00:00Meu pai, José Carlos Siqueira Ribeiro, ele tinha 24 anos,
00:04saiu num final de semana com amigos para poder pescar,
00:09porque precisava juntar uma grana para fazer um extra para a família.
00:24A gente tem mais de 40 anos desse desaparecimento.
00:28O impacto disso é um buraco, fica uma lacuna aí na minha história.
00:35Esse desaparecimento, ele se dá num contexto de que as outras pessoas aparecem,
00:42os corpos delas aparecem.
00:44Esse barco saiu da região de Manguinhos, na serra.
00:49As duas outras pessoas que estavam no barco, os corpos apareceram,
00:53e o do meu pai não.
00:54E aí você não tem um desfecho.
00:59E aí você fica aguardando.
01:02A minha família passou anos aguardando a volta de uma pessoa que era jovem,
01:07que era saudável e que nadava muito bem.
01:10Então eles criaram uma expectativa de que ele pudesse ter ficado à deriva no mar,
01:16e conseguido sobreviver, e perdido a memória, alguma coisa do gênero,
01:22ou ter sido resgatado, essa era uma narrativa como de ter sido resgatado por navios que passavam em alto mar.
01:29Então assim, era uma expectativa.
01:32A minha mãe faleceu, e ela sempre disse isso,
01:36que ela achava que de um momento para o outro ele podia aparecer.
01:41Recentemente, né, eu tive que me casar, e tive que juntar vários documentos para esse casamento acontecer.
01:47E entre eles as certidões, né, do meu pai e da minha mãe.
01:50Da minha mãe, no caso, ela já é falecida desde 2013.
01:53E o do meu pai era uma certidão de nascimento, e aquilo me tocou muito,
01:56porque ele é falecido, e eu não tinha como comprovar isso.
02:03Então eu comecei a buscar, depois do casamento,
02:07durante a pandemia eu comecei a buscar por provas desse desaparecimento.
02:12E aí, para a minha alegria, e graças a Deus por isso,
02:19existe o jornal, eu sou jornalista, e isso me comove bastante,
02:24a gente conseguiu comprovar esse desaparecimento de maneira prática, né,
02:30com as matérias que foram noticiadas na época em a Gazeta.
02:35Foi mais de uma semana desse desaparecimento sendo veiculado.
02:39E aí eu entrei em contato com o SEDOC, da Rede Gazeta,
02:42e fiz essa busca para anexar e abrir esse processo.
02:46Porque o processo de morte presumida é um processo muito delicado,
02:50porque você está dizendo para a justiça que uma pessoa está morta.
02:54Só que você tem que provar isso.
02:56E aí você junta provas testemunhais, né,
02:59pessoas que não fosse eu, né,
03:02outras pessoas que viveram essa situação,
03:07e busca outros registros.
03:09Eu fui até a Capitania dos Portos,
03:10mas eles não tinham nenhum tipo de registro da época.
03:13Então foi um jornal, a Certidão de Nascimento,
03:18alguns outros documentos que tinham e que também não existiam,
03:21por exemplo, um CPF que não existia,
03:24que eu tive que ir até a Receita Federal e comprovar que esse CPF não existia,
03:27e juntar tudo isso, colocar dentro de um processo,
03:30e solicitar essa morte presumida.
03:33Não é um processo simples,
03:34ele precisa de um trâmite,
03:36ele está tramitando já há algum tempo,
03:40e fica essa expectativa, né,
03:44de que isso seja solucionado
03:46para que eu possa dar um pouco de dignidade, né,
03:50para ele e encerrar a história dele, né.
03:55É triste, porque era uma vida,
03:58ele era muito jovem, 24 anos,
04:01e tinha tudo pela frente,
04:04e nem essa morte teve um fim, né,
04:07um descanso, assim.
04:08Então, eu pretendo, depois que isso tudo acabar,
04:11quando eu tiver essa certidão,
04:15conseguir fazer uma missa, um culto,
04:18para poder encerrar com dignidade a passagem dele por aqui.
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