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  • há 5 semanas
Neste episódio, autônoma conta por que decidiu pela doação de órgãos, transformando a dor da perda do irmão em solidariedade. Entenda como é a abordagem nos hospitais

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Transcrição
00:05Bem-vindos ao segundo episódio do Estúdio Cast Especial Setembro Verde.
00:10Meu nome é Mariana Perini e estamos aqui hoje para falar sobre a importância da doação de órgãos e tecidos.
00:17A campanha Setembro Verde é uma mobilização nacional que tem o objetivo de conscientizar a população
00:25sobre a importância desse gesto que pode salvar muitas vidas.
00:30Para mostrar que essa realidade está mais próxima do que a gente imagina,
00:34eu tenho aqui ao meu lado hoje duas convidadas muito especiais.
00:38A Luísa de Azevedo Garcia, que é psicóloga da CIDOT, do Hospital Estadual Dr. Jaime Santos Neves.
00:46É um prazer, Luísa.
00:48Igualmente. Muito bom estar aqui com vocês hoje.
00:51Obrigada. Também tenho aqui a Aline Catiúcia Barros de Oliveira, que é profissional autônoma.
00:57É um prazer, Aline, receber você aqui.
00:58É um prazer mesmo estar aqui.
01:00Gente, eu acho que a gente já pode começar.
01:04A ideia aqui hoje é contar como a história das duas se cruzaram e o resultado desse encontro.
01:11Eu quero começar com a Luísa, pedindo para que você explique, Luísa, o que é a CIDOT.
01:18A gente explicou no último episódio, muito bem explicado, inclusive, mas quem está assistindo a gente hoje ou ouvindo, pode
01:26ser que não tenha acompanhado o primeiro episódio.
01:28Então, se você puder explicar de uma maneira objetiva, como que é esse trabalho, do qual você faz parte.
01:35A CIDOT, basicamente, ela é uma comissão intra-hospitalar para poder orientar e acompanhar esses processos de doação de órgãos
01:46e tecidos no ambiente hospitalar.
01:48Então, nós somos profissionais de muitas especialidades.
01:52Tem psicólogo, enfermeiro, médicos e a gente se organiza mesmo para ir acompanhando potenciais doadores, pacientes que se enquadram como
02:02possíveis futuros doadores de múltiplos órgãos ou de córneas, de tecidos.
02:08E a gente vai, né, mobilizando também as equipes, né, a gente vai instruindo as equipes até para fazer esse
02:16processo, né, tanto o processo de abordagem, o processo de manter esse paciente, muitas vezes, e também, né, o processo
02:26de captação que é a nossa finalidade.
02:29De captação dos órgãos e tecidos, né.
02:31Agora, eu queria perguntar para a Aline. Aline, queria que você contasse a sua história, né, resumidamente, é claro, né,
02:40eu sei que você é baiana e está aqui no estado tem um tempo.
02:44Eu queria que você contasse essa sua história até o momento em que você encontra a Luísa.
02:51Bom, há um ano atrás, meu irmão caiu da escada, né, e deu a entrada no Jaime.
03:00Aí, ele ficou no Jaime de quarta-feira até o sábado.
03:06Quando foi no sábado, que eu fui para a visita, que eu, a partir do momento que eu entrei no
03:12quarto, a Luísa já estava, né, aí pediu para me direcionar a uma sala especializada.
03:21Aí, veio os médicos, tudo.
03:24Naquele momento, eu já estava desesperada, né, porque todo mundo entrou para a visita e menos eu.
03:33Aí, veio os médicos e perguntaram, né, a Luísa conversou comigo sobre a doação de órgãos.
03:39Eu não quis nem escutar, já fiz, ó, pode doar, pode doar, pode pegar.
03:43Aí, meu namorado falou, não, vamos conversar com sua mãe primeiro, porque ela tem que saber, né.
03:49Aí, aí, cheguei em casa, eu sentei minha mãe e falei com ela, né, mãe, se acontecer alguma coisa com
03:55meu irmão, a senhora doaria os órgãos?
03:58Ela disse, eu já sabia, Aline, pode doar.
04:02Porque eu sei que o pedacinho dele vai estar em alguém, né, meu filho ainda vai estar vivo em alguém.
04:07Agora, é, você falou dessa rapidez de decisão, né, a gente pensa muito na vida, mas a gente não pensa
04:17na morte, a gente não discute sobre ela, né.
04:20Alguma vez, em algum momento, na sua casa, vocês conversaram sobre isso?
04:26Sobre doar, quem gostaria de ser doador?
04:29Vocês falaram sobre esse tema?
04:31Não, a gente nunca conversou sobre isso, não.
04:35Mas, o que veio na minha mente é que eu tinha perdido uma tia, né, dois meses antes, à espera
04:40de um rins, uma doação de rins.
04:44Então, veio isso na minha mente, então, eu, imediatamente, eu falei, pode doar os órgãos.
04:50Uma decisão rápida, difícil, mas muito rápida, né?
04:53Foi difícil, muito difícil.
04:54E sua mãe concordou no mesmo momento?
04:57Também.
04:59Eu queria dar um passinho atrás, assim, seu irmão morava com vocês, não morava, como que foi esse momento do
05:08acidente?
05:09Vocês estavam juntas?
05:11Meu irmão morava no mesmo prédio que a gente, né, a janela da casa dele dava de porta com a
05:18casa da gente.
05:19Ele tinha chegado da rua e minha mãe tentou colocar ele pra dormir.
05:25Ele, por teimosia, minha mãe disse, pediu pra ele dormir, né, ele se fez que tava dormindo, por teimosia.
05:32A partir do momento que a mãe saiu da casa dele, foi em casa tomar um remédio, ele tentou sair
05:37escondido.
05:39Aí, nessa hora, ele caiu da escada.
05:41Aí, a gente não sabe se ele escorregou, como foi.
05:46Aí, quando minha mãe saiu pro lado de fora, eu vi o filho dela caído de escada abaixo do portão.
05:53É, imagino.
05:54Ah, qual a idade dele?
05:55Ele tinha 46 anos.
05:57Tinha filhos?
05:58Não.
06:01É, Luísa, tudo isso acontecendo na vida da Aline, né?
06:06É, esse turbilhão, né, essa surpresa, né, essa dor que é uma mãe assistir, né, a isso.
06:13E, de repente, ela, tudo isso acontece e, de repente, acontece o encontro de vocês, né?
06:21Ela tá ali na sua frente e você tem que fazer o seu trabalho, né?
06:26Que é essa abordagem, talvez, no momento mais delicado da vida de uma pessoa, né?
06:33Da vida dela, da vida da família, né?
06:37Como foi fazer uma abordagem, essa abordagem?
06:40Como é, no dia a dia, fazer uma abordagem como essa, né?
06:46Tão delicada?
06:47Acho que se eu disser que é fácil, eu vou estar mentindo.
06:51Acho que a gente nunca realmente se acostuma, assim, com esse tipo de situação, né?
06:55Apesar de nós, né, trabalharmos diariamente com casos específicos como esse, né?
07:05Acho que a gente naturalizar isso é uma grande mentira, assim.
07:10Então, parte do meu trabalho, diariamente, é acompanhar a notificação de óbito, né?
07:16Então, é recorrente que a gente acompanhe isso.
07:19A abordagem, ela é mais esparçada, assim, esse tipo de demanda.
07:24E, especificamente do Alex, né?
07:27Foi a primeira abordagem que eu fiz, de fato, né?
07:31Na época, eu era plantonista, então, eu estava sozinha.
07:34A gente não tinha acidote no dia, né?
07:37Que, geralmente, quem faz esse tipo de abordagem é a enfermeira da acidote.
07:41E estava eu e a enfermeira do setor ali.
07:44O médico deu a notícia e a gente tinha que abordar, né?
07:49É um protocolo.
07:51Fácil, então, nunca vai ser, né?
07:53Mas eu acho que é...
07:54Seu caso, então, foi a primeira vez?
07:56Foi a primeira vez que eu fiz a abordagem, assim, né?
07:58Estava eu e a enfermeira, ela insegura.
08:02E aí, vamos, vamos.
08:04Vamos lá, né?
08:05Então, a gente também tem essa sensação, né?
08:08De que a gente tem que fazer isso, né?
08:11E acho que é trazer uma sensibilidade, assim.
08:15Nós, enquanto profissionais de saúde, né?
08:17A gente tem que trazer essa sensibilidade porque a família está ali num momento enlutada.
08:22Ela acabou de receber a notícia de que aquele familiar, de fato, faleceu.
08:27Porque o processo, né?
08:28Do protocolo, às vezes, ele leva dois, né?
08:31Pode levar até menos, mas dois, três dias, né?
08:34E a família fica naquela expectativa para saber a resposta, né?
08:37Fechou ou não fechou?
08:39Ah, fez o teste.
08:40Ah, não passou, né?
08:41Porque tem todo o teste de apneia, tem os exames clínicos, né?
08:45Então, são algumas fases.
08:46E, eventualmente, tem alguma, né?
08:49Discordância nisso.
08:50Então, o processo tem que ser refeito.
08:53Então, assim, é um momento de angústia para eles, né?
08:56Tem uma ansiedade ali que é inevitável.
09:01Então, trazer essa sensibilidade para aquele momento de escutar, né?
09:05Quais estão sendo as demandas.
09:06No caso da Aline, né?
09:07Foi algo bem, bem novo.
09:10Porque ela falou assim, eu quero falar com minha mãe, né?
09:13E a gente, tudo bem, né?
09:14Pode conversar com sua mãe.
09:17E aí, depois, ela retornou com o aceite dela, né?
09:20Então, assim, acho que é respeitar também essa necessidade que eles estavam tendo naquele momento, né?
09:25No momento que eles estão fragilizados.
09:28E o que a gente puder possibilitar, né?
09:31Para tornar aquele momento um pouco mais fluido e tolerável para eles, né?
09:36Depois, a gente até, quando a Aline retornou e assinou todos os papéis, a gente possibilita essa visita.
09:43Então, eu acompanhei ela na visita ao leito, né?
09:47Beira-leito, que ela pode realmente ser despedida do familiar dela, né?
09:51Então, acho que até aquele momento, incentivar que ela converse, né?
09:56Que ela interaja com ele, porque ele está ali, né?
10:00Ou seja, qualquer deslize, qualquer palavra, né?
10:06Se a família não se sentir acolhida, né?
10:10Já que ela está nesse momento de extrema fragilidade, tudo vai por água abaixo, né?
10:16Sim.
10:17E nem todo mundo é tão...
10:19Estou vendo aí a Aline emocionada.
10:21Não tem como não se emocionar, imagino, relembrando, né?
10:24Ali nessa história.
10:26Eles foram muito bem atenciosos comigo, no momento.
10:30Você se sentiu abraçada?
10:32Muito.
10:34Tem até um fato.
10:36Que depois foi bem específico, assim.
10:38Que no dia da captação, a Aline voltou para presentear eu e a Dalete,
10:42que era a enfermeira da abordagem.
10:44No dia da captação, ela foi até lá e levou um presente, pediu para chamar a gente, né?
10:50Então, assim, foi algo que nos tocou, inevitavelmente, né?
10:54Não tem como.
10:55Eu senti como se fosse família, né?
10:57Porque meu irmão foi muito bem tratado lá.
11:00Olha como isso é importante, né, Luísa?
11:03Olha como o trabalho de vocês é importante, né?
11:08Porque disso, talvez, dependa salvar outras vidas.
11:12É claro que isso não está...
11:14A responsabilidade toda não está em cima de vocês.
11:18Porque, infelizmente, muitas famílias são irredutíveis, né?
11:22Sim.
11:23Não quero ir pronto, independentemente da abordagem.
11:27Não.
11:28Mas, nada tinha sido discutido na casa dela, né?
11:33Nem esse tema, né?
11:35A gente, no Brasil, a gente não fala de vida.
11:38Em outros países, como no México, por exemplo, a morte é celebrada, né?
11:44Aqui a gente praticamente não fala de morte, que é uma certeza que todos temos, né?
11:49Sim.
11:50Todo mundo tem essa certeza de que isso vai acontecer um dia e a gente não fala sobre isso.
11:57Eu queria até te perguntar, Luísa, se você acha que essa cultura, se essa tradição do velório, né?
12:05De viver o luto, que eu acho que o luto é de cada um, né?
12:11E vai existir isso pra sempre.
12:13Não é um momento, um mês, dois meses, ou aquele momento do velório.
12:17Mas você acha que isso prejudica?
12:20Você acha que muitas famílias talvez deixem de doar porque,
12:24ah, eu quero que o corpo do meu filho, do meu ente querido, seja liberado mais rápido?
12:32Ou eu não quero que tire uma parte do corpo dessa pessoa?
12:37O que você acha disso?
12:39Dentro das nossas recusas, em geral, né?
12:43Eventualmente tem essa questão, né?
12:45De, ah, eu quero mais uma rapidez, uma celeridade pra liberação, né?
12:50Às vezes a família já tá vindo de alguns dias aguardando por essa definição
12:55e quando há, quer logo que aquilo acabe, né?
12:58E a gente tem que respeitar, é o desejo deles, né?
13:01É a maneira como eles também vão carregar isso.
13:03É angustiante também você ficar aguardando mais tempo sabendo que já teve uma finalidade dessa situação.
13:11Tem a questão de crença também, né?
13:13Com certeza, a gente tem que levar isso em consideração.
13:16Tem gente que quer o corpo íntegro, né?
13:20Dentro da simbologia pra eles, isso é muito importante, né?
13:24E também faz parte do que a gente mais frisa, né?
13:27Que a gente tem que respeitar a decisão da família, né?
13:29Ela é inquestionável.
13:32Isso, com certeza.
13:34Mas, com certeza, essas questões, elas acabam levando a uma recusa.
13:41Acho que esse ano a gente teve 15 abordagens, né?
13:45E dessas 8 foram um aceite, né?
13:48Então a gente fica ali meio que dividido.
13:52Que pena, mas é o que você falou, né?
13:54A decisão da família soberana.
13:55Inclusive, eu não sabia que mesmo a pessoa, né?
14:00Tendo se declarar doador antes, né?
14:03A Aline chegou a falar que ele colocou isso, né?
14:06Até claramente na carteira dele.
14:09Foi ele na carteira de identidade.
14:11Na carteira de identidade.
14:13Eu não sabia.
14:14Fiquei sabendo por conta desse bate-papo, desse videocast,
14:20que mesmo assim, se a família não quiser, a doação não acontece, né?
14:26Então, depende muito mesmo da...
14:29E tanto o contrário, né?
14:31Às vezes o paciente, de fato, não tinha manifestado esse desejo em vida,
14:36mas o familiar que está ali, ele é a favor e ele pode dizer sobre isso, né?
14:41Então, acho que é ainda mais importante frisar da necessidade
14:46de você comunicar abertamente para os seus familiares.
14:48Falar sobre isso, né?
14:50Eu acho que é importante a gente incentivar as pessoas a conversar sobre isso, né?
14:56Que a gente não conversa, né?
14:57Eu acho que falar sobre morte traz um simbólico
15:00que a gente tenta se afastar ao máximo possível,
15:03apesar de saber que ela é inevitável, né?
15:06Então, a gente não tem muita...
15:09Acho que muita prática, né?
15:10De falar sobre isso.
15:12Quando a gente fala até sobre cuidados paliativos, né?
15:15Hoje em dia, já é um tema muito sensível, assim, com as famílias.
15:20Falar sobre finalidade, morte, ou um caminho que leva até isso,
15:26eventualmente é complicado.
15:29É complicado.
15:30E, Aline, eu fiquei sabendo também no último videocast
15:33que uma única pessoa pode salvar oito vidas, né?
15:38E como foi com o seu irmão?
15:41Ele doou quais órgãos?
15:44Pelo que eu sei, né?
15:46Doou o coração, que foi pra São Paulo,
15:49doou os rins, as córneas, o fígado e o pulmão.
15:53Eu sei que ele salvou seis vidas.
15:56Foi isso mesmo?
15:58Agora o resto dos órgãos eu não sei.
16:00Agora só sei desses.
16:02Tem informações que nem a gente tem, assim, pra resguardar tanto o receptor, né?
16:08A gente tem que respeitar muito o sigilo dentro do ambiente hospitalar,
16:12e o ambiente da saúde.
16:13Então, assim, tem informações que nem a gente...
16:14Mas os órgãos, estando em bom estado, né?
16:17Sim.
16:18Pode, é possível realmente, né?
16:20Quando eles me deram o diagnóstico, né?
16:22Da morte cefálica do meu irmão, no domingo, eles ligaram pra mim e falaram
16:27que tinha feito todos os procedimentos, e os órgãos dele estavam todos em dias.
16:34E quando foi na segunda-feira, eu tive que voltar lá, como ela falou, né?
16:38Que fui presentear a elas, e se eu chegasse dois minutinhos antes,
16:42eu tinha visto o coração do meu irmão saindo.
16:45Na ambulância.
16:47Mas eu vi, né?
16:48Mandaram as fotos pra mim.
16:50O sonho dele era servir a aeronáutica, né?
16:55E parece que foi coisa, assim, de Deus mesmo.
16:58O coração dele foi na Força Aérea Brasileira,
17:02e a música também de Pig Floyd e Time colocaram também.
17:06Olha, que bonito!
17:08O coração do meu irmão indo pra São Paulo.
17:09Então, o coração dele voou, né?
17:12A única coisa que eu sei é que o coração foi pra São Paulo,
17:15e as córneas, os rios, foi pra alguém daqui, de Vila Velha.
17:19Você me disse que essa decisão, né, te deixa muito feliz,
17:27porque você sabe que tem um pedacinho do seu irmão aí,
17:32em cada uma dessas pessoas, né?
17:34E que você tem vontade de conhecer essas pessoas.
17:38Mas no Brasil isso não é permitido, né, Luísa?
17:41Explica um pouco pra gente isso.
17:43É justamente pra resguardar, né, o sigilo dessas pessoas que são receptoras, né?
17:49Todo ambiente hospitalar a gente responde a LGPD, né?
17:53Lei de Proteção de Dados.
17:55E parte disso, né, é resguardar a identidade dessas pessoas.
17:59Então, por isso que a gente não tem essa possibilidade.
18:04Infelizmente, né, Aline, não vai ser possível.
18:07Mas você fica imaginando aí.
18:09A música do Pink Floyd era a preferida dele?
18:13Preferida dele.
18:16Parece que foi tudo assim, montado.
18:19Como, inclusive, agora dia 25 vai ter a missa, né?
18:24Dia 25 ele iria fazer 48 anos.
18:28Olha, e essa data, essa data, né, imagino como que deva ser pra sua família, pra sua mãe.
18:36Vocês são, vocês, era só vocês dois?
18:39Só nós dois.
18:40E meus filhos, né?
18:42Só morava eu, minha mãe, meus dois filhos e meu irmão morava ao lado.
18:47Sempre pertinho, então, a família, né?
18:50A gente nunca se separou, sempre perto.
18:52Só o meu irmão, né, que veio pra cá cedo.
18:55E quando foi em 2011, eu vim pra cá.
18:58É, a coordenadora da Central de Transplantes, né, do Estado, a Maria, que esteve conversando aqui comigo,
19:06me falou uma coisa que eu acho que é muito importante, que eu acho que a gente pode levar, assim,
19:11pra vida.
19:12Como é a família que decide, mesmo que a pessoa tenha escolhido ser um doador ou uma doadora,
19:18ela falou, eu dou uma dica, uma sugestão, pra que, antes de decidir, né, pro não, não vai doar, não
19:29quero que doe,
19:30pra que essa família pense, né, em como, quem era essa pessoa em vida, né?
19:36Quem era o Alex, né?
19:38Mesmo que ele não tivesse deixado na carteira dele, sou um doador, quero doar.
19:44Quem era o Alex, né?
19:47Ai, meu irmão era uma pessoa que tirava dele pra dar pros outros.
19:53Meu irmão tinha um coração muito bom, muito bom mesmo.
19:58Ele podia ficar só de cueca.
20:00Se a pessoa dissesse assim, tô precisando dar roupa, ele tirava pra poder dar.
20:04Olha isso, e a Maria deu esse exemplo.
20:06Ela falou assim, se essa pessoa tirava roupa pra outra pessoa, ela usou exatamente esse exemplo.
20:14E você falou exatamente, então, assim, mesmo que ele não tivesse deixado nada escrito,
20:20vocês saberiam o que fazer, né?
20:23Já era uma vontade dele, e vocês tomaram a decisão correta,
20:28e salvaram, ou melhoraram a qualidade de vida de seis pessoas.
20:34Olha que gesto lindo, né?
20:37Enfim, eu acho que a gente já falou muita coisa, já se emocionou aqui.
20:44Mas eu queria saber, assim, de vocês, de que forma a campanha Setembro Verde pode, né?
20:50De fato, fazer com que mais famílias tomem essa decisão.
20:55Fazer com que mais pessoas entendam que esse gesto pode mesmo fazer com que uma criança volte a enxergar
21:02que uma pessoa que tá lá num aparelho de hemodiálise tenha uma vida normal.
21:10Isso não acontece só em Setembro.
21:12O trabalho de vocês é todo dia, né?
21:14Acontece todo dia.
21:16Em Setembro, a gente intensifica esse debate, né?
21:19Mas o que mais a gente pode fazer pra que as pessoas entendam, né?
21:24Que realmente isso, tratar, conversar sobre esse tema é importante.
21:29Acho que o primeiro ponto é trazer isso com o máximo de naturalidade que nos for possível.
21:36A gente sabe que cada um vai encarar esse momento de um lugar muito próprio.
21:40Nós todos somos diferentes uns dos outros, viemos de lugares diferentes também.
21:45Então, a gente vai encarar tanto a doação de órgãos como o falecimento de um ente querido
21:51de um lugar muito próprio, né?
21:53Mas acho que trazer essa discussão pra ter o Setembro Verde já traz ela pra um palco, né?
22:01Mas eu vejo também uma necessidade hoje em dia da gente cada vez mais instruir os profissionais
22:06que estão ali também pra poder lidar com esse momento, né?
22:09Apesar de que a gente lida com o adoecimento e o falecimento de uma maneira mais frequente
22:16do que o restante da população, né?
22:19Nem todo mundo se sente, né?
22:22Acho que capacitado pra estar fazendo isso, né?
22:26E entender que essa família tá passando por um processo de enlutamento, né?
22:31Que eles vão estar vivenciando isso de um lugar muito sensível e também ainda mais próprio, né?
22:38A gente capacitar esses profissionais pra estarem ali, pra saberem fazer um acolhimento,
22:44pra saber fazer uma abordagem que seja assertiva, né?
22:48Por mais que não tenha o aceite no final das contas, mas que a gente seja direto também
22:53e que saiba todo o processo até pra, né?
22:55Se a gente consegue trazer essa informação pra essa família, né?
22:58Esse aceite pode vir de uma maneira até mais suave pra eles.
23:03É, a doutora Sara disse que às vezes tem dificuldade com médicos mesmo.
23:07Exatamente.
23:09Então, né?
23:10Ela falou assim, é difícil às vezes do próprio médico entender o protocolo, as regras, né?
23:17E até a abordagem, muitas vezes acaba até, pode prejudicar.
23:22Então, assim, o médico, o profissional de saúde, nem todos os hospitais têm acidote, né?
23:28Eu acredito que é uma necessidade que tenha, né?
23:30Dos hospitais públicos?
23:33Sim, porque acaba passando por esse processo, né?
23:37De uma maneira ou de outra.
23:39A gente tem muita dificuldade com equipes, assim, por ser um, claro, né?
23:43Por ser um processo muito criterioso, porque tem que ser, né?
23:46A gente tem que dar essa notícia pra família de uma maneira correta, né?
23:51De uma maneira segura, né?
23:52Porque depois a gente dá essa notícia e volta atrás e corrige uma coisa e corrige a outra.
23:57Então, assim, traz uma insegurança até pros próprios familiares, né?
24:01Mas de a gente ter esses entraves, assim, com equipe, de não entender bem, de às vezes
24:06optar por não fazer, por exemplo, uma abordagem de córneas, né?
24:09Que poderia ser mais frequente por conta do desconhecimento de como esse processo acontece
24:14ou, às vezes, pelo desgaste da própria equipe.
24:17Ah, eu tenho que falar, mas eles vão estar tristes.
24:19Sim, eles vão estar tristes, né?
24:21Eles acabaram de receber uma notícia que inevitavelmente vai entristecer eles, né?
24:27Mas é parte do nosso trabalho também, né?
24:30É isso aí, Aline.
24:32Sobre a campanha especificamente, você acha que esse momento de debate, né?
24:39Intensificar essa discussão ajuda.
24:42Como que vocês passaram a enxergar isso depois do que aconteceu?
24:47Não só com o seu irmão, né?
24:50Eu soube agora que uma tia também passou por um momento, né?
24:55Muito triste na fila.
24:59Então, assim, que a família tem que ter um pouco mais de diálogo dentro de casa, né?
25:03Conversar sobre isso.
25:05Porque tem muitas pessoas na fila esperando.
25:09Então, se uma pessoa teve uma morte cefálica, por que não doar os órgãos?
25:15Salvar outras vidas, entendeu?
25:18Então, assim, é o que eu desejo para as pessoas que incentivem mais, conversem mais com seus filhos em casa,
25:25sobre doação de órgãos.
25:26Porque tem muitas vidas esperando.
25:28Como eu perdi uma tia esperando pelo rins, né?
25:31E com dois meses depois, meu irmão faleceu e conseguiu salvar seis vidas.
25:36Quem sabe também, se ela ainda estivesse viva, os rins não fosse para ela, né?
25:41E pode acontecer com qualquer um de nós, né?
25:43E tem uma questão que a gente sempre prefere abordar também, né?
25:48Quando a família fica em dúvida e questiona, né?
25:51É que essa decisão, ela não gere nenhum tipo de atrito futuro, até para aquelas pessoas que estão permanecendo, né?
25:58Porque eventualmente tem essa discordância, né?
26:00Um familiar pode ser a favor, outro pode ser contra, né?
26:03Então, a gente estimula que eles entrem num consenso, para que isso também não se torne um conflito intrafamiliar futuramente,
26:11né?
26:12Porque essas coisas, elas podem retornar, né?
26:14Esse aceito, essa recusa, né?
26:17É verdade.
26:18Depois de passar por um momento tão dolorido, ainda ter um conflito familiar, né?
26:26Gente, olha só, eu acho que é isso.
26:28Gostei muito do nosso encontro, né?
26:31E de conhecer a história do encontro de vocês, né?
26:35Foi bem emocionante.
26:37É muito bom saber, né?
26:39Que existem famílias que tem, que tomam essa decisão tão rápido, né?
26:45De salvar outras vidas.
26:48Quero agradecer demais, né?
26:50As informações, né?
26:52Da Luísa.
26:54A Aline tá aqui, ter topado falar de um assunto que é tão delicado, que mexe tanto, né?
27:00Que te faz relembrar de uma dor.
27:02Mas muito.
27:03Mas muito obrigada por você ter topado contar a sua história, né?
27:08E eu também quero agradecer a você que tá aí do outro lado, né?
27:12Que tá assistindo ou ouvindo a gente, né?
27:15E pedir que você passe todas essas informações adiante, né?
27:20A campanha Setembro Verde, essa conscientização, né?
27:25De como isso é importante.
27:26Pra que a gente possa reduzir, né?
27:29Pelo menos um pouquinho que seja essa dolorosa espera, que é estar na fila de um transplante.
27:36Obrigada, gente.
27:37Até a próxima.
27:38Eu que agradeço.
27:39Eu que agradeço.
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