:39não mudou nada.
37:40Eu acho que,
37:40muito pelo contrário,
37:41nos aproximou ainda mais
37:43de um Deus
37:43que a gente já tinha
37:44dentro da gente.
37:46E nos mostrou ainda mais
37:48quão poderoso esse Deus é.
37:51Então,
37:53se ficou uma lição boa,
37:54é assim,
37:55se eu já tinha
37:56essa conexão com Deus,
37:59eu sou devoto
38:00de Nossa Senhora das Graças,
38:02se eu já tinha
38:03essa devoção com ela,
38:04só ficou mais forte o seguinte,
38:06eles estão comigo,
38:07mais do que eu acreditava
38:09que estivessem.
38:10E também protegeram a minha família,
38:12e também me protegeram.
38:13Então,
38:14eu acho que,
38:15ah,
38:15nos uniu mais?
38:16Não,
38:16a gente já era muito unido
38:17e continuou unido.
38:19Ainda que fisicamente
38:20estivéssemos separados
38:21naquele momento,
38:22a gente estava unido ali
38:23em oração,
38:24a gente estava unido
38:24em conexão,
38:25a gente estava unido
38:26em boas energias.
38:29Eu sei que meus filhos
38:30estavam ali comigo
38:31na UTI,
38:31que minha mulher
38:31estava ali comigo,
38:32e de alguma maneira
38:34eu estava com eles
38:35em casa,
38:37compensado por Deus
38:38de algum jeito,
38:39mas eu acho que
38:41tinha a minha energia lá
38:42e tinha a energia
38:43deles comigo.
38:44Então,
38:45eu acho que mudou assim,
38:47ah,
38:47você amou?
38:48Não,
38:48não amei meus filhos,
38:49mas não,
38:49eu amo eles do jeito
38:50como eles nasceram,
38:52com o maior amor
38:53que eu posso ter por eles
38:54e com o maior amor
38:55que eu posso ter pela minha esposa.
38:57Acho que isso não mudou não.
39:14falaria naquele momento
39:16ou falaria?
39:22Entendi a pergunta,
39:23desculpa,
39:24eu posso estar meio atrapalhado.
39:39Então,
39:39mas quando eu saí de casa,
39:42eu falei com eles.
39:44Quando eu saí de casa,
39:45eu falei com eles
39:45e com a minha esposa.
39:46Eu falei, olha,
39:47com as crianças
39:47eu chamei os dois
39:48e falei,
39:49papai está indo para o hospital,
39:51vocês viram aí
39:51que tem gente
39:52que tem Covid
39:52e que precisa ir para o hospital.
39:54Então,
39:55papai vai se cuidar no hospital,
39:56porque lá é o melhor lugar
39:57nesse momento.
39:58Aqui em casa
39:58não é o melhor lugar.
40:00A minha filha chorou
40:01no primeiro momento
40:02e aí eu falei,
40:04não, Laurinha,
40:05você não vai chorar.
40:06Olha o Pedrão,
40:06não está chorando.
40:07Lá é o melhor lugar
40:08que eu posso estar agora
40:09e eu vou ligar
40:10para vocês de lá
40:11e a gente vai se falar
40:13e papai vai voltar para casa.
40:15Eu vou voltar,
40:16confia que eu vou voltar.
40:17Então,
40:19daquele momento
40:19a minha esposa
40:20saiu comigo,
40:21foi para o hospital,
40:22a gente foi junto.
40:24É um outro momento
40:25muito forte também,
40:26porque o tempo inteiro
40:27ela ficou do meu lado lá,
40:28fez a tomografia do meu lado,
40:30até quando colocaram
40:32o oxigênio de suporte para mim,
40:34ela estava lá do meu lado
40:35e aí eu precisei ser transferido
40:36de um hospital para o outro,
40:39para onde eu fiquei internado,
40:40onde eu tinha vaga de UTI.
40:43E aí tem um outro momento
40:44marcante também,
40:45que foi quando ela
40:46ela me acompanhou
40:48até onde ela podia ir,
40:49que foi na porta da ambulância.
40:51Eu estava na maca,
40:52obviamente,
40:52eu não podia me mexer,
40:53já estava com o oxigênio,
40:54aquele monte de aparelho
40:55para medir tudo.
40:57E na porta da maca
40:59a gente se abraçou,
41:00se beijou,
41:01mas aquele abraço assim,
41:02será que é uma despedida?
41:04Será que não é uma despedida?
41:06E eu, na minha fé lá,
41:07não, isso não é uma despedida,
41:09nós só estamos dando um tchau
41:10e nós vamos voltar.
41:11E a minha esposa também
41:11é muito forte,
41:12muito firme,
41:13tem muita fé.
41:14Mas na hora daquele beijo,
41:15quando eu entrei na ambulância,
41:18passa aquele flash,
41:19será que acabou?
41:20Será que está chegando o meu fim?
41:23Isso passa pela cabeça,
41:25ainda mais por tudo que eu vi.
41:26Eu sou jornalista,
41:28a gente viu as notícias,
41:29eu não vivo no mundo de fantasia.
41:32Eu sabia que se eu estava sendo transferido
41:33dentro de uma ambulância
41:34com suporte ao oxigênio
41:36para uma UTI,
41:36não podia esperar uma outra UTI,
41:37era porque o negócio precisava de urgência.
41:40Então aquele momento também foi um momento forte,
41:41porque a gente se abraçou,
41:43se beijou,
41:44já estava os dois com Covid mesmo,
41:45então não tinha problema.
41:48E aquela sensação de tchau,
41:50será que volto ou não volto?
41:52E eu falei o que estava a ser falado,
41:54eu te amo,
41:55amo meus filhos,
41:56e se eu não estiver aqui mais,
41:59o que eu quero que você sempre diga para eles é isso,
42:01que eu amo meus filhos
42:02e continuarei amando onde eu estiver.
42:05E para eles foi mais brando a saída,
42:06mas depois do hospital,
42:08todos os dias eu ligava,
42:10depois que eu pude,
42:10todos os dias eu ligava para eles,
42:12todos os dias fazia chamada de vídeo,
42:14às vezes mais de uma vez por dia,
42:16sem mostrar nada para eles,
42:18de aparelho,
42:20eu estava praticamente sem roupa,
42:21sem nada,
42:22então todo cheio de aparelho para monitorar,
42:24eu só mostrava o rosto,
42:26porque aí só tinha o suporte de oxigênio,
42:28e falava com a câmera fechadinha,
42:30para eles verem também
42:30e não verem o ambiente da UTI.
42:34Mas eu,
42:35como xereta e curioso que sou,
42:37eles tiraram o monitor de monitoramento do meu lado,
42:41botaram o monitor atrás,
42:42para não ver e não gerar ansiedade.
42:44Aí eu falava,
42:45será que estão escondendo alguma coisa de mim?
42:46Aí eu pegava o celular,
42:48ligava a câmera virada para mim,
42:50botava no monitor,
42:51porque eu já sabia ler o monitor.
42:52Aí eu via quanto estava a minha pressão,
42:54quanto estava a oxigenação,
42:56quanto estava...
42:56Ainda tinha que inverter o número,
42:57porque no telefone,
42:59você está vendo o número ao contrário.
43:00Aí aparecia lá para mim,
43:023, 2, 1.
43:03Bom, aí eu sabia que era 123.
43:05Aí botava e ficava quietinho.
43:06Nunca falei isso para os médicos.
43:08Depois que eu saí do hospital,
43:09eu falei,
43:09porque senão acho que eles iam tirar o negócio lá
43:10para eu não ver.
43:12Mas eu ficava vigiando lá.
43:13Falei,
43:13vai que eles me escondem alguma coisa aqui.
43:20Ah, foi...
43:24Foi assim...
43:25Igual o parto.
43:26Igual o parto quando eles nasceram.
43:28Foi a mesma sensação.
43:29Foram os 3 que eu buscava no hospital.
43:31Eu ainda estava de cadeira de roda,
43:32eu não conseguia andar.
43:33Então eu saí.
43:34E eles também não podiam entrar no hospital.
43:35Estava minha esposa na frente,
43:37dirigindo o carro,
43:37e os dois meninos atrás.
43:39E os médicos vieram trazendo,
43:41me tirando do hospital,
43:42porque não podia entrar, né?
43:43Então eles vieram.
43:45Ele veio me empurrando na cadeira de roda
43:47até o carro.
43:47E os meninos abaixaram o vidro do carro.
43:50E eles gritavam,
43:50papai, papai, papai.
43:52E aí eu fraco ainda,
43:54mas entrei no banco de trás
43:55e fui abraçado, assim,
43:56com os dois,
43:56até chegar em casa.
43:58E foi essa a sensação que eu tive,
44:00a sensação do parto,
44:01de quando eles nasceram.
44:02Foi aquela emoção
44:04de quando a criança nasce.
44:06Foi o que eu senti na hora.
44:08Eu falei, caramba,
44:08eles estão aqui comigo de novo,
44:10eles estão...
44:10Parecia que eles que estavam renascendo,
44:12e não eu.
44:13A minha emoção era de encontrá-los,
44:15de abraçá-los,
44:15de beijá-los,
44:16de dizer, voltei.
44:18Magro, magro, magro.
44:19Era uma outra pessoa.
44:20Eles falaram,
44:21pai, você está muito magro.
44:22A minha mulher falou,
44:23Bruno, você me agressou demais.
44:25Mas eu estava ali.
44:26Então, para mim,
44:26foi assim,
44:28o renascimento deles, quase.
44:30Foi a sensação
44:30de que todos estavam renascendo
44:32para mim naquele momento.
44:33Não foi o meu renascimento.
44:34Foi a sensação
44:35de poder estar de volta para casa
44:38com as pessoas que eu amo
44:39e com a confiança que eu tive em Deus,
44:42que eu voltaria.
44:43E eu voltei.
44:57Ah, tem várias.
45:02Assim,
45:03quando eu estava internado,
45:06eu sentia todas as dores,
45:09a dor da solidão,
45:10como eu falei,
45:11a dor da falta de ar,
45:13a dor de todo dia.
45:14Tinha que fazer um exame,
45:16que é um exame muito dolorido,
45:17que se chama gasometria.
45:19Eles tinham que enfiar uma agulha
45:21aqui, nessa região do pulso,
45:22para pegar uma artéria,
45:24porque não podia ser na veia
45:25e não pode ser anestesiado.
45:27Então, enfia um tanto assim
45:28de agulha para dentro,
45:30isso dói,
45:31mas não é maior do que a dor
45:33da solidão
45:34e a dor da falta de ar.
45:38E eu sempre pensava assim,
45:39eu falei,
45:39gente,
45:40Jesus sofreu por nós
45:41em todas as paradas da Via Sacra.
45:44Eu não posso reclamar desse sofrimento.
45:46Ele carregou uma cruz,
45:47foi chicoteado,
45:48foi...
45:48Então,
45:50esse não...
45:51Eu não posso reclamar disso.
45:53Eu posso rezar,
45:54pedir para que me ajude a melhorar,
45:57mas se ele passou por isso,
45:59para nos livrar do pecado,
46:01por que eu aqui na maca
46:02vou reclamar de alguma coisa?
46:05Então,
46:06não é uma passagem essa,
46:07é uma história,
46:07mas tem vários momentos
46:10da Bíblia
46:11que me fazem pensar
46:12isso que eu disse agora.
46:14Nenhum fio de cabelo
46:15cai da nossa cabeça
46:16se não for da vontade do Senhor.
46:19Essa é uma passagem bíblica.
46:22A outra,
46:23que me apegava muito
46:24nas orações,
46:27é onde um ou mais
46:27estiverem reunidos em meu nome
46:29e eu ali estava.
46:30Então,
46:30eu fazia questão
46:30de ter minha mãe,
46:31meu pai,
46:33mais uma amiga deles
46:34para rezar o terço de todo dia,
46:35porque eu acreditava
46:37que se meus pais
46:39e nós estivéssemos reunidos
46:40em nome de Jesus,
46:42ele ali com a gente estaria.
46:43Então,
46:43tem um monte de passagem,
46:45tem um monte de passagem,
46:46especialmente a da fé,
46:47que se você acredita,
46:49se você tem fé,
46:52as coisas podem acontecer.
46:55E eu sempre entregava também
46:56muito a minha vida a Deus.
46:58Que seja,
46:59eu nunca pedia assim,
47:01ah, eu queria melhorar,
47:02eu queria sair do hospital.
47:03Meu pedido era
47:04que seja feita
47:05a sua vontade,
47:06como diz a oração
47:07do Pai Nosso.
47:09Então,
47:09eu sempre pedia,
47:11seja feita
47:11a vossa vontade,
47:12assim na terra
47:13como no céu.
47:14Eu estava na terra
47:15naquele momento.
47:16Então,
47:16se eu estava ali,
47:18eu acredito que estava
47:20sendo feita
47:20a vontade dele,
47:21por alguma razão
47:22que talvez eu nunca descubra
47:24e talvez eu descubra.
47:25Mas,
47:25então,
47:26esse é um outro ponto.
47:27Então,
47:28tiveram várias passagens bíblicas,
47:29assim,
47:29que naquele momento
47:31me confortavam
47:31e faziam
47:33eu reforçar a minha fé,
47:35né?
47:35Faziam eu entender
47:37que,
47:37poxa,
47:38tanta coisa aconteceu,
47:39tanta coisa aconteceu
47:40há dois mil e tantos anos atrás,
47:42quando Jesus
47:44esteve
47:45entre nós,
47:46nesse mundo,
47:47que servem de lição
47:48para mim,
47:49nesse momento.
47:50então,
47:51eu buscava mais ou menos
47:52essas referências
47:53para entender
47:54que se aquilo estava
47:55acontecendo comigo,
47:57era porque tinha que ser comigo
47:58e eu não podia ficar reclamando,
48:00só reclamando,
48:01reclamando,
48:01reclamando.
48:02Eu reclamei muito pouco,
48:04e eu acabei de reclamar,
48:05um sou meio chato,
48:06mas ali eu não reclamava,
48:09não tinha esse direito
48:10de reclamar.
48:11Tinha pessoas em condições
48:12muito piores,
48:13tinha pessoas que
48:14morreram,
48:16ainda que eu acredita
48:16que morrer
48:18seja só uma passagem,
48:20porque eu acredito
48:21na vida eterna,
48:23mas tiveram pessoas
48:24que não conseguiram
48:25atendimento,
48:26a gente via no mundo inteiro
48:27pessoas morrendo,
48:28via no mundo inteiro
48:28pessoas que não conseguiam
48:29oxigênio,
48:31a gente via
48:32as autoridades
48:33zombando
48:34de um momento
48:35tão difícil
48:37e para quem sentiu
48:39falta de ar,
48:40alguém zombar com isso,
48:41dói, dói,
48:42dói muito.
48:44O desprezo
48:45das autoridades públicas
48:46e de alguns médicos
48:48machuca,
48:49porque até
48:51a pandemia
48:52a gente confiava
48:53cegamente na medicina,
48:55ninguém questionou
48:55vacina nesse país nunca,
48:57a gente foi referência
48:58no mundo
48:58em vacinação
49:00e aí na pandemia
49:01todo mundo ficou
49:01especialista em vacina,
49:03todo mundo ficou
49:03especialista em remédio,
49:05isso foi de uma
49:06ignorância gigantesca
49:08da nossa sociedade,
49:09de parte da nossa sociedade
49:10e para quem sofreu
49:12na pele,
49:13isso machuca também,
49:14não é só a doença
49:15que machuca,
49:16machuca o desleixo,
49:17machuca a ignorância,
49:19machuca o deboche,
49:21tudo isso machuca também,
49:23então,
49:24além de tudo isso,
49:25ter que lidar
49:26com essa parcela
49:27da população
49:28que acreditava
49:29que a Covid
49:30era uma coisa inventada
49:31pela imprensa,
49:32era uma coisa inventada
49:33por alguém,
49:34era uma coisa inventada
49:35pela China,
49:36era uma coisa,
49:36é de uma ignorância
49:38que eu não consigo conceber,
49:39assim,
49:39é uma falta de desumanidade
49:40que eu acredito
49:43muito na humanidade,
49:44mas naquele momento
49:45me passava pela cabeça
49:46que a humanidade
49:47estava evoluindo,
49:48alguma parcela
49:49da humanidade
49:50estava evoluindo,
49:51porque não era possível
49:52acreditar no que a gente via,
49:54não só aqui no Brasil
49:55de descrédito,
49:57de desinformação,
49:58de pessoas que tinham
50:01que naquele momento
50:02estar apoiando
50:03o que era possível fazer,
50:05e não debochando,
50:06ironizando,
50:07menosprezando,
50:08quem estava sentindo
50:09daquela dor.
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