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  • há 2 meses
Sem lugar para se estabelecer em Vitória, sobreviventes tiveram que ir à luta; confira no segundo episódio da websérie

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Transcrição
00:00As pessoas diziam assim, você está onde?
00:05Aí eu estou abrigado em tal lugar assim, assim.
00:08E o senhor vai depois para onde? Não sei.
00:11A gente ficou um mês fora de casa.
00:14Pelos tempos nós vivemos de adoações, né?
00:16O primo do meu marido, que morreu, que ficou a família,
00:21a esposa e as crianças caras de baga-pedra, que não deu como sair.
00:25E a menina, assim, tipo assim, foi cuspida.
00:30Aí a menina caiu na cama de uma vizinha e foi que salvou a menina.
00:33Aí quando ela saiu do hospital, a tia dela teve que vir de colatina
00:38para ficar com ela lá no ferroz que ela tinha ganhado na casa, que berreia do Deus.
01:00Eu me chamo Jerusa.
01:02Eu perdi os meus pais.
01:04O meu pai, a minha mãe e os meus três irmãos.
01:08Foi uma perda muito grande.
01:10Não só para mim, como para outras famílias que lá também residiam.
01:14E é doloroso, porque a gente crescer, né?
01:20Com 10 anos de idade, crescer, ter que conviver com tudo isso,
01:25foi muito difícil para mim.
01:28As famílias não querem sair do morro.
01:30Elas são quase todas do interior do estado e não têm para onde ir.
01:34Perderam tudo, perderam suas casas, né?
01:38Perderam, não tinham para onde ir.
01:41Perderam a vida toda de construção de uma residência,
01:46a vida toda de convivência com um filho.
01:49Como é que foi? O senhor chegou a ver esse desmoronamento, esse deslizamento aí?
01:52Não, quando eu assustei, já tinha que estar caindo tudo já.
01:55Não dava para correr mais, não.
01:56O que tinha que fazer? Já tinha caído já.
01:58Não podia fazer mais nada.
01:59O senhor perdeu muita coisa?
02:00Ah, perdi tudo. Tudo, tudo.
02:03Até a nossa roupa do corpo, tá entendendo?
02:06Até a nossa roupa do corpo ficou lá no hospital,
02:08que nós ficamos sem nada, se dissesse nem documento, nós ficamos na época.
02:13Porque desapareceu tudo, tá entendendo?
02:15Desapareceu tudo na época.
02:17No início, as famílias estavam abrigadas na escola Suzete Coendete,
02:23em Taboazeiro mesmo.
02:34A escola estava de férias, porque era janeiro.
02:37À medida que avançou o mês de janeiro, fui avançando,
02:40houve um questionamento.
02:42Como é que nós vamos fazer para retomar o ano letivo?
02:45Onde é que vamos colocar essas pessoas?
02:48Teve um amigo meu que me cedeu uma casa em jornal da ARC.
02:51Nós fomos para até decidir a prefeitura fazer o que ela fez com nós, né?
02:58Eu fiquei em Colatina há três anos, de dez anos a treze anos,
03:03porque ainda foi fazer os trâmites, né?
03:07De quem iria ser contemplado, né?
03:09Com casa.
03:11Lembraram, disseram, ah, na Serra tem um bairro chamado Fio Rosa.
03:17E esse bairro está com a maior parte das casas desocupadas.
03:31E aí nós viemos para cá em caráter provisório.
03:34Na época moravam 16 famílias e todo esse Fio Rosa aqui.
03:38E aí nós chegamos no número maior de famílias e a coisa começou a melhorar.
03:43E a grande maioria veio para cá sem saber para onde é que estava vindo.
03:47Porque ninguém queria habitar aqui.
03:49É Fio Rosa, é um bairro na serra. E a gente não conhecia.
03:53O que deu visibilidade, o que tornou o bairro conhecido, foi a nossa chegada.
04:00Logo nós chegamos aqui, nessa casa aqui, ela não tinha água, não tinha luz,
04:07não tinha energia, não tinha água, não tinha nada.
04:10Ponhamos a casa toda num piso bruto.
04:12Nós sentimos a necessidade de que nós nos organizássemos em pelo menos uma comissão.
04:20Eu creio que aqui em Fio Rosa, a maioria do pessoal não tem escritura das casas.
04:25Nós sentimos que precisávamos fazer passeata e manifestações,
04:33porque nós vivemos um jogo de empurra.
04:36E o pessoal, nós reunia aqui todo mundo, vamos fazer passeata? Vamos.
04:40Foi muito difícil, nós lutamos bastante.
04:42Fomos lá diversas vezes, lá na porta do palácio, lá, para poder adquirir essa escritura.
04:51Os moradores saíram em passeata pela avenida Beira Mar até a prefeitura de Vitória.
04:57Querem a escritura das casas do bairro Fio Rosa, na serra,
05:00para onde foram transferidas 197 famílias.
05:04Alguém precisa falar pelo grupo.
05:07Aí disseram, não, quem vai falar é você.
05:09Vai lá, gente, a gente vai falar dessa...
05:12Ficou não, vamos fazer isso pra tudo.
05:13Para, gente.
05:14Havia muita promessa, uma série de promessas,
05:18e quando nós sentimos que todas elas não passavam...
05:21De forma até que, enfim, o João Cosme entrou na prefeitura, como prefeito, na época,
05:27e ele disse, não, pode deixar que eu vou dar a escritura.
05:30O primeiro a receber a escritura foi seu Jorge.
05:33No dia da tragédia, ele ajudou a salvar vidas.
05:37Acordei na hora, eu levantei da cama, passei amando as crianças, com medo,
05:41e fui ver a pedra descendo pra baixo.
05:43Como é que foi aquele momento pro senhor salvando as vidas?
05:45É, foi onde eu tive de salvar, né, porque eu tava lembrando meus filhos também, né, gente.
05:50Porque também meus filhos estavam pequenos, vi aquele pessoal morto, eu fiquei desorientado, né.
05:55Agora eu tô mais tranquila, se algum tempo eu falecer, é da minha filha que mora comigo, né.
06:02E o Adilson, eu creio o seguinte, eu acho que a Adilson, é, foram desumando com ele.
06:10Perdi a mulher, Maria Lúcia, Viana Frederico e o Jeremias.
06:15Ele, inclusive, estava no colo dela.
06:18Eu não fui beneficiado.
06:20Não fui beneficiado porque a casa que eles me deram, na verdade, seria da minha mãe.
06:26Então eu não quis essa casa.
06:28E comuniquei, etc.
06:30E tentei mostrar pra eles a minha realidade,
06:33porque eu havia perdido a esposa e o filho,
06:36e tudo que tinha, em termos de imóveis.
06:39E eu tava começando a minha vida a partir do zero.
06:42E eu tinha um filho.
06:44Até hoje eu não recebi a casa.
06:45Tá boazeiro hoje.
06:47Se fosse pra nós voltar pra lá, eu não voltaria mais.
06:51Se me der, entendendo?
06:53Eu acho que tá boazeiro de cima todinho.
06:57A troca daqui eu não troco.
06:59Hoje não.
07:09Tem barracos feitos em cima de pedra que parou de morro abaixo.
07:14Toda vez que vem a chuva, volta a lembrança.
07:17Isso não...
07:18Quem é daquela época não esquece.
07:20Tá sempre no foco.
07:22Começou a chover, as pessoas já olham pra cima, já ficam meio temorosas.
07:27Hoje, eu ainda tenho a sisma dessas pedras que se encontram lá em cima.
07:31Fala ficam segura, tá tudo, mas a gente fica, né, a gente não sabe.
07:36O medo de quem mora na região, né, sempre permaneceu.
07:43Porque quando o fato acontece uma vez, sempre as pessoas, elas ficam sem saber ao certo se é seguro ou
07:53não.
07:54Até hoje, quando eu passo por lá, ali pro Taboazeiro, eu dou uma olhadinha.
08:00Temos medo e eu queria pedir à Prefeitura, à Defesa Civil, olhar com mais carinho a esse morro.
08:16Ah, tá.
08:19Olha que canificina mesmo.
08:21Eu imagino o sofrimento dessas pessoas, né?
08:24Que perderam seus entes queridos aqui nessa tragédia tão grande.
08:28Nossa, parece que eu tô vivendo novamente lá.
08:35Eu fui muito doído, muito dolorido ver essas pessoas, nessas condições, essas pessoas, os seus corpos.
08:46Meu Deus.
08:48O mais marcante pra mim foi saber que eu tava perdendo muitos amigos.
08:56Nós aqui, no bairro, sempre fomos muito amigos.
09:02A força, a união daquela comunidade, mesmo na tragédia, eles estavam ombro a ombro.
09:09Eles foram fortes.
09:11Os moradores ali foram fortes.
09:14Muito fortes.
09:15Não tem...
09:16Nós não temos como descrever de onde que eles tiraram aquela força.
09:24Se a senhora pudesse encontrar com seus pais, todo mundo que você perdeu.
09:30O que você vai lhe ver pra eles?
09:32O que você vai lhe ver?
09:33Eu acho que a primeira coisa que eu ia fazer era dar um abraço neles.
09:37Um abraço de amor, de carinho.
09:41Um abraço de...
09:42Que eu sinto muita falta, né?
09:45De todos eles.
09:46E falaria pra eles também que o quanto eu amo eles.
09:51Que eu jamais vou esquecer deles.
09:54É inexplicável, tá?
09:57Seria uma emoção, assim, de...
10:01Imensurável.
10:03Não tem palavra.
10:05Até porque o garoto teria completado 40 anos em 13 de novembro.
10:16Ele era de 13 de novembro, aí faleceu em 15...
10:20Na madrugada de 14 para 15 de janeiro.
10:23Dois meses.
10:24Eu, sinceramente, não sei te dizer.
10:30Seria, assim, algo muito comovente.
10:35Muita lágrima, muito soluço.
10:40E...
10:44Resumindo, diria, assim, que bom que vocês estão aqui.
10:55Eu já não te vejo mais
11:02Temporal
11:03Fez a gente se afastar
11:07Como vai você?
11:11Feche os olhos pra te ver
11:14Enquanto o sol não vem
11:21Espero o fim do temporal
11:25Espera que isso vai passar
11:29E devolver cada pedaço ao seu lugar
11:35Espera ver o céu se abrir
11:39Espera a chuva terminar
11:42Que eu vou morrendo
11:45Eu venho de pressa te abraçar
11:48Se a chuva te assustar
11:52Se o peito apertar
11:55Me encontre nesses versos
11:58Enquanto o sol não vem
12:02É o primeiro sinal
12:05Do fim do temporal
12:08Você pode me esperar
12:11Que logo eu vou morrendo te abraçar
12:18Espera o fim do temporal
12:22Espera o fim do temporal
12:23Espera que isso vai passar
12:25E devolver cada pedaço ao seu lugar
12:32Espera ver o céu se abrir
12:35Espera a chuva terminar
13:05Que eu vou morrendo
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