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Novela Maria Maria - Novela dos anos 70
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TVTranscrição
00:00Bom, construção antiga, tá boa?
00:05Ah, se eu lhe contar quem eu já fui, senhor Ricardo Valeriano,
00:11o senhor talvez nem acredite.
00:13Olha, eu já tive muita terra aqui, sabe?
00:16E já tive até uma boa fortuna.
00:19E todos andavam atrás de mim, não é?
00:22Agora, sabe por quê?
00:24Porque eu tinha dinheiro, terra, as gado.
00:28E por que o senhor perdeu tudo?
00:32Eu perdi porque o destino foi mais duro do que a fortuna, não é?
00:38Eu não soube guardar, é claro, é verdade.
00:42Mas a natureza foi má, sabe?
00:46Foi muito má.
00:49Fiquei reduzido a nada.
00:59Mas não se pode fazer um trabalho por aqui?
01:02Trabalho pra quem?
01:03A pobreza aqui é uma só.
01:06Bem, eu tenho duas filhas que fazem renda, não é?
01:09Mas não há o que comprar.
01:12E os rapazes saem aí pra arrancar raízes de ambu na Caatinga,
01:18pro bró da ceia, não é?
01:20É uma miséria sem tamanho, senhor Ricardo Valeriano.
01:25É uma desgraça.
01:27É, e olha que eu já fui monstro e rico, hein?
01:29Já fiz o diabo.
01:31E agora, agora eu tô aqui, miserável, faminto,
01:36esperando a morte chegar.
01:51Essa casa do senhor vale uma boa reforma.
01:53Ela pode ficar como nova, que bonita ela ainda.
01:56Ah, o senhor precisava ver.
01:58Era uma beleza.
02:00Agora, se está interessado,
02:03ela ainda vale algum dinheiro, hein?
02:05Mas eu, aonde eu vou morar, hein?
02:09Não, por hora não.
02:12Quem sabe um dia, né, senhor Raimundo Alves?
02:14Quem sabe um dia eu paro aqui e compro a casa do senhor.
02:16Ah, Deus lhe ajude.
02:18E me dê um lugar pra morar, né?
02:20Ô, senhor Ricardo!
02:21Ô, senhor Ricardo!
02:23Tá tudo desarrachado, senhor Ricardo!
02:26Só dá licença.
02:27Tá.
02:44Achou sua irmã?
02:45Não, senhor.
02:46Foi na casa da dona Belinha?
02:47Sim, senhor.
02:48Mas aonde diabos se meteu essa menina?
02:51Quando fritarem o tocinho,
02:53ela aparece pelo cheiro.
03:12Por menos de cinco malarrés,
03:14não vale um selamim pra ninguém.
03:16Sal da terra pode ser encontrado mais em conta,
03:18mas sal de baixo, não.
03:20Desde que a gente saiu lá de Serra Nova,
03:23quase que não descansamos nada.
03:25Chegamos em São Félix,
03:26encontramos logo um frete inteirado
03:28pro Maracá.
03:30Aí chegamos lá,
03:32vendemos a mercadoria,
03:34tampamos mesmo a tropa de sal e tocinho.
03:37Iam voltar pra casa.
03:38Mas ficamos sabendo lá no Gavião,
03:40que na lava do Mucuji,
03:42o sal e o tocinho estão dando bom preço.
03:44Então aqui vou eu.
03:46É, vai fazer bom negócio, hein?
03:49E o violeiro toca boa música?
03:51É.
03:53Emanuel Pingo D'Água,
03:55tropeiro de ofício,
03:57valente por índole,
03:59tocador de viola por arte.
04:04A gente tem que usar todos os dedos pra tocar?
04:07Não.
04:08O dedo é o de menos.
04:11Tem gente que toca até sem dedo,
04:13toca com imaginação.
04:15O que vale a arte não são os dedos.
04:18A gente pode tocar com cinco,
04:20com dez,
04:20com até com quinze dedos.
04:22Se não for bom de arte,
04:23a viola não obedece.
04:26Eu já ouvi dizer que em Chique-Chique
04:27tem um tocador que toca com uma mão só.
04:29Sabe como é que é o nome dele?
04:30Gota D'Água.
04:31Eu sou Pingo D'Água
04:32e ele é Gota D'Água.
04:34Já me disseram até que ele fere as notas,
04:36faz os trinados,
04:37tudo com uma mão só.
04:38Mas eu não acredito nisso, não.
04:40Se Deus quiser,
04:41um dia desse eu vou a Chique-Chique
04:42só pra tirar essa prova.
04:43E aí é que eu quero ver
04:44quem é que pode mais.
04:45Se é o Pingo ou se é a Gota.
04:48Minha irmã disse que na cidade grande
04:50todo mundo é alegre.
04:52Você que disse isso?
04:54Eu não fui.
04:55A Maria, nossa outra irmã.
04:56Ela deve estar andando por aí.
04:58Às vezes desaparece à tarde,
05:00só volta quando anotece.
05:02Fica andando.
05:03Ela diz que tá sonhando.
05:04É, e o pai fica danado.
05:08Uma filha quando é boa
05:09não some pelos caminhos.
05:12E isso dá comentário
05:13na boca dos seus vicensos.
05:15Ei, calma, calma.
05:16Calma, devagar, devagar
05:17que nós não estamos habituados.
05:18Olha, comida é que nem felicidade.
05:20Abusou, morre.
05:31A senhora aceita um pito?
05:34Virgem Maria.
05:35Há quanto tempo eu não vejo isso.
05:38Obrigado.
05:41O senhor tem umas crianças
05:42muito mirradas.
05:46É a fome, meu senhor.
05:49Já me morreram quatro
05:51nesses últimos meses.
05:54O senhor precisava ver.
05:58Esses aí são
06:00João, a Aparecida
06:02e a Dorinha.
06:04Agora, a Maria
06:05é mais bonitinha.
06:08E onde é que tá a outra?
06:09Maria?
06:10Ah, andando por aí.
06:12Vive fugida
06:13que só houver.
06:16É, filha,
06:17muita responsabilidade.
06:20Ah, não tem nada, não.
06:22Eles morrem
06:23por qualquer coisa.
06:30O senhor não quer casar?
06:33Ué, por que não?
06:36Algum dia,
06:36se eu encontrar uma dona
06:37do meu jeito, eu caso.
06:39Mas antes,
06:39eu preciso ganhar dinheiro.
06:40Pra depois arranjar
06:41uma casa com essa.
06:43Isso aqui pode ficar
06:44um paraíso.
06:45Ah, pode sim.
06:47Ó, com dinheiro
06:48e sem a maldita seca,
06:51a lagoa pode voltar
06:52assim o que já foi.
06:55Bem,
06:56eu não vou viver
06:56pra ver isso.
06:58Mas o senhor
06:59que é moço
07:00vai ter tempo
07:01de ser feliz.
07:06Pinho Daro?
07:07Ô?
07:08Vem mostrar pra essa gente
07:09que o senhor é o melhor
07:10improvisador de Serra Nova.
07:15De Serra Nova só, patrão?
07:18Bom, enquanto eu não encontrar
07:19outro é o seu melhor.
07:20Tá bom assim?
07:21Canta aí.
07:22Na minha terra,
07:23seu Raimundo Alves,
07:24a gente costuma dizer
07:25que um bom improvisador
07:26e uma boa xícara
07:27de café mineiro
07:28faz a felicidade
07:29de qualquer tropeiro.
07:30Não esquecer as moça, patrão?
07:32Canta, bingo d'água!
07:34Nossa!
07:44Nosso agradecimento
07:45Pela acolhida sincera
07:47que seu Raimundo e família
07:49nos deram nessa tapera
07:55Em tempos que, como esse
07:57disse, que flagelação
07:59devem todos ser amigos
08:01irmão ajudando irmão
08:07Canto na minha viola
08:09o nosso agradecimento
08:11Mas deixo aqui nesta casa
08:13um grande aborrecimento
08:15Por quê?
08:19Ô gente, que sou tropeiro
08:21Tropeiro de valentia
08:23Mas não vou embora contente
08:25Se não conhecer Maria
08:32Das filhas que um homem tem
08:35Nem sempre a feia que desce
08:37Nem sempre a caçula chora
08:39E a mais bonita parece
08:47Mas então por que vocês
08:48não vão pras lavras?
08:50Ah, pra quem já teve
08:51criação e dinheiro
08:52é muito duro
08:56Se sua amiga
08:57você me oferecer
08:57um salaminho
08:58por meio cobre
09:00Nem assim a gente
09:01pode comprar
09:04Já fazia dois meses
09:05que a gente não sabia
09:06o que ia botar
09:06uma pedra de sal na boca
09:10Vivemos de raízes do mato
09:13Fruta brava
09:15E palmito cozido
09:16sem sal
09:18Nas lábrias
09:19tá tudo muito caro
09:20mas não tem ninguém
09:20comendo raiz de pau, não
09:22Mas cadê a força
09:23pra caminhar, meu senhor?
09:25E ainda mais
09:26com isso tudo aí
09:27pra sustentar
09:29Olha, olha o quadro, meu senhor
09:31Isso fora os que já morreram
09:43Até que enfim
09:44põe os olhos em você
09:46Esse senhor nos deu a honra
09:48de uma ceia
09:49e todos os homens
09:50prestaram homenagem
09:51à família
09:52E você só
09:53nem apareceu
09:54Onde é que você tá, bem?
09:58Essa é a que estava
09:59faltando, seu mineiro
10:00Se engorda um pouquinho
10:01dessa brocha
10:02É a mais bonitinha
10:04mas uma trabalheira
10:05É, é, senhor Ricardo
10:07É, vem cá
10:07É, é, é
10:08meu senhor Ricardo
10:09Vem aqui pra fora
10:10Vem cá
10:10Vem cá
10:11É, meu senhor Ricardo
10:13Vem a ver
10:13Vem a ver
10:14Que moça bonita
10:15que essa menina vai dar
10:16Vem cá
10:17Vem, seu Ricardo
10:17Vem cá
10:18Vem, seu Ricardo
10:19Vem, seu Ricardo
10:20Vem, seu Ricardo
10:21Vem, ele
10:24Vem
10:24Vem, vem
10:24Vem, que moça
10:25Essa menina vai dar
10:29Tem 18 anos
10:30Mas parece uma menina
10:31Ué, tá com vergonha
10:33de quem é?
10:33Menina tola
10:34Quem tem vergonha
10:35morre de fome
10:50E chamou-se, dona
10:53Levanta a cabeça, Maria
10:54Escuta, menina
10:55Se o senhor quiser te levar
10:56Tu quer ir?
10:58Ah, se ele me desse
10:59um selamínio de sal
10:59Bem que eu te dava
11:00pra cozinhar na casa dele
11:01Ela não vale nem isso
11:02Ela só sabe
11:03dar pra ir sonhar
11:03Porque aí sonha
11:04não tô, menina
11:05Pronto, patrão
11:06Tudo pronto
11:07Vai indo com a troca na frente
11:09Eu vou logo depois
11:10Se o senhor, você tinha coragem
11:12de dar um selamínio
11:12de sal pela Maria?
11:14Até mais
11:15Se não fosse pecado e crime
11:17comprar a gente forra
11:18Não, eu estou falando sério
11:19É que o senhor, você não sabe
11:20o que é comer palmito
11:21sem sal
11:22por necessidade
11:33Compro
11:40Aqui está esta cuia
11:41que é um selamínio de sal
11:51Me dá um selamínio de sal
11:53Um leio de tocinho
11:53e um pedaço de carne
11:54Sim, senhor
12:01Nesse mundo tenho visto
12:04Mas assim já é sofrer
12:07Aqui é que filho chora
12:10Filho chora e mãe não vê
12:13Tem que ver
12:14Mas a fama aqui tem cala de areia
12:17Não chore não, moça
12:20Seus pais venderam a filha
12:21mas a filha não foi comprada
12:32Fique com eles
12:34Somente se lembre que eu me chamo
12:36do Ricardo Valeriano Brandão
12:40E aqui está mais uma lembrança
12:50Deus ajude o senhor
12:53E lhe dê feliz viagem
13:07Sempre que você quisesse lembrar de mim
13:10Segura-se a medalha com força
13:13Era uma medalha da minha mãe
13:14Uma medalha abençoada
13:16Traz muita sorte
13:18E o senhor vai ficar sem ela
13:21Tenho certeza que nesse momento
13:23Sem querer brincar com o destino
13:24Você está precisando mais de sorte que eu
13:26Fique com ela
13:29Aguardando horas, patrão
13:36Pra onde o senhor vai?
13:38Eu vou pra Mucugei
13:39vender minha mercadoria
13:41Depois volto pra Minas
13:42Pra minha Serra Nova
13:45Há um dia
13:45Quem sabe
13:49Por quê?
14:09Quem sabe
14:10Eu volto pra essas paragens
14:13Às vezes eu penso em perseguir as pedras
14:15Os diamantes
14:16A lava da Chapada Nova
14:20Diamante
14:26O patrão enrabixou dessa vez
14:28Será?
14:29Tão cedo?
14:30A moça mais parece um frango d'água
14:33Vamos cuidar da tropa
14:35Que é negócio nosso
14:35A moça é negócio do patrão
14:37Será que ela vem com a gente?
14:40Mulher em tropa desatrela a tudo
14:42Ah, o patrão não é louco de fazer isso
14:43O patrão não é homem de comprar a gente porra
14:45Nem por selaminho de sal
14:47Nem por dinheiro nenhum
14:47Esse negócio do velho
14:49Tó de Raimundo
14:50Que quer se livrar dos encargos dos filhos
14:52Não sabe o que é que todo mundo se beza
14:54Quando se fala nesse homem
14:55Pra mim ele parece bom
14:57Vai lá a gente saber
14:58O que que o povo fala
14:59Mas então o patrão não vai levar a moça?
15:01Não vai levar?
15:03Não
15:04E o senhor vai querer de volta o sol e o torcinho?
15:06Não, senhor Raimundo Alves
15:07Fique tudo com o senhor
15:08Não entendo isso
15:09Vamos, irmão
15:10É vontade desse mineiro, senhor Maria Rosa
15:12Vamos
15:12Vamos
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