00:15Meu nome é Carla da Victoria, eu aprendi quando eu tinha nove anos de idade, né,
00:20que eu vim pra cá ver a minha mãe fazer, a minha avó fazer, então eu aprendi olhando.
00:32Comecei a me interessar a pegar no bar, mas quando eu aprendi a fazer mesmo a panela profissionalmente
00:38foi por dez anos de idade, a minha mãe, a minha avó e as minhas irmãs, então três irmãs
00:44que fazem panela, e hoje já tem já 36 anos que eu faço panela de barro.
00:57Quando eu saia da escola, eu estudava de manhã, aí depois da volta eu vim pra cá com a minha
01:02mãe.
01:03Então eu comecei a fazer panela e eu brincava normal, como qualquer criança que com ela fez
01:08aqui.
01:09Aí certo dia eu comecei a brincar com barro, aí saiu uma panela, aí saiu um cinzeirinho,
01:14depois foi saindo uma panelinha pequena, aí com o tempo fui fazendo, fazendo, aprendendo
01:20a fazer todos os tipos de panela.
01:22Então quando eu fui ver, eu já estava fazendo panela e eu estava ganhando dinheiro.
01:39Quando eu me descobri, não tem como lembrar, mas o que eu me lembro, com meus treze, quatorze
01:44anos, que eu me assumi como uma mulher trans.
01:47Foi uma coisa assim que eu, quando eu assumi o que eu queria ser, né, foi algo assim que
01:54dentro de mim parece que saiu um peso.
01:56Então foi algo assim pra mim muito importante, muito legal e eu não me arrependo, porque até
02:04hoje eu sou o que eu quero ser.
02:06Muito feliz assim, aceito assim e eu não ligo se alguém é contra ou não aceita a minha
02:13vida sexual, porque o importante é eu me sentir feliz pelo que eu sou.
02:17Acho que todo mundo passa por preconceito na vida, né, então, tanto pessoas negras,
02:22tanto pessoas que têm as opções sexual, a agressão física não rolou, mas eu já
02:28quase, mas já quase.
02:30Já fui xingada, humilhada, em escola, em rua, em lugar público, tudo por causa das minhas
02:37opções sexual.
02:39Eu já sofri assédio em escola, já sofri assédio entre família, parente.
02:49Aqui, às vezes, os colegas brincam, mas eu não sei se a brincadeira deles é uma brincadeira
02:54séria ou não, entendeu?
02:56Mas eu acho que há muitos anos atrás já sim, aqui dentro mesmo.
03:00A pessoa que me apoiou na minha adolescência foi minha avó Laurinda Alves.
03:07Ela me apoiou, ela me ajudou, ela foi a favor de mim.
03:12Algumas coisas, assim, entre famílias, ela sempre foi a favor de mim e chamava atenção,
03:17assim, da minha mãe, dos meus irmãos, então assim, ela sempre me apoiou.
03:22Mesmo não assumindo, assumindo antes o que eu era, ela acho que já sabia.
03:28Talvez ela teve mais, assim, conhecimento sobre a minha vida do que a minha própria mãe.
03:35Olha, eu sonho, eu tenho um único sonho, assim, ter um vario, mas o único sonho, assim,
03:40no momento que eu preciso mesmo é uma casa própria.
03:42Eu moro de aluguel, eu tenho mais de 20 anos.
03:44Até hoje não deu pra comprar minha casa, entendeu?
03:48Mas dá pra pagar meu aluguel, dá pra pagar minhas quantinhas.
03:53Às vezes até não dá, mas...
03:56Eu falo assim, o certo das pessoas, em geral, é não ter medo, entendeu?
04:01Apenas ter coragem.
04:03Porque quando a pessoa não tem coragem, ela é capaz de viver.
04:14E aí
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