00:03A atriz, produtora, cantora, poeta, porque ela gosta de ser chamada desse jeito,
00:10escritora e grande homenageada da 30ª edição do Festival de Cinema de Vitória.
00:15A HZ, maior portal de cultura e entretenimento do Espírito Santo,
00:19em parceria com o movimento, conversou com a Elisa Lucinda.
00:22Ela falou sobre carreira, papéis no cinema e na televisão
00:26e deixou um grande legado de amor pela terra, do Espírito Santo e pela nossa cultura.
00:33Vem com a gente que está muito bacana.
00:34Elisa, como é receber uma homenagem no Festival de Cinema de Vitória?
00:38Tem muita graça fazer sucesso nacionalmente,
00:40mas a graça de ser reconhecida pela sua panela de barro,
00:45ainda mais para mim que sou capixabista,
00:48é um acontecimento emocional imenso.
00:53Uma das coisas que eu queria e não sabia se eu ia conseguir,
00:56mas eu queria muito, era ser um dia em orgulho capixaba.
00:59E eu acho que a gente, nós capixabas,
01:03temos que levar o Espírito Santo no peito.
01:07Levar o Espírito Santo no peito.
01:10Quando a gente se encontrou no Rio de Janeiro,
01:13há um ano, você lembra, né?
01:15Lembro.
01:16Aí eu falei, Elisa, vem cá, eu quero fazer uma matéria com você.
01:19Aí você falou, olha, eu tenho um monte de projeto novo por aí
01:23que vai bombar, que vai pocar.
01:25E um deles, certamente, ela fez mistério.
01:29Foi Vai na Fé.
01:31Você esperava o sucesso da novela de Rosane Svart?
01:35Trabalhei arduamente para viver isso.
01:37O que aconteceu em Vai na Fé é que 80% do elenco é negro.
01:41Só isso já faz ruf na subjetividade brasileira.
01:45Minha família era uma família negra protagonista,
01:47então as pessoas se viram ali.
01:50Então as mulheres começaram a aparecer nos meus olhos,
01:52a falar comigo na rua,
01:54e a ficar animada e acompanhar.
01:56Quando tirou a peruca, quando falou da alopécia,
01:59quando arranjou um namorado,
02:01quando ela foi trabalhar fora,
02:03ela evoluiu na trama.
02:05E casou.
02:06A novela prestou uma grande homenagem
02:09com um sarau poético
02:13à poeta Elisa Lucinda.
02:18Eles leram...
02:19A Renata Sorrá leu A Porta do Sonho.
02:21A Renata Sorrá que leu.
02:23Isso mesmo.
02:23O poema tem, entre outros questionamentos,
02:29o valor do sonho.
02:30Eu queria saber quanto custa um sonho de Elisa Lucinda.
02:33Eu acho que o sonho, pra mim,
02:36ele sendo realizado,
02:39desmancha as dores da espera.
02:42Você é uma das atrizes mais queridas de Manuel Carlos.
02:47Ele te deu grandes papéis.
02:50Você foi pérola e mulheres apaixonadas
02:55e foi Selma em Páginas da Vida.
02:58Selma tinha uma particularidade,
03:00era uma médica negra
03:02numa época,
03:04né, entre passagem dos anos 90 e 2000.
03:07E que você não via na TV.
03:08E que você não via na TV.
03:09Foi uma delícia fazer
03:11Mulheres Apaixonadas,
03:12ex-mulher do Tony Ramos,
03:14mãe da Camila Pitanga,
03:16uma cantora,
03:17um papel nobre.
03:19E a médica negra?
03:20E a médica.
03:22Eu banquei,
03:23porque o visagista não queria,
03:26o paisagista lá das pessoas,
03:27o caracterizador.
03:29Não queria que eu alisasse,
03:32porque eu ia ser médico,
03:33eu disse, explique-se.
03:34Você se mudou pro Rio 86,
03:36não foi isso, Elisa?
03:37Foi.
03:37E eu queria saber
03:38o que você levou
03:39de bagagem do Espírito Santo.
03:41Eu fui pro Rio de Janeiro
03:44querendo que o Rio de Janeiro
03:45me desse o que aqui não tinha.
03:48Basicamente eu queria viver da minha arte
03:50e eu achava que o Rio de Janeiro
03:51ia me dar isso.
03:53Mas eu achava que o Rio de Janeiro
03:55ia me dar mais do que isso.
03:56que o Rio de Janeiro ia me dar
03:58um saber que eu não tinha,
04:01porque minha cidade era pequena.
04:03Eu botava,
04:04eu clareava os pelos das pernas
04:06como se fazia no Posto 9
04:08e era um chique,
04:09isso era o charme da parada.
04:12E aqui era,
04:12nossa, que perna cabeluda.
04:14Então,
04:14como eu tinha estudado aqui,
04:19Grotovski,
04:21Stanilavski,
04:23o nosso grupo,
04:25o Fantasia de Açúcar,
04:26composto por Antônio Claudino Jesus,
04:29Magno Godoy,
04:30Margarete Taquete,
04:32Zanandreva,
04:33assim,
04:34e eu.
04:35Era um grupo
04:37muito atuante,
04:39a gente fazia criação coletiva,
04:41estudava,
04:42nosso grupo chamava
04:42Fantasia de Açúcar.
04:43Então,
04:44nós não éramos bobos,
04:46estudávamos,
04:47mas eu achava que o Rio de Janeiro
04:48só tinha
04:50o conhecimento top do top do top
04:52que ia me dar.
04:53Você ama Itaúnas?
04:55Você diz que se reenergiza,
04:57que vai lá sempre quando pode,
04:58passa suas férias.
05:00Fala um pouco da ligação
05:01que você tem com Itaúnas.
05:03Tá,
05:04Itaúnas é meu porto seguro,
05:07minha utopia,
05:09meu canto,
05:10meu sonho sonhado
05:12e plantado.
05:14É uma casa,
05:15é um pomar.
05:16Eu moro lá
05:17num pomar.
05:18Lá a minha poesia mora.
05:20Você é casada
05:21com um homem
05:2130 anos mais jovem,
05:23o fotógrafo Jonathan Estrela.
05:24As pessoas perguntam,
05:26mas você é casada
05:27com um homem mais jovem?
05:28Já aconteceu
05:29duas vezes,
05:31pelo menos,
05:31uma vez em Portugal
05:32e outra aqui,
05:33que a mulher falou,
05:34olha,
05:35seu filho está lindo.
05:37Aí eu falei assim,
05:38ele não é meu filho, não.
05:39O que ele faz comigo,
05:41filho não faz,
05:42com mãe, não.
05:43Falei bem safada
05:44para ela levar um susto,
05:47desorganizar o que é,
05:48porque ninguém
05:48peça pergunta
05:49para um homem
05:50que está com a menina
05:51que parece que é neta dele,
05:52entende?
05:53Então acho que tem
05:53uma coisa para se pensar.
05:55O que eu quero dizer
05:56é que o etarismo
05:57também está sem lugar
05:59no mundo.
06:00Pouco se fala
06:02da mulher
06:03na fase da menopausa.
06:05Ainda tem esse tabu?
06:07Hoje,
06:08diminuiu muito,
06:09porque a mulher
06:09tem muitos recursos,
06:11né,
06:12ginecológicos,
06:14reposição hormonal,
06:16enfim,
06:17tem vários modos
06:18de você
06:20acionar
06:20a sua
06:24sexualidade
06:24de uma maneira
06:25moderna,
06:26porque
06:26isso é uma ilusão,
06:28né,
06:28de que passa
06:29o fogo pelo outro,
06:31acho que não passa
06:32nunca o desejo
06:33do outro.
06:33Eu vou soltar
06:34uma pergunta
06:35e você vai dizer
06:36o que vier na tua cabeça
06:37e o porquê.
06:39Muqueca
06:39ou torta capixaba?
06:41Torta.
06:41Por quê?
06:42Porque é uma coisa
06:43que eu como gelada,
06:45eu como quente,
06:46eu como de qualquer jeito,
06:47de manhã,
06:48no café da manhã,
06:49eu sou apaixonada
06:50por torta capixaba.
06:50Região de praia
06:51ou região de montanha
06:52no Espírito Santo?
06:53E por quê?
06:54Praia.
06:55Porque eu sou litorânea,
06:57eu sou litorânea,
06:58eu preciso saber
06:58que o mar está aqui.
06:59O rock,
07:01só capixaba entende
07:02essa palavra,
07:02certeiro pra se fazer
07:04no Espírito Santo.
07:05Cara,
07:05vou te falar
07:06que é imperdível pra mim
07:07o forró,
07:09pé de serra,
07:10raiz.
07:12O que acontece
07:13fora da temporada
07:15de Taunas,
07:16é esse que eu amo.
07:17A cultura capixaba
07:19é o quê
07:20pra Elisa Lucinda?
07:21É uma mistura
07:22muito particular,
07:24é feita na panela
07:25de barro,
07:25continua fervendo,
07:27mesmo depois
07:28do fogo
07:30aparentemente apagado.
07:32Tchau,
07:33tchau.
07:34Tchau.
07:35Tchau,
07:36tchau.
07:37Tchau.
07:38Tchau.
07:38Legenda por Sônia Ruberti
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