00:01Chovia muito, muito, muito, muito, muito.
00:03Mais precisamente entre uma e meia da madrugada.
00:07Deu aquele trovão muito grande, tá entendendo?
00:10Mas aquilo ali foi raio, né?
00:12E hoje é descarga elétrica.
00:14Barulho ensurdecedor.
00:15Eu perdi os meus pais e os meus três irmãos.
00:39Aquele morro atualmente, na época,
00:42na época era Morro do Taboazeiro, Morro do Baixo.
00:58Depois em que fui passando o tempo,
01:01colocaram o apelido Morro do Macaco.
01:04Mas era Morro dos Vasco, o nome daquele lugar ali.
01:07Eu fui morar na casa cedida pela minha mãe.
01:12E ela mudou-se para a casa do meu irmão.
01:15E eu então fui para lá com a esposa grávida e um filho.
01:21E aí depois nasceu o segundo filho.
01:24Tinha gente de outro lugar.
01:25Tinha Baiano, tinha gente de Colatina, tinha gente de Minas.
01:28Caras pessoas dessas que pagavam aluguel.
01:30Eles vinham para ali.
01:31Era muita gente que comentava muito sobre o lugar,
01:34que o lugar era bom.
01:35Lá em cima era uma área super festiva.
01:39Tinha muito baile, muita festa, muitos eventos.
01:44Então era a casa da gente.
01:46Aquilo era como se fosse uma família, né?
01:50Começou chover em novembro.
01:52Foi novembro, dezembro.
01:54Em janeiro aconteceu essa tragédia.
01:57Era mais ou menos meia-noite e meia.
01:59Chovia muito em Vitória.
02:01E a maioria dos 4 mil moradores da favela,
02:03do Morro do Taboazeiro dormia.
02:05Naquela noite a gente tinha ido à igreja.
02:07Eu, minha mãe e meus dois irmãos.
02:10E ficou em casa meu tio e meu pai.
02:13Quando acabou o culto a gente subiu.
02:15Chovia muito, muito, muito, muito, muito.
02:17O fato em si se deu entre uma a uma e meia da madrugada.
02:25Eu estava dormindo.
02:26Eu acho que a maioria estava dormindo.
02:29Houve uma grande explosão.
02:31Barulho ensurdecedor.
02:32Minha filha acordou apavorada dizendo
02:34Mãe, o mundo está acabando.
02:35Foi sair, correr para a rua,
02:37saber o que estava acontecendo.
02:39Foi um raio que partiu a pedra.
02:43A Maria Lúcia, que era minha esposa,
02:46tinha um sono mais leve,
02:47acordou e me chamou.
02:50E ao me chamar,
02:51eu pulei da cama
02:56e assim que eu pulei da cama,
02:58comecei a ouvir o barulho.
03:02Parecia um barulho de uma grande cachoeira,
03:05de uma grande precipitação,
03:07alguma coisa assim.
03:08De repente,
03:08uma pedra calculada em 150 toneladas
03:11deslizou lá de cima do morro,
03:13desceu,
03:14destruiu dezenas de barracos.
03:16As pedras bateram em casa
03:17como se fosse uma bomba.
03:19Eu fui arremessado no ar
03:22por mais de 20 metros de distância.
03:24Eu sentia meu corpo
03:26rodando no ar
03:27e ouvindo os estalos de tudo
03:30na minha volta
03:31e os homens seguidos
03:33os gritos das pessoas.
03:34Quando acordamos,
03:36já estávamos vivenciando
03:38aquela situação.
03:39Eu estava toda coberta,
03:41dos pés à cabeça
03:43e eu, por estar cabeça coberta,
03:45só ouvia gritos.
03:46Só gritos.
03:48Foi então que eu falei assim,
03:50eu vou gritar também, né?
03:51Eu pensei,
03:52eu vou gritar
03:52porque eu não sei onde eu estou.
03:54E aí já não vi mais
03:55nem sinal de casa,
03:59nem esposa,
04:00nem o filho.
04:01Por mais que eu gritasse por ela,
04:03mas não tive resposta.
04:04O berço da criança
04:05foi arremessado
04:06para muito longe.
04:08Mas a criança não estava no berço,
04:10estava no colo dela.
04:11Quando ela disse
04:12que só Jesus
04:13para ter misericórdia de nós.
04:15Assim.
04:19O COPOM,
04:20que era o centro de operações
04:21da Polícia Militar
04:22daquela época,
04:23entrou em contato conosco
04:25e nos solicitou
04:26que fossemos verificar
04:29o que estava acontecendo
04:30no Morro do Macaco,
04:31pois estavam entrando
04:32muitas ligações
04:33sugerindo um desastre
04:34de grande monta.
04:36E assim nós fizemos.
04:37E lá chegando,
04:37nós nos deparamos
04:38com um cenário
04:39extremamente trágico,
04:40até assustador.
04:43Eu, como oficial mais antigo,
04:44assumi as operações
04:45que estavam nos desenvolvendo
04:47naquele dia.
04:48A sensação que você tem
04:49é de,
04:50como se fosse um maracanã
04:51gritando gol,
04:52umas pessoas gritando socorro,
04:53à noite às escuras
04:54e sem você conseguir
04:56ver ninguém.
04:56Era uma tragédia,
04:58era um cenário de guerra,
05:02uma situação
05:03que o desespero
05:05daquela comunidade,
05:08ele era contagiante.
05:10Primeiro que o morro
05:11que nós conhecíamos
05:12não era mais
05:13o mesmo morro,
05:14porque na chegada,
05:16onde tinham
05:17diversos barracos,
05:18diversas residências
05:19de madeira,
05:20já não existiam mais.
05:21E desce corpos,
05:24sobe gente,
05:25desce gente,
05:26inclusive
05:27o bombeiro,
05:29coitado,
05:30não estava quase
05:31dando conta.
05:32Ficava aquela confusão,
05:34porque como mudou
05:35todo o cenário
05:37do local,
05:38moradores
05:39não conseguiam
05:40sair também,
05:41porque eles não
05:42estavam entendendo
05:42onde eles estavam pisando.
05:44Quando você chega
05:46lá em cima,
05:47você se depara
05:48com aquele clarão
05:48onde você
05:50tinha visto tudo
05:51uma situação,
05:51um bairro fechado
05:53e de repente
05:53você vê simplesmente
05:54uma vala.
05:55Então você não,
05:56você se desespera,
05:57você entra numa coisa
05:58que você,
05:58sem saber o que
06:00estava acontecendo na verdade,
06:02você queria ajudar,
06:03mas não sabia o que.
06:04Pessoas gritando
06:05socorro,
06:05desnorteadas,
06:06a gente não tinha
06:07disponível equipamento
06:08de iluminação,
06:09a gente foi
06:10na coragem mesmo,
06:11tentando retirar
06:12as pessoas
06:13que estavam
06:13pedindo socorro.
06:14Aí eu soube
06:16um vizinho nosso
06:18tinha sido
06:19soterrado.
06:20Com as mãos,
06:21era cavando,
06:22desenterrando gente,
06:23tirando móveis,
06:25o que tinha por cima,
06:27graças,
06:27salvamos,
06:28muita gente se salvou
06:29graças a isso.
06:30Que eu vi
06:30a chuva
06:31caindo
06:32e aí eu
06:34pensei assim,
06:35meu Deus,
06:35cadê minha casa,
06:36né?
06:37Então aí eu nessa hora
06:38eu comecei a gritar
06:39socorro,
06:40porque meu filho
06:41estava perto de mim
06:42no berço
06:43e ele ficou
06:44subterrado
06:45perto de mim.
06:45Então eu vi
06:47o gemido dele
06:48e comecei a cavar
06:49com a mão
06:50a terra,
06:51comecei a cavar
06:51e quando eu vi
06:52que avistei
06:53os cabelinhos dele
06:54brilhando,
06:55aí eu comecei
06:56a gritar socorro.
06:57O primeiro
06:58que saiu
06:58foi eu.
07:00Daí uns cinco minutos
07:01você só via
07:02gritando socorro,
07:03os vizinhos
07:04socorro,
07:05socorro,
07:05mamãe,
07:06papai,
07:06não sei o que,
07:07disse aquilo.
07:08Aí eu olhei assim,
07:09minha casa,
07:10você não via a casa,
07:11só estava o chão puro.
07:12A pedra ficou a distância
07:13mais ou menos
07:14de uns 30 centímetros,
07:15mais ou menos.
07:16Um palmeiro de 30 centímetros.
07:18Acordei na hora,
07:19eu levantei da campo
07:19assemando as crianças
07:20com medo
07:21e fui ver
07:22a pedra descendo
07:23para baixo.
07:24O que eu consegui fazer,
07:25eu peço a Deus
07:26que me dê muita força
07:27para sempre fazer isso
07:28que eu fiz.
07:29A senhora tirou
07:29muitas crianças
07:29daí de baixo?
07:30Tirei dois garotos
07:31que estavam aqui
07:33e lá em cima
07:34um rapaz
07:34que já estava morto
07:35e uma senhora
07:36também que estava morta.
07:37Ela acha que
07:38ela estava até grávida.
07:40Alguém vai me achar.
07:41E foi graças a Deus
07:42que aconteceu.
07:44Assim como aconteceu
07:45com muitas outras
07:46pessoas também.
07:47Fui levado
07:47uns 30 minutos depois,
07:50fui para o São Lucas.
07:51Eu fiquei bastante machucada.
07:53Eu quebrei a cavícula.
07:55Na época,
07:56machuquei muitas costas
07:58e a ponto de eu deitar
08:01e o lençol ficar
08:03todo pregado
08:05nas minhas costas.
08:06Meus dedos aqui
08:07cortaram tudo.
08:08Olha só.
08:08Esse dedo aqui
08:09pôcou daqui cá.
08:11Ela quebrou ali.
08:13Não podia andar
08:14de jeito nenhum.
08:14Quebrou.
08:15Isso aqui assim,
08:16quebrou.
08:16Todos nós
08:17temos marca de lá.
08:19Perna esquerda
08:20e muitas escoriações
08:23pelo corpo.
08:24O pessoal da imprensa
08:25não tinha ninguém.
08:26Aí eu peguei,
08:27comecei a sumir.
08:28Aí na sumida
08:30eu via
08:31a pedra que rolou
08:34foi carregando
08:35todo mundo.
08:36E naquele
08:37momento ali
08:39foi de angústia
08:40e também tristeza.
08:42Que você ficava
08:43assim,
08:44como é que eu vou fazer?
08:45Será que eu fotografo?
08:47Aí você fica assim,
08:48automaticamente,
08:49até você pegar
08:51e entrar
08:52naquele ritmo
08:54dali
08:55e ver
08:56o propósito
08:57seu que você está
08:59naquele momento
09:00foi duro
09:01pra caramba
09:01pra gente.
09:02Nesse barraco
09:03morava uma família
09:04de cinco pessoas.
09:05E naquele berço ali
09:07tinha uma criança
09:08de apenas 12 meses
09:09que não sofreu nada.
09:10Quando a pedra
09:11deslizou,
09:11o pai dela
09:12conseguiu retirar.
09:13Como é que foi?
09:14Quando desabou,
09:15depois que tinha
09:15para tudo aí
09:16conseguimos tirar
09:17o neném por ali.
09:18Nós temos por aqui
09:19debaixo,
09:20no colchão aqui
09:20debaixo de guarda-roupa
09:21aqui.
09:22Aí eu entrei ali
09:22e tirou o neném.
09:23Não aconteceu nada,
09:24ninguém?
09:24Não, não.
09:25Ninguém machucou,
09:25não tomou um ranhão.
09:26Nenhum, criança?
09:27Não, nenhum.
09:29Chegando no morro
09:30a gente viu
09:30que a coisa
09:31era mais grave
09:32do que se imaginava,
09:33mais grave
09:33do que parecia
09:36até, inclusive,
09:37quando chegamos
09:38lá embaixo, né?
09:39Porque aí
09:40fomos subindo
09:40e vendo
09:41toda a destruição
09:42que acontecia.
09:44Uma parte do campo
09:45onde hoje
09:46é uma escola,
09:48uma creche,
09:49uma coisa assim,
09:50no pé do burro,
09:52eu encontrei logo assim,
09:53acho que 11 corpos,
09:55já estirados,
09:56tinha sido recolhido
09:59pelo bombeiro.
10:00E os bombeiros
10:00não estavam lá
10:01naquela guerra,
10:02naquela luta.
10:03Tudo derrubado,
10:04não tinha nada,
10:05você não via uma
10:05botija de gás,
10:06você não via uma geladeira.
10:07Tinha uma mãe
10:08que tinha um nenenzinho
10:09no berço,
10:10mas graças a Deus
10:11a pedra não pegou
10:12essa criança,
10:13ela conseguiu pegar
10:14a criança dela,
10:16era novinha,
10:16o bichinho.
10:17tem família inteira
10:18que ficou ali
10:18só aterrado.
10:20Até hoje,
10:21está lá.
10:22Lá foi o cemitério deles.
10:25Os corpos
10:25nunca foram encontrados.
10:27Era muito difícil,
10:28muitas pessoas
10:30envolvidas no resgate,
10:32os órgãos de segurança,
10:34as igrejas,
10:38moradores,
10:39enfim,
10:40foi uma coisa assim
10:41grandiosa
10:42que a gente
10:44ficou muito triste,
10:46uma situação assim
10:47terrível
10:48para a nossa comunidade.
10:49Muitos cadáveres,
10:51pessoas mortas,
10:52pessoas feridas,
10:54pessoas,
10:55o corpo de bombeiros já,
10:58soldados do corpo de bombeiros
11:00escavando
11:01para tirar pessoas
11:02possíveis
11:04sobreviventes
11:05e também corpos
11:06que ali estavam.
11:08Infelizmente,
11:09muitas vítimas
11:10eram crianças.
11:11No local da tragédia,
11:12os bombeiros
11:13resgataram 21 corpos.
11:14Mais de 80 feridos
11:16foram retirados
11:17dos escombros
11:17e encaminhados
11:18aos hospitais.
11:19Fez mais de 100 vítimas
11:20entre mortos e feridos
11:22e a maioria delas
11:23crianças.
11:24Um soldado
11:26minha
11:28andando
11:29nas mãos
11:29com uma criança
11:31pela metade.
11:32Uma criança que talvez
11:33não tivesse três anos de idade.
11:34Nos braços dele tinha
11:36um braço,
11:38metade do tronco,
11:39pedaço do outro braço
11:41e a cabeça.
11:42E aquilo
11:43ficou gravado
11:44e nunca mais
11:45saiu da minha memória.
11:46essa cena
11:47foi uma cena
11:49trágica.
11:52Essa eu ainda vejo.
11:58Aí foi aí que
11:59França,
12:00que era
12:02o perito,
12:03e tinha mais peritos
12:04ali junto,
12:06pegou
12:08uma criança
12:09que ainda estava
12:10respirando
12:11e deu o último
12:12suspiro na mão dele.
12:13e França
12:14que era
12:14aquele cara
12:15durão
12:16que
12:17fazia,
12:18acontecia.
12:19Lágrima chorou.
12:20Chorou mesmo.
12:21Chorou de
12:21vir lágrima.
12:24Ai, meu Deus,
12:24vai estar em meus filhos.
12:27Ai, meu Deus,
12:31vai estar em meus filhos.
12:31Ai, meu Deus,
12:37Jesus Cristo.
12:38E depois?
12:43E depois?
13:09Tchau.
13:18Tchau.