00:00Foi um momento que nós enfrentamos o Uruguai, do qual eu, na época de 70, estava com 20 anos,
00:12mas que se falava muito da Copa de 50.
00:16E eu, como desculpa, falava, bom, mas eu mal tinha nascido, nem lembro da Copa.
00:21Mas como que eu não podia lembrar, né? Aquela tragédia que aconteceu aqui no Maracanã.
00:25Mas o que ocorreu, assim, tão importante nesse jogo, foi que em determinado momento da partida,
00:32e isso está na minha lembrança e vai ficar para sempre, claro, e é bom que o público saiba, né?
00:39Como e por que aconteceu.
00:43Que era um jogador muito defensivo e o Brasil perdia de 1 a 0 pro Uruguai.
00:49E em determinado momento do jogo, acredito que aos 35 minutos do primeiro tempo,
00:56o Gesso e o Carlos Alberto, com autorização do nosso treinador Zagala, evidentemente,
01:04me chamaram, uma reunião rápida dentro de campo,
01:10e me orientaram para que eu fosse à frente, atacar mais,
01:15porque eu era um jogador defensivo.
01:18E eu fiquei meio assustado, falei, como, eu vou sair?
01:21Aí o Gesso falou, é, eu combinei já com o Carlos Alberto,
01:24você vai sair e eu vou ficar fazendo a tua função de volante.
01:30E eu, de pronto, foi assim, para mim, assustador, né?
01:35Mas aí eu comecei a sair um pouco mais para o jogo.
01:39Na primeira bola que eu fui, eu quase passo o gol,
01:42chutei uma bola, passou bem próximo.
01:44E no segundo lance, numa jogada que eu saí pela esquerda,
01:48junto com o Everaldo, dei ao Tostão.
01:52Então, eu percebi que o zagueiro acompanhou o Tostão,
01:55abri um corredor, e eu penetrei e consegui fazer o gol de empate 1 a 1.
02:01Então, eu acho que esse detalhe dessa mini reunião, vamos dizer assim,
02:07dentro do gramado, né?
02:11Foi decisivo para que nós empatássemos o jogo
02:15e que voltamos no segundo tempo,
02:20fizemos talvez um segundo tempo maravilhoso,
02:24virando o jogo para 3 a 1.
02:25Então, isso é um pouquinho da história do jogo Brasil-Uruguai
02:28e uma história do motivo do qual eu me lancei à frente
02:32e fiz o gol de empate no Brasil.
02:34Temos muita, mas eu guardei uma,
02:38porque quando eu comecei muitos jogos no Santos,
02:41e jogar com o Pelé assustava um pouco, né?
02:45Porque, você imagina, o Pelé vai exigir o máximo.
02:51E, na continuidade do Campeonato Paulista,
02:55que foi o meu primeiro campeonato, em 1967,
02:59ele já começou a me cobrar.
03:02E ele falava assim,
03:04você está demorando.
03:06Isso foi passando, eu fui guardando.
03:08Aí chegou 68,
03:11eu não lembro que data foi o jogo do Santos de Portuguesa,
03:17não sei se já foi em 69 ou 71,
03:20mas você tem nos arquivos aí para buscar a data.
03:26Aquilo vinha me incomodando.
03:28Dois, três anos, quatro, não sei, jogando com o Rei,
03:31e ele falou assim, você está demorando.
03:34Aí eu não aguentei, perguntei para ele.
03:37Aí ele me explicou,
03:39ele falou, quando você for receber a bola,
03:41você olha antes,
03:43para ver onde eu estou colocado,
03:45aí você, quando dominar,
03:47você já faz o lançamento,
03:49passa a bola.
03:50Em jogo da Portuguesa,
03:52eu recebi um lateral, pela esquerda,
03:56nós estávamos empatando o jogo 2x2,
03:59saímos perdendo 2x0,
04:01empatamos,
04:01e nesse momento que eu recebi a bola,
04:04eu lembrei de tudo que o Pelé me falou,
04:07que eu demorava.
04:08Então, o que eu fiz?
04:09Eu recebi a bola,
04:10dei um toque, assim, rápido,
04:13e chutei, lancei, fiz um lançamento para ele.
04:17Só que a bola, eu achei que ela tinha saído com muita força.
04:20E eu falei, ai, meu Deus do céu,
04:22é hoje que eu vou escutar.
04:24Para a minha surpresa, o Pelé subiu,
04:27assim, dominou no peito,
04:29virou, descanhote, fez para mim,
04:31um dos gols mais bonitos da história do rei.
04:35Bom, eu saí feliz da vida,
04:37saí correndo para abraçar o rei,
04:39e abracei, falei, aí, gostou?
04:42Ele me abraçou e falou, está melhorando.
04:46Eu, quando cheguei no Santos,
04:47com meus 14 para 15 anos,
04:51eu me dei o direito de entrar no refeitório,
04:54que estava o Pelé almoçando.
04:57De curiosidade, eu queria ver o Pelé,
04:59ainda não tinha visto,
05:00e eu abri a porta.
05:02Quando eu abri a porta,
05:03quem estava saindo?
05:05O Pelé.
05:05E ele vinha, assim,
05:07andando para sair do refeitório,
05:10com a maçã na mão.
05:11Aí eu olhei,
05:12minhas pernas tremiam, né?
05:14Aí eu olhei, assim,
05:15eu estava fazendo,
05:16acho que algo errado,
05:17não podia entrar no refeitório,
05:19enquanto os profissionais estavam
05:23almoçando.
05:24Aí, quando ele me viu,
05:26falei, e aí, moleque?
05:27Não sabia nem meu nome.
05:29E aí, moleque?
05:30Tudo bem?
05:31Aí eu, gaguejando,
05:33falei, tudo bem, tudo bem, rei.
05:35Aí ele olhou, assim, para mim,
05:38não sei se achou eu magrinho,
05:40com fome, não sei,
05:41quer uma maçã?
05:43Aí eu peguei a maçã do Pelé,
05:45e eu nunca mais esqueci disso, claro.
05:48Foi o meu primeiro contato com o Pelé.
05:50Depois tive a alegria, a honra,
05:53o privilégio de ser amigo,
05:56companheiro,
05:58companheiro como profissional,
06:01companheiro como companheiro mesmo na vida, sabe?
06:05Então foi uma história que eu agradeço a Deus
06:10de ter me dado essa oportunidade.
06:11Mas isso não fica só aqui entre nós,
06:14porque eu falava muito isso para ele.
06:18porque às vezes o ser humano
06:20tem um pouco de preconceito,
06:23de receio falar para o outro,
06:25com um amigo que ama.
06:26E eu falava muito isso para ele.
06:28Então, as coisas que eu nunca vou me arrepender,
06:31porque tudo que eu tinha que falar para ele,
06:33eu falava.
06:35Entendeu?
06:35Foi muito legal.
06:37Eu falava muito legal.
06:38Eu falava muito legal.
06:39Eu falava muito legal.
06:41Eu falava muito legal.
Comentários