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  • há 2 dias
Um veado no paralelepípedo do Menino Deus era quase uma metáfora da nossa bagunça ambiental: a natureza fora de lugar, vulnerável e ameaçada.

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Transcrição
00:00Aquele olhar me bateu fundo, sabe? A cabeça caída no meio fio, o corpo desfalecendo,
00:05ensanguentado e mesmo assim algum esforço para manter os olhos abertos.
00:10Principalmente me pareceu para tentar entender alguma coisa,
00:13porque nada ali fazia sentido para ele. O barulho, o concreto, os cães que o atacaram.
00:18Ele não tinha qualquer referência, não tinha nenhum vestígio do lugar ao qual ele pertencia.
00:23Então era um olhar lançado sobre um mundo que não devolvia resposta.
00:27É o desamparo mais absoluto que um ser vivo pode sentir.
00:31E a cena não fazia sentido para nós também.
00:33Um cervo, um viado, uma fêmea, na verdade, de dois ou três anos,
00:37no paralelepípedo do menino Deus, em Porto Alegre,
00:39era quase uma metáfora da nossa bagunça ambiental.
00:42A natureza totalmente fora de lugar, ameaçada, vulnerável.
00:47Porque tem certos animais que a gente aprendeu a ver como símbolos de beleza,
00:52de liberdade, até de pureza.
00:54E um cervo carrega essa imagem, essa dimensão meio poética.
00:58Quando essa imagem aparece destroçada daquele jeito,
01:02não parece que uma coisa sagrada foi profanada?
01:05Foi a sensação que eu tive.
01:07E eu senti até um certo alívio quando anunciaram a eutanásia,
01:10não só para acabar com a dor, com o sofrimento,
01:13mas porque se sobrevivesse, aquele bicho nunca mais ia voltar para a natureza,
01:17para aquele cenário silvestre,
01:19que de certa forma é o que dava sentido à própria existência dele.
01:22Não, ele ia virar um animal de cativeiro.
01:24Provavelmente bem tratado, mas com um espírito confinado, interditado.
01:28Porque essa espécie de viado, o cervus axis,
01:31não é nativa daqui, não é uma espécie local.
01:34Então é um animal classificado como invasor.
01:36E os invasores desequilibram o ambiente,
01:40competem com a fauna local, espalham doenças,
01:42não tem predadores naturais,
01:44então precisam, às vezes, ser removidos do ecossistema.
01:48Agora, claro, esse tipo de cervo não veio para cá porque queria.
01:51Veio porque, entre os anos 1920 e 1930,
01:55fazendeiros decidiram capturar esses animais na Índia
01:57para que eles fossem caçados aqui perto,
02:00especialmente na Argentina e no Uruguai.
02:02Quer dizer, esses viados foram arrancados do território deles
02:06para satisfazer o prazer de matar de uma elite mimada, imbecil.
02:11E eles é que são invasores?
02:13Olha, tecnicamente, no jargão da ecologia, são.
02:16Mas, moralmente, aquele corpo moribundo,
02:20entregue ao meio-fio, denunciava o contrário.
02:22Denunciava o martírio de um ser cuja existência foi tão invadida,
02:26tão violada, que acabou levado ao limite,
02:29esmagada, exaurida por escolhas que nunca passaram por ele.
02:33Aquele olhar parado, vazio, quase morto,
02:36não tinha mesmo como entender alguma coisa.
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