00:00O presidente Lula embarca nos próximos dias para a África do Sul,
00:03onde participa da 15ª Cúpula dos BRICS,
00:06o grupo de países que ele ajudou a fundar
00:08e que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e a própria África do Sul.
00:12Nos bastidores, a visita é tida como mais uma etapa de um projeto ambicioso,
00:17ampliar a influência do Brasil na arena global.
00:19Uma frase dita por Lula em dezembro de 2022,
00:22antes mesmo de assumir seu terceiro mandato,
00:25é vista como um resumo desse projeto.
00:27Quero dizer para vocês que o Brasil está de volta.
00:32Eu sou o Leandro Prazeres, repórter da BBC News Brasil em Brasília,
00:35e neste vídeo eu vou explicar em três pontos
00:38quais são as principais bandeiras do Brasil
00:40para aumentar a sua influência internacional.
00:42Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil
00:44dizem que a diplomacia brasileira continuará a investir em temas
00:48como a reformulação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas
00:51e mudanças no sistema de governança global.
00:54Mas agora entram no cenário assuntos como a diminuição da dependência do dólar
00:58no cenário internacional,
00:59a tentativa de liderar debates sobre mudanças climáticas
01:02e a mediação da guerra entre a Rússia e a Ucrânia.
01:05Os estudiosos ouvidos pela BBC News Brasil
01:07e diplomatas que falaram em caráter reservado
01:10apontam que o cenário internacional
01:11oferece obstáculos ao plano brasileiro,
01:14mas também traz oportunidades.
01:15Entre os obstáculos estão, por exemplo,
01:17a complexidade da crise envolvendo os russos e ucranianos.
01:21Já entre as oportunidades está o fato de que, no mandato de Lula,
01:25o Brasil vai ter a chance de presidir o Mercosul, os BRICS e o G20,
01:29o que deve dar ao governo diferentes plataformas para avançar a sua agenda.
01:32A aposta do governo em aumentar a influência do país internacionalmente
01:36é, segundo os especialistas que eu entrevistei,
01:38resultado da combinação entre o perfil pessoal de Lula
01:41e a visão geopolítica de integrantes da equipe do presidente.
01:44Segundo o professor da Fundação Getúlio Vargas, Oliver Stwenkel,
01:48existe um esforço claro de ampliar a visibilidade e influência do Brasil
01:52depois dos últimos dez anos,
01:54um período em que a atuação do país na arena internacional se enfraqueceu.
01:57Já a coordenadora do Programa de Estudos Brasileiros
01:59da Universidade de Oxford, no Reino Unido,
02:01Laura Weisbich,
02:03aponta que o governo Lula considera que o cenário político internacional
02:06ainda deixa de fora países como o Brasil dos papéis mais relevantes.
02:10Por conta disso, há um esforço para mudar o tabuleiro desse xadreiro global.
02:14A tentativa de reduzir o papel do dólar nas transações comerciais entre os países
02:18é uma das apostas do governo para ampliar a sua influência.
02:21Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945,
02:24a moeda se tornou a mais utilizada no comércio global.
02:27Na prática, isso obriga que os países e empresas
02:30comprem dólares para realizarem as suas transações.
02:33Nos últimos anos, no entanto,
02:34países como a China, a atual segunda maior economia do mundo,
02:37passaram a liderar um movimento para a utilização de outras moedas,
02:41como o Yuan.
02:42Desde que assumiu seu novo mandato,
02:44Lula também incorporou o tema a alguns de seus discursos.
02:47Eu toda noite me pergunto por que
02:50que todos os países estão obrigados a fazer o seu comércio lastreado no dólar.
02:59Por que que nós não podemos fazer o nosso comércio lastreado na nossa moeda?
03:05Por que que nós não temos o compromisso de inovar?
03:09Por que que a gente não pode fazer as nossas moedas?
03:15Eu não sei por que Brasil e China não podem fazer as nossas moedas.
03:19Por que que eu tenho que comprar dólar?
03:21Para Laura Weissbich, os movimentos do governo brasileiro refletem uma percepção
03:26sobre as instituições financeiras multilaterais criadas após a Segunda Guerra Mundial,
03:30como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
03:33É uma sensação de que essa estrutura não atende às demandas do chamado Sul Global,
03:37ou seja, países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina.
03:41Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais,
03:45Davison Belém Lopes,
03:46o plano brasileiro de desdolarizar a economia global
03:49se baseia em uma leitura de mundo multicêntrica e multipolar,
03:53mas que também é resultado de frustrações passadas
03:56com tentativas de reformas do sistema financeiro internacional por dentro.
03:59Para o professor, os países tentam agora fazer essa reforma por fora.
04:03Outro tema que passou a fazer parte da plataforma de expansão da influência brasileira no mundo
04:08é a pauta do clima e do meio ambiente.
04:10Antes mesmo de assumir a presidência, Lula incorporou esse discurso
04:13como na participação que ele fez durante a Conferência das Nações Unidas para o Clima no Egito, a COP27.
04:19Ele prometeu zerar o desmatamento na Amazônia até 2030
04:22e disse que o seu governo tentaria conciliar o crescimento econômico à sustentabilidade ambiental.
04:27Foi lá também que Lula lançou a candidatura de Belém para ser a sede da COP30 em 2025.
04:32A capital paraense já abrigou recentemente a Cúpula da Amazônia,
04:35que reuniu países da região amazônica e representantes de nações
04:38com grandes florestas tropicais pelo mundo, como a República do Congo,
04:42República Democrática do Congo e a Indonésia.
04:45Diplomatas brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o objetivo do país
04:49é se transformar em uma espécie de porta-voz informal dos países
04:52com grandes florestas nesses fóruns internacionais.
04:55Mas o evento ficou marcado pela ausência de um compromisso dessas nações
04:58em limitar a exploração de petróleo na região amazônica,
05:01uma pauta defendida pela Colômbia, mas que encontra resistências em países como o Brasil,
05:05Venezuela e a Guiana.
05:07Apesar dos percalços durante a cúpula,
05:09a pauta ambiental é vista pelos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil
05:12como a que tem maior chance de ampliar a influência do Brasil internacionalmente.
05:16A terceira aposta do governo brasileiro para ampliar a sua influência internacional
05:20é a tentativa de Lula para mediar um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia.
05:25Nos bastidores, acredita-se que uma atuação significativa do Brasil
05:28em um eventual tratado entre as duas partes seria fundamental
05:31para as pretensões do país de aumentar a sua relevância.
05:35Logo que assumiu a presidência, Lula passou a defender a criação
05:38de uma espécie de clube de países não envolvidos com o conflito,
05:41com o objetivo de intermediar o processo de paz.
05:44Mas, ao mesmo tempo em que defendia essa ideia,
05:46Lula também deu declarações que irritaram os Estados Unidos e a Europa Ocidental.
05:50É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz.
05:56É preciso que a União Europeia comece a falar em paz
05:59para a gente poder convencer o Putin e o Zelensky de que a paz interessa a todo mundo.
06:05Dias depois, o presidente deu a entender que a responsabilidade pelo conflito
06:08era tanto do presidente da Rússia, Vladimir Putin,
06:11quanto do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.
06:29As declarações causaram reações na União Europeia e nos Estados Unidos.
06:33O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby,
06:36criticou a fala de Lula na ocasião, dizendo que
06:53Para Davison Lopes,
06:55a atuação do governo brasileiro é uma reivindicação das credenciais históricas do país
07:00de promover a mediação e a facilitação da paz
07:02como uma forma de participar do sistema de segurança internacional.
07:06Ele ressalta, no entanto, que existem outros países concorrendo com o Brasil
07:09para exercer esse mesmo papel,
07:11o que diminui as chances de sucesso de uma eventual mediação.
07:14Oliver Stwenkel, da FGV, acrescenta que nem os Estados Unidos e nem a China
07:18vêm em um horizonte próximo para o fim da guerra,
07:20o que é um forte indicativo de que a solução do conflito também não está próxima.
07:24E com isso eu fico por aqui,
07:26mas eu vou seguir a reunião dos BRICS lá na África do Sul.
07:28Continue acompanhando a nossa cobertura política no canal do YouTube,
07:31nas redes sociais e em bbcbrasil.com.
07:34Obrigado e até a próxima!
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