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  • há 2 meses
Em documentário produzido por A Gazeta, Juca Magalhães relata que a execução de sua mãe foi um "crime ostentação" e que, após a morte, foi iniciada a etapa de destruição do legado que ela deixou

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Transcrição
00:02Maria Nilce era jornalista, apresentadora e escritora capixaba, uma das mais importantes
00:08colunistas sociais de Vitória. De personalidade forte, como ela mesmo dizia, falava sobre todos
00:14os assuntos e não poupava ninguém. Aos 48 anos, ela foi brutalmente assassinada,
00:20vítima de um crime encomendado. Ela chegava à academia junto com a filha na rua Leixo Neto,
00:26na Praia do Canto, bairro nobre de Vitória. No local, ela se exercitava todas as manhãs
00:31e ali encontrou seus executores. Pelo crime, seis pessoas foram denunciadas e cinco condenadas.
00:39Um dos assassinos nunca foi preso. Foi talvez o feminicídio mais importante do Espírito Santo,
00:46da história do Espírito Santo. Foi um crime ostentação, foi um crime feito para não dar em nada,
00:53em que muita gente da sociedade colaborou para que não desse em nada.
00:59Não acredito na hipótese de consórcio. Eu acredito que o crime foi encomendado por determinada pessoa,
01:08mas eles se consorciaram para que o crime não desse em nada, usando todo tipo de influência
01:14para que não desse em nada. E não deu. Quer dizer, deu para alguns, né, os operativos do crime.
01:24Mas a gente vai contar essa história.
01:30Mara Nilce foi uma jornalista, uma mulher muito bonita, muito corajosa,
01:36e que a maioria das pessoas dizem que ela era uma mulher à frente do seu tempo.
01:42Então, ela começou a atuar como jornalista em 1966,
01:48numa época em que era muito incomum mulher trabalhar.
01:52Não digo nem como jornalista, mas trabalhar de uma forma geral.
01:55As mulheres geralmente trabalhavam dentro de casa, ou como professoras, ou como enfermeiras, coisas assim.
02:08E ela começou a atuar como jornalista.
02:11E em 67, ela estreou um programa de televisão e fez muito sucesso, começou a aparecer.
02:18E teve uma carreira meio meteórica, assim, no jornalismo do Espírito Santo.
02:25Sempre marcado por ser uma pessoa que dizia a verdade.
02:32Não preciso de espelho de ninguém, porque eu sou uma pessoa muito autêntica.
02:36Eu sempre, desde que eu comecei a escrever coluna social,
02:39eu sempre procurei fazer uma coluna autêntica, dizendo as coisas que penso,
02:43não procurando agradar ninguém.
02:44Eu digo a verdade, eu elogio quem merece o elogio.
02:48Eu dou cacetada em quem merece a cacetada.
02:53Houve, criou-se, ao longo do tempo, a calúnia de que Maria Nilce tinha o costume de achacar empresários
03:04para tentar extorquir dinheiro.
03:07Tipo assim, ó, você me dá dinheiro, senão eu vou dizer que você traiu sua mulher.
03:12Botando da maneira mais rasa possível.
03:15Eu não acredito nisso.
03:17Várias pessoas que eu já entrevistei acham também isso absurdo.
03:23É o tipo da coisa de você ter uma pessoa de sucesso,
03:26você vai sempre dizer, você vai sempre tentar diminuir aquilo.
03:31se você é um concorrente ou algo assim.
03:34E é uma calúnia que pegou muito justamente após o assassinato.
03:39Maria Nilce foi muito denegrida depois de ela sofrer o assassinato.
03:44Então foi mais ou menos como a teoria das janelas quebradas,
03:47em que o caos toma conta e não há como reagir àquilo.
03:52Ou mais ou menos o que aconteceu com a vereadora Marielle Franco,
03:56em que de repente as pessoas começaram a dizer o diabo a respeito dela.
04:00E, felizmente, na época da Marielle, houve uma reação.
04:06Mas na época de Maria Nilce não houve.
04:08Tinha todo um cenário de tentar diminuir o sucesso de Maria Nilce.
04:16Muito em função dela ser mulher, eu acho.
04:19Não só pelo fato dela ser aquela mulher livre e independente que ela era,
04:26mas o que aquilo representava na sociedade naquele momento.
04:31Que não era um momento como que a gente vive hoje, de questionamento.
04:34Eu sou uma pessoa muito constante.
04:36O desamor vem quando uma pessoa me é ingrata.
04:39Porque eu costumo dizer que eu perdoo um assassino.
04:43Eu perdoo um Edmilson.
04:44Mas eu não perdoo a pessoa ingrata.
04:46Então os desamores vêm por causa disso.
04:48Porque me fazem uma ingratidão.
04:49Então eu sou uma pessoa de amores fortes.
04:52E quando vem esse desamor, é porque a pessoa me fez alguma ingratidão.
05:02De certa forma, eles conseguiram.
05:04Até em um momento em que tornou-se tabu falar em Maria Nilce.
05:08Se você for ver uma pessoa que foi extremamente empreendedora e importante
05:13para a mulher no Espírito Santo, nunca foi homenageada.
05:17Você já ouviu falar de homenagem a Maria Nilce em algum movimento feminino?
05:22Nunca.
05:23Alguma rua em Vitória?
05:25Porque tem uma em Vila Velha.
05:26Mas em Vitória não tem uma praça?
05:29Um equipamento público?
05:31Não tem.
05:32Maria Nilce virou tabu.
05:34Por quê?
05:35Porque a morte dela faz parte de um longo raciocínio
05:39que veio com a redemocratização
05:43em um momento em que certas forças se organizam
05:46e criam o que se chama de crime organizado.
05:49O que proporcionou o assassinato?
05:50Não, foi o que causou o assassinato dela.
05:52Mas proporcionou não só o assassinato dela,
05:56todo aquele suporte que teve,
05:57mas a impunidade que veio depois.
06:03E o medo das pessoas.
06:10Porque quando você assassina uma pessoa no meio da rua
06:14como uma execução pública,
06:17aquilo está sendo mandado um recado para a sociedade.
06:20Olha só o que aconteceu com ela.
06:21Morreu porque falava demais.
06:23Morreu porque não sabia se portar.
06:26Então transforma aquela pessoa que é uma vítima de um crime covarde
06:30e de repente no réu é a culpa dela.
06:34E a família que vai se virar com isso.
06:38Enfim, é muito doloroso.
06:39Isso quase que a gente pode afirmar com certeza que foi vingança.
06:47Minha irmã Mila Magalhães era o braço direito de mamãe.
06:51Elas viajavam juntas, elas tinham sempre...
06:53Eu e minhas outras irmãs, a gente era mais independente.
06:57Mas a Mila era agarrada com a mamãe, trabalhava junto com ela.
07:01Era uma pessoa muito aplicada, muito dedicada, muito estudiosa.
07:06Elas costumavam malhar na academia corpo e movimento,
07:10que era assim, nas duas quadras da nossa casa.
07:14E elas costumavam ir a pé.
07:17Eu me lembro de encontrar com mamãe e Mila voltando da academia,
07:20mamãe cantando pela rua, fazendo bagunça e tal,
07:23deixava sem graça.
07:24Aquela era muito expansiva, né?
07:26E naquele dia, a Mila tinha que apresentar um trabalho na faculdade.
07:34E ela falou, mãe, eu vou de carro para...
07:37E mamãe disse que naqueles dias, mamãe estava meio chuvoso,
07:40era inverno, era julho, dia 5 de julho de 1989.
07:46Então, a mamãe não andava indo muito à academia.
07:49Mas naquele dia, amanheceu um dia ensolarado,
07:52que às vezes acontece no inverno capixaba, né?
07:56E mamãe animou.
07:57Ah, eu vou na academia hoje.
08:02A gente morava no final de rua, tranquilo, na rua Leixo Neto,
08:06quase no final ali, lá perto do canal de Cambori.
08:10Então, era muito tranquilo.
08:12Diz a polícia que o plano inicial dos assassinos era cometer o crime ali,
08:20em frente lá de casa, onde tinha pouca gente, que os tiros não seriam ouvidos,
08:23não haveria tanta confusão.
08:25Mas, para a surpresa deles, elas foram de carro.
08:28Porque Mila, depois da academia, já ia direto para a faculdade apresentar trabalho,
08:32não sei o quê, então quis ir de carro.
08:34Eles tinham que fazer o crime naquele dia, eu não sei porquê.
08:38Mas eles resolveram que iam fazer, e foram pegar um carro, foram seguindo.
08:43Elas pararam em frente à academia, eram sete horas da manhã,
08:48várias pessoas chegando para Malhar, um ponto bastante frequentado da Praia do Canto,
08:53rua Leixo Neto.
08:54Em frente tinha uma padaria que chamava Giovanni,
08:57que estava lotada, sete horas da manhã, todos comprando pão, enfim, a padaria do bairro.
09:01Logo mais à frente, o ponto de ônibus, com vários estudantes da colégio americano,
09:07colégio salesiano, nacional, que tinha na época.
09:10Enfim, todo mundo, muito cheio à rua.
09:16E ela desceu do carro,
09:19veio, minha irmã conta que ela tinha esquecido a bolsa no banco de trás,
09:23então ela foi pegar a bolsa.
09:25Quando ela veio e fechou a porta do carro, tinha um cara com a arma na cabeça de mamãe.
09:29Dizem que foi acusado pela polícia o PM César Narciso,
09:35que teria uma arma automática, que quando ele puxou o gatilho a arma travou.
09:40E aí Mila falou, mãe, tem um cara com a arma apontada para você.
09:44E aí elas empurraram o cara e mamãe saiu rolando da calçada para a rua,
09:50e o cara ficou sem saber o que fazer, que parece que aquela arma,
09:54quando emperra, para desemperrar é complicado, tem que desmontar, sei lá.
10:02Eu sei que ele ficou sem saber o que fazer e correu.
10:05E minha irmã correu atrás.
10:07E aí lá pela sala falou, que loucura, eu estou correndo atrás de um assassino.
10:11E voltou.
10:12E aí quando ela voltou, ela viu uma mãe ainda desorientada,
10:15falou, mãe, corre, está acontecendo alguma coisa, tenta se esconder, não sei o quê.
10:19E aí foi que o ônibus parou no ponto para pegar a turma lá,
10:25que estava lá, uma galera para entrar no ônibus.
10:28Mamãe correu para o ônibus e Mila correu para dentro da academia.
10:35E ela falou, quando ela chegou lá dentro da academia, ela ouviu os tiros.
10:40E aí as pessoas se abraçaram com ela e ela ficou desorientada,
10:45não sabia o que fazer, correu para fora.
10:47Quando ela chegou perto do ônibus, o assassino estava descendo, ela ficou de cara com ele.
10:53E ela falou, parece que teve uma mão que me puxou e ela caiu para trás.
10:57E o cara saiu apontando a arma para todo mundo, entrou num fusca branco e fugiu.
11:03E aí o motorista do ônibus, naquele pânico, aquela confusão,
11:07arrancou e foi parar dois pontos depois.
11:12E aí ela pegou o carro e foi atrás.
11:14E ela falou que ela não tinha visto o que tinha acontecido.
11:17Ela falou que ela foi no carro assim, eu vou brigar com mamãe.
11:20Por que ela faz essas coisas com a gente?
11:23Não sei o quê.
11:23Quando ela chegou lá, o ônibus estava parado, tinha um monte de gente em volta.
11:28E ela virou para alguém e falou assim, cadê mamãe?
11:31Aí o cara falou, tem uma mulher morta lá dentro.
11:35E ela entrou no ônibus e mamãe estava lá dentro morta.
11:38Tinha um estudante de medicina que era amigo dela.
11:41E ela perguntou, ela está morta.
11:43Aí colocaram dentro do carro, levaram para o hospital,
11:45mas aí já não teve o que fazer.
11:49Eles deram tiros, a queima-roupa, com uma bala que era tipo dum-dum,
11:55sei lá, que entrava e explodia.
11:57Então foi uma morte fulminante assim.
12:03Aí veio a investigação na Polícia Civil.
12:07O inquérito foi presidido pelo delegado Jusino Bragança.
12:12Logo nos primeiros dias, já havia o boato
12:16de que o delegado Cláudio Guerra queria entrar nas investigações.
12:21O delegado Cláudio Guerra andava afastado da Polícia Civil.
12:25O Max Malto tinha recebido a carta de um deputado
12:31avisando que o crime organizado,
12:33os bandidos estavam se aliando ao jogo do bicho e tal,
12:38que se era um movimento que estava acontecendo no Rio de Janeiro
12:40e que ia acontecer no Espírito Santo e tal.
12:44Eles foram à Brasília, pediram ajuda e tal.
12:47Foi mandado para cá o superintendente da Polícia Federal, Oscar Camargo,
12:54que começou a fazer várias ações contra jogo, contra tráfico.
13:00E aí descobriram uma conexão que havia entre Vitória e Bolívia
13:05com vários policiais de várias instâncias,
13:08policial civil, policial militar, policial federal,
13:12tudo envolvido num esquema de tráfico de drogas e roubo de carro,
13:17que era trocado por cocaína, que era trazido para cá e exportado, sei lá.
13:21Enfim, eles deram o nome de Conexão Vitória e Bolívia.
13:25Isso estava na página do jornal A Gazeta no dia do assassinato de Maria Nilce.
13:29Era um escândalo que tinha enrompido.
13:32E no dia seguinte o escândalo já era outro, que era a morte dela.
13:37Muita gente tenta fazer relação entre essas coisas,
13:42mas eu particularmente não acredito,
13:46inclusive a Polícia Federal mais à frente vai,
13:50nas suas investigações também não vai achar indícios disso.
13:53Eu acredito na licitação de todos os crimes,
13:56mas não posso garantir, porque tudo é difícil.
14:01Mas nós vamos nos empenhar ao fundo
14:03e esperamos conseguir lucidar em tempo recorde.
14:10A Polícia Federal começou a atuar no crime,
14:15na investigação por volta de setembro daquele ano.
14:19Quer dizer, já tinha passado alguns meses,
14:21logo eles vão prender um tal de Zé Galinha e Hilda Sasso,
14:27mulher de Zé Sasso,
14:28no qual eles apreendem várias armas e descobrem lá a arma,
14:31que depois eles vão verificar que tinha sido o Revolver 38,
14:34que matou Maria Nilce,
14:36e um líder rural chamado Verino Sossai,
14:39no interior do estado.
14:40Depois eles fazem que havia uma relação entre o crime e outro.
14:44Enfim, eles verificam que havia participação de José Sasso.
14:48E a partir do José Sasso, eles chegam num policial,
14:53um escrivão da Polícia Civil, chamado...
14:55O japonês, tinha o apelido de japonês,
14:58e o Stark da Luz, Faria, algo assim.
15:01E aí comprovam também a participação do japonês,
15:03que depois vai ser condenado.
15:05Mais à frente, chegam na figura de José Alair Andreata,
15:09que foi acusado de ser um mandante do crime.
15:15Tem mais algumas pessoas envolvidas,
15:17como eu já falei, o outro pistoleiro,
15:21o segundo pistoleiro, eles dizem que o Zé Sasso
15:22foi o pistoleiro que entrou e matou Maria Nilce,
15:26e que o outro pistoleiro seria o PM César Narciso,
15:28parece que está foragido, né?
15:29Atualmente, eu assisti à condenação dele.
15:32Eu fui lá no dia, acompanhei no tribunal.
15:34O japonês estava respondendo por outros crimes também, né?
15:36Não era só o assassinato de Maria Nilce.
15:40Ele estava tentando, na época, insanidade mental,
15:44alguma coisa assim,
15:46mas a polícia realmente conseguiu gravações
15:50que comprovavam a participação dele.
15:56E chegam no José Alair Andreata,
15:58que era uma espécie de mafioso,
16:02uma pessoa que lidava com um crime organizado
16:07já aqui no Espírito Santo,
16:09e que teria se indignado com Maria Nilce,
16:14porque em 1988, ou seja, um ano,
16:17quase um ano e meio antes,
16:19ela teria feito uma nota
16:20dizendo que a mulher do Andreata era travesti.
16:23As pessoas comentavam,
16:24olha, Maria Nilce, parece uma travesti.
16:26E ela descobriu que não era.
16:28Não, não é travesti.
16:29É uma mulher.
16:30O nome dela fez a nota no jornal.
16:32O nome dela é Sueli Andreata.
16:34Tem até uma filha que é bonitinha.
16:36A nota era só isso.
16:38Não era nada agressivo.
16:43Enfim, era o que ela chamava de linha maldita.
16:45Pelo que me consta,
16:47pelo que me foi ensinado,
16:49pelo que eu aprendi
16:50nos meus 16 anos de jornalismo,
16:53imprensa marrom se faz.
16:56Se mete o pau na pessoa,
16:58se ataca a pessoa,
16:59para depois ir lá tomar o dinheiro da pessoa,
17:02e aí cala a boca.
17:03Não se ataca mais.
17:05Eu, quando ataco uma pessoa no meu jornal,
17:07eu não quero ver nem a cara dos cachorros daquela pessoa,
17:11quanto mais o dinheiro daquela pessoa.
17:16que o Andreata,
17:17a polícia não conseguia determinar
17:19o que ele, de fato, fazia da vida.
17:24Ele dizia que era corretor de imóveis,
17:26mas o registro dele no conselho
17:29estava extinto há quase 10 anos.
17:33Aí ele dizia que era agente do SNI,
17:35descobriram que era mentira.
17:36Enfim, ele respondia por alguns processos na justiça,
17:42era uma pessoa que já tinha um perfil meio mafioso,
17:48vamos dizer assim.
17:50Ele não tinha, na minha opinião,
17:55nem razão e nem os meios financeiros
17:59para bancar aquele assassinato à ostentação.
18:04Ele tinha o conhecimento.
18:06Ele conhecia as pessoas que mexiam com o crime,
18:09ele conhecia a forma de fazer aquilo.
18:13Pelo histórico que a polícia levanta dele depois,
18:17você vê que realmente era uma pessoa que atuava naquela área.
18:21Mas ele não tinha grana para fretar avião,
18:25não tinha grana para contratar uma equipe de matadores
18:31e outras coisas que depois vão aparecendo ao longo da investigação.
18:36Ele, sem dúvida, foi condenado.
18:38Então, quando ele foi apontado como mandante,
18:41no primeiro momento, isso em novembro,
18:44no meados de novembro de 1989,
18:47os representantes do Ministério Público falaram.
18:49O Zé Alain Andreata é o mandante,
18:53mas existem outros implicados.
18:56Só que nós só conseguiríamos chegar a esses outros
19:00se o Andreata falar.
19:03E o Andreata nunca falou.
19:08Existia a fala dos próprios representantes do Ministério Público
19:15de que havia outros mandantes.
19:18Na minha opinião, o Andreata atuou como um intermediário.
19:25Ele, junto com o japonês, com certeza atuou também.
19:29E o José Sasso e sei lá mais quem.
19:33Mas quem, de fato, bancou aquilo tudo,
19:37inclusive a impunidade que cercou o crime ao longo do tempo,
19:42eram pessoas de muita influência.
19:45Muita influência que ele certamente não tinha.
19:48E muita grana.
19:50Tinha dinheiro a dar com pau para fazer o que eles fizeram.
19:55E, certamente, eles queriam mandar um recado para a sociedade.
19:58Quem se meter no nosso caminho é isso que vai acontecer.
20:02E o recado foi bem dado, né?
20:04Naturalmente, como ela lidava com o pessoal da alta sociedade,
20:08numa coluna social,
20:09possivelmente esse crime tenha sido praticado por alguém
20:12com relação a esses fatos, a essa profissão dela.
20:18A partir dali, houve a destruição da moral de Maria Nilce.
20:25Maria Nilce passou a ser uma pessoa ruim, né?
20:30Porque falava demais, porque era uma mulher que falava demais.
20:35E achacava empresários, vê se pode.
20:40Essas mentiras que contaram para denegri-la ao longo do tempo.
20:47E eu fico muito feliz hoje de poder falar disso abertamente.
20:51Eu levei muito tempo para ter o entendimento total do que aconteceu.
20:54E foi preciso muita coragem, porque quando a coisa dói muito assim,
20:59machuca muito por dentro,
21:01às vezes a gente não tem coragem de ir lá e mexer naquilo.
21:05Mas um dia eu falei, não, eu vou fazer isso.
21:09Eu vou pesquisar a fundo até onde der
21:14para descobrir realmente o que aconteceu com minha mãe.
21:17Eu tenho um livro pronto, quase 500 páginas,
21:21contando essa história toda.
21:23Em breve, eu imagino que eu vou poder estar pronto
21:27para publicar e dividir com as pessoas as coisas que eu descobri.
21:35Só eu fiquei em Vitória.
21:37Minhas irmãs, logo após o assassinato, foram embora daqui.
21:41A Fernanda, já sempre, que é a mais velha,
21:45sempre que ele quis morar fora, mudou para São Paulo.
21:48Depois a Mila casou, foi morar no exterior.
21:51A Mila, que estava junto com a mamãe,
21:54mora desde 1994 fora do país.
21:58E a Paloma acabou casando também e indo morar também em São Paulo.
22:03E ficamos eu e papai, que acabou falecendo em 2008.
22:07Fiquei eu em Vitória.
22:09Agora, papai sofreu muito, né?
22:11Porque ele teve, após, você imagina,
22:14ele estava entrando nos 60 anos de idade,
22:19quando a esposa foi assassinada do jeito que foi,
22:24descobriu que muitas das pessoas que eram próximas
22:28não iam fazer nada para resolver.
22:31Foi se decepcionando com as pessoas,
22:32caiu numa depressão que durou anos.
22:35E viveu até bastante, né, após a morte dela, quase 20 anos.
22:40Mas foi uma vida, assim, muito triste.
22:44Muito triste.
22:44O jornalista, o jornalista, ele tem que ter opinião.
22:48Ele não pode ser um ser humano desfibrado.
22:51Então, se você elogia todo mundo,
22:53o seu elogio passa a não valer absolutamente nada,
22:56porque se você elogia uma pessoa que não tem valor
23:01e elogia a pessoa que tem valor,
23:02aí o leitor fica na dúvida,
23:04mas quem é bom, quem não é bom.
23:05Então a pessoa tem que ter opinião,
23:07o jornalista tem que ter opinião.
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