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00:02Olá, boa tarde, eu sou Letícia Gonçalves, colunista de política de A Gazeta e hoje
00:08de Internacional das Mulheres, eu estou aqui para falar de um assunto que não necessariamente
00:13está ligado diretamente à política partidária, parlamentares, mas gente, quase tudo ou tudo
00:21na vida é política e nesse Dia Internacional das Mulheres o tema política para as mulheres
00:27ganha ainda mais relevância e um outro assunto também que talvez vocês tenham visto aí
00:33nas redes sociais ou em títulos de reportagens, alguns termos começaram a ganhar notoriedade
00:38nos últimos dias, ainda antes do Dia Internacional das Mulheres, mas isso nos motiva a tratar
00:45disso, especialmente hoje, né, pela data, que são os termos machosfera, red pill, o que
00:52que é isso, que gente é essa, por que as pessoas estão falando disso agora, isso é novo,
00:57não é, eu perdi alguma coisa, onde isso está acontecendo, por que eu tenho que saber
01:02sobre isso?
01:03São perguntas que talvez você se faça, que eu também me fiz e aí fui pesquisar sobre
01:07o assunto e a gente trouxe uma pessoa aqui que vai saber explicar melhor do que eu e do
01:12que as coisas que eu pesquisei no Google, eu acho, que é a professora do mestrado profissional
01:18em psicologia e políticas públicas da Universidade Federal do Ceará, Natália Marques, ela está
01:26com a gente ao vivo, está diretamente lá de Fortaleza, a gente está aqui, eu estou
01:31aqui na Rede Gazeta em Vitória, a professora está lá em Fortaleza, mas vai falar com a
01:36gente aqui possibilidades que a internet nos proporciona, embora também, né, a internet
01:41e as redes sociais, você pode estar vendo aí essa live no Instagram, também proporciona
01:44espaço para outras coisas menos legais, e é justamente disso que a gente vai falar
01:49agora.
01:49Boa tarde, professora.
01:52Boa tarde, Letícia.
01:55Então.
01:55Obrigada pelo convite, primeiramente, boa tarde a também quem está nos ouvindo.
02:01Então, o que é isso, professora?
02:03O que é esse negócio que as pessoas estão falando agora de machosfera, red pill?
02:07Quem é red pill?
02:09Quem faz parte da machosfera é o quê?
02:11Quem são essas pessoas?
02:12O que eles estão fazendo?
02:13E por que isso ganhou relevância?
02:18Letícia, é importante a gente entender que, embora esses termos novos, né, estejam
02:23aparecendo, a gente está falando de um fenômeno que não é recente, né?
02:27Então, todos esses novos grupos de discutindo masculinidade, a partir dessa perspectiva de
02:34retomada de um ideal de imperialidade, de um homem que tem que se mostrar como aquele
02:39homem provedor, homem forte, e resgatando aquele referencial de uma mulher como alguém
02:46que está sempre numa condição de subalternidade em relação à figura masculina, é um referencial
02:53patriarcal que já data de 5 mil anos, né?
02:55Então, quando a gente fala de uma cultura patriarcal, a gente está falando de um conjunto
03:00de práticas, de ideias, de valores, de formas de organização sociais, que já
03:06tem 5 mil anos e que vão se ganhando novos contornos, né, vão ganhando novas aparências
03:12e novos jeitos de se estruturar, dependendo das mudanças sociais, econômicas, políticas,
03:19ideológicas, que cada cultura vai sofrendo.
03:22Então, embora a gente esteja vendo aí uma atualização nesses termos, isso aí não
03:26tem nada de novo, isso é o que a gente pode chamar de misoginia, ou seja, o repúdio
03:32ao que é feminino, ao que é originalmente atrelado à figura da mulher.
03:38Então, gente, são pessoas, esses red pills estão aí na machosfera, são grupos, tem
03:44grupos aí fechados no Facebook, tem no Instagram, no WhatsApp, eles estão aí falando coisas,
03:49digamos, que menosprezam as mulheres.
03:52Ah, Letícia, mas que coisas, é, isso é mimimi de vocês, é porque não é com
03:55vocês, mas ó, as coisas são tipo assim, é, abre aspas, né, isso aí é o que um desses
04:02caras está falando nesses grupos aí.
04:04O propósito do homem é sempre acima do propósito da mulher, fecha aspas.
04:09Esse tipo de coisa.
04:11E num incentivo, assim, de que não se deve, que os homens não devem ter relações afetivas
04:15com as mulheres, porque as mulheres não são dignas de afeto, porque elas são inferiores
04:19aos homens, de acordo aí com essa cultura que está aí no submundo da internet, nem
04:25tão submundo assim, né, porque embora muita gente participe desses grupos anonimamente,
04:30tem quem mostra o rosto e até fatura dinheiro com isso, porque é coisa que atrai, né, tem
04:36gente que gosta de ver esses vídeos, né, professora.
04:39E aí a gente está falando até de uma, de um nicho econômico, né, para ganhar dinheiro
04:43com visualização, com engajamento em vídeos, com cursos para conquistar mulheres.
04:49Engraçado que eles não querem se relacionar afetivamente com mulheres, mas eles querem
04:52conquistar as mulheres.
04:53De onde vem essa lógica que, embora esses termos sejam novos, como a senhora afirmou,
04:59professora, de onde vem essa lógica que já é antiga?
05:01Por que isso?
05:04É, então, quando a gente vai estudar a história de construção da pessoa humana, né, porque
05:10a gente nasce, mas a gente se torna pessoa conforme a gente vai se socializando, né,
05:15desde, inicialmente, só na nossa família, depois nos nossos grupos cada vez mais ampliados,
05:21nossos amigos, nossa escola.
05:22Então, a nossa história de socialização, que nos constrói como a nossa, como pessoa
05:27que somos, ela é muito diferente a depender do sexo que nascemos.
05:31Então, se a gente nasce uma menina, se a gente nasce com uma vagina, a gente é muito
05:36estimulada a ter aquele referencial de docilidade, de feminilidade, de cuidado, de domesticidade.
05:44Se a gente nasce como um menino, tendo um pênis, a gente é muito estimulada a ter aquele
05:49referencial da virilidade, é estimulada ao ambiente externo, muito mais do que ao doméstico,
05:55é estimulada a agressividade, muito mais do que a passividade, a docilidade.
06:00Então, a nossa constituição de personalidade, mesmo de jeito de ser, ela varia muito a
06:06depender do que a nossa cultura espera de nós em função do nosso sexo.
06:11Então, nessa história de socialização, homens, eles são desenvolvidos, eles são
06:16estimulados a se mostrar como homens, quanto menos eles forem afetuosos, quanto menos eles
06:24forem doces, quanto menos eles forem frágeis.
06:28Ou seja, tem uma pesquisadora chamada Valência dos Anelos que ela diz, ser homem, ela resgata
06:33essa frase, ser homem é não ser uma mulherzinha.
06:37Então, esse referencial de repúdio a tudo que faz uma referência à mulher, a tudo que
06:43marca, o que designa uma mulher, é o que a gente chama de misoginia, é constituinte, é
06:51estruturante do processo de socialização de homens.
06:54Tanto é assim que são muito mais reconhecidos e validados aqueles homens que são mais viris,
07:01já aqueles homens que são, demonstram mais fragilidade ou mais docilidade, ou até mesmo
07:06mais feminilidade, como por exemplo, por exemplo, gays afeminados, são aqueles homens que vão
07:12sofrer mais repúdio das masculinidades.
07:15Então, essa chamada machosfera, né, esse âmbito em que os homens, eles estão constantemente
07:22avaliando outros homens, isso acontece desde muito cedo, desde a primeira infância.
07:28Então, os meninos que estão ali na rua e nos grupos, muito antes das meninas, porque
07:33enquanto a gente ganha um pequeno bebê para cuidar, os meninos ganham uma bola para
07:38chutar na rua, né, então enquanto esses meninos estão nesses grupos muito antes de
07:42nós, eles estão lá a todo instante tentando provar um para os outros o quão viris eles
07:48são.
07:48E essa virilidade, mesmo antes da puberdade, sempre nessa perspectiva de demonstrar que
07:54ele não é uma mulherzinha.
07:56Então, essa misoginia, ela é estruturante, ela é fundante do que se torna o ser homem na
08:02nossa sociedade ocidental, não estou falando só de Brasil, mas o que os estudos de gênero
08:07mostram é que isso é compartilhado pelas mais diversas culturas, ela vai ganhar certas
08:13características a depender do país e da subcultura específica, mas essa dimensão, ela é compartilhada
08:20no mundo ocidental.
08:22Então, essa misoginia, ela vai ganhando essas características e ela vai atualizando pensamentos
08:29que são arcaicos.
08:31Então, você citou aí uma frase de um homem sobre a mulher ser inferior, eu até olhei
08:36aqui, que estava com um livro aqui do meu lado, que essa frase é exatamente igual a uma
08:41frase de Aristóteles, né, e eu quero citar aqui Aristóteles dizendo, né, o homem é por
08:47natureza superior, e a mulher é inferior, um domina, a outra é dominada, esse princípio
08:55necessariamente se estende a toda a humanidade, isso é Aristóteles falando, veja como a gente
09:02volta e atualiza pensamentos que são extremamente arcaicos, e lembrando que Aristóteles está
09:07falando essa frase num contexto que ele estava utilizando a verdade, porque aquilo era tomado
09:14como uma verdade inquestionável de que a mulher era inferior, então ele partiu dessa premissa
09:19inquestionável de inferioridade da mulher, para justificar a escravidão.
09:26Então, veja como naquele momento a mulher era menos reconhecida na sua humanidade, até
09:32mesmo do que pessoas que naquele momento eram escravizadas.
09:36Então, esse processo de retomada de consciência, né, de criação de uma consciência de que
09:44a mulher, ela é uma pessoa humana, ela é bastante recente.
09:48Então, a gente é produto dessa cultura que desumaniza mulheres há 5 mil anos, né, se
09:54a gente for datar a história do patriarcado.
09:56Então, só muito recentemente, mulheres foram conquistando direitos civis, direito à inserção
10:03no mercado de trabalho, e direitos econômicos, né, direitos sociais, garantindo leis de
10:09preservação à sua vida, e nesse processo de mudança cultural, ele não aconteceria
10:14sem nenhum tipo de resistência.
10:16Então, hoje a gente pode pensar nesses grupos masculinistas, né, que pregam essa retomada
10:22de um fortalecimento desse ideal de superioridade do homem ao feminino, como uma resistência a
10:30um processo cultural que está em mudança, mas uma vez que uma mente se abre, ela jamais
10:35volta ao mesmo lugar, né.
10:37É, só para contextualizar aqui, digamos, essa atualização aí, né, desses conceitos
10:43que a senhora já buscou até em Aristóteles, para mostrar que são bem antigos, nesses grupos
10:47aí, de Red Pill, na machosfera, eles usam alguns homens como exemplos de o que é um verdadeiro
10:54homem viril, né, um homem que eles admirassem, assim, mas normalmente são personagens fictícios.
11:00E aí, o curioso, ou até assustador, é que um desses personagens aí que eles admiram
11:06é o protagonista do filme Psicopata Americano.
11:10Eu nem assisti a esse filme, mas bom, pelo nome você já vê que não parece uma boa ideia,
11:15assim, você se inspirar no protagonista de Psicopata Americano.
11:20E aí, tem gente que até chega a questões, assim, de violência mesmo.
11:27A gente até estava conversando antes aqui, da transmissão da live, que muita gente acha
11:30que violência é só violência física, né, só se a pessoa te bater, se a pessoa te
11:34matar, mas existem outros tipos de violência que quem é mulher sabe muito bem, algumas
11:40são veladas, é até difícil de você se impor, né, no contexto em que a gente vive,
11:46né, porque se uma pessoa te dá um tapa, você vai na polícia, né, a pessoa atira em
11:50você, ninguém vai te contradizer que você foi vítima de uma violência.
11:54Mas quando você sofre uma violência psicológica, ou, enfim, a professora vai saber explicar
11:59melhor que eu, é mais difícil, às vezes fica até num campo subjetivo e tem muita gente
12:03que não reconhece aquilo como violência, às vezes nem a própria vítima.
12:06E aí, nesses grupos aí que a gente está falando, esse negócio da machosfera, tem
12:10muita violência contra a mulher, sim.
12:11Primeiro que você dizer que a mulher é inferior ao homem já é uma violência, porque como
12:16que você pode rebaixar dizer que um ser humano é inferior ao outro?
12:19E a gente, se isso já nos espanta no tempo de Aristóteles, imagina o plano 2023.
12:25E a gente tem muito disso, e tem coisa que às vezes extrapola, vai pro campo físico,
12:30né, os incels, celibatários, involuntários, por exemplo, são muito adeptos da violência
12:37mesmo, de que as pessoas, né, inclusive já aconteceu um caso, lembra agora o ano, em
12:42Toronto, no Canadá, que a comunidade incel é mais forte, um homem foi, atacou a esma,
12:49assim, mulheres, né, essas pessoas que às vezes cometem assassinatos em massa, e ele fez
12:54isso motivado por essa ideologia incel, ou seja, esse outro tipo de violência em si
13:00já é perigoso, já é errado, mas às vezes descamba até para a violência física, que
13:05em geral as pessoas consideram grave.
13:07Como é que é isso, professora?
13:10É, Letícia, há muitos pontos a comentar, mas eu quero começar por esse último tópico
13:15que você falou aí, né, sobre essa liberdade que as pessoas têm de se juntar em grupos
13:21e dizer aos quatro ventos discursos de ódio e, de fato, motivar ações violentas como essa,
13:29né, então, assim, culturas mais liberais, elas tendem a ter muito apego à dimensão
13:36das liberdades individuais, que inclui aí a liberdade de expressão, mas isso não pode
13:41se colocar, né, em oposição das liberdades de outros, né, então, por isso eu vejo a
13:48importância do que está tramitando agora como um projeto de lei, o projeto de lei
13:52número 914, de 2023, que foi proposto originalmente pela professora Valesca Zanello,
13:58da UNB, que também é uma pesquisadora de gênero, e a proposta é tornar a misoginia
14:03um crime, assim como é o crime de racismo, o crime de homofobia, que misoginia também
14:10seja incluído aí nessa, nesse mesmo, nessa mesma tipificação de crime.
14:15Então, é, nesse momento em que a política pública, ela é inserida como uma ferramenta
14:21importante de barrar essas organizações violentas, porque a gente não está falando
14:26de liberdade de expressão aí, a gente está falando de promoção da barbárie, né,
14:31Então, esses grupos, na verdade, eles se voltam para o dizimar o corpo, a existência
14:40feminina.
14:41E aí, quando algumas falas são colocadas desse jeito, né, sobre a superioridade dos
14:46homens, embora, assim, para alguns pareça uma coisa meio bizarra e ridícula, né, e
14:52talvez a maioria dos homens que a gente conheça, eu espero, olhe para esse tipo de fala e diga
14:58assim, nossa, mas isso é um maluco, isso não tem nada a ver com a gente, é importante
15:03um outro ponto que você destacou, que é o das violências mais sutis.
15:08Então, o que a gente vê, na maioria das vezes, nem são esses discursos mais extremados,
15:13o que a gente vê, na maioria das vezes, o que a gente vê nas nossas relações cotidianas,
15:18que a gente vê quando a gente atende na clínica, são as violências cotidianas sutis.
15:24E aí, você falou lá, quando a gente fala de violência contra a mulher, as pessoas pensam
15:28só na violência física.
15:30Então, é importante destacar que, quando a gente fala de violência contra a mulher,
15:34a gente está falando de violência física, de violência moral, de violência psicológica,
15:39de violência patrimonial, de violência tecnológica.
15:42A gente pode apontar sobre dimensões de violência que algumas já estão, inclusive,
15:47tipificadas pela própria Lei Maria da Penha, como essas que eu acabei de mencionar,
15:52e outras a gente ainda poderia falar sobre elas, embora formalmente o direito ainda não
15:59descreva nesses termos, né?
16:01Mas o que coloca todas elas em comum é a condição de controle e manipulação
16:08da mulher e das meninas por parte de homens.
16:11Esse controle, Letícia, às vezes ele acontece tão sutilmente que ele pode aparecer como
16:18uma forma de carinho, né?
16:20Ou um cuidado muito amoroso e muito exacerbado, ou uma proximidade muito preocupada, né?
16:28E, na verdade, não tem a função de controle.
16:31Então, isso é importante ser dito.
16:33Mesmo que tenha a cara de um carinho, de um cuidado, de uma preocupação,
16:39é importante a gente estar atento para a função daqueles comportamentos.
16:43Então, se a gente está falando de comportamentos que têm a função de controlar e manipular
16:48as liberdades individuais de uma mulher, a gente está falando de abuso.
16:52E aí, se a gente pensa nesses termos, é muito difícil a gente ver um homem que não comete
16:59ou nunca comete a mulher.
17:02E por esse motivo é tão importante a gente discutir as masculinidades.
17:07Por esse motivo é tão importante que os homens estejam se repensando.
17:11Mas que eles façam isso em contextos, em ambientes sociais.
17:16E tem um pensamento de igualdade, né?
17:20Que é o que a gente está falando aqui.
17:22Então, quando a gente fala de feminismo, a gente não está falando de um ideal
17:26de colocar as mulheres em um poder, um patamar de superioridade em relação a homens.
17:32Muitas pessoas acreditam que é isso.
17:34E é importante esclarecer, feminismo não é isso.
17:37Feminismo é uma busca de igualdade.
17:39Feminismo é um posicionamento político que nos leva a buscar,
17:44a lutar pela igualdade em relação a homens e mulheres.
17:48Para que a gente tenha direito a acesso, a recursos, a oportunidades, a lazer, a esporte, a ambientes e a
17:57status e a reconhecimento
17:59da mesma forma, na mesma proporção que homens sempre tiveram e continuam tendo a mais do que nós.
18:06Então, o feminismo não tem a ver com mulher querer ser maior do que homem.
18:11Feminismo tem a ver com mulher querer lutar pelo reconhecimento da sua humanidade.
18:17Porque quando a gente fala de controle das liberdades, a gente está falando de metade da população
18:25que não está tendo o seu direito humano fundamental, reconhecido pela ONU como direito humano fundamental,
18:32respeitado, que é o direito à liberdade.
18:34Então, se a gente não está tendo um direito humano fundamental, respeitado,
18:39então a gente não está sendo tratado como seres humanos que somos.
18:42Essa é a nossa briga, a nossa disputa, a nossa luta e o nosso desejo.
18:48Por ocasião disso, professora, eu me recordei agora, uma vez eu vi à venda na internet uma camiseta
18:53que dizia assim, feminismo é a ideia radical de que mulheres são pessoas.
18:58E é basicamente isso.
19:00Muita gente acha que o feminismo é uma espécie de machismo, né?
19:05Que o feminismo prega a favor das mulheres e o que o machismo prega a favor dos homens.
19:10Ou que esses movimentos aí da machosfera são uma resposta ao feminismo
19:16no sentido de que o movimento feminista estava tentando subjugar os homens
19:22e aí os homens organizaram esse movimento aí, graças à internet, se juntaram
19:27para poder subjugar as mulheres para que eles não sejam subjugados,
19:31como se fosse uma luta de uma pessoa tentando acabar com a existência da outra,
19:36tirar os direitos da outra, como se o fato de as mulheres, por exemplo,
19:39poderem ocupar espaços no mercado de trabalho fosse impedir os homens
19:42de ocupar espaços no mercado de trabalho.
19:44Homens e mulheres trabalham, os homens não estão trancados em casa
19:48porque a gente está trabalhando.
19:50E mais, tem homens que reagem de uma forma como se isso fosse uma ameaça a eles.
19:56E de fato é, né?
19:58Porque eles estão numa condição de privilégio há muito tempo.
20:01Então, quem está em condição de privilégio reage a perder seus privilégios, né?
20:07Mas a gente está falando, quando a gente fala de privilégio,
20:10privilégio significa que alguém está pior.
20:13E a gente não acredita que alguém tem que estar pior.
20:16A gente acredita que todo mundo tem que estar bem, né?
20:19Então, essa questão de colocar essa resistência como
20:26ah, mas você também luta pelos seus direitos, então a gente está fazendo igual,
20:29é importante a gente quebrar essa falsa simetria.
20:32Esses grupos, né, de Red Pill, Incel, San Machosfera,
20:37esses grupos, eles não são equivalentes, não há simetria
20:41entre essas organizações sociais e movimentos feministas.
20:45Por que não?
20:46Importante esclarecer.
20:47Porque enquanto esses grupos masculinistas, eles estão tentando destacar,
20:53revisar, reafirmar esse referencial de desigualdade,
20:58que é o referencial de que o homem, ele é superior à mulher e a mulher,
21:02aí a mulher cabe à posição de submissão,
21:05o feminismo, ele está tentando desenvolver, promover um referencial de igualdade.
21:12Ninguém está acima de ninguém.
21:14Então, não há simetria entre esses dois tipos de organização social.
21:19O que a gente tem aí é uma resistência de um grupo
21:22que sempre foi privilegiado e quer continuar sendo.
21:27E aí, algumas vezes eu vejo também, Letícia,
21:30quando está, especialmente quem está assim no campo de debate de políticas públicas,
21:35às vezes a gente pensa em políticas públicas de reparação histórica, né?
21:40Como, por exemplo, a política pública de reparação histórica,
21:43que é muito conhecida, é a política de cotas raciais.
21:46Então, quando a gente pensa e debate em políticas de reparação histórica para mulheres,
21:52tem sempre alguém que diz assim,
21:53ah, mas isso é muito injusto.
21:55Afinal de contas, assim, a gente tem que dividir igualmente, né?
21:59A gente tem que ter as mesmas oportunidades,
22:02não é isso que vocês querem, não é igualdade?
22:04Então, por que vocês estão propondo isso?
22:06E aí, eu vou aproveitar aqui o momento para fazer um pequeno exercício de reflexão aqui, né?
22:12Então, vamos imaginar que uma família, ela tenha dois filhos,
22:17não importa o sexo,
22:18mas para um desses filhos foi dado 10 reais de mesadinha semanal.
22:27Enquanto para outro desses filhos foi dado um real de mesadinha semanal.
22:32Mesada não, mesada é mensal, né?
22:34De dinheirinho semanal.
22:37Um real, 10 reais.
22:38Imagina que essa diferença perdurou por uns 15 anos,
22:43até eles começarem a entrar mais ou menos ali naquele período de passagem da adolescência, tá?
22:48E aí alguém chega e diz assim,
22:50poxa família, que coisa injusta,
22:53vocês têm dois filhos,
22:54mas vocês dão a esse primeiro um acesso à economia
23:0110 vezes maior do que esse segundo,
23:04isso é muito desigual, isso tá errado.
23:06E aí a família reconheça,
23:08que a apologia, a metáfora que eu tô fazendo da família é a cultura,
23:12é a sociedade.
23:13Olhe para isso e reconheça, é verdade, a gente tá fazendo errado.
23:17Vamos passar a fazer diferente.
23:19A gente agora quer igualdade.
23:20E aí a partir desse dia, essa família começa a dar 10 para os dois.
23:25Muito bem, aí eu pergunto,
23:27os dois estarão nas mesmas condições agora,
23:30que estão sendo igualmente remunerados?
23:33Não, eles não estarão.
23:35Por quê?
23:36Porque durante 15 anos,
23:37esse primeiro teve muito mais condições de acesso a recursos,
23:41e com isso a lazer,
23:42e com isso a esporte,
23:44e com isso a experiências externas,
23:46e com isso acesso a um monte de outras condições,
23:50que essa segunda pessoa não teve o mesmo nível de oportunidade.
23:54Então as políticas de reparação histórica
23:57não tem a ver com promover desigualdade,
24:00tem a ver com criar condições estruturais
24:02para que a gente que tá tão abaixo,
24:05tão desigual nessas condições,
24:08esteja mais ou menos equivalente.
24:10Aí sim, quando a gente tiver a longo prazo
24:13pensando numa inserção social
24:17programada nesses níveis,
24:18a gente vai começar a pensar em igualdade.
24:21Então nem igualdade ainda é um objetivo factível,
24:25e ainda assim é um objetivo questionado.
24:28Então a gente ainda tem muito a conquistar,
24:31é sempre importante de debater,
24:33o feminismo não está morto,
24:35o feminismo não é uma pauta antiga e desnecessária,
24:38é uma pauta urgente.
24:40A gente vê agora que ainda esse mês de março,
24:43acabou de ser aprovada a lei que permite
24:48que a chamada ligadura de trompas
24:50possa ser realizada sem a necessidade
24:53de consentimento do parceiro amoroso.
24:56Então o que a gente tá falando?
24:57A gente tá falando que até agora,
24:59março de 2023,
25:01o potencial reprodutivo de mulheres,
25:04o seu direito ao corpo,
25:05o seu direito a tomar decisões em relação ao próprio corpo
25:10dependia da aprovação de um homem.
25:13Então o feminismo não só não é uma pauta antiga,
25:16como ela é atual e ela é urgente.
25:19Professora, a gente tem aqui pouco,
25:21a gente tem cinco minutos só pra fechar aqui a nossa live.
25:24Eu queria só completar aqui,
25:26brevemente ilustrar uma situação
25:28que a gente falou anteriormente sobre violência,
25:29que pode ser física, psicológica, moral e tal.
25:32E esses dias repercutiu um caso aí
25:34de um cara que se apresenta como coach de masculinidades
25:37e ele dá lá umas dicas de como o cara ser mais viril
25:40e conquistar mulheres,
25:41ou seja, sendo mais homem das cavernas
25:45e menos homem civilizado,
25:46ele acha que isso vai atrair mais as mulheres
25:47e menos prezão das mulheres que não gostam desse tipo de cara,
25:50enfim.
25:50E aí uma atriz foi e ironizou essas dicas dele,
25:53falando, olha, isso não vai dar certo,
25:55usou ali algum humor,
25:57ridicularizou um pouco as dicas lá que ele deu.
25:59Mas enfim, aí, né, no direito dela de liberdade de expressão,
26:03nesse caso.
26:04Só que ele ficou muito bravo,
26:05porque não gostou de ter sido criticado
26:08e mandou uma mensagem privada pra ela dizendo
26:10ou você remove esse vídeo,
26:12ou é processo ou bala.
26:14E aí ela o denunciou,
26:15fez lá um boletim de ocorrência,
26:16porque isso é uma ameaça de morte.
26:18E aí depois que isso veio, né, a público,
26:20ele falou, não, quando eu falei bala,
26:22não tava falando de matar.
26:23Não sei se ele então tava querendo dizer
26:24que ia processá-lo ou mandar doces pra ela, né,
26:27balas, enfim.
26:27Mas a existência desse coach de masculinidade
26:31e dessas dicas pra conquistar mulheres
26:33parece que atrai muito um público de homens
26:35que se sentem rejeitados.
26:36E é esse público que vai na onda desses caras,
26:39esse coach aí,
26:39tá ganhando dinheiro com isso,
26:40com esses cursos,
26:42com engajamento nas redes sociais dele e tal.
26:44Porque eu acho que, me parece que, assim,
26:45homens que não estão conseguindo se relacionar bem,
26:48afetivamente ou sexualmente,
26:50acabam indo nessa e se radicalizando.
26:53A senhora que é da área da psicologia
26:54vai saber melhor que eu.
26:56Tem aí esse componente psicológico mesmo,
26:58digamos assim, fora, né,
26:59toda essa cultura que a gente já falou aqui,
27:01milenar.
27:04Sim, Letícia,
27:05quando eu falei agora há pouco
27:07sobre a nossa história de socialização,
27:10a gente, a gente que é mulher,
27:13a gente é socializada
27:14para o amor e para a maternidade, né,
27:18para demonstrar o afeto e o cuidado.
27:21O homem, ele é demonstrado,
27:23ele é socializado para a conquista,
27:26para a virilidade,
27:27para a expressão de força e dominação.
27:31Então, a gente vê que
27:33os grupos de homens,
27:35que são aqueles ambientes
27:36que são responsáveis por constituição
27:39dessas personalidades
27:40e de validação do quão homem,
27:43quão macho aquele ali é,
27:45esses grupos de homens,
27:46eles apresentam
27:49uma dimensão afetiva, né,
27:51então a gente diz que homens,
27:52eles são homoafetivos,
27:55mesmo que sejam heterossexuais.
27:57Vou repetir essa ideia.
27:59Então, mesmo homens heterossexuais,
28:01ou seja,
28:02que se relacionam sexualmente com mulheres,
28:04eles são socializados
28:07em uma dimensão homoafetiva,
28:09ou seja,
28:10eles aprendem a admirar,
28:12respeitar,
28:14idealizar,
28:15a estar na companhia
28:16de outros homens.
28:18Então, quando você chega
28:19para um menino,
28:20para um adolescente,
28:20até mesmo para um homem adulto,
28:22e diz assim,
28:22quais são as pessoas
28:23que você mais admira no mundo?
28:25Dificilmente estará ali
28:26naquela lista uma mulher,
28:28se eu estiver falando
28:29de pessoas desconhecidas,
28:30vale a minha mãe, etc.
28:32Então, dificilmente estará ali
28:34uma mulher,
28:35porque esses homens,
28:36eles aprendem a se espelhar,
28:38a ver um referencial
28:39de conquista,
28:41de coisas boas,
28:42de força,
28:43de relevância
28:44em figuras masculinas.
28:46Então, eles são homoafetivos,
28:48embora eles possam
28:50se relacionar sexualmente
28:51com mulheres.
28:52Então, se eles são homoafetivos
28:54e admiram,
28:55e respeitam,
28:57e idolatram,
28:58e querem estar
28:59na companhia de homens,
29:00o que é a mulher
29:01para esse homem?
29:02A mulher é um objeto sexual.
29:04Então, se a mulher
29:05está nesse lugar
29:06de objeto sexual,
29:08ela é tratada
29:10como alguém
29:11não respeitável,
29:12como alguém
29:13que apenas ali
29:14está disponível
29:15para satisfazer
29:16os seus desejos,
29:18sejam sexuais,
29:19sejam de cuidados,
29:21porque são elas,
29:23a maior parte delas
29:24é que é responsável
29:25por assumir
29:26as tarefas domésticas,
29:28o cuidado dos filhos.
29:29Então, a gente
29:30está falando aí
29:31da constituição
29:33de pessoas
29:34a partir
29:35desse referencial.
29:36E é por isso
29:37que esses coaches
29:38que colocam
29:39essas falas
29:40assim,
29:40de uma maneira
29:41tão explícita,
29:42acabam
29:43captando
29:44ou copitando
29:45muito os seguidores,
29:46porque ele está
29:47naturalizando
29:48explicitamente
29:49valores
29:50que estão
29:50muito arraigados
29:51na nossa sociedade.
29:52que mesmo
29:53aqueles que não
29:54falam isso
29:55em alta voz,
29:56eles de alguma
29:56maneira se comportam
29:58a partir
29:58desses referenciais.
30:00Então, eu deixo
30:00aqui também
30:01um recado
30:02a homens,
30:02se vocês
30:04estão realmente
30:05achando um grande
30:06absurdo
30:07esses redpill,
30:08esses homens
30:09que estão aí
30:10colocando esse
30:10discurso de ódio
30:11contra mulheres,
30:13tentem se repensar
30:14a partir de um
30:15referencial
30:16de que faz
30:17alguma coisa
30:18para mudança,
30:19porque vocês
30:19certamente também
30:20têm algo a mudar.
30:21Então, façam terapia
30:22com a mulher feminista,
30:24procurem ler
30:25bastante,
30:26procurem ouvir
30:27mais mulheres,
30:28porque esses valores
30:29que estão explícita
30:30e extremamente
30:31sendo colocados
30:32por esses homens
30:33estão em vocês também,
30:34eu posso garantir isso.
30:37Tá certo, professora,
30:38muito obrigada.
30:39Eu até complementaria
30:40às vezes até
30:40em algumas mulheres,
30:41porque ninguém
30:42que está aqui
30:43no planeta Terra
30:44veio de Marte,
30:45bom, que a gente saiba,
30:45não conheço,
30:46veio de algum outro planeta,
30:48a gente está inserida
30:49nessa sociedade.
30:50então, por mais
30:51que você rejeite
30:52certos valores,
30:53certos conceitos
30:53arcaicos,
30:55você pode,
30:55de alguma forma,
30:56estar refletindo isso
30:57até sem querer,
30:58isso vale para homens
30:59e também para mulheres
31:00e se a gente quer
31:01progredir,
31:02enquanto civilização,
31:03sempre vale estudar,
31:05ouvir coisas,
31:06mas não os coaches
31:07de masculinidade,
31:08acho que eles não têm
31:09muito a ensinar
31:10em relação a isso.
31:11Então, gente,
31:12a gente já está aqui,
31:12com certeza, Letícia.
31:14A gente já está no fim
31:15da nossa live,
31:15agradeço muito
31:16a todo mundo
31:17que nos acompanhou
31:18até aqui,
31:18nesse Dia Internacional
31:19das Mulheres
31:20e que essa reflexão
31:21que a gente fez
31:22aqui hoje
31:22reverbere por outros dias,
31:23não é só no Dia Internacional
31:25da Mulher
31:26que a gente tem que falar
31:27sobre o direito
31:27das mulheres,
31:28sobre como combater
31:29violência contra a mulher
31:30ou todo tipo de violência
31:31contra a mulher,
31:33a gente vai estar aqui
31:33amanhã e todos os dias,
31:34assim como a gente estava ontem,
31:35as mulheres são metade
31:36da população mundial,
31:38sempre bom lembrar.
31:38agradeço mais uma vez
31:40a professora
31:41do mestrado profissional
31:42em psicologia
31:43e políticas públicas
31:44da Universidade Federal
31:46do Ceará,
31:46Natália Marques,
31:47que conversou aqui conosco,
31:49agradeço a todo mundo
31:50aí que nos acompanhou
31:51no site
31:52A Gazeta
31:52e nas redes sociais
31:53de A Gazeta.
31:54Eu sou Letícia Gonçalves,
31:56colunista de política
31:57de A Gazeta
31:58e a gente se vê por aí,
32:00confiram lá no site.
32:01Até!
32:36A Gazeta
33:06A Gazeta
33:10A Gazeta
33:10A Gazeta
33:10A Gazeta
33:11A Gazeta
33:11A Gazeta
33:13A Gazeta
33:13A Gazeta
33:13A Gazeta
33:14A Gazeta
33:14A Gazeta
33:15A Gazeta
33:15A Gazeta
33:15A Gazeta
33:15A Gazeta
33:17A Gazeta
33:19A Gazeta
33:23A Gazeta
33:34A Gazeta
33:35E aí
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