00:06Descer a escada, encapuçado, não é uma boa sensação.
00:12Está emitindo um capuz.
00:14Eu vejo um pelotão de fuziramento na minha frente.
00:17Em cinco dias, passei por quatro situações de morte certa.
00:30O que estou vivendo?
00:32O que me segura é que eu não tenho certeza se eu passei na plenitude essa minha vida aqui na
00:44Terra.
00:49Meu nome é Adhemar Kiyotoshi Sato, São Paulistano.
00:56Eu nasci em uma época muito especial, em janeiro de 1942,
01:03em que o Japão e o Brasil tinham rompido suas relações diplomáticas e econômicas.
01:11O governo reconhece o estado de guerra entre o Brasil e as potências do eixo.
01:17Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra os países do eixo, como o Japão,
01:22imigrantes japoneses passaram a ser vigiados pelo governo brasileiro.
01:26Nascido no Brasil, filho de uma japonesa de família aristocrática e de um ex-soldado do exército japonês,
01:33Sato diz que nem mesmo o fim da guerra acabou com as tensões.
01:37Eu me lembro muito bem que os meninos da vizinhança, de pedras e pau na mão, gritando,
01:47Japinha, volte para casa. A sua casa não é aqui. O Japão perdeu a guerra.
01:53Meu pai veio do Japão recém-casado. Ele veio ao Brasil como diretor de uma empresa.
02:01Então, eu tenho uma memória da minha infância de conforto.
02:08Só comecei a me interessar pela política quando ingressei na faculdade em 1960.
02:17Em São Paulo, na Faculdade de Economia da USP, eu me formei em 1964.
02:24Em 1965, comecei a dar aulas na Faculdade de Economia e Administração da USP.
02:32E os alunos participaram dessas movimentações contra a ditadura.
02:40E, de repente, o aluno sumia, não é?
02:44Depois do golpe de 1964, muitas universidades como a USP se tornaram alvo da repressão.
02:50Eu iria visitar essas pessoas aprisionadas no DOPS e em outras integracias.
03:01Aí eu passei a ser seguido.
03:07Eu me senti ameaçado.
03:11E, em janeiro de 1970, eu aceitei essa bolsa de estagiário das Nações Unidas e me mudei para o Chile.
03:27Houve as eleições presidenciais no Chile.
03:32E ganha um socialista.
03:34Ganha Salvador, além de...
03:39Com motivo da votação produzida, o Congresso Pleno proclama Presidente da República
03:47ao cidadão Salvador Allende Costa.
03:51Se levanta a atenção.
03:52Aí eu fui trabalhar com a Allende.
03:55Fui trabalhar com a Allende.
04:02O governo Allende logo enfrentou turbulências.
04:05Na economia, o aumento agressivo de gastos públicos e um programa de estatizações
04:11levaram muitos empresários a boicotar o governo.
04:14Houve desabastecimento e grupos pró e contra Allende passaram a se enfrentar nas ruas.
04:24Antes do golpe, os patrões abandonaram as fábricas.
04:29Então ficou uma quantidade enorme de trabalhadores sem patrão.
04:34Eu propus o planejamento participativo.
04:38Aí o Allende me cedeu o aviãozinho a jato dele.
04:44A missão de Sato era fazer com que os próprios operários aprendessem a gerir as fábricas.
04:51Mas na manhã de 11 de setembro de 1973, Allende foi cercado pelas Forças Armadas do Chile.
05:12Diante da recusa de Allende em deixar o Palácio Presidencial, aviões da Força Aérea
05:18chilena passam a bombardear o edifício.
05:21Eu queria voltar ao Palácio de La Moneda quando, justamente nessa hora, estava sofrendo bombardeio.
05:30E os portões já estavam bloqueados.
05:32Eu queria estar lá junto com os ministros.
05:35Todos eles morreram, o próprio Allende.
05:38Se tivesse chegado cinco minutos antes, talvez os portões não tivessem bloqueados e entrassem para não sair mais.
05:47Às 14 horas, o Palácio é finalmente tomado pelo Exército e Allende é encontrado morto.
05:53Investigações conduzidas 40 anos depois daquele dia revelaram que ele se matou pouco antes da entrada dos militares.
06:04Iniciava-se ali um dos regimes mais violentos da história da América Latina.
06:09Uma ditadura conduzida pelo general Augusto Pinochet.
06:18Com o golpe do Chile, em cinco dias, passei por quatro situações de morte certa.
06:26Uma vez porque, na própria noite do golpe, eu fui sequestrado por um grupo extremista da direita.
06:36Estava me levando para a cordilha dos Andes.
06:40Não estava me levando para uma festa, não é?
06:43Estava me levando para um rave, não é?
06:46Certamente para me matar.
06:49Esses carros foram parados por um soldadinho.
06:53Vocês têm licença para sair da cidade? Não, não temos.
06:57Não, não pode sair.
06:59Aí me jogaram numa delegacia.
07:08As pessoas eram chamadas, se eu via um tiro fora da prisão, no pátio, e a pessoa não voltava.
07:19O que que você imagina?
07:23Que é chamado para ser morto, não é?
07:28Aí chega um ponto em que desce a escada.
07:31Puxa, dessa escada, encapuçado, não é uma boa sensação.
07:37Aí me tiram um capuz.
07:39Eu vejo um pelotão de fuzilamento na minha frente.
07:43Aparece um sujeito guardado e se apresenta.
07:48Vim aqui te interrogar.
07:52Mas por que eu, não é?
07:54Você é o assessor chinês do Allende.
07:58Acharam que o senhor era um agente do governo comunista da China.
08:02Exatamente.
08:04Eu sou brasileiro.
08:05Como é que eu sou brasileiro?
08:07E sou funcionário das Nações Unidas.
08:10Mentira.
08:12Daí um pouco ele volta.
08:14Começo a me chamar de doutor.
08:17De fato, o senhor está lá.
08:20Está lá um passaporte das Nações Unidas.
08:25Aí, ele me manda para casa.
08:34Aí, na noite seguinte,
08:37a polícia militar invade a casa de novo.
08:40tinha uns documentos importantes atrás da estante.
08:47Aí, um sujeito sobe na escadinha e espia lá dentro.
08:53E diz, olha, não tem nada aqui, não.
08:57era alguém da resistência que se mantinha dentro da polícia militar
09:06para tentar livrar a cara dos companheiros.
09:11Foi o próprio diretor da polícia militar que foi lá em pessoa.
09:24Aí, no dia seguinte, eu fui buscar o visto de saída
09:29para ir embora com o carro, com a minha mulher,
09:33um funcionário público de quarta categoria.
09:38Como é seu nome?
09:40Adhemar.
09:41Ih, você está aqui na lista.
09:43É o primeiro nome.
09:46Só vai para o Estado Nacional.
09:48Que era o lugar de execuções.
09:51Exatamente.
09:52Sabe o que acontece?
09:53Você vai acreditar porque eu estou te contando.
09:56O diretor passa no corredor.
09:58Aquele diretor que tinha me interrogado na noite anterior,
10:04que tinha invadido a minha casa, passa no corredor.
10:08Aí, eu dou um grito.
10:10Aí, ele volta.
10:13É, disse, não deu tempo de abordar seu nome.
10:17Foi ontem à noite, não foi?
10:19Falei, foi.
10:23Aí, vim embora.
10:25Pinochet presidiu o Chile de 1974 a 1990.
10:30Em 2011, uma comissão do governo chileno concluiu que no regime Pinochet,
10:35cerca de 40 mil pessoas foram torturadas ou presas por razões políticas.
10:40E cerca de 3 mil desapareceram ou foram mortas por agentes do Estado.
10:51Sato escapou de Pinochet, mas voltou a um Brasil que também ainda vivia uma ditadura.
10:58Denúncias de tortura, mortes e desaparecimentos políticos alimentavam pressões pela redemocratização.
11:04Abaixa a ditadura! Abaixa a ditadura!
11:07Começaram a chegar à Bahia os ecos do novo sindicalismo.
11:14Isso me atraiu para São Paulo.
11:17Eu passei a trabalhar com o planejamento participativo do Diese.
11:23Os operários emergiam como uma força política e se somavam à luta contra a ditadura.
11:29E me lembro muito bem do dia em que Lula fez aquele discurso em que se apresenta ao mundo no
11:40estádio da Vila Euclides.
11:42Aí começa uma outra etapa da história do Brasil, não é?
11:48Em março de 1985, a posse de José Sarney na presidência marca o fim da ditadura.
11:59Vim à Brasília porque um ex-aluno meu, João Saad, foi sem-ministro do primeiro governo civil.
12:10Aí vim trabalhar com o João Saad.
12:14Mas aos poucos a vida de Sato tomava outro rumo.
12:18Em parte, por conta de duas tragédias familiares anos antes.
12:22Eu perdi um irmão, por sinal, irmão único, que tinha cinco anos menos do que eu, que era médico, num
12:34acidente de carro.
12:36Mas no ano seguinte perdi meu filho único.
12:39Também de forma súbita, porque teve aneurisma cerebral.
12:44Ele ia completar oito anos.
12:47Aí caí numa depressão profunda.
12:56Eu morava no vizinho do templo simbudista de Brasília.
13:03Aí tinha um monge bem antigo, bem humilde, falando num japonês macarrônico.
13:13Ele dizia que a compaixão do Buda é algo parecido com o amor da mãe.
13:21Porque a mãe está sempre nos salvando.
13:25Você ia puxar a padela.
13:29Ia se queimar de forma grave.
13:32Quando a sua mãe vem correndo não sei de onde e te salva.
13:37Isso me chamou a atenção.
13:39E passei a estudar o Budismo.
13:41Aí passei a ser regente do templo.
13:43Faz quase 18 anos que Sato se aposentou do serviço público e foi diplomado como monge.
13:49Ele deixou de reger o Templo de Brasília em 2022, mas segue difundindo o Budismo em palestras e nas redes
13:55sociais.
13:56Hoje investiga-se a valores comuns a todas as culturas e religiões.
14:01Uma pesquisa que já o levou para aldeias indígenas no Acre.
14:04O mundo todo está em dificuldade.
14:09O mundo todo está chegando a um abismo.
14:16Está chegando a época de transformar as crenças religiosas e transformar as barreiras culturais.
14:26Aos 82 anos de idade, Sato também segue empenhado em falar sobre o passado, para que as histórias que ele
14:34viveu jamais se repitam.
14:36A democracia pode ser um sistema imperfeito, mas enquanto não aparecer um sistema humano que seja mais perfeito,
14:49é a democracia que vale ditadura nunca mais.
15:10Eu acho que posso morrer a qualquer momento.
15:14E o senhor tem medo da morte?
15:16Não, não.
15:19As folhas dessa árvore envelhecem, caem e morrem, mas não morrem.
15:28As folhas que caem servem de alimento para o novo ciclo de vida.
15:36Porque você pode renascer. Por que não?
15:39Os bichinhos que estão aqui, não é?
15:41Os bichinhos que estão aqui, não é?
15:42Que me amam, não é?
15:43Pode ser renascimento de outros seres do passado ou podem renascer no futuro como outros seres.
15:52Por ter passado por várias situações de morte, eu até penso na auto-morte.
16:02Por que que estou vivendo?
16:04O que me segura é que eu não tenho certeza se eu passei na plenitude essa minha vida aqui na
16:21Terra.
16:21Então, estou deixando que a vida continue.
16:26Tchau.
16:27Tchau.
16:29Tchau.
16:30Tchau.
16:31Tchau.
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