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  • há 22 horas
O EM Entrevista recebeu em seu estúdio o diretor do Instituto do Mundo Lusófono, Oscar Castro Ferreira, para uma conversa sobre laços culturais entre Brasil e Portugal.

O Instituto do Mundo Lusófono se debruça para fortalecer os laços culturais, acadêmicos, econômicos e institucionais entre países e comunidades lusófonas.

Atualmente, Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau e Guiné-Equatorial adotam o português como idioma. No entanto, há comunidades na Índia (nas cidades Goa e Damão), China (Macau), Malásia (Malaca) e Senegal (Ziguinchor) que também falam o idioma.

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Transcrição
00:00Olá, boa tarde, bom dia, boa noite pra você que está acompanhando a gente.
00:04Um dia, o Olavo Bilac escreveu sobre a língua portuguesa.
00:07Última flor do lácio, inculta e bela.
00:11Amo-te assim, desconhecida e obscura.
00:14É sobre esse idioma fascinante que eu vou conversar hoje
00:17com o diretor do Instituto Mundo Lusófono, de Portugal, né?
00:23Do Portugal, Oscar Ferreira... Oscar Castro Ferreira.
00:28Pode ser assim.
00:29Oscar, muito obrigado, seja bem-vindo, valeu demais por estar aqui com a gente.
00:35Veio direto de Portugal.
00:36Ontem.
00:37Ontem.
00:38Que bom.
00:39Ainda estou assim, meia essa bota.
00:41Ainda com jet lag.
00:42É, um pouco.
00:43Bom, Oscar, pra começar eu queria te perguntar, quando a gente fala de mundo lusófono,
00:48o que a gente quer dizer? O que isso quer dizer?
00:51Bom, antes de mais, muito boa tarde a todos, muito obrigado pelo convite de estarem aqui.
00:55Boa tarde ao Belo Horizonte, a Minas, ao Brasil e a Portugal, que hoje é dia de Portugal, de Camões
01:00e das comunidades portuguesas da nossa diáspora.
01:03O que é o mundo lusófono?
01:05O mundo lusófono é um mundo que fala português.
01:09Ou seja, do ponto de vista da organização, são os países da Cplp, do ponto de vista da emoção, é
01:18os países da Cplp, mais as suas diásporas.
01:22E quando eu digo as suas, é de cada um.
01:24Por exemplo, tem uma diáspora portuguesa no Brasil, tem diáspora brasileira em Portugal, na França, nos Estados Unidos.
01:32Então, existe este cross de diásporas.
01:35O mundo lusófono é o somatório de tudo isto.
01:38Onde há um português, onde está alguém falando português, mas é mais certo assim, é o mundo lusófono.
01:46Interessante. E é curioso você falar dessas diásporas, que o Instituto Mundo Lusófono nasceu de uma diáspora, não é?
01:53Então, o Instituto Mundo Lusófono nasceu em Paris, numa diáspora, nasceu da diáspora e também para a diáspora.
02:01Ele nasceu em 2015, presidido pela professora Isabela de Oliveira, ela é professora na Universidade da Sorbonne,
02:09foi lá que nasceu, com o patrocínio da Unesco, da presidência da República Francesa, e com o apoio de muitos
02:14portugueses e brasileiros.
02:16Ele tiveram muitos políticos brasileiros na inauguração em 2015 e ele nasce com a diáspora e para a diáspora.
02:24Então, nós estamos focados, não só nos países que falam português, mas onde tem alguém falando português, seja de que
02:32nacionalidade for.
02:33Onde que tem? Além dos...
02:35Em todo canto!
02:36Porque nós somos, pelo menos é contabilizado, né?
02:39Somos cerca de 250 milhões.
02:41Aqui no Brasil.
02:42Isso aqui no Brasil?
02:44E fora, aí temos mais nove países que falam português, que tem o português.
02:48Mais as diásporas, espalhadas.
02:50E aí tem uma quantidade?
02:52Não tem. Nós sabemos, nesse momento, e é uma das batalhas que o Instituto tem tido, o português, nesse momento,
02:58eu creio que é a quinta língua mais falada do mundo.
03:00E uma das nossas batalhas, justamente, é pegar nessa riqueza da nossa língua, quando eu digo nossa, é de todos
03:07nós, é da lusofonia, não é dos portugueses, de Portugal, é de todos nós, e transformá-la numa língua de
03:12negócios.
03:13Por exemplo, se você quiser fazer um acordo entre empresas de diferentes nacionalidades, esse acordo vai estar escrito ou em
03:20inglês, maior e oritariamente em inglês, ou vá em francês.
03:24E se for um negócio entre um empresário brasileiro e um empresário africano, por exemplo, de Angola, o português não
03:31está previsto como uma língua de negócios.
03:35Ainda que eu possa negociar com o português, e você é brasileiro, a gente pode falar em português, fazer um
03:40acordo, mas reconhecimento internacional, nós estamos lutando para que o português seja incluso como uma língua de negócios.
03:48Curioso isso, interessante.
03:50Muito importante.
03:51É, exato.
03:51E agora eu acabei de lembrar, Macau, na China, completamente...
03:56Macau tem uma história muito engraçada, que eu escrevi uma vez um artigo sobre um jornal em Portugal.
04:02Eu não sei se aqui no Brasil tem essa expressão, quem dá e torna a tirar, ao inferno vai parar.
04:07Não, não penso.
04:09Macau é uma pequena ilha, no sul da China, perto do Rio das Pérolas.
04:15E no século XVII tinha muita pirata lá, pirata chinês, de outras regiões limítrofes, e os portugueses já estavam naquela
04:27zona e começaram a pôr controle contra a pirateria que estava sendo executada contra os navios mercantes.
04:33Mas, em agradecimento, o imperador da China deu Macau a Portugal de presentes.
04:38E a gente devolveu esse presente em 1999.
04:41Isso vai ser muito feio.
04:43Mas foi uma questão política.
04:46Mas Macau ainda hoje tem resquícios na língua portuguesa, efetivamente.
04:50Sim, tem um jornal que é feito lá em português.
04:52E o principal casino é o casino de Lisboa.
04:55É mais português que isso.
04:57Exatamente.
04:58Agora, Oscar, vamos entrar no trabalho do Instituto.
05:01O que de concreto, o que é feito, qual é o trabalho do Instituto Lusófono?
05:07Essa pergunta é muito importante e eu te agradeço.
05:11Muitas vezes nós somos confundidos o papel do Instituto com o papel da Cplp.
05:16Cplp, só para contextualizar o pessoal de casa, é a comunidade dos países de língua portuguesa.
05:21Exatamente.
05:21São nove.
05:23Nove eram oito, com a atesão recente, se não me engano, em 1994 ou 1996, da Guiné Equatorial.
05:29A única ex-colônia espanhola que existe naquela costa da África.
05:33Na África toda.
05:35A Cplp é um órgão político feito por políticos e com uma agenda política.
05:42O Instituto do Mundo Lusófono nasce na França, como eu falei, da diáspora portuguesa.
05:47Nós trabalhamos maioritariamente com a iniciativa privada, com o cidadão, com as empresas, com a economia.
05:54Mas estamos de braço dado com a Cplp.
05:57Portanto, não tem qualquer divisão, tem união.
06:00O nosso enfoque é promover, dinamizar a língua e a cultura portuguesa, das várias vertentes que ela possa ter,
06:10explicar a riqueza da nossa língua, os perigos que ela está associada com esta evolução tão rápida que estamos tendo,
06:17e também proporcionar que os players econômicos, nesta tentativa que nós também fazemos de juntar a lusofonia com a francofonia,
06:26porque afinal a gente nasceu em Paris, tem um peso incalculável.
06:32Você imagina o que é juntar os países da Cplp com a França e a África francófona?
06:38É incalculável o potencial de negócio que tem.
06:41Uma das funções que o Instituto leva é juntar estas sinergias entre empresários das várias geografias onde nós operamos.
06:49falando da língua, a economia, a cultura, numa tentativa de juntar sinergias e promover.
06:56Interessante. E é muito curioso porque a gente, pelo menos aqui no Brasil, a gente conhece muito pouco da produção
07:03cultural,
07:04principalmente dos países africanos que falam português.
07:08A gente não sabe, por exemplo, o que está sendo lançado de livro no Timor-Leste, músicas de São Tomé
07:14e Príncipe.
07:16O Instituto trabalha para esse ramo, essa segmentação também cultural, de música, livros, esse intercâmbio cultural?
07:24Olha, Lucas, muito interessante você ter falado de Timor-Leste.
07:27A nossa presidente é muito amiga do Xanana Guzmão.
07:31Ela esteve em Timor-Leste, ela vai a Timor-Leste muitas vezes,
07:34quando ele vai a Portugal e a nossa presidente pode estar, é uma união de grandes amigos.
07:39Mas, de facto, Timor-Leste é uma geografia tão distante, é tipo Macau, sabe?
07:44E, apesar de que Timor-Leste está na Cplp, é o país mais recente.
07:51Ele foi reconhecido pelas Nações Unidas, depois de todo aquele drama que teve que a Indonésia,
07:56a República de Timor-Leste.
07:58E é muito difícil, mas nós fazemos o possível.
08:00O Instituto também não tem capacidade de fazer tudo, o Acha-Laf, se possível.
08:04Mas, em tudo o que a gente pode, da África, da Ásia, do Brasil.
08:09Então, nós tentamos sempre promover esse intercâmbio cultural.
08:14Porque lá está, como a gente estava falando há pouco, a nossa riqueza é essa, esse intercâmbio.
08:18Os vossos escritores, escritores da África, escritores de Timor-Leste, a música, as tradições dele.
08:24De que forma é que também estão entroncadas com as vossas e com as nossas lá de Portugal.
08:30É uma irmandade, quase.
08:33Então, nós tentamos fazer isso dentro das nossas melhores capacidades, claro.
08:37Interessante.
08:38Agora, você citou os perigos que a língua portuguesa corre.
08:42Quais são e qual o maior que a gente pode dizer?
08:44Bom, olha, eu, sobre os perigos da língua portuguesa, eu tenho mais ou menos quatro vetores,
08:49se você me permitir, o que eu quero falar.
08:50O primeiro é aquele que eu acho que é o mais grave, que é a instrução.
08:55Você aprendeu a falar português aonde?
08:56Na escola.
08:57A mãe, a mamãe, papai, ajudam, não é?
09:00Mas você aprendeu na escola.
09:01A gramática, a síntese, a escrita.
09:05Então, na instrução, está tendo professores que, pela formação que já trazem anteriormente,
09:12por vezes não ensinam a gramática da mesma forma.
09:15Nós temos professores que dão erros de fala e erros de escrita.
09:19Que os alunos deem, o teste serve para votar certo ou errado.
09:23Mas se o professor dá, é mais grave.
09:25Então, um dos principais problemas que eu vejo é na instrução.
09:28Os professores da língua portuguesa têm que ter uma formação muito específica.
09:33E aí, tem que ser um português mais universal.
09:36Não pode ser tão geográfico.
09:38Esse, eu identifico como um dos principais erros.
09:42Antes de seguir para o segundo, quais seriam os erros que, às vezes, o professor ensina?
09:46Só para a gente...
09:47Erros de gramática, erros de escrita, falta de síntaxe.
09:51Entendi.
09:54Eu, por exemplo, conheço alunos que dão erros porque os professores falam assim.
10:00Eu conheço pessoas até na política, no mundo empresarial,
10:03grandes figuras que falam erros gravíssimos, escrevem erros gravíssimos.
10:09Então, isso, se a gente quer manter e preservar esta riqueza da língua portuguesa,
10:13começa na instrução, não é?
10:15É de pequenininho que se torce o pepino.
10:17Não sei se tem essa expressão aqui.
10:20Depois, teve aí um tema político, que eu considero que foi, talvez, o segundo perigo
10:24para a riqueza da língua portuguesa, que é o famoso acordo ortográfico.
10:29Por quê?
10:30Porque ele quebra a riqueza das acentuações, o fim das consoantes mudas,
10:35confusão com maiúscula e minúscula, a questão do hífen em tudo.
10:39Eu sei que vocês no Brasil detestam o hífen.
10:41Às vezes, eles existem.
10:43Trema.
10:44O trema.
10:44O trema.
10:45Se a gente falar acento circunflexo.
10:50E eu acho que o acordo ortográfico, quando foi pensado, foi mais para agradar aos brasileiros
10:55do que ao resto da lusofonia.
10:57Porque, assim, os portugueses não gostam do acordo ortográfico.
11:01Os brasileiros adoram o acordo ortográfico.
11:03Os africanos, para eles, estão nem aí, como vocês falam.
11:06Tanto se dá, como se deu.
11:08E eu acho, e muitas pessoas académicas falaram, que tem também um pouco de uma ideologia política
11:14por detrás desse acordo ortográfico.
11:16Portanto, na minha opinião, acho que o acordo ortográfico é um perigo para a língua portuguesa
11:22porque não une, ele quebra as diferenças.
11:26Porque se eu falar da mesma forma que você, eu falo português e falo assim com o sotaque
11:30de Portugal, e o Lucas também teria que falar português com o sotaque de Portugal.
11:34Mas é o interessante, eu estou me esforçando para falar um português brasileiro, e se você
11:39for a Portugal um dia, tenta falar português de Portugal, não é?
11:43Sim.
11:43Vocês conseguem, que eu também já vi.
11:47Depois, uma coisa que está muito na moda, talvez por esse movimento woke, que agora todo mundo
11:52fala, é chamada linguagem inclusiva.
11:54Eu não tenho qualquer preconceito sobre nada, deixando bem claro.
11:59Mas a realidade é que há pronomes que nunca existiram e não vão existir na língua portuguesa.
12:05A questão dos gêneros, a gente pode falar isso na ideologia mais política, o movimento woke,
12:11que está muito ligado ao movimento LGBT, mas essa linguagem inclusiva, ou dita inclusiva,
12:18ela não é inclusiva, ela é divisiva. Eu vou explicar porquê. Vou te dar um exemplo
12:24proporcional. Para você agradar a um milhão de pessoas, você vai irritar dez milhões.
12:31O que acontece? Essa linguagem inclusiva torna-se exclusiva, porque ela engloba um milhão,
12:38exclui dez. Então, é quase que uma ditadura de uma minoria. Respeitar? Sempre. Incluir na gramática? Não.
12:49Considero um perigo para a língua portuguesa. Finalizando o tema dos perigos, às redes sociais.
12:55Nossa, o messaging veio quebrar a gramática portuguesa e a escrita. E outra coisa, os alunos,
13:02hoje em dia, quando tem que fazer uma pauta para apresentar na escola, eles não escrevem,
13:08eles teclam no computador, imprimem e entregam. Já ninguém faz isso. Escrever à mão.
13:14Os meus sobrinhos têm, a exceção da minha sobrinha, que tem uma letra de senhora mais bonita,
13:19uma letra horrorosa, porque não sabem escrever mais. É tudo teclado. Depois o WhatsApp, o Instagram,
13:26o Facebook e outras redes sociais, fazer escrita rápida. Então, as pessoas se acostumam
13:32a falar desse jeito e a escrever desse jeito. Tô, em vez do estou. Tô indo.
13:38É estou indo. A oralidade passa à escrita. E a pessoa vai se viciando nisso.
13:44Então, são estes quatro vetores que eu considero um perigo para a riqueza da nossa língua.
13:49Agora, como que é possível unificar a língua portuguesa? Porque, assim, eu entendo,
13:55eu e muitos linguistas mesmo, entendemos a língua como um organismo, e acredito que você também,
14:01como um organismo vivo, que ela vai mudando de acordo com a cultura do lugar. Se a gente tem,
14:09vamos colocar, nove países que falam português, cada um dos nove com a sua própria cultura e tal,
14:18como que fazer isso ficar junto e não se expandir e acabar se tornando outros idiomas,
14:25outros nove corruptelas do português?
14:27Vamos lá. Muito interessante esse seu tópico. Eu acho que não tem que unificar nada.
14:32A nossa riqueza é a nossa diferença.
14:36Lá está.
14:37E aqui uma coisa muito engraçada, não sei se vocês têm noção, mas os brasileiros
14:42introduziram na gramática portuguesa expressões que nós não tínhamos.
14:46Então, eu não quero que vocês unifiquem nada.
14:48vão inventando palavras, de fato, que possam ser adicionadas.
14:53O segredo de estudo é um somatório, não é uma unificação, é um somatório.
14:57A gente vai somando, vai crescendo.
14:59Porque a língua portuguesa é evolutiva.
15:02Por exemplo, você sabia que as palavras caçula, moleque, cafuné e quiabo,
15:09que vocês usam muito, não nasceram no Brasil, mas nasceram na África?
15:13Por exemplo, na língua portuguesa, palavras que nasceram só no Brasil.
15:19Abacaxi, caju, jacaré, arara e tucano.
15:26Pois puderam também, só aqui que tem, não é?
15:28Imagino que sejam indígenas.
15:30Por que unificar quando a gente tem que acostumar, somar e perceber?
15:36Nós, em Portugal, temos uma diáspora brasileira tão grande.
15:39Você vai no restaurante, o menú já não diz ananás.
15:43Nós temos o ananás dos Açores, que é muito parecido com o abacaxi.
15:47Mas já todo mundo fala abacaxi.
15:49Se você quiser comer o ananás dos Açores, não só é mais raro, como é mais caro.
15:54Então, essa sua questão de como é que nós podemos unificar, eu digo, não quero unificar nada.
16:00Deixa ficar assim.
16:01Porque a língua vai crescendo, vai enriquecendo.
16:05E é, as palavras que vocês já adicionaram, as nossas palavras que já existem, as que os africanos adicionam.
16:13E eu penso que até tem uma ou outra, que foram os asiáticos que introduziram.
16:18E não é arroz.
16:21Não é, seria al-ro-s.
16:22É.
16:23É uma palavra árabe.
16:25Sim, verdade.
16:25Os árabes também tiveram, os árabes enriqueceram a língua portuguesa.
16:30Algarve.
16:32Ah, é de...
16:34Algarve.
16:34Olha só.
16:35Era uma antiga zona do Moura, dos muçulmanos.
16:40Al-ro-s.
16:41O arroz que a gente come.
16:43Isso na época dos Gu, dos Vizigudos.
16:45Sim, a Península Ibérica estava totalmente dominada pelos muçulmanos e teve a conquista.
16:51Eles foram indo para baixo até aqui, voltaram, vamos chamar assim, para o norte da África e para o Oriente
16:57Médio.
16:58Mas, inclusive, os gregos enriqueceram a nossa língua.
17:02Os romanos, os povos do norte, vocês brasileiros com palavras que provavelmente, eu acho, que vieram da cultura indígena que
17:10existia já no Brasil.
17:12Os africanos trouxeram palavras também que já existiam no dialecto africano local.
17:18E nós não obrigamos nunca essa uniformização.
17:22A gente somou.
17:24Eu acho isso tão bonito e tão rico.
17:26E que bom que a gente está a falar hoje, no dia da língua portuguesa, que é Camões, que escreveu,
17:31deu o início ao português moderno.
17:34Sim, é.
17:34Eu acho que a gente comemora isso também.
17:36Portanto, não precisa unificar nada, na minha opinião.
17:39Que bacana.
17:40Agora, antes de entrar, de começarmos a gravação, você falou que falamos aqui no Brasil algumas palavras que em Portugal
17:47já caíram em desuso.
17:49É, isso é muito interessante e é das coisas que eu mais acho rico da nossa língua.
17:53Você sabe quando é que nasceu a língua portuguesa propriamente dita?
17:56Não.
17:56No dia 5 de outubro de 1143, com o tratado de Zamora, entre o condado portugalense e os reis de
18:05Castela.
18:06Nesse momento, Portugal nasce, o reino de Portugal, mas tal como hoje, um país quando nasce, precisa do quê?
18:15Reconhecimento internacional.
18:17Ora, em 1143 não tinha as Nações Unidas.
18:20Então, quem é que reconhecia um país novo?
18:22Outros.
18:23Roma.
18:24Então, só 76 anos depois, é que oficialmente, com a bula Manifestes Pro Batum, que o Papa Alexandre III, assina
18:35essa bula e nasce o reino de Portugal, a língua portuguesa, a nossa geografia e a nossa bandeira.
18:41O Inacional só chegou no século XIX.
18:43O vosso também.
18:46Então, o português ficou dividido em três grandes fases.
18:51O português, chamado galaico português, que vai do século XII ao século XIV.
18:57O mais parecido que tem hoje é na Galiza, no norte de Portugal, no noroeste da Espanha.
19:02E depois, do século XIV ao século XVI, temos o português arcaico, que é quando Pedro Alves Cabral chega aqui
19:07no Brasil.
19:08E, óbvio, que a língua que ele traz com aquele grupo todo que vem com o Pedro Alves Cabral é
19:15o português arcaico.
19:16Mas, depois, no século XVI, até aos dias de hoje, o português foi chamado português moderno.
19:23E aí, o Luís Vádia de Camões, o grande escritor português, escreveu o primeiro livro do português moderno, chamado Os
19:29Lusíadas.
19:30Mas, aqui no Brasil, ficaram palavras que já não se usam, que são do português arcaico.
19:35Por exemplo, o açougue.
19:37Se você falar em Lisboa, que vai num açougue e ninguém sabe o que é.
19:41Eu sei que é o talho.
19:43O cara que trabalha no açougue é o quê?
19:47É o açougueiro.
19:48Em português, é o talhante, porque ele talha.
19:50Talhar é cortar em fatias.
19:52Então, se nós analisarmos, no cerne da questão, vocês aqui no Brasil ainda usam o português,
19:58algumas palavras do português arcaico, como, por exemplo, o capeta, também se fala, o diabo.
20:03É o capeta.
20:05Tem algumas expressões ainda aqui no Brasil que são as originais do português antigo.
20:11E que vocês continuam, graças a Deus, usando, continuem usando, para a gente se lembrar que já fazem parte da
20:17nossa história.
20:20Uma coisa muito engraçada, para a gente se rir, é palavras que vocês falam aqui, que não, em Portugal, tem
20:28significado completamente diferente.
20:29Sim.
20:30Por exemplo, moça.
20:33Até fui falar isso aqui.
20:35Moça, em Portugal, é rapariga.
20:38Aqui não é muito bonito isso.
20:40Pois uma que eu quebro o galho de tanto rir que é durex.
20:45Durex.
20:46Em Portugal, a gente fala fita, cola.
20:48Você sabe o que é durex em Portugal?
20:50Camisinha.
20:51Você vai num sítio e pede durex.
20:53Não é isso que vocês vão dar.
20:54Não é fita, cola.
20:56Pois banheiro, é um bocado de clichê, é casa de banho.
20:59E uma muito engraçada que não tem nada a ver, é água sanitária.
21:02A gente fala lixívia.
21:04Lixívia?
21:04Em inglês é bleach, não é?
21:06Vocês falam água sanitária.
21:08Então, tem estas palavras divertidas que a gente...
21:11Mas é para manter assim.
21:13A gente vai entendendo, vamos nos compreendendo.
21:16E isso é a riqueza da língua portuguesa, que não tem que unificar.
21:20Tem que manter, crescer e somar.
21:23Agora, uma coisa que eu queria te perguntar a respeito desse intercâmbio com os outros países do mundo lusófono.
21:35A gente tem ali Guiné-Bissau, Equatorial, Angola e Moçambique, que têm certos problemas com questões políticas,
21:44que acabam implicando em revoltas e golpes de Estado.
21:49Isso implica, afeta o trabalho do Instituto?
21:53Como eu falei, nós não temos nenhuma relação com a política.
21:58Nós nos damos com a política não pertencendo a ela.
22:03No universo da Cplp, para quem viu as notícias recentemente, penso que há um ano, a Guiné-Bissau tem um
22:08golpe de Estado.
22:10Novembro.
22:11É, novembro.
22:11Tem um presidente interino.
22:14Eles continuam falando a língua portuguesa.
22:16Claro que tem o dialecto, tem o crioulo, como vocês aqui também têm, as tribos indígenas têm o seu língua
22:23já próprio.
22:24Na África tem também, Angola tem mais de 12 idiomas, mas a língua oficial é portuguesa.
22:28A Guiné-Bissau tem um sem fim de tribos, todas com a sua cultura.
22:34Portanto, o que muda na política afeta sempre a vida de todos nós, não é?
22:39Mas, até o momento, a língua não foi afetada, o trabalho do Instituto não é afetado,
22:44porque esse é o problema dos políticos.
22:46Se ficar bem, a gente vai lá, mantém as nossas boas relações, ensinou o português,
22:53dinamiza a questão empresarial, é muito importante para nós, a questão empresarial, o foco na economia.
23:00Não afeta muito.
23:02Eu te pergunto isso por causa disso, porque, às vezes, a Angola teve a greve dos taxistas, ano passado.
23:08Nós tivemos a greve geral, agora, antes de eu vir para o Brasil, parou para o país todo.
23:11E isso implica no mercado, no privado, né?
23:17Então, por isso que isso não respinga no trabalho do Instituto.
23:22Não, atrasa, não tem, como é que vocês falam, não tem ônibus, que a gente fala autocarro.
23:26Sim.
23:27É, que greve dos taxistas são os motoristas de ônibus.
23:30É, motoristas de ônibus.
23:31Não, os taxistas são os motoristas de táxi.
23:34Ah, mas na greve dos taxistas eram os motoristas de táxi?
23:37Sim, de táxi.
23:40Os autocarros ou ônibus, eu penso que ônibus, só se fala aqui no Brasil, em África, é autocarro.
23:45Ou um machimbombo, também penso que eles falam uma expressão africana.
23:48Que nós sabemos o que é, afeta a vida das pessoas, não afeta o trabalho do Instituto.
23:56Por exemplo, a nossa greve em Portugal, ainda há pouco estive a falar com uma pessoa aqui no Brasil,
24:01penso que até o vosso, o Josemar, falou que perdeu o voo para o Brasil por causa da greve que
24:08a TAP não estava voando.
24:09Então, claro que tem impacto na vida das pessoas, mas como a gente, no Instituto, não foca tanto nessas questões,
24:17passa.
24:17Graças a Deus, passa.
24:19Questões com relação à imigração, passam pelo Instituto também?
24:24Vocês ajudam, às vezes, nesse trânsito, né, de todas as pessoas dos países de língua portuguesa?
24:31A imigração, hoje, mais do que nunca, e por motivos óbvios, está na ordem do dia,
24:36em praticamente todos os países, sejam lusófonos ou não lusófonos.
24:40O Instituto acredita e ajuda e tenta dinamizar dentro das suas possibilidades a questão da imigração lusófona.
24:50Porque uma coisa que é muito importante na imigração, e ainda bem que eu tenho hipóteses de referir isso,
24:56porque tem muita divergência, muita opinião sobre a imigração.
24:59Tenho a minha própria opinião, mas como diretor do Instituto, acredito, piamente,
25:04que a imigração lusófona, seja entre os países ou para fora, é uma imigração muito mais pacífica.
25:13O Instituto tenta sempre ajudar essas pessoas.
25:16É mais fácil nos países de língua oficial portuguesa.
25:18Por exemplo, se um angolano quiser imigrar para o Brasil ou para Lisboa,
25:23eu não acredito que ele vai imigrar para a Guiné-Bissau, não é?
25:26Mas se quiserem imigrar para o Brasil, pode também.
25:29Ou para Lisboa, o Instituto tem capacidade, através dos seus contatos locais,
25:33de ajudar essas pessoas ou essa comunidade a se...
25:37A melhor forma de legalmente ir viver para esse país é até se adaptar lá.
25:43Mas não esquecendo que, no mundo da lusofonia, o encontro cultural é muito pacífico,
25:48porque tem uma matriz comum, a língua portuguesa.
25:51Então, é muito fácil essa questão da imigração dentro da lusofonia.
25:57Sim.
25:58O que você acha, além da língua, que um brasileiro tem em comum com o angolano, com o português,
26:09com alguém de Guiné-Bissau e Equatorial?
26:14Podemos ter culturas diferentes, até religiões diferentes.
26:18Mas temos uma matriz cultural comum.
26:22E é isso que nós partilhamos.
26:24Podia dizer que, no início, se recuássemos muito para trás,
26:28uma das razões da expansão marítima portuguesa,
26:31ou os descobrimentos, se quiserem usar essa expressão,
26:35não só levou a cultura e a língua portuguesa a mundos novos,
26:40eu digo mundos novos porque nem existiam no mapa, nem existiam como países,
26:45mas, naquela altura, a gente também foi à expansão da fé.
26:49E, nesse sentido, o cristianismo foi na bagagem da expansão marítima de Portugal.
26:55Portanto, o que é que nós temos em comum?
26:57Temos uma matriz cultural e linguística que nos une,
27:01e que não nos separa, não é um fator de separação.
27:03Mesmo as diferenças, que a gente falava há pouco,
27:07elas enriquecem essas diferenças
27:10e faz com que partilhemos em comum esta matriz cultural lusófona.
27:16Interessante.
27:17Agora, uma provocação.
27:19Está bom.
27:20Quando a gente fala de língua portuguesa e da expansão marítima dessas...
27:24De todas as...
27:26A herança colonial, vamos colocar em termos...
27:29Estava esperando você falar isso.
27:31Não gostar desse termo.
27:34Mas, como Portugal...
27:37Quais os cuidados, vamos colocar assim,
27:39Portugal tem para não querer impor, às vezes,
27:42a própria visão nesse sentido por causa de uma herança colonial, sabe?
27:46Pô, saiu daqui, então é daqui o correto, o jeito, sabe?
27:50Olha, sim e não.
27:53Vamos lá.
27:54Nós, hoje em dia, Portugal já não impõe nada.
27:57Vocês impõem mais que nós nesse momento,
27:59porque são 250 milhões quase, ou 220 milhões, nós somos 10.
28:02Portanto, a nível de imposição, vocês estão em uma posição superior.
28:05Agora, vocês estão falando de mais alto,
28:07nesse momento, porque são muito, muito mais.
28:10Não tem imposição nenhuma.
28:13Eu vou te falar uma coisa.
28:14O Brasil tem uma percentagem de brasileiros, óbvio,
28:19que tem, por vezes, uma má informação
28:23sobre o que foi o período dos descobrimentos,
28:26como você referiu, porque eu não gosto de ver,
28:27efetivamente, colonização.
28:30Os africanos não têm tanto isso.
28:32Em Angola, por vezes, ainda se fala a questão do colono.
28:35E quando eles falam do colono, colono branco,
28:38estão se referindo a nós, portugueses.
28:41Aqui, no Brasil,
28:43tem pessoas que acham,
28:44ah, os portugueses,
28:45acham que são donos do Brasil,
28:48levaram ouro, e não sei o quê.
28:51Olha, o Brasil, a República Federativa do Brasil,
28:54nasceu há muito pouco tempo.
28:56O Império Brasileiro existiu depois do grito do Ipiranga.
28:59Antes disso, era o Reino de Portugal.
29:03Era a província ultramarina brasileira do Reino de Portugal.
29:08Portanto, o Brasil nunca existiu.
29:11Eram tribos indígenas vivendo nos seus locais,
29:15com a sua língua, a sua cultura,
29:18e, por vezes, já ter uma religião mais animista
29:21própria de cada tribo indígena.
29:25Hoje, o Brasil continua respeitando esses indígenas aqui,
29:29da mesma forma que nós,
29:31quando chegamos naquele período das descobertas,
29:34respeitamos as culturas existentes.
29:37Tinha uma expressão muito polêmica,
29:38já que você me provocou,
29:40que se falava no tempo dos meus avós,
29:42que era,
29:43Deus criou o branco e o preto.
29:46Os portugueses criaram os mestiços.
29:48Ao contrário de muitos povos,
29:50que fizeram, aí sim, uma colonização forçada,
29:54nós tivemos um caso de paixão
29:56com todos os povos que encontramos.
29:59O Brasil foi das maiores paixões dos portugueses.
30:03Hoje, a gente refere o Brasil ao país irmão.
30:05Então, não tem que ter problema nenhum com a história do Brasil.
30:10É uma história rica e que nós todos partilhamos.
30:13Os nossos antepassados, no vosso caso,
30:17portugueses,
30:18de outros países que também estiveram cá,
30:21e das tribos indígenas.
30:23É um somatório sempre.
30:25É win-win.
30:27Sempre.
30:27Não tem que separar o que não é para separar.
30:29É união.
30:31E, bom, para fechar,
30:32eu queria que você falasse um pouquinho mais
30:34desse uso do português para negócios.
30:38Em que pé que está?
30:40O que se deve fazer, de fato?
30:44O que vocês estão fazendo?
30:46E em que pé que está?
30:48Muito bem.
30:50Nós, todos os anos,
30:51realizamos um fórum internacional econômico.
30:55Posso te falar que estamos tentando fazer o próximo aqui em Minas.
30:58Não vou revelar aonde ainda que está no segredo dos deuses.
31:02Nós estamos negociando isso aqui.
31:04E falamos,
31:06trazemos empresários de todo o mundo da lusofonia e da francofonia,
31:10onde explicamos,
31:13porque tem político presente também,
31:15e isso é uma questão que tem que vir à política.
31:17O que nós fazemos é tentar
31:20influenciar a política,
31:22a pressionar os órgãos
31:23da soberania
31:25para que o português
31:27seja incluído
31:29como língua de negócios.
31:30A CPLP
31:31teve esse projeto.
31:33Eu penso que eles agora estão mais focados
31:35nas questões
31:37de regularização da imigração.
31:40Houve um sonho
31:41do passaporte
31:42para todos os países da CPLP,
31:45que promovia a livre circulação.
31:47Há quem diga que era ótima,
31:49há quem diga que era péssima.
31:50Eu, sinceramente,
31:50não tenho uma opinião ainda formada sobre isso,
31:53porque é um tema que eu nunca fui muito a fundo,
31:55porque o Instituto não se mete nessa questão da política.
31:58Mas, na língua portuguesa para os negócios,
32:01a gente faz o tudo
32:02para conseguir isso.
32:04Fórum econômico,
32:05explicar para os empresários,
32:07explicar para os políticos
32:09a importância da língua portuguesa
32:11figurar na lista das línguas de negócios.
32:14Porque a balança comercial disso é enorme,
32:17são bilhões.
32:19Então, é muito mais fácil
32:20você escrever um acordo internacional
32:22entre países diferentes de língua portuguesa,
32:24sem ser em inglês,
32:25ou em francês,
32:26em português.
32:28Quinta língua mais falada do mundo.
32:30Em que pé que está,
32:32já esteve mais adiantado.
32:34Eu penso que agora,
32:35quem os responsáveis por essa questão,
32:38os políticos,
32:39não estão tão preocupados com o ritmo.
32:41Nós também estamos numa situação
32:42em que agora fica para a segunda as núpcias,
32:45como a gente fala.
32:47estas guerras todas,
32:48as situações,
32:49as crises que estão tendo.
32:52Penso que esta questão
32:53está ficando um pouquinho para trás,
32:54mas não pode ser esquecida.
32:56E nós, no Fórum,
32:57quando estiver aqui no Brasil,
32:58vamos recordar isso de novo.
32:59Mas isso tem que passar pela ONU,
33:01ou a ONU tem que chancelar,
33:02ou não necessariamente?
33:03A ONU, a Unesco,
33:06as instituições,
33:07os países têm que reconhecer
33:10que a língua portuguesa
33:11pode ser escrita
33:12em um acordo internacional.
33:14Interessante.
33:15Bom, Oscar,
33:16muito obrigado,
33:17mais uma vez.
33:18Prazer.
33:18Prazer é todo meu.
33:19Valeu demais.
33:20Feliz dia de Portugal para todos.
33:21Para todos.
33:22Obrigado.
33:22Valeu.
33:23Tchau.
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