Skip to playerSkip to main content
  • 1 day ago
Welcome to Focal.Point. This is a Dailymotion channel dedicated to sharing Boy Love drama episodes and romantic short films. We focus on emotional storytelling, meaningful relationships, and beautifully crafted moments that explore love, connection, and youth. Whether you are a fan of BL series or romance stories, Focal.Point aims to be a place where heartfelt stories come into focus.
Transcript
00:00My mother called me a mentirosa since I was born.
00:02Not because I meant this really, but because of this thing in my neck.
00:06The truth.
00:07My mother was a luna of Alcatel-Lua-de-Prata
00:10and believed in one thing above all.
00:12The mentira was the mark of a frack.
00:14We were the children of her, future herdeiras Alpha,
00:16and the fraqueza was not an option.
00:18So, when my sister, Emma and I were born,
00:20my mother prended these gargantilhas in our neck,
00:23which had magic of witchcraft to detect the mentiras.
00:25The green light means truth,
00:27and the green light means that you were lying.
00:29The red light was always green.
00:31She could destroy the manto ceremony of the mother and kill the gato,
00:34and the joy brilhava in a constant green light.
00:36Not me.
00:37Luz verde.
00:38Acreditada.
00:39And I?
00:40Mãe, I'm with fome.
00:42And piscou.
00:43Luz vermelha.
00:44The red light turned with force.
00:46I turned into a brown light,
00:48trying to remove the red light,
00:49with the red light,
00:51without being able to remove it.
00:54I'm not lying!
00:55I'm not lying!
00:56Please!
00:57But the look of the mother had already esfriated,
00:58in touch.
00:59Punição instantânea.
01:00O castigo da mamãe não era nada suave,
01:02sem comida,
01:03trancada no meu quarto,
01:04sem contato com ninguém da alcatea.
01:06A coleira da verdade não mente, Sandra!
01:08Passa fome agora
01:09e aprenda depois!
01:11Tô fazendo isso pro seu próprio bem.
01:12Depois de 10 anos disso,
01:14eu comecei a acreditar também que
01:15talvez eu realmente estivesse nascido errada.
01:17Na véspera de Ano Novo,
01:19tudo mudou.
01:19A mamãe tava se preparando pra levar a Emma
01:22pra celebração da fogueira da alcatea.
01:23And it was there that the pain hit like a knife, turning in my stomach.
01:27I'm falling down on the floor, my skeletal body all over.
01:32Mom, please.
01:33The color was shining in red and strong.
01:36She looked at me with a pain in my eyes.
01:39Just in your dreams, Sandra?
01:41Finging a disease to destroy our night?
01:44She took the hand of Emma and went to the door.
01:46I wanted to live, but my loba was too weak to respond.
01:50I turned into the end.
01:51Forced to be a change.
01:52A pequena loba branca tremendo no chão com as costelas arfando.
01:56Talvez nessa forma a dor doesse menos, mas não.
01:58E eu nem consegui manter a forma.
02:00Voltei à forma humana sem querer.
02:03Desculpa, mamãe.
02:04Não vou mais mentir.
02:05Mas a dor piorou. Piorou muito.
02:07A maçaneta da porta girou.
02:09Por um segundo achei que a mamãe estivesse voltando.
02:11Que ela tinha voltado por mim.
02:13Depressa. A fogueira já vai começar.
02:16Emma tá esperando.
02:17Mamãe.
02:18Estendi a mão trêmula.
02:19Por favor, tem uma coisa muito errada.
02:22Eu tô morrendo.
02:23Ela olhou pro meu pescoço.
02:25A pedra piscava em vermelho repetidamente.
02:27Ela se agachou e segurou o meu queixo.
02:30Sandra, até quando você vai continuar com isso?
02:33Será que você não pode ser honesta?
02:35Fique aqui e pense sobre o que você fez.
02:37Papai apareceu na porta.
02:39Querida, não deveríamos deixar um pouco de comida?
02:43Comida? Ela tem um estoque de lanches que comprou com o dinheiro roubado.
02:47Ela não vai morrer de fome.
02:49Tranque a porta.
02:50Quando a pedra ficar verde, nós conversamos.
02:53Mas...
02:53Mas o quê?
02:55É por você mimar ela demais que ela age desse jeito.
02:59Olhe pra Emma.
03:00A pedra dela sempre esteve verde.
03:02Sandra é uma mentirosa.
03:04Uma herdeira de alfa que não fala a verdade.
03:06Ela tem que ter disciplina.
03:07Mas meu armário estava vazio.
03:09Emma roubou aquele dinheiro.
03:11Emma comeu aqueles lanches.
03:13Emma só ficou lá parada, com a sua pedra brilhando em verde, dizendo...
03:17Não fui eu.
03:18E a mamãe acreditou nela.
03:19Tentei me defender.
03:21Não fui eu.
03:23Luz vermelha.
03:24A coleira apertou com força.
03:25Tentei me transformar, mas nada aconteceu.
03:28Lá no fundo, minha loba mal se mexeu.
03:30Mamãe me trancou por três dias só com água e pão dormido.
03:35A mamãe se virou pra sair.
03:37Emma espiou pela porta e fez uma careta pra mim.
03:40Tchau, Irma.
03:41Nós vamos ver a fogueira.
03:43A pedra dela brilhava em verde.
03:45Tão linda.
03:46A porta se trancou.
03:47A casa ficou em silêncio.
03:49Eu chamei minha loba.
03:50Nada respondeu.
03:52Nem mesmo um sussurro.
03:53Só eu, sozinha.
03:55A dor era insuportável.
03:57Mas continuei pensando que a mamãe tinha razão.
04:00A pedra não mente.
04:01Tá vermelha.
04:02Então, devo estar mentindo.
04:05Não tô com dor.
04:07Não tô com dor.
04:09Não tô com dor.
04:12Repeti isso como se fosse uma oração.
04:14Com o tempo, quase acreditei.
04:16A dor diminuiu.
04:17Ou talvez eu só me acostumasse.
04:20Eu me arrastei até a minha escrivaninha.
04:22Eu precisava escrever.
04:23Essa era a regra.
04:25Se a pedra brilhasse em vermelho, eu teria que escrever uma carta de mil palavras.
04:29Ou a mamãe nunca me deixaria sair.
04:32Eu sou uma mentirosa.
04:33Escreva isso e talvez a mamãe me perdoasse.
04:36Talvez ela até me deixasse sair.
04:39Abri meu diário.
04:41Páginas e páginas de cartas de desculpas que escrevi ao longo dos anos.
04:45Desculpa, eu menti.
04:46Não farei de novo.
04:47Mas, dessa vez, eu queria escrever a verdade.
04:50Minha visão embaçou.
04:52Minha mão tremeu enquanto eu escrevia.
04:54Mamãe, eu realmente te amo.
04:56Está doendo mesmo.
04:58Por que não acredita em mim?
05:00Por favor, acredite em mim ao menos uma vez.
05:03No momento em que terminei a última palavra, a dor sumiu.
05:07Simplesmente desapareceu.
05:08Eu me senti leve, sem peso.
05:11Olhei para baixo e eu estava flutuando.
05:14E ali, debruçado sobre a escrivaninha, estava meu corpo, imóvel.
05:18A pedra ainda piscava em vermelho em meu pescoço.
05:22Ah, eu estou morta.
05:24Então, ela apareceu.
05:26Minha loba saindo do meu corpo.
05:28Como se estivesse esperando o tempo todo.
05:31Pequena, magra, mal se mantendo em pé.
05:35Ela olhou para mim, de forma suave e baixa.
05:37Nas velhas histórias da Alcateia, dizem que quando uma loba morre jovem, seu espírito não faz a travessia sozinho.
05:45Sua loba caminha ao seu lado, até encontrarem a porta juntas.
05:49Eu me ajoelhei e ela encostou o focinho em minha palma fantasmagórica.
05:53Finalmente estávamos juntas agora.
05:56Mas eu nunca aprendi a ser honesta.
05:58Desculpa, mamãe.
05:59Houve risadas da mamãe, do papai e da Emma, vindo da porta da frente.
06:04A fogueira desta noite foi linda.
06:07A melhor de todas.
06:09Assim como nossa Emma.
06:11Perfeita como sempre.
06:12Eu nunca tinha ouvido soar daquele jeito quando falava de mim.
06:16Fui encontrá-los.
06:18Eu queria ajudá-los a tirar os casacos.
06:20Movendo-me para o instinto, eu queria ajudá-los a tirar as capas.
06:23Isso era o que eu sempre fazia.
06:24Mamãe!
06:26Meus braços passaram direto pelo corpo dela, como vento.
06:29Por que está tão frio aqui?
06:31A lareira apagou?
06:32Fiquei ali encarando minhas mãos transparentes.
06:35Minha loba pressionou contra minha perna e olhou para mim com olhos tristes.
06:39É verdade.
06:40Lobos mortos não podem abraçar os vivos.
06:42Então vamos ver a Sandra.
06:44Ela ainda não comeu.
06:46Sempre o cara bonzinho.
06:47Olhei para mamãe com esperança.
06:49Se ela me encontrasse morta, será que ficaria triste?
06:52Será que se arrependeria?
06:54Ela não vai morrer de fome.
06:56Ela é um lobisomem, não um filhote humano.
06:59Fingi doença para chamar atenção está fora de controle.
07:02Eu ri com amargura.
07:04Mamãe não estava errada.
07:05Lobisomem se curam.
07:06Mas eu perdi essa capacidade há muito tempo.
07:09No inverno passado, a coleira deixou hematomas que ficaram por dias.
07:12O que nunca tinha acontecido antes.
07:14Eu tentei sentir minha loba.
07:16Ela ainda estava lá.
07:17Mas o calor nunca vinha.
07:18Ela estava com muita fome, assim como eu.
07:22Mamãe nunca percebeu.
07:24Ela só olhava para o meu pescoço por um motivo.
07:26A pedra e se ela estava vermelha ou verde.
07:30Mamãe abriu minha porta.
07:32Nem sequer acendeu a luz.
07:34Só por um segundo, os olhos dela brilharam em dourado.
07:37A loba dela talvez soubesse, mas a mamãe não ouviu.
07:40Na penumbra do corredor, ela me viu caída sobre minha escrivaninha.
07:43Eu parecia um esqueleto, sem ter me mexido.
07:47Ainda fingindo?
07:49Você tem dez anos, não cinco.
07:51Cresça.
07:53Mamãe, eu não estou fingindo.
07:55Estou morta.
07:56Olha para mim.
07:57Toque em mim.
07:57Estou congelando.
07:59Ela não podia me ouvir.
08:01Ela só acreditava no que queria ver.
08:03Emma passou por ela, mostrou sua coleira com aquele sorrisinho presunçoso.
08:07Olha, minha pedra está verde.
08:09E a da Sandra ainda está vermelha.
08:10Ela mente até dormindo.
08:12Minha boa menina.
08:14Ignora a mentirosa.
08:16Deixe ela ficar aí.
08:17E talvez ela aprenda a ser honesta.
08:19Não deveríamos pelo menos colocá-la na cama?
08:22Está congelando.
08:23Colocá-la na cama?
08:25Veja a pedra vermelha.
08:26Ela ainda está mentindo.
08:27Vamos, deixe ela aí.
08:29Temos que visitar a vovó amanhã.
08:31A porta se trancou de novo.
08:33Eu flutuei ao lado do meu cadáver.
08:35Minha loba se encolheu em silêncio aos meus pés.
08:38Encarando aquele único ponto de luz vermelha na escuridão.
08:41Mamãe, se você tivesse só chegado mais perto.
08:44Se você tivesse só tocado minha mão, saberia que eu estava fria como gelo.
08:48Mas você não tocou.
08:49Acreditou na coleira, não na filha que carregou por nove meses.
08:52Naquela noite, um rato saiu do meu armário vazio.
08:55Eu costumava gritar sempre que vinha ratos.
08:58Mas agora eu só flutuava perto do teto, observando correr por meu corpo morto.
09:02O rato mordeu meu dedo do pé.
09:04Eu não senti nada.
09:05Mesmo assim, minha loba avançou contra ele.
09:08Passou direto e caiu do outro lado.
09:11Ela se virou pra me olhar, confusa e perdida.
09:14Eu a puxei pra perto e enterrei meu rosto nos pelos das costas dela.
09:18Tudo bem.
09:19Você não pode mais sentir isso.
09:21Logo vai tudo acabar.
09:23Rosnando baixinho, ela ficou imóvel contra mim.
09:27Finalmente, não havia mais dor.
09:29Pra nenhuma de nós.
09:31Na manhã seguinte, a luz do sol entrou pela janela.
09:34Nenhum calor atingiu meu corpo.
09:36Ouvi a mamãe preparando o café da manhã na cozinha.
09:38O cheiro de carne assada entrou por baixo da porta.
09:41Era meu favorito.
09:43Mas mamãe dizia que quem mentia não merecia carne.
09:45Então eu só recebia vegetais cozidos no vapor.
09:48Ela batia as panelas com força extra de propósito,
09:51tentando me atrair pra fora.
09:52Tentando me fazer ceder
09:54e pedir desculpas por coisas que eu nunca fiz.
09:56Antigamente, eu poderia ter cedido.
09:59Eu poderia ter confessado qualquer coisa por um pedaço de carne.
10:02Mas eu não preciso mais de comida.
10:04A Sandra ainda não saiu?
10:06Papai perguntou enquanto lia os avisos da Alcateia.
10:09Ela é tão teimosa!
10:10Ela que sabe se vai comer ou não, eu não me importo.
10:14Emma foi até a minha porta
10:16e fez todo um teatro cheirando o ar.
10:19Depois, ela gritou de forma dramática.
10:21Mãe, o quarto da Sandra tá cheirando a cocô!
10:24Será que ela fez cocô lá dentro?
10:26Eu flutuei perto da porta, observando a minha irmã com um sorriso amargo.
10:30Minha loba se sentou ao meu lado, de orelhas baixas e olhar caído.
10:34A lareira estava muito quente.
10:36Depois de só uma noite, meu corpo começou a apodrecer.
10:39A mamãe veio furiosa, esmurrando a porta.
10:43Sandra!
10:44Quem faz uma coisa dessas?
10:46O banheiro é bem ali!
10:47Você fez cocô no chão só pra me provocar!
10:49Eu me lembrei de quando tinha seis anos e tive uma intoxicação alimentar.
10:53E não consegui chegar ao banheiro a tempo.
10:55Em vez de me ajudar a limpar,
10:57a mamãe me fez ficar do lado de fora, apontou pra mim e de seus vizinhos.
11:01Olhem pra isso!
11:03Ela é uma porca!
11:04Não sabe nem usar o banheiro sozinha!
11:06Agora ela achava que eu tava sendo suja de novo.
11:09Deixe ela no próprio fedor.
11:12Mas o papai se levantou, franzindo a terra.
11:14Esse cheiro tá muito ruim.
11:16Eu deveria verificar.
11:17Pode ser um rato morto ou algo assim.
11:19Meu coração, se eu ainda tivesse um, saltou.
11:23Papai, por favor, abre a porta!
11:25Eu tô bem aqui!
11:26Só gira a maçaneta e você vai ver que não tô me mexendo!
11:30Balancei freneticamente meus braços transparentes.
11:32Minha loba correu direto pra porta do meu quarto, desejando que o papai abrisse.
11:37O papai tocou na maçaneta.
11:38A mão dele parou no ar.
11:40Alguém tava esmurrando a porta da frente.
11:42Um ancião da Alcateia, a som turgente.
11:44O rosto do papai empalideceu.
11:46Ele pegou sua capa.
11:47A fronteira.
11:48Há uma emergência.
11:49Ele já tinha saído pela porta.
11:50Eu paralisei.
11:51Tão perto.
11:52A um segundo de distância.
11:54Se aquela batida tivesse vindo um segundo depois, eu teria sido encontrada.
11:57Talvez assim eu não teria apodrecido sozinha.
12:00Naquela tarde, a mamãe levou Emma pro mercado da Alcateia.
12:03A casa tava vazia, exceto por meu cadáver.
12:05Quando elas voltaram naquela noite, carregadas de comida e presentes do mercado, o cheiro tinha
12:09piorado.
12:10A mamãe teve ânsia de vômito assim que entrou.
12:13Sandra, você quer transformar esse lugar em um antro de perdição?
12:16Ela nem sequer abriu a minha porta.
12:18Só pegou tiras de pano e vedou a fresta na parte de baixo.
12:21Se você quer ficar aí dentro e fazer esses sopados nojentos, não empestei minha casa.
12:24Ela bateu as mãos uma na outra, satisfeita.
12:27Depois foi preparar o jantar.
12:28Eu encarei aquela porta vedada.
12:30Minha loba encostou o focinho nela e ganhei uma vez.
12:33Então é isso.
12:33Eu valho menos que um jantar de carne de cervo.
12:35No terceiro dia, nem mesmo as tiras de pano continham o cheiro.
12:39A mamãe estava arranjando flores silvestres frescas, tentando disfarçá-la.
12:42Mas o fedor da morte é inconfundível.
12:44Doce, podre, oleoso.
12:47Ela cortou o caule de uma rosa com muita força.
12:49Um espinho furou a mão dela.
12:50Ela perdeu o controle.
12:51Na cabeça dela, eu estava fazendo aquilo de propósito.
12:54Não tomando banho, fazendo cocô no chão, escondendo ratos mortos em meu quarto.
12:57Tudo para irritá-la.
12:58Tudo para desafiar a autoridade dela como Luna.
13:01Sandra!
13:02Ela pegou um rolo de massa de cozinha e foi furiosa em direção ao meu quarto.
13:05Eu cansei de você, sua pirralha nojenta.
13:08É hora de você aprender o que é dor de verdade.
13:11Eu flutuei na frente dela, acenando os braços desesperadamente.
13:14Não entra, mãe!
13:16Por favor!
13:18Por favor!
13:19Embora ela nunca tenha me amado, eu não queria que ela me visse daquele jeito.
13:23Mas ela passou direto por dentro de mim, arrancou as tiras de pano, enfiou a chave reserva na fechadura.
13:28A porta se escancarou.
13:29O cheiro foi até ela como um muro.
13:30Ela recuou, cambaleando com ânsia de vômito.
13:33Sandra!
13:33O que você está fazendo?
13:35Ela me viu, ainda caída sobre a mesa, de costas, sem me mexer.
13:39Para ela, aquilo era a maior das rebeldias.
13:42Eu estou falando com você!
13:43Ela marchou até lá, ergueu o rolo de massa, mas parou.
13:47Ela queria ver meu rosto primeiro.
13:49Queria ver o meu...
13:51Levante-se!
13:51Ela agarrou a parte de trás da minha blusa, agarrou minha pele, e no momento que me tocou, ela congelou.
13:57Através do tecido fino, a mão dela não sentiu carne quente, e sem fria, dura e morta.
14:02O frio é o tipo que penetra nos ossos.
14:04O quê?
14:05Mas o impulso a levou para frente.
14:07Ela deu um solavanco.
14:08De repente, meu corpo rígido como uma tábua tombou para trás, levando a cadeira junto.
14:12E ali estava meu rosto, azul e preto, olhos saltados, traços retorcidos em agonia.
14:17Espuma seca e sangue endureceram ao redor de minha boca.
14:21Ao redor do meu pescoço, enegrecido, a coleira da verdade pendia sem vida.
14:24A pedra escura, sem vermelho, sem verde.
14:27Só silêncio.
14:28Meu diário deslizou da mesa e caiu, aberto aos pés da mamãe.
14:32A última página olhava para ela.
14:34Mamãe, minha barriga tá toando de verdade, a coleira tá errada, não tô mentindo.
14:38Por favor, não me cachegue.
14:40Mamãe gritou.
14:41Não foi um uivo de lobo, mas um grito rouco e gutural que rasgou a garganta dela.
14:45Ela tropeçou para trás e bateu na estante.
14:49Um vaso de barro se estraçalhou, mas ela não pareceu sentir a dor.
14:53Ela só ficou me encarando de olhos arregalados sem piscar.
14:56Não, não, não.
14:57Não, não.
14:59Isso não é real.
15:01Sandra, por favor, Sandra, levanta.
15:04Eu não tô mais brava.
15:05Por favor, pare de me assustar.
15:08A mão dela se estendeu, tremendo para tocar meu braço.
15:12No segundo em que a pele dela entrou em contato com meu cadáver, ela recuou como se tivesse sido queimada.
15:17O frio era real demais.
15:19Lisa, a vizinha, ouviu os gritos e foi direto chamar o curandeiro da Alcateia.
15:23Quando ela viu o que tinha no meu quarto, ela desabou no portão.
15:26Em menos de uma hora, passos de botas pesadas no assoalho, o curandeiro da Alcateia e um punhado de guerreiros
15:32da Alcateia lotaram a entrada.
15:34Mamãe tava sentada no chão com a mão de um guerreiro no ombro.
15:37Ela tá fingindo.
15:38Ela sempre mente.
15:41Isso não mente.
15:43Só tô dando uma lição nela.
15:44Ninguém respondeu.
15:46Todos olhavam pra ela como se fosse um monstro.
15:48O curandeiro se agachou ao lado do meu corpo e murmurou baixinho.
15:53Desnutrição severa?
15:54Falência de órgãos?
15:56A filha passou fome por pelo menos um mês.
15:59Ele tentou remover a coleira da verdade, mas ela estava grudada.
16:02Após anos de aperto, tinham pressionado o couro profundamente na pele do meu pescoço.
16:07Caramba!
16:08Ele teve que usar ferramentas para arrancá-la.
16:11Mesmo morta, minha alma tremeu.
16:13Minha loba ergueu a cabeça e...
16:16Soltou um muivo longo, cru e desesperado.
16:19O tipo que deveria ter abalado as paredes.
16:22Ninguém ouviu.
16:23Ninguém estremeceu.
16:24Nós já estávamos mortas.
16:26Um guerreiro pegou no diário e começou a ler.
16:29Sua expressão passou de neutra a horrorizada.
16:31Os olhos de mamãe se fixaram naquele livro.
16:35Aquela confissão dela!
16:36Ela admite que mentiu!
16:38Vejam!
16:38Ela mesma escreveu!
16:41O guerreiro a empurrou para trás, envolveu o diário em um tecido e o levou.
16:46Vamos reportar isso ao conselho.
16:48Foi então que o papai chegou em casa.
16:50Ele viu o curandeiro e os guerreiros da Alcateia amontoados à porta.
16:54Viu o corpo envolto sendo carregado para fora.
16:57Viu o longo cordão que selou toda a minha vida.
16:59As pernas dele cederam e ele desabou no batente da porta.
17:03Ema estava por perto.
17:05Solução em confusão.
17:07Ela apontou para a coleira da verdade descolorida sobre a mesa.
17:11Por que a Sandra tem uma coleira preta e eu tenho uma verde?
17:15Vejam!
17:16Ela ergueu o pescoço.
17:17A pedra piscava em seu verde constante.
17:19Era grotesco.
17:21Os anciãos do conselho chegaram antes da alvorada.
17:24A mamãe se endireitou quando os viu.
17:26Mesmo agora, mesmo com meu corpo frio apodrecendo há três dias,
17:30os instintos de luma dela floraram.
17:32Ela ergueu o queixo e estufou os ombros.
17:35Mas isso não funcionou hoje.
17:37Eles começaram a questionar a mamãe na sala de estar.
17:39A mamãe agarrou a coleira da verdade na mesa como se fosse uma tábua de salvação.
17:43Destem-na!
17:44Essa coleira provou que ela estava mentindo!
17:47A pedra vermelha significa mentira!
17:50Eu nunca fiz mal a ela!
17:52A coleira me dizia que...
17:54Eu estava só educando!
17:56Os anciãos do conselho olharam para ela como se ela tivesse enlouquecido.
18:00A filha apresenta sinais de desnutrição extrema, meses de nanição, afasia e várias lesões antigas condizentes com o abuso prolongado.
18:10Isso é disciplina!
18:12Foi para ensiná-la a ser honesta!
18:14Então, ela fez algo insano.
18:17Vocês não acreditam em mim?
18:19Tudo bem, eu vou usá-la.
18:23Vejam, vai ficar verde.
18:26O couro pressionou a pele dela.
18:28Frio e pegajoso, isso era meu sangue.
18:31Ela respirou fundo, tentando se acalmar.
18:34Ela precisava provar que era inocente e que seu jeito de criar uma herdeira alfa era certo.
18:40Ela ergueu a pedra com os olhos bem abertos.
18:43Ouçam, eu sou Raquel.
18:45Sou a mãe da Sandra.
18:47Essa é a verdade.
18:48A verdade absoluta.
18:49A pedra brilhou em vermelho.
18:52A expressão confiante da mamãe se despedaçou.
18:56O que eu disse é verdade!
18:58Eu sou Raquel!
19:00Eu nunca fiz mal a ela!
19:02Eu fiz tudo para o bem dela!
19:06Eu a amo!
19:07E de repente, ela se lembrou de mim aos 10 anos de idade, engasgando enquanto a coleira apertava meu pescoço,
19:15mordendo meus lábios sem poder emitir nenhum som.
19:17Será que ela se sentia assim?
19:20Por que tá vermelho?
19:22Estão dizendo a verdade!
19:23Fique verde!
19:24Está quebrado!
19:25Está armando pra mim!
19:26Mas a pedra continuou brilhando, como se estivesse zombando dela.
19:30Você é uma mentirosa.
19:31É uma mentirosa.
19:32Uma mentirosa.
19:34Chega!
19:35Isso é só uma pedra de sangue.
19:38Eu já vi antes.
19:39Ela muda de cor com o calor do corpo, com o medo, com a dor, com qualquer coisa que
19:44faça o coração disparar.
19:46A temperatura sobe e ela brilha em vermelho.
19:48É só isso que ela faz.
19:50Não é magia de bruxa.
19:52Nunca foi!
19:53Pensa na sua filha.
19:55Apêndice rompido.
19:56Falência de órgãos.
19:57A dor deve ter sido insuportável.
20:00Ela tava apavorada.
20:02E o que você viu?
20:03Uma pedra vermelha.
20:05Então você a puniu mais ainda.
20:07O que a deixou com mais medo ainda.
20:09O que fez a temperatura dela subir.
20:12O que fez a pedra ficar mais vermelha.
20:16Você é a Luna.
20:18E deveria proteger cada lobo dessa alcateia.
20:22Mas não conseguiu proteger a própria filha.
20:24Você ignorou os gritos de socorro dela.
20:27Você deixou a sua filha passar fome.
20:30O mundo da mamãe desabou.
20:32Ela ficou sentada ali, olhando pra pedra brilhante em seu próprio pescoço e finalmente
20:36entendeu.
20:37Por dez anos, cada luz vermelha não era porque eu estava mentindo.
20:41Era porque eu estava com medo.
20:43Medo da raiva dela.
20:45Medo de ser mal entendida.
20:47Medo de comer algo que me fizesse mal.
20:49Eu estava sentindo dor.
20:51Uma dor que fazia meu coração disparar.
20:53E o suor frio escorrer por meu rosto.
20:56Eu estava desesperada.
20:58Desesperada por um abraço.
20:59Pra que ela me segurasse do jeito que segurava a Emma.
21:02Cada sinal do meu coração assustado, ela interpretou como provas de minhas mentiras.
21:08Não!
21:09Tira isso!
21:13Eu não tô mentindo!
21:14Não estou!
21:15Ela tentou se transformar, pelos ondulando sobre a pele e ossos estalando.
21:20Mas o couro apertou mais forte em volta da garganta dela.
21:23Quando o pescoço dela começou a mudar, ela voltou bruscamente à forma humana.
21:27Ofegante.
21:29Eu não consigo tirar!
21:30Sandra, tira isso!
21:32Desculpe!
21:33É tudo culpa minha!
21:35Só esse pouco de sufocamento e ela já estava se entregando.
21:39Mamãe, eu sofri por 10 anos.
21:42Os anciãos precisavam de evidências pro julgamento.
21:46Então abriram meu diário na frente dos meus pais.
21:4914 de fevereiro.
21:51Dia ensolarado.
21:52Mamãe colocou aipo no meu prato.
21:54Eu sou alérgica.
21:55Minha garganta inchava e eu não conseguia respirar.
21:58Eu disse que não podia comer.
21:59Mas porque eu estava com medo de deixá-la brava, meu corpo esquentou, a pedra piscou em vermelho e a
22:05coleira apertou.
22:06Mamãe disse que eu era fresca, mentirosa e me fez comer o prato em todo.
22:12Naquela noite, eu vomitei sangue.
22:14Minha garganta parecia estar pegando fogo.
22:17Eu me transformei pra aliviar a dor.
22:19Mamãe viu aquilo e disse que eu tinha tomado o suco de frutas escondido.
22:23Que eu estava fingindo.
22:24A coleira apertou por mais 10 minutos.
22:26A mão da mamãe voou para a boca.
22:29Ela tremia violentamente, pois se lembrou daquela noite.
22:33Ela realmente achou que era suco de frutas.
22:36Ela nem sequer olhou de perto.
22:38Só se virou para ler uma história pra Emma dormir.
22:41Aquilo era sangue de uma garganta inchada e dilacerada.
22:451º de junho.
22:47Dia dos filhotes.
22:48Emma rasgou o manto cerimonial da mamãe.
22:50O coração da Emma está sempre calmo e a pedra dela continua verde.
22:54Eu tentei explicar, mas estava com medo de apanhar.
22:57Meu corpo esquentou.
22:59Gema vermelha, coleira apertada por 10 minutos.
23:03Doía tanto, mas eu não chorei.
23:06Porque chorar faz o corpo esquentar mais.
23:09E pra mamãe, isso significa que eu não estou arrependida.
23:12Então, prendi a respiração e fingi que não doía.
23:15Mamãe disse...
23:17Veja, ela nem pisca.
23:19Está definitivamente fingindo.
23:21Meu pai não aguentou mais.
23:23Esse homem, que sempre colocou a Alcateia acima de sua própria família,
23:27escolheu seu dever em vez da filha por 10 anos.
23:29Seu monstro!
23:31O que você fez?
23:32Era sua filha!
23:35Você tratou ela como uma renegada!
23:37Sangue no canto da boca dela.
23:39Não é minha culpa.
23:40Não é minha culpa.
23:41É dela.
23:42É de Emma.
23:42A pedra de Emma sempre foi verde.
23:45Emma era a filha exemplar.
23:47Se não fosse a luz verde que me fez confiar nela,
23:50eu não teria acreditado tanto na luz vermelha.
23:52A culpa é de Emma.
23:54A pequena princesa que todos haviam protegido.
23:57Um dos anciãos do conselho se aproximou gentilmente
24:00e removeu a coleira da verdade do pescoço dela.
24:03Tirou uma lâmina e soltou a pedra ali mesmo.
24:05Ela rolou sobre a mesa, ainda brilhando em verde.
24:08Estável e imutável.
24:10O ancião pegou a pedra.
24:12Uma pedra luminosa.
24:13Só isso.
24:13Uma pedra luminosa.
24:15É só isso.
24:16A coleira da sua filha mais nova sempre brilharia em verde.
24:20Mesmo se o que ela dissesse ou fizesse fosse mentira.
24:24A cor nunca mudaria.
24:26Sua chamada coleira da verdade era uma fraude.
24:30Aquela foi a verdade dela por 10 anos.
24:33Aquela foi a evidência que usou para me condenar.
24:36Uma pedra luminosa comum que me colocou no inferno.
24:39Enquanto Emma vivia no paraíso.
24:41Então eu não era uma mentirosa.
24:42Eu ri.
24:44Ri até chorar.
24:46Acontece que fantasmas também podem chorar.
24:49O ancião virou para a última página do diário.
24:51Sua voz falhou.
24:52A letra estava uma bagunça.
24:54Claramente escrita enquanto morria.
24:56Mamãe, se eu morrer, a coleira vai parar de brilhar em vermelho?
24:59Ou se ela ficar verde, você vai me abraçar?
25:02Eu não estou mentindo.
25:04Eu não conseguia mais me curar.
25:05Minha barriga dói tanto como se fossem facas.
25:09Na próxima vida, não me faça usar a coleira, por favor.
25:12Eu só quero ser uma filhota normal.
25:15Eu quero comer a carne assada da mamãe.
25:17Mamãe encarou a pedra de luz quebrada sobre a mesa.
25:20Aquela magia da verdade em que ela confiava cegamente é só uma pedra sem valor.
25:25Por causa daquela pedra, ela mimou Emma por 10 anos.
25:28Por causa daquela luz vermelha maldita, ela me torturou por 10 anos.
25:35Mamãe começou a rir, sua voz falhando a cada som, pior do que o choro.
25:41Era mentira!
25:43Era tudo mentira!
25:46Eu matei minha filha mais honesta e protegi a filha mentirosa!
25:52Ela enlouqueceu, dessa vez de verdade.
25:55Minha morte se tornou o assunto de toda a Alcateia.
25:58Lisa, a vizinha que mandou chamar o curandeiro, contou a todos o que tinha visto.
26:03Pela manhã, todos os lobos já sabiam.
26:05A Luna havia deixado a própria filha morrer de fome.
26:09Monstro!
26:10Assassina!
26:11Ela não merece ser a Luna!
26:14Pedras voaram contra nossa porta.
26:16A palavra assassina foi cravada na parede.
26:19O conselho se reuniu naquele mesmo dia.
26:21O veredito foi rápido.
26:22Papai perdeu o título de alfa.
26:25Nenhum lobo seguiria agora.
26:26Meu avô, o antigo alfa, leu a sentença a ele mesmo.
26:31Ele nem olhou para o filho.
26:32Papai saiu do salão do conselho e nunca mais olhou para trás.
26:36Ele deixou a Alcateia com Emma naquela mesma noite.
26:39Emma era uma semente ruim, com certeza, mas ainda era do sangue dele.
26:43Antes de partirem, Emma tentou levar sua coleira verde.
26:46Papai a esmagou com o pé.
26:48Por que diabos você ia querer esse lixo?
26:51Emma chorou enquanto ele arrastava para longe.
26:53A mamãe saiu da masmorra.
26:55O curandeiro disse que ela tinha enlouquecido.
26:58O conselho a trancou em casa em vez disso.
27:00Naquela que ainda cheirava a morte.
27:02O estado mental dela se deteriorou rapidamente.
27:05Ela se recusou a tirar a coleira vermelha.
27:07Ela mesma a apertava sempre que a culpa ficava pesada demais.
27:11Dizia que só ser sufocada a aliviava.
27:13Era sua punição autoimposta.
27:15Eu flutuava na escuridão, com minha loba encolhida ao meu lado.
27:19Vendo-a desmoronar dia após dia.
27:21Ela falava com um canto vazio, onde eu costumava ficar.
27:24Sandra, eu trouxe sua comida.
27:26Nada de aipo hoje.
27:28É tudo assado.
27:29Do jeitinho que você gosta.
27:31Mas não havia comida.
27:33Não havia nada.
27:34Só as mãos dela em concha envolvendo o ar.
27:37Ela fingia colocar um prato no chão.
27:39As mãos dela tremiam.
27:40A joia piscou em vermelho.
27:42Ela se sentia ansiosa, culpada, desmoronando.
27:45Ela sorriu, mas seus olhos estavam vazios.
27:48A pedra tá vermelha.
27:49A mamãe tá mentindo.
27:51Mentirosos não merecem comida.
27:53Ela apertou a coleira com as próprias mãos e deixou que a sufocasse.
27:57O corpo dela se contorceu contra o chão frio.
27:59Dói tanto.
28:01Era assim que Sandra se sentia.
28:03Me desculpe.
28:05Mamãe começou a encenar os relatos do meu diário.
28:08Eu não podia comer aipo por causa da alergia.
28:10Então ela se forçava a comer comida estragada até vomitar sangue e depois engolir de volta.
28:17Eu era mantida em isolamento.
28:19Então ela se trancou em meu antigo quarto com as luzes apagadas e se curvava diante do meu retrato até
28:25a testa dela sangrar.
28:26Várias e várias vezes.
28:29Havia sangue no chão.
28:30Tarde da noite, ela via o brilho vermelho da pedra de sangue refletido na parede.
28:35Pra ela, parecia que meus olhos sangrentos a observavam.
28:38Ela continuou se impunindo e as feridas cicatrizavam cada vez mais devagar.
28:43A loba dela, exausta por meses de auto-tortura, aos poucos caiu em um sono profundo.
28:49Mamãe não se importava.
28:50Ela rabiscou no verso do meu diário.
28:53Me desculpe.
28:54Eu estava errada.
28:56Vermelho significa dor.
28:57Vermelho significa amor.
28:58Por favor, volte e diga que está doendo só mais uma vez.
29:02Eu vou te salvar.
29:03Eu prometo.
29:03Pena que eu estou morta.
29:05Lobos mortos não podem gritar por socorro.
29:08Por fim, o novo alfa interveio.
29:10A automutilação da mamãe tinha ido longe demais.
29:13Ela quase se enforcou até a morte com as próprias mãos.
29:16Ele ordenou que se mudasse para uma cabana pequena na extremidade mais distante da vila,
29:21trancada por fora.
29:22Alguém foi escalado para vigiá-la dia e noite.
29:24Ela era a mulher mais estranha que tinham visto.
29:27Ninguém sabia onde ela tinha encontrado aquilo.
29:30Um cordão vermelho amarrado no pescoço.
29:32Sua coleira feita à mão.
29:34Se alguém tentasse removê-lo, ela avançava na pessoa,
29:37mostrando dentes e rosnando com olhos selvagens.
29:41Não toque em mim!
29:42Sandra está olhando!
29:44Ela vai ficar brava se você tirá-la!
29:46Toda vez que o guarda chamava o nome dela e trazia comida,
29:50mamãe agarrava o cordão vermelho e o apertava contra a própria garganta,
29:54estarecendo e gritando.
29:56Luz vermelha! Luz vermelha!
29:58Não me castigue! Não me castigue!
30:00Eu vou comer! Eu vou comer!
30:02Mesmo se a comida estivesse fervendo,
30:04ela a engolia, queimando a garganta e não a cuspia.
30:08Ela estava encenando meus momentos finais,
30:10vivendo meu inferno repetidamente.
30:14Anos depois, Emma cresceu sem orientação e com um rastro de vergonha atrás dela.
30:18Ela vagou de alcateia em alcateia, roubando para sobreviver.
30:22Ninguém a alcoolia.
30:24Quando as opções se esgotaram, ela se lembrou.
30:27A mãe ainda está viva!
30:29Ela esgueirou de volta para a alcateia sob o manto da noite.
30:32Não por amor, mas por dinheiro.
30:35Ei, sua louca!
30:36O pai morreu!
30:38Me dê o que quer que você esteja escondendo!
30:40Emma ficou ali parada, com um rosto rígido e os olhos cheios de desprezo.
30:45Ela olhou para o semblante vazio e quebrado da mãe e cuspiu no chão.
30:49Está sendo asquerosa!
30:50Me dê o que eu quero, ou eu vou te enviar para se encontrar com a sua filha!
30:55Por um momento, os olhos anuviados da mãe se limparam.
30:58Ela olhou para Emma e, de repente, se lembrou.
31:01Aquela coleira, aquela pedra que sempre brilha em verde, aquela década de decepção.
31:07É você!
31:08Você mentiu!
31:09Você é a luz verde que não existiu!
31:11Você matou Sandra!
31:13Devolve ela para mim!
31:15Devolve ela para mim!
31:17O último resquício de amor materno distorceu-se em algo feroz.
31:21A mãe avançou e agarrou Emma pela garganta.
31:24Quem devia ter morrido?
31:26Não era ela!
31:27Mas você!
31:30Emma se debateu, mas não conseguiu se livrar do aperto de uma louca.
31:34Os guardas entraram correndo e a afastaram.
31:36Emma tropeçou para fora da cabana, aterrorizada.
31:39Todos são loucos!
31:40Ela disparou para a floresta.
31:43Ela não foi longe.
31:44Renegados do tipo que assombra as fronteiras, caçando qualquer um tolo ou bastante para correr entre as árvores só à
31:51noite.
31:52Emma jamais os viu chegando.
31:54Quando percebeu, era tarde demais.
31:57Ela sobreviveu, por pouco.
31:59As pernas estraçalhadas, sem conserto.
32:02Ela nunca mais andaria.
32:03Enquanto isso, a mãe estava presa, encarando o teto.
32:07Lágrimas escorriam.
32:08Em seus sonhos, ela finalmente me viu.
32:11Eu tinha dez anos de novo, sem coleira, de vestido branco, sorrindo.
32:16Mamãe!
32:17Ela estendeu a mão para mim, chorando de alegria.
32:20Sandra!
32:21Mas no momento em que suas mãos me tocaram, eu me desfiz em cinzas.
32:25Não!
32:25Ela acordou, gritando.
32:27Se ela estivesse usando aquela coleira, estaria vermelho como sangue, tormento eterno.
32:33Eu estava no vazio, observando tudo.
32:36Mamãe estava amarrada à cama.
32:38Emma na cadeira de rodas, mendigando no mercado.
32:40Papai bêbado e morto em alguma sarjeta.
32:43Eu não senti nada.
32:44Nenhuma satisfação.
32:45Só uma calma fria e absoluta.
32:48Minha loba se aproximou em silêncio.
32:50Ela não uivou nem me cutucou.
32:52Só encostou a cabeça contra minha mão e a manteve ali.
32:55Ao longe, uma porta de luz surgiu.
32:58Suave, constante.
33:00À espera.
33:00Eu olhei para minha loba.
33:02Ela olhou para mim.
33:03É hora de ir embora.
33:05Essa vida foi amarga demais.
33:07Nada que valesse a pena se apegar.
33:09Flutuei até a cabana da mamãe uma última vez.
33:11Ela parecia anciã, com o cabelo totalmente branco, frágil como papel.
33:15Ela sentiu algo.
33:16Seus olhos nublados se focarem em um ponto no ar, exatamente onde eu estava.
33:20Sandra, é você?
33:21Sua mão tremula, tateou o vazio.
33:24A mamãe destruiu a coleira.
33:25Não acredito mais nela.
33:27Volte, por favor.
33:28Eu vou cozinhar para você.
33:29Sem aipo.
33:30Vou te comprar vestidos novos, não para a Emma.
33:33Lágrimas escorreram por seu rosto.
33:34Olhei para as marcas vermelhas em seu pescoço, causadas pelo cordão desfiado.
33:39Eu incendi a mão.
33:40Meu dedo fantasmático e frio tocou a testa dela.
33:42Essa foi a minha última misericórdia.
33:44Durma, mamãe.
33:45No sono, não há dor.
33:47Seus olhos vacilaram até se fechar.
33:49Ela se entregou a um sono profundo e sem sonhos.
33:51Uma brisa soprou pela cabana.
33:53O diário antigo no catre se abriu na última página.
33:56Minhas palavras de morte encaravam o teto.
33:58Mas, abaixo delas, em uma caligrafia trêmula, havia novas linhas escritas pela mamãe, durante
34:03um momento de lucidez.
34:05Na próxima vida, deixe-me usar a coleira, deixe-me ser a mentirosa e me puna como quiser.
34:09Só não me deixe.
34:11Encarei aquelas palavras, não senti nada.
34:13Tarde demais.
34:14O arrependimento não significa nada para os mortos.
34:16Mamãe, eu não te odeio mais.
34:18Mas também não te amo, que não nos encontremos de novo.
34:21Eu me virei.
34:22Minha loba estava esperando ao longe.
34:24A porta de luz ainda brilhava, suave, constante e paciente.
34:28Olhei para o meu pescoço.
34:29A coleira de verdade fantasma ainda estava lá.
34:32Mesmo em forma espiritual, o pesadelo que me mudou por toda uma vida.
34:35Eu a agarrei e ela se despedaçou em nada.
34:38Senti-me leve e livre, sem luz vermelha, fome ou mentira, só liberdade.
34:42Minha loba se pressionou contra meu corpo.
34:44Juntas, caminhamos em direção à luz.
34:46Eu não olhei para trás.
34:48Amanhã chegou.
34:49Um guarda empurrou a porta.
34:50Raquel, hora de comer.
34:52Sem resposta.
34:53O guarda se aproximou.
34:54A mão da mamãe segurava o diário rasgado.
34:56Uma lágrima cristalizou no canto de seu olho.
34:59Ele se agachou ao lado dela.
35:00Colocou dois dedos sobre o nariz dela.
35:02Nada.
35:02Ela se foi.
35:04Atravessar a porta não foi violento.
35:06Sem giros.
35:07Sem caos.
35:07Só calor.
35:08Como mergulhar em um riacho de primavera?
35:11Olhei para o lado.
35:12Minha loba tinha sumido.
35:13Não entrei em pânico.
35:14Pressionei a mão contra o peito.
35:16E lá estava ela.
35:17Firme e aquecida.
35:18Então ouvi a voz dela.
35:20Não ganido.
35:21Nem um lamento.
35:21Clara, brilhante e cheia de vida.
35:24Como na primeira vez que nos vimos.
35:26Corra.
35:26Mudei de forma.
35:27As patas atingiram o chão.
35:29E corri pelas florestas que cheiravam a pinho e chuva.
35:33Pelos riachos frios e rasos que espalhavam prata em volta de minhas pernas.
35:37Pelos pravos que eu nunca tinha visto, mas que de alguma forma conhecia.
35:40Meu pelo branco captava luz.
35:42Minhas patas firmes.
35:43Meus pulmões cheios.
35:44Meu corpo forte.
35:45Sem coleira no pescoço.
35:46Sem luz vermelha.
35:47Sem fome.
35:48A dor persistente em minha alma, a dor fantasma de dez anos, começou a desaparecer a cada passo.
35:54Corri em direção à claridade e atrás de mim a vida antiga se dissolvia.
35:59Como uma fotografia gaça deixada na chuva.
36:01A última lágrima da mamãe, o brilho vermelho da coleira e o sangue nas páginas dos diários se foram.
36:07Não olhei pra trás.
36:08O pesadelo de dez anos tinha acabado de verdade.
36:11Quando abri meus olhos novamente, eu era minúscula, em volta em cobertor macio.
36:16Alguém estava cantarolando.
36:19Voz de mulher.
36:21Gentil.
36:22Desafinada.
36:22Mas cheia de amor.
36:24Seus dedos roçaram minha bochecha ao cheiro de flores silvestres.
36:27Não a distância fria de minha antiga mãe.
36:30Nem o silêncio de alguém que só me tocava para punir.
36:33Pisquei pra ela.
36:35Ela tinha olhos bondosos, um sorriso suave.
36:38Ela me aninhava como se eu fosse feita de vidro.
36:42Graça acordou, querido.
36:44Venha rápido.
36:45Nossa filha acabou de abrir os olhos.
36:47Um homem apareceu, alto, um pouco desajeitado.
36:51Mas seu rosto se iluminou quando ele me viu.
36:53Ele tocou minha mãozinha com um dedo.
36:55A voz dele era grave, calorosa.
36:58Oi, Graça.
36:59Eu sou seu pai.
37:01Graça.
37:03Não Sandra.
37:04Sem peso, sem correntes, sem luz vermelha.
37:07Só graça.
37:08Um nome que significava algo leve, algo querido.
37:12Essa casa era pequena, mas acolhedora.
37:15Cheia de luz, com desenhos nas paredes, flores nas janelas.
37:19E a luz do sol entrando pelas janelas.
37:22Estava quente no chão.
37:23Percebi logo que essa família não era nada como a anterior.
37:27Eles nunca me forçaram a fazer nada.
37:29Não havia coleiras, nem luzes vermelhas, nem punições por coisas que eu não tinha feito.
37:35Eu cresci, aprendi a engatinhar, a falar.
37:39E quando eu tinha três anos, a mamãe fez um nissopado com o aipo.
37:43Os talos verdes na tigela me deram um gatilho.
37:46Tive um flashback de quando me engasguei, na garganta inchando, vomitando sangue.
37:50Eu tropecei para trás, tremendo.
37:52E as lágrimas vieram sem permissão.
37:54A mamãe imediatamente largou a colher, se agachou e me puxou para um abraço.
37:59Graça, o que houve?
38:00Você não gosta de aipo?
38:01Eu não conseguia falar. Só balancei a cabeça, soluçando.
38:04O papai se ajoelhou também e massageou minhas costas.
38:07Ei, tá tudo bem. Você não precisa comer isso. Quer nos dizer por quê?
38:11Os olhos deles eram pacientes e gentis. Finalmente eu consegui falar.
38:16Isso machuca minha garganta e me faz sangrar.
38:20Eles não disseram que a coleira não mente, nem me acusaram de estar fingindo.
38:24Eles logo me levaram ao curandeiro da Alcateia.
38:27Acontece que eu realmente tenho alergia a aipo.
38:31Depois disso, o aipo nunca mais apareceu nessa casa.
38:34A mamãe o adicionou à lista de compras.
38:37Alergia de graça. Aipo.
38:39Ela verificava toda vez que ia às compras.
38:42Nessa noite, nos braços dela e no cheiro de flores, percebi que é assim que se sente ao ser acreditada.
38:48O amor não é medido por uma pedra.
38:51É saber ouvir, mesmo quando a história parece impossível.
38:55Quando eu tinha quatro anos, o papai me levou ao curandeiro da Alcateia para meu primeiro check-up.
39:00Iam tirar sangue, eu vi a agulha e perdi o controle.
39:02Flashes da coleira apertando meu pescoço, flashes de fome.
39:06Eu gritei e me agarrei à perna do papai.
39:09O curandeiro suspirou. Eu não conseguia parar de tremer.
39:12Não me castigue, eu não tô mentindo.
39:15O papai imediatamente me pegou no colo.
39:18Desculpa, ela não tá pronta. A gente volta outro dia.
39:20No caminho pra casa, o papai não me deu bronca por ser fraca.
39:23Ele só perguntou com carinho.
39:25Graça, alguém te machucou antes?
39:29Escondi o rosto do ombro dele, as lágrimas encharcando a camisa dele.
39:33Mamãe, coleira, luz vermelha.
39:36Eu não consegui explicar direito, mas ele ouviu e assentiu.
39:40Tá tudo bem. O seu pai tá aqui agora.
39:43Ninguém nunca mais vai te machucar.
39:45A partir de então, me levavam ao curandeiro da Alcateia regularmente.
39:49Não pra tirar sangue, mas só pra conversar.
39:51Ela foi ferida antes. Tenham paciência com ela.
39:54Meus pais nunca reclamaram, nunca me fizeram sentir como um fardo.
39:58Eles me compraram um colar colorido, mas nunca me forçaram a usar.
40:02Isso é só uma coisa bonita, graça. Use se quiser, tire se não quiser.
40:06Nós te amamos de qualquer jeito.
40:08Aos poucos, comecei a me curar.
40:10Eu conseguia dizer...
40:11Eu não gosto disso. Sem medo.
40:14Eu conseguia dizer...
40:15Eu tô com medo.
40:16Eu podia dizer...
40:17Eu quero aquilo.
40:18Sem precisar me preocupar com um coração disparado sendo a prova de uma mentira.
40:22Comecei a compartilhar minhas histórias com ele.
40:25Eu chorava quando não ganhava um brinquedo.
40:27Eu ria quando recebia um elogio.
40:29Eu era finalmente só um filhote.
40:31Um filhote normal e amado.
40:35Aos sete anos, comecei na escola da Alcateia.
40:38Havia uma menina na minha sala, Ana Sullivan.
40:41Ela se parecia exatamente com Emma.
40:44Olhos iguais, mas ela era tímida, com cabelo curto e assustada.
40:48À primeira vista, meu coração apertou.
40:51Lembranças do sorriso presunçoso da Emma.
40:54A luz verde me zumbando.
40:57Eu recuei instintivamente.
40:59Ana percebeu.
41:00Ela olhou para baixo, quase sussurrando.
41:04Eu sou Ana.
41:06Você quer ser minha amiga?
41:08Ela perguntou com cuidado, desesperada para agradar exatamente como eu era.
41:13Eu olhei para o pescoço dela.
41:15Ela usava uma coleira com uma pedra verde.
41:18Meu estômago embrulhou.
41:19Depois, soubi que a mãe da Ana também era rígida.
41:23Exigia honestidade.
41:25A trancava no quarto sem comida quando ela cometia erros.
41:27Um dia, Ana derrubou sem querer o pote de tinta da professora.
41:32Ela estava tremendo, com medo demais para admitir.
41:35Eu vi o rosto dela, olhos avermelhados, mal segurando as lágrimas.
41:39Me lembrei de mim naquele quarto escrevendo, eu sou uma mentirosa, vez após vez.
41:45Eu me aproximei e peguei a mão dela.
41:48Ana, está tudo bem.
41:50Acidentes acontecem.
41:52Vamos juntas contar para a professora.
41:54Ela não vai ficar brava.
41:55Ana me olhou chocada.
41:57Mas mamãe disse que lobos mentirosos são ruins.
42:00Ser honesta não é sobre nunca cometer erros.
42:02É sobre ser responsável quando comete um.
42:04E mesmo se você disser a verdade, você não deveria ser punida.
42:08Vou ficar ao seu lado se a professora ficar brava.
42:11E se sua mãe ficar brava, venha para minha casa.
42:13Meus pais vão ajudar.
42:15Eu dei a ela a coragem que eu nunca tive.
42:17Ela confessou.
42:17A professora perdoou.
42:19Disse para ela ser mais cuidadosa da próxima vez.
42:22Daí em diante, nos tornamos melhores amigas.
42:24Eu levei Ana para casa para conhecer meus pais.
42:26Ela viu como eles eram carinhosos, como eles não gritavam, não puniam por pequenas coisas.
42:31Eu disse a ela.
42:32Você não precisa fazer todo mundo feliz.
42:35E tem permissão para sentir as coisas.
42:38Dizer as coisas.
42:40Um dia, a mãe da Ana veio buscá-la na escola.
42:42Ela nos viu juntas e o rosto dela se contorceu.
42:45Ela agarrou a mão da Ana.
42:48Você aprontou de novo?
42:49Graça está te acobertando.
42:51Ana imediatamente olhou para baixo, em silêncio.
42:54Eu me coloquei na frente dela, olhei para a mãe dela nos olhos.
42:57Senhora, Ana não fez nada de errado.
43:00Ela é um bom filhote.
43:02Você não deveria sempre presumir o pior.
43:06Ela tem medo de você.
43:08A mãe paralisou e olhou para mim.
43:10Depois, para os olhos da Ana, cheios de lágrimas.
43:13A expressão dela suavizou.
43:14Naquela noite, ela ligou para minha mãe, agradeceu e disse que eu tinha aberto os seus olhos.
43:19Com o tempo, a mãe da Ana ficou mais gentil e começou a ouvir em vez de gritar.
43:24Quanto a Ana, ela floresceu, confiante e feliz.
43:28Eu a vi rir livremente um dia e senti esse calor em meu peito.
43:32Eu não fui salva na minha vida passada, sofrendo sozinha no escuro.
43:37Mas, desta vez, eu pude salvar outra pessoa.
43:40Eu pude impedir que outra Sandra surgisse.
43:42Talvez isso seja o que eu ganhei na vida passada.
43:45A habilidade de ver a dor e curá-la.
43:47Quando eu tinha dez anos, meus pais me levaram para visitar a vovó.
43:51Havia um velho carvalho no quintal dela.
43:53Seus galhos se espalhavam amplamente, projetando sombras sobre todo o jardim.
43:56Eu me sentei sobre ele, observando a luz do sol filtrar pelas folhas.
44:00Minha loba cochilava dentro de mim, aquecida e contente.
44:03Então eu a vi.
44:04Uma mulher idosa de cabelos brancos, curvada sobre uma bengala, vestindo um vestido azul desbotado.
44:09No segundo em que vi o rosto dela, congelei.
44:12Ela se parecia exatamente com Raquel, minha antiga mãe.
44:15A vovó também me notou.
44:17Ela caminhou lentamente, seus olhos nublados.
44:20Mas havia algo familiar neles, algo pesado.
44:23Qual é o seu nome, criança?
44:24Graça.
44:25Ela repetiu suavemente.
44:26Graça? Que nome lindo.
44:27Ela estendeu a mão como se fosse tocar meu cabelo.
44:30Então hesitou e recuou, como se tivesse medo de perturbar algo sagrado.
44:34Minha mãe se aproximou, olhou para ela.
44:37Mãe, essa é a nossa filha, Graça.
44:39Então, ela era minha avó nessa vida também.
44:41Nos dias seguintes, a vovó me observava constantemente.
44:44Sua expressão era indecifrável.
44:46Uma manhã, ela me trouxe uma tigela de carne assada.
44:49Graça, coma tudo.
44:50Essa costumava ser a sua favorita.
44:52Eu encarei a tigela em minha última vida.
44:54Eu escrevi em meu último suspiro.
44:55Eu quero comer a carne assada da mamãe.
44:57E aqui estava a vovó, dizendo essas palavras.
45:00Lágrimas embaçaram minha visão.
45:02Isso não era mais um desejo distante.
45:04Era real, bem na minha frente.
45:06Eu peguei um pedaço e mordi.
45:08Macio, doce, perfeito.
45:11A vovó deu um sorriso cansado e culpado.
45:13Naquela noite, deitada na cama, com minha loba enrolada em aquecida dentro do meu peito,
45:18pensei no que Raquel escreveu no fim.
45:20Na próxima vida, deixe-me usar a coleira.
45:22Deixe-me ser a mentirosa.
45:24E me puna como quiser.
45:25Só não me deixe.
45:26Pensei em sua lágrima final, no diário rasgado.
45:29Eu não a odiava mais.
45:31Odiar alguém é como se trancar no passado, remoendo a dor para sempre.
45:35O calor dessa vida já havia lavado toda a amargura.
45:38Eu só me senti triste por ela ter entendido tarde demais.
45:42Amor verdadeiro nunca foi sobre perdas ou punição.
45:45Nós ficamos por um mês e depois voltamos para casa.
45:48Antes de eu ir embora, ela segurou minha mão.
45:50Graça, viva bem, seja feliz.
45:52A voz dela era suave, mas carregada de significado.
45:55Eu a senti, você também, povó.
45:57Eu a vi ir embora e não senti nada.
45:59Nem raiva, nem luto.
46:01As mágoas da vida passada eram como folhas secas sopradas pelo vento.
46:05Eu não era mais Sandra, trancada no escuro e sufocada por uma mentira.
46:09Eu era Graça Sterling, cercada de amor livre.
46:12Aos 13 anos, eu me formei na escola da Alcateia e entrei na melhor faculdade da região.
46:17Meus pais me levaram ao lago para um piquenique para comemorar.
46:20Na beira da água, o vento soprava meu cabelo.
46:22O cheiro de pinho e água gelada tocava minha pele.
46:25Estiquei meus braços, sentindo a liberdade.
46:28Por um momento, eu a vi, minha fantasma flutuando.
46:32Querendo abraçar alguém, mas passando direto.
46:36Graça, no que você está pensando?
46:37Papai me entregou uma bebida.
46:39Eu sorri.
46:39Só sou grata por estar viva e ter vocês dois.
46:42Mamãe me puxou para um abraço.
46:44Garota boba, nós é que temos sorte.
46:47Ninguém disse nada e nos transformamos ao mesmo tempo, como se já tivéssemos feito
46:52cem vezes antes.
46:53Corremos juntos por entre as árvores, pela margem rasa do lago, água espirrando prateada
46:58ao redor de nossas patas.
47:00Eventualmente, eu diminui o passo.
47:01Me virei e me joguei neles.
47:03Rolamos na grama juntos.
47:05Mamãe roçou a cabeça dela na minha.
47:07Papai lambeu o topo de minha cabeça com carinho.
47:10Eu me aconcheguei neles e fiquei ali, respirando fundo, sentindo calor por todo o tempo.
47:15Olhei para o céu através da copa das árvores.
47:18Eu não precisava mais provar que sou honesta.
47:21Não precisava temer uma luz vermelha.
47:23Eu podia rir, chorar e falar livremente.
47:26Eu tinha pais que me amavam, uma melhor amiga, corpo forte e futuro brilhante.
47:31Essa era a vida pela qual morri desejando.
47:34Naquela noite, não escrevi em meu diário confissões manchadas de sangue da vida passada.
47:38Este estava cheio de felicidade, crescimento e amor.
47:42Eu escrevi, hoje corremos na beira do lago.
47:45Nós nos transformamos sem dizer uma palavra.
47:48Rolamos na grama como filhotes.
47:50Pensei em meu eu do passado, naquela menina trancada, sufocando no escuro, desesperada para ser amada.
47:56Ela nunca acreditaria que eu poderia ser tão feliz.
47:59Mamãe e papai me amam.
48:00Eles me ensinaram que a honestidade não é algo que se arranca de alguém com castigos.
48:05E sim que se cultiva com paciência e carinho.
48:07Ana é minha melhor amiga agora.
48:09Ela ri livremente, fala sem hesitar.
48:12A vovó está envelhecendo, mas seus olhos ao olhar para mim são calorosos.
48:16Minha loba fica mais forte a cada dia.
48:19Com ela ao meu lado, me sinto em paz.
48:21Não odeio mais ninguém.
48:22Não me apego ao passado.
48:24As memórias dolorosas são como pegadas na lama, lavadas pela chuva.
48:28Mas elas me ensinaram a valorizar cada passo dado.
48:31Sei que minha antiga família teve o que merecia e eu finalmente me libertei.
48:35E encontrei a verdadeira liberdade.
48:37Não quero vê-los de novo.
48:39Não quero reviver aquela vida.
48:41Só quero ser ótima, simples, feliz e amada.
48:46O lago era lindo.
48:48A vida era bela.
48:49Eu fechei meu diário e olhei pela janela.
48:51Enquanto o luar brilhava na água por entre as árvores.
48:54Minha loba se agitou dentro de meu peito.
48:57Calorosa e constante.
48:58Eu sorri para esta vida.
48:59Finalmente me tornei quem eu queria ser.
49:02Sem luz vermelha, fome ou mentira.
49:04Só amor, liberdade e felicidade.
49:06E aquelas cicatrizes do meu passado, elas se tornaram parte de mim.
49:10Prova de que sobrevivi, de que não importa quanto tempo a escuridão dure,
49:14não pode te engolir por completo.
49:17Nunca, se você continuar andando em direção à luz.
49:20O caminho à frente é longo, mas eu seguirei com coragem e alegria rumo a algo ainda mais brilhante.
Comments

Recommended