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  • há 16 horas

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00:01O TNHU entrevista agora a pesquisadora Clarice Carvalho, de Brasília,
00:08ela que é uma estudiosa de empreendedorismo e gestão,
00:12eu vou citar aqui o currículo dela, que é um pouco extenso,
00:16mas eu dei uma resumida, então até trouxe uma cola aqui
00:19para poder conseguir sobre esse currículo.
00:24Ela é pesquisadora e também uma ativista pela inclusão da neurodiversidade.
00:30Mestre em Desenvolvimento de Negócios e Inovação,
00:34tem também MBA em Empreendedorismo
00:37e atualmente é doutoranda em Ciência de Administração
00:41pela Ivy Ember, que é a Universidade dos Estados Unidos.
00:44Boa noite, Clarice, prazer recebê-la
00:47e obrigado por ter se disponibilizado
00:51para fazer essa entrevista com o TNHU.
00:54Boa noite, obrigada.
00:56Eu que agradeço por você ter vindo até mim, né?
01:00Eu acho que é muito importante a gente ter essa divulgação,
01:03não só do meu trabalho, mas da causa autista como um todo, né?
01:07Acredito que é muito importante.
01:09Nossa, eu sempre fui aquela menina quietinha, calma,
01:12que não conversa muito, tida como tímida.
01:15Eu era muito inteligente,
01:18então eu acabava sofrendo um pouco de bullying na escola,
01:22não bullying em si,
01:24mas eu sentia que as pessoas ficavam um pouco distantes de mim
01:29por eu ser uma pessoa muito inteligente,
01:32por eu me destacar em algumas coisas
01:33e, ao mesmo tempo, não conseguir ter um contato tão sociável, né?
01:38Então, eu sempre era a menina excluída.
01:40E aí, eu cresci com essas angústias, né?
01:43E aí, durante um processo de mudança de chave aí na minha vida,
01:47eu sofri alguns problemas de saúde sérios,
01:52tanto física quanto mental.
01:53Além de autista, eu sou uma pessoa com deficiência física.
01:57Eu comecei a fazer terapia
01:59e aí, durante a terapia, eu fui me descobrindo,
02:02fui percebendo que as angústias que eu tinha,
02:06tinham algum motivo, né?
02:08E aí, por causa disso,
02:10eu comecei a estudar sobre empreendedorismo,
02:12sobre inovação, desenvolvimento de negócios.
02:14Eu já fazia algumas publicações nessa área
02:16e eu percebi que eu não conseguia encontrar
02:21coisas relacionadas a empreendedores autistas na academia.
02:25Eu via muito algumas situações informais
02:30de pessoas que faziam seus empreendimentos,
02:33faziam seu negócio,
02:34mas que divulgavam, por exemplo, no Instagram, no Facebook.
02:38Mas na academia, eu não encontrava isso.
02:40E como sempre fui muito estudiosa,
02:42eu tinha essa angústia, né?
02:44De saber um pouco mais sobre essas pessoas.
02:48Se elas eram como eu, né?
02:50Assim, altamente funcionais.
02:52Eu não entendia direito por que eu conseguia,
02:55ser uma pessoa muito produtiva
02:57e, ao mesmo tempo,
02:59eu chegava em casa à noite ou no fim de semana
03:01e eu não conseguia falar com ninguém,
03:04não conseguia me expressar.
03:05Então, eu fui atrás disso.
03:07Foi uma dor sua que a senhora levou para campo, né?
03:11Isso, foi uma dor minha
03:13que me impulsionou a ter essa ideia, né?
03:15Que foi uma ideia muito inovadora, inclusive.
03:19A senhora é autora, né?
03:22Do livro Empreendedorismo no Espectro.
03:27Um livro super atual,
03:28junto com a professora Andressa Schaurisch.
03:32E que, inclusive, a gente vai disponibilizar
03:34nessa matéria para o pessoal baixar.
03:36É um livro recente, um estudo inédito.
03:39Sim.
03:41E que traz, assim, algumas questões,
03:45muitas dessas questões que a senhora falou aí, né?
03:48Que são dores da pessoa autista
03:52e que está tentando empreender o que quer,
03:56o que tem potencialidades.
03:58Eu li que a senhora, nesse livro,
04:02a senhora e sua colega fizeram um estudo,
04:05entrevistas com 27 empreendedores autistas.
04:09O que questões foram levantadas
04:11nessa pesquisa com esses empreendedores?
04:18Então, como eu citei,
04:19não existia ainda uma lista
04:23ou um catálogo de pessoas
04:25que tinham esse perfil, né?
04:26Então, eu fui atrás dessas pessoas
04:28num trabalho, realmente, de formiguinha.
04:31Eu fiz divulgações,
04:33como entrei em contato com elas
04:35via Instagram, via Facebook,
04:37mandei WhatsApp, enfim,
04:39tudo que eu conseguia de contato, né?
04:41Acho que, no total, foram, assim,
04:42mais de 300 contatos.
04:44Foi muito difícil, demorou muito,
04:46porque não é simples, né, encontrar.
04:49Não, foi bastante difícil,
04:51principalmente porque eu percebo
04:52que a pessoa que está no espectro,
04:56a maioria são pessoas
04:58que são marginalizadas
05:00e que não gostam de aparecer.
05:02marginalizadas no sentido
05:04de estarem à margem da sociedade, né?
05:06Então, elas não gostam de aparecer muito,
05:08elas não gostam de se expressar muito.
05:11E aí, essa foi até uma das coisas
05:13que eu perguntei para entrevistados,
05:17como eles superavam essa barreira, né?
05:19Porque nós, autistas,
05:22temos uma dificuldade enorme
05:23de nos expressar,
05:25por vezes, falar em linguagem oral, né?
05:28Falada, mas aí eu percebi
05:32que a facilidade que a internet
05:34trouxe para a gente,
05:35nesse sentido, foi muito grande,
05:37porque praticamente todos,
05:39acho que 80% das pessoas entrevistadas,
05:41falaram que os seus negócios
05:43só são possíveis por causa da internet,
05:45porque existe esse distanciamento social
05:48que no contato, no convívio,
05:51não existia, né?
05:53Então, foi realmente um aprendizado
05:57para mim, né?
05:58E eu fui fazendo perguntas
06:00como, por exemplo,
06:01quais são as dificuldades que vocês têm?
06:04O que te faz ser um empreendedor diferenciado
06:07por causa do seu diagnóstico?
06:10O que é que o autismo traz para você
06:13na sua vivência
06:13que te faz ser uma pessoa melhor,
06:18que te faz ser o melhor
06:19no seu campo de trabalho?
06:20E aí, as respostas que eu fui recebendo
06:22foram respostas enriquecedoras.
06:25E aí, a gente consegue perceber um pouco
06:27que o estigma do autista,
06:31que é aquele que não consegue conversar,
06:34que não consegue trabalhar,
06:36que precisa de ajuda para tudo,
06:38realmente precisamos de ajuda
06:39para algumas coisas.
06:40Mas, ao mesmo tempo,
06:42somos pessoas que são extremamente competentes
06:45e que só precisam de uma oportunidade.
06:47e como elas não encontravam essa oportunidade
06:50no mercado formal,
06:52encontraram uma oportunidade
06:54fazendo elas mesmas a sua oportunidade, né?
06:58O empreendedorismo, então, é meio que...
07:01Não sei se a palavra correta é fuga
07:03ou um atalho,
07:05um atalho, né?
07:06Para não ter que...
07:07Porque o mercado tradicional de trabalho
07:11ele encara como uma limitação, né?
07:14Sim.
07:14Eu não chamaria de atalho,
07:16mas eu chamaria de o impulsionador.
07:20Porque, justamente, o mercado formal,
07:22o que eu percebi,
07:24é que ele é muito voltado a cumprir cotas, né?
07:28As empresas precisam ter pessoas com deficiência,
07:32contratadas,
07:32então, elas contratam essas pessoas
07:34aí para cumprir cotas
07:36e não deixam essas pessoas à margem, né?
07:39Não dão responsabilidade,
07:41não dão cargos de liderança
07:42para essas pessoas.
07:43E o autista,
07:45ele quer também ser líder,
07:47ele quer ser...
07:47Uma falsa inclusão, né?
07:49Exatamente.
07:50Uma falsa inclusão.
07:52Então,
07:53não veio como um atalho
07:55essa parte de eles serem empreendedores,
07:58mas veio como um impulsionador
07:59e uma escada para o sucesso deles.
08:01E nesse grupo aí de 27?
08:04Eu sei que tem questões que são semelhantes,
08:07mas o autismo,
08:09ele já se classifica como espectro,
08:12porque ele é muito diverso, né?
08:14Ele alcança várias gradações,
08:18digamos assim.
08:19O que a senhora viu de mais comum
08:21ou de menos comum
08:23entre esses empreendedores?
08:25Eu digo no aspecto da forma deles empreenderem,
08:28lidar com o empreendedorismo,
08:29com os negócios.
08:31Eu percebi que a grande maioria,
08:33se não todos,
08:35falam muito do hiperfoco.
08:37O que é o hiperfoco?
08:39É uma capacidade maior do que a média
08:42de você focar em alguma coisa que te interessa.
08:45É basicamente isso.
08:47Então, o autista,
08:48se ele gosta de um tema específico,
08:50ele vai ficar naquele tema
08:51e ele vai se entregar 100% para aquele tema.
08:54Então, muitas vezes,
08:55acontece da pessoa começar a fazer a sua atividade,
08:59sei lá, 8 da manhã
09:01e das 10 horas da noite,
09:02a pessoa não comeu,
09:03não bebeu água,
09:04não descansou,
09:06porque ela fica tão focada naquilo
09:07que ela esquece todo o resto, né?
09:10Isso é só um exemplo
09:11do que acontece comigo, inclusive.
09:12Mas o que eu percebi é que
09:15a grande parte deles
09:16expressou isso como
09:18o meu hiperfoco me impulsionou
09:20para ser a melhor pessoa
09:23que eu posso ser
09:23na minha área de atuação.
09:25Então, foi muito interessante
09:27essa questão de ele ser tão focado
09:31que ele vai ser excelente
09:34em tudo que ele tentar fazer.
09:36E, ao mesmo tempo,
09:37como ele é focado de mais em uma área,
09:39as outras ficam a desejar.
09:41Então, eles precisam desse suporte
09:44de alguns familiares,
09:45de alguns colegas,
09:46para, por exemplo,
09:48tocar a parte administrativa da empresa,
09:51parte financeira, burocracia.
09:54Muitos trabalham à distância,
09:56então entregam produtos pelo correio
09:57e eles não conseguem ter
09:59essa disposição,
10:01essa disponibilidade
10:01para ir até o correio,
10:03porque realmente é muito cansativo
10:05mentalmente para o autista
10:06sair do seu hiperfoco
10:07para fazer essa logística.
10:09Então, eles transferiam isso
10:12para colegas, né?
10:14Para sócios.
10:15E os sócios lidavam
10:16com todo esse resto,
10:18enquanto o autista pode realmente
10:20focar naquilo que ele quer.
10:21Então, eu achei que isso foi, assim,
10:23o que mais me empatitou.
10:25O hiperfoco, digamos assim,
10:28é onde ele identifica
10:29o grande talento, então, né?
10:31Ele tem aquele hiperfoco,
10:32ele consegue se especializar naquilo
10:34e, pelo que eu tenho percebido
10:36de convivência,
10:38às vezes, de uma forma até superior
10:39a outras pessoas, né?
10:42Eu já conversei com alguns
10:45empreendedores que são autistas
10:47e eu percebi isso, assim,
10:48ele tem um talento que é bem
10:51acima da média,
10:52mas tem esse outro lado, né?
10:54Que é algumas dificuldades.
10:57E aí a senhora falou,
10:58tocou num ponto interessante
11:01que é família.
11:02A gente tem...
11:04A primeira coisa é como a família
11:07pode, antes mesmo dessa parte
11:10que a senhora falou,
11:11de dar suporte.
11:12Como?
11:13Porque, às vezes,
11:14por desconhecimento,
11:16por não saber lidar
11:18ou, às vezes,
11:19condições socioeconômicas,
11:21a família tem dificuldade
11:22de identificar esse talento.
11:25Porque ele pode ser um hiperfoco
11:28ou nem tanto,
11:29mas, assim,
11:30como os familiares
11:31podem ajudar,
11:34podem tentar identificar
11:35esse talento
11:37da pessoa com terra?
11:40E aí a gente toca
11:42em dois pontos
11:42muito importantes, né?
11:44Que é o papel da família
11:45como superprotetor
11:46de uma pessoa com terra
11:47e o papel da família
11:49como impulsionador
11:50de sucesso
11:51dessa pessoa.
11:53Então, o primeiro papel
11:54que é o de superprotetor
11:56é aquele papel
11:57que é também estigmatizado, né?
11:58A mãe que quer
12:00proteger o filho,
12:01que acha que o filho
12:02é muito frágil.
12:03Então, isso
12:04é o que a sociedade
12:05enxerga.
12:06Mas o autista
12:07em si,
12:08ele percebe
12:10que não,
12:10que apesar
12:12de a família
12:12tentar ser superprotetora,
12:14ele mesmo
12:15quer ir além daquilo.
12:16Ele não quer ser visto
12:17como uma pessoa frágil,
12:18quer ser visto
12:19como uma pessoa competente.
12:21Então,
12:21a família
12:22vem
12:24nesses casos
12:25de autistas adultos
12:26que são empreendedores,
12:27não como uma protetora,
12:29mas como uma impulsionadora
12:30realmente,
12:31de falar,
12:32olha,
12:32você
12:33tem essas dificuldades,
12:35então eu estou aqui
12:35para o que deve é.
12:36eu vou te ajudar nisso,
12:38vou te dar esse suporte
12:39que você precisa
12:40para que você consiga
12:41ser uma pessoa
12:42de sucesso.
12:44Então,
12:44acho que a família
12:45tem essas duas vertentes,
12:48né?
12:49Mas a segunda vertente,
12:50que é a de impulsionadora,
12:51foi a que mais me surpreendeu
12:53durante a pesquisa.
12:55Foram 27 pessoas,
13:00eles empreendem
13:01mais ou menos em que áreas
13:02que a senhora possa citar?
13:03Olha,
13:05foram diversas,
13:06né?
13:06Eu posso citar,
13:07principalmente,
13:08tiveram,
13:09a maioria foram mulheres,
13:11né?
13:11Que tiveram diagnóstico
13:12tardio,
13:13inclusive,
13:14e que empreendem
13:16muito focado
13:17na área de autismo mesmo.
13:19Então,
13:20tiveram psicólogas,
13:22tiveram artesãs
13:23que produzem
13:24produtos
13:25próprios
13:26para autistas,
13:27sejam para autistas
13:27adultos,
13:28sejam para autistas
13:28crianças.
13:30Por exemplo,
13:31tinha uma que produzia
13:32brinquedos,
13:34porque ela viu
13:35a necessidade
13:36de ter brinquedos
13:38que fossem
13:39interativos,
13:40que fossem adaptados
13:41para autistas
13:42por causa da filha,
13:43que também teve
13:44o diagnóstico,
13:45e aí ela resolveu
13:48começar a produzir
13:49brinquedos
13:50para a filha,
13:50e aí chegou nisso
13:52uma oportunidade
13:53de negócio,
13:54porque vários colegas
13:55viam, né?
13:56A filha brincando
13:57com aquilo e falavam,
13:58nossa,
13:59mas o meu filho
13:59não tem isso,
14:00onde eu compro?
14:01E aí ela começou
14:02a falar,
14:03não,
14:03eu posso produzir
14:04para você,
14:04e isso foi crescendo,
14:05escalonando,
14:06e hoje é uma
14:06grande empresária
14:07de produtos
14:09voltados
14:09para esse público
14:10infantil.
14:12Outra artista
14:13também que cria
14:14desenhos
14:15e faz
14:17impressões
14:18em bótons,
14:19em camisetas,
14:20em coisas voltadas
14:21aí já mais
14:22para o público
14:23adulto, né?
14:24Então,
14:25muitos deles
14:26têm esse público
14:27próprio,
14:29do autismo,
14:31mas outros não.
14:32Tiveram,
14:32por exemplo,
14:34uma entrevistada
14:36que mora nos
14:36Estados Unidos,
14:37inclusive,
14:38que foi muito interessante
14:39a pesquisa com ela.
14:41Ela é uma doula,
14:43faz partos,
14:44e é uma coisa
14:45que eu nunca imaginei
14:46que eu encontraria,
14:47uma empreendedora
14:48que faz partos
14:49nos Estados Unidos.
14:50e ela viu
14:52nos Estados Unidos
14:53uma forma
14:53de mudar de vida.
14:55Então,
14:56hoje,
14:56ela é muito
14:57procurada
14:58justamente porque
14:58ela tem
14:59esse olhar
15:00mais
15:03social
15:03para as mães,
15:05né?
15:05Ela trabalha
15:06com mães
15:06que não têm
15:07condições
15:08de fazer um parto
15:09no hospital,
15:10por exemplo,
15:11e ela mesma
15:12faz esse parto
15:13e ela faz
15:14todo o trabalho
15:14não só com o bebê,
15:15mas com a mãe.
15:16Então,
15:16ela fica,
15:17por exemplo,
15:18mais de uma semana
15:19cuidando daquela mãe
15:21e ela dedica
15:22100% do tempo
15:23dela para aquilo.
15:24Ela tem muita
15:24facilidade,
15:25por exemplo,
15:26em trabalhar à noite,
15:27que é uma coisa
15:27que o mercado formal
15:28não permite, né?
15:30Então,
15:30o mercado formal
15:31você trabalha
15:32naquele período,
15:33bate o seu ponto
15:34e tudo
15:35e depois vai embora.
15:36E muitos autistas
15:38viram
15:39no empreendedorismo
15:40também uma oportunidade
15:41de seguir
15:42o seu próprio ritmo,
15:43de trabalhar
15:44quando eles estão
15:44com a energia maior,
15:46e descansar
15:47quando eles precisam
15:48sem necessariamente
15:49ficar precisando
15:50o pedido chefe
15:51ou coisas do tipo.
15:53O empreendedorismo,
15:54o negócio próprio,
15:55ele permite, né?
15:57Trabalhar na própria rotina.
15:58Eu acho que
15:58tem muito a ver
15:59com isso também, né?
16:00Você tem o seu universo ali
16:02e você pode
16:03criar uma rotina
16:05aliada ao negócio.
16:07Eu acho que isso
16:08faz toda a diferença, né?
16:10Exatamente.
16:12Sim.
16:13Ok.
16:14A gente sabe
16:16que o mundo
16:17do trabalho,
16:18digamos assim,
16:19tradicional,
16:20a gente já falou
16:21sobre isso,
16:22é um pouco
16:24cheio de preconceitos
16:26e estigmas
16:28e acha que a pessoa
16:29é apenas uma pessoa
16:31limitada,
16:31tem muito desconhecimento,
16:34até ignorância mesmo,
16:36porque
16:38até mesmo lendo
16:39sobre o tema
16:40a pessoa consegue
16:41ter mais informação.
16:43e já que a senhora,
16:45o empreendedorismo
16:46é um dos seus campos
16:47de estudo, né?
16:48Dentro do mundo
16:49dos negócios,
16:52que barreiras?
16:53Porque é um mundo
16:54diferente, né?
16:55O mundo do empreendedorismo
16:56dos negócios
16:57é um pouco diferente
16:58daquele mundo
16:59da repartição,
17:00seja pública
17:01ou privada.
17:02No mundo dos negócios,
17:03primeiro,
17:04como é que a senhora
17:05avalia
17:05a receptividade?
17:07Ela é semelhante
17:09ao do mundo
17:09ao do mundo
17:10do universo
17:11do trabalho
17:12tradicional,
17:14eu digo
17:14o mundo dos negócios,
17:16seja
17:17para lidar
17:18com clientes,
17:19seja para lidar
17:20com outros empreendedores,
17:21a senhora acha que tem
17:22uma diferença
17:22de tratamento
17:24é menos difícil
17:26ou é igual?
17:28Eu acho que, na verdade,
17:29é mais difícil.
17:31Por quê?
17:32Num serviço público,
17:33eu sou servidora pública
17:34e eu tenho autonomia
17:38para falar
17:38sobre o que eu vivo
17:39no meu trabalho.
17:41E eu percebi
17:42que, depois que eu tive
17:43o diagnóstico,
17:43eu fui mais bem recepcionada
17:45no serviço público
17:46do que eu imaginei
17:47que seria.
17:48Justamente porque,
17:49hoje em dia,
17:50já existem muitos
17:51cursos, manuais,
17:53cartilhas
17:53que incentivam
17:54o servidor público
17:55a trabalhar com a inclusão.
17:58Então, eu percebi
17:59que muitas dificuldades
18:00que eu tinha,
18:01que eu precisava
18:01ficar fingindo,
18:03que eu entendia
18:04do assunto,
18:04hoje em dia
18:05eu não preciso mais
18:05fazer fingimento.
18:06Posso falar,
18:07olha, eu não entendo
18:08porque eu sou autista,
18:09você pode me explicar
18:10de uma forma
18:11que eu entenda?
18:12Então, isso é uma liberdade
18:14que eu tenho hoje
18:15que eu não tinha antes, né?
18:16Já no mundo
18:17do empreendedorismo,
18:18é uma selva.
18:20Então, cada negócio,
18:23cada empreendedor
18:23vai agir
18:25com a sua equipe
18:26da forma que achar
18:27necessário, né?
18:28Basicamente.
18:29Claro que existem
18:30as regras de trabalho,
18:31tudo, mas
18:32eu falo assim,
18:33nessa questão
18:34de inclusão,
18:36eu acredito
18:37que é muito mais difícil
18:39para uma pessoa autista
18:40conseguir
18:42ser ouvida
18:43e ser validada
18:44no mundo
18:44do empreendedorismo
18:46do que
18:47numa
18:49corporação
18:49pública,
18:50por exemplo.
18:50porque não tem
18:52o setor público
18:56talvez seja
18:56um espaço
18:57mais controlado
18:58para esse tipo
19:00de situação, né?
19:01Sim, mais controlado
19:02e o servidor público
19:03ele tem
19:04muita
19:06informação
19:07que eu acredito
19:08que a pessoa
19:09que não é servidora
19:10não tenha, né?
19:12Principalmente
19:12com relação
19:13a cursos,
19:14a treinamentos,
19:15enfim,
19:16eu acho que
19:17são setores
19:18bem diferentes, né?
19:20Não que o setor
19:21do empreendedorismo
19:23não tenha
19:24esse tipo
19:24de coisa também,
19:26mas não é o foco,
19:27sabe?
19:28Então,
19:29eu acho que...
19:29Falando em setor público,
19:31políticas públicas,
19:34como é que a senhora
19:35vê aí
19:35as políticas públicas
19:36justamente
19:37porque é
19:38uma das coisas
19:39mais importantes
19:40para a gente avançar
19:41seja no empreendedorismo,
19:43seja
19:43no trabalho
19:45no trabalho
19:46tradicional,
19:47como é que a senhora
19:48vê aí
19:48o cenário de hoje?
19:51Eu acho que
19:51falta muito incentivo,
19:53incentivo principalmente
19:54fiscal,
19:55financeiro,
19:56incentivo
19:57para essas pessoas
19:58que têm o desejo
20:00de empreender
20:00e darem
20:03o primeiro passo,
20:04sabe?
20:05Cartilhas mesmo
20:06educativas,
20:06você quer empreender,
20:07você é autista,
20:08então vamos
20:09te dar
20:10uma forma
20:11de você fazer isso,
20:13vamos te dar
20:13uma receita de bolo
20:15de como começar,
20:16falta um pouco isso,
20:17sabe?
20:18O setor público,
20:19ele tem o poder
20:20de dar isso
20:21para a sociedade
20:22e ele peca
20:23nesse aspecto,
20:24mas eu acredito
20:25que nós estamos
20:25avançando,
20:27eu acho que
20:27esse livro
20:28que eu publiquei
20:29é um ponto
20:30de partida
20:30muito bom,
20:32foi pensado
20:33justamente
20:33para isso,
20:34para termos
20:36um pouco mais
20:37de conhecimento,
20:38um pouco mais
20:39de sabedoria
20:40sobre como lidar
20:41com essas pessoas.
20:42eu já o li
20:45todo
20:46e ele,
20:49apesar de ser
20:50um estudo,
20:51mas o texto
20:52ele é muito
20:54de fácil
20:55entendimento,
20:56não precisa
20:58ser da academia
21:00para entendê-lo,
21:01é bem
21:04palatável,
21:04bem simples
21:05de entender
21:05e ele é meio
21:06que um guia,
21:07porque eu acho
21:08que ele,
21:08tanto para quem,
21:11você pode falar
21:12um pouco disso,
21:13tanto para quem
21:14é autista
21:15e quer
21:16ou está
21:16empreendendo,
21:17como também
21:18para as outras
21:19pessoas,
21:19eu acho que
21:20ele é meio
21:22que um guia
21:22para todo mundo.
21:24Sim,
21:25o livro foi pensado
21:26desde a sua concepção
21:28para ser
21:29um guia mesmo,
21:30para ser
21:31um estudo
21:33que qualquer pessoa,
21:34de qualquer área
21:34de formação,
21:35de qualquer nível
21:36de escolaridade,
21:37pudesse ler,
21:38entender,
21:39compreender
21:40e virar quase
21:41que um expert
21:41no assunto,
21:42então ele foi
21:44pensado realmente
21:45para isso,
21:46para essa divulgação,
21:47justamente porque
21:48eu tinha essa angústia
21:49de não encontrar
21:50dados reais
21:52na internet
21:54ou em livros
21:55ou em qualquer...
21:55Eu fiz um levantamento
21:57para essa reportagem
21:58e não é fácil,
22:00são dados
22:00muito pontuais,
22:03não tem muito
22:04e, sobretudo,
22:05além de dados,
22:07não tem muita discussão
22:08em livros,
22:10tem discussões
22:11virtuais,
22:13tem muito debate,
22:14muito programa de TV,
22:16mas estudos acadêmicos,
22:19eu acho que,
22:20e, sobretudo,
22:21publicados,
22:22claro que a academia,
22:24as universidades têm
22:25se debruçado
22:26sobre o tema,
22:27mas coisa que chega
22:28até o grande público,
22:29daí a importância
22:31de transformar em livro,
22:32de colocar
22:34para disponibilizar
22:34na matéria,
22:36porque quando a gente
22:36vai ver o estudo
22:38na universidade,
22:39que a gente vê
22:39uma tese de doutorado,
22:41isso já espanta
22:42a maioria das pessoas,
22:44então, assim,
22:44é um livro que realmente,
22:46a gente,
22:47como eu disse
22:47no começo da entrevista,
22:48a gente vai colocar
22:49para ser baixado,
22:51para a pessoa fazer download,
22:53porque é muita informação,
22:55informação,
22:55e sucinto,
22:56ele não é um livro
22:58cansativo,
22:59longo demais,
22:59dá para ler
23:02em dois dias,
23:04e aí,
23:05Clarice,
23:06para a gente encerrar,
23:08eu queria,
23:09a senhora,
23:10desse uma mensagem aí
23:11para quem é autista,
23:13que está pensando,
23:14que tem de repente
23:15esse desejo,
23:18ou mesmo
23:18a família
23:20que talvez
23:20não tenha despertado ainda,
23:21não tenha percebido
23:22essa possibilidade
23:24da pessoa
23:25com TEA
23:26empreender.
23:28A mensagem
23:29que eu quero deixar
23:29é acredite em si mesmo,
23:32você é do tamanho
23:32dos seus sonhos,
23:33então,
23:34faça o que você achar
23:35que é necessário
23:37para você
23:37ter sucesso na vida,
23:39não acredite
23:40que só porque
23:41você tem um diagnóstico,
23:43ou porque você
23:43se sente limitado
23:44em alguma área
23:46da sua vida,
23:46que você é limitado
23:47em todas as áreas,
23:49então,
23:49pegue o seu hiperfoca
23:50e transforma isso
23:51num negócio
23:52que você vai ter
23:52muito sucesso,
23:53assim como os meus
23:54entrevistados.
23:56Muito obrigado
23:57pela entrevista,
23:58obrigado pelo tempo aí
24:00e boa noite.
24:03Obrigada a você,
24:04qualquer coisa
24:05estamos aí,
24:06se precisar,
24:07tá bom?
24:07Fica com Deus.
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