00:03A gente fundou o Centro Cultural em 2016, em novembro de 2016.
00:08O Elisiário é um prédio, né, pra quem não conhece, tá convidado a conhecer.
00:12Ele é um prédio de quatro pisos, né, e ele é dividido em pelo menos 12 ambientes, né.
00:18Tem biblioteca, tem teatro, que é onde a gente tá agora, tem galeria de arte, tem café-bar,
00:23tem a praça, sala Iô, enfim, tem vários espaços.
00:26Cada espaço, ele acolhe uma manifestação artística numa certa direção.
00:34Criança pra adolescência que eu comecei a ter noção dessa cena cultural que acontecia no centro da cidade
00:41e até me questionar por que ela não acontecia na cidade da Serra ou na região de Novo Horizonte, São
00:49Diogo, né.
00:50Durante meu mestrado, em 2013, 2015, eu pesquisei alguns países latino-americanos,
00:55na Uruguai, Chile, México e Argentina também.
00:59E eu pude perceber que a existência de um espaço cultural ativo, polifônico, vibrante,
01:06reverberava numa cidade também ativa, vibrante, polifônica.
01:11Então, essa coexistência, assim, de espaços culturais com essa proposta
01:16é o que me fez pensar a criação de um centro cultural aqui.
01:20Então, eu acho que a aposta na cultura, na verdade, é uma entrada
01:25pra apostar um outro modo de pensar a cidade, um outro modo de pensar a vida,
01:31o planeta, né, a partir do chão que a gente pisa.
01:34Foi por essa aposta, pensando sobretudo a nossa memória, a memória de nós mesmos,
01:40que é o Queimado, que é o Elisiário Rangel, que a gente apostou na criação desse centro cultural desse jeito.
01:47E é claro que só deu certo e só continua dando certo, o que é dar certo, né,
01:54por conta de uma aposta também da cidade junto com a gente, né.
02:00Essa aposta, ela não é feita sozinha, ela é uma aposta coletiva.
02:04A gente entende que a cultura é o modo como a gente vive.
02:07E o modo como a gente vivia aqui, isso marcado desde a minha infância,
02:11era muito marcado pela violência, né.
02:13Então, fazer arte-cultura é fazer, sim, uma aposta política, uma aposta ética
02:18no mundo outro, no mundo diferente, sabe.
02:21Então, a gente não enxerga fazer cultura como passatempo, como uma brincadeira,
02:26ou a arte pela arte.
02:28A gente entende que o fazer artístico, o fazer cultural,
02:31ele tá implicado, implicado também, num fazer de justiça social.
02:37Eu não me encaixo.
02:39Aliás, a produção aqui é a produção de não se encaixar, sabe.
02:43Eu acho que enquanto a gente estiver produzindo coisas que se encaixam,
02:47tudo vai ficar tranquilo, em ordem.
02:49E a produção da arte é bagunçar, é produzir o desencaixe, sabe.
02:54Então, também a nossa preocupação cotidiana é a produção de perturbação da ordem.
03:02Nesse sentido, pra pensar uma outra configuração.
03:05E se a gente se encaixa, a gente não consegue estranhar a própria caixa,
03:10porque a gente tá achando que tá tudo bem.
03:15E não tá tudo bem, né.
03:16Eu acho que tá tudo bem, né.
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