00:01O primeiro aspecto são os conflitos de papéis, então uma hora você tem que ser mãe, outra hora você tem
00:07que ser filha, outra hora você tem que ser a mãe da sua mãe e isso tudo vai gerando uma
00:11desorganização interna, que vai gerar a sobrecarga emocional.
00:15A sobrecarga emocional vem através do excesso, inclusive de responsabilidade, então eu tenho que dar conta dos meus ascendentes, dos
00:21meus pais, tenho que dar conta dos meus descendentes, dos meus filhos, e em que momento eu tenho da minha
00:27jornada e da minha semana para dar conta e cuidar de mim.
00:30Então a sobrecarga emocional vai gerar excesso de responsabilidade que vai desencandear em tristeza, muitas vezes a sensação de estar
00:37deprimido, porque você entende que precisa, a pessoa no imaginário dela entende que ela precisa dar conta e cuidar de
00:43todo mundo, e isso vai impactar de forma negativa esse excesso de pressão.
00:49Outro elemento também é a questão financeira, então para cuidar dos pais muitas vezes e dos filhos, simultaneamente isso fala
00:56de um esforço maior em relação às questões das finanças, além da questão de lidar com a invisibilidade do próprio
01:04sofrimento, porque onde eu cuido dos meus pais, onde eu cuido dos meus filhos, muitas vezes eu não consigo ter
01:10espaço para expressar os meus próprios sentimentos, as minhas necessidades, e o quanto que isso vai acabar indo para debaixo
01:17do tapete.
01:18Então as pessoas que passam pela condição social dessa geração do sanduíche, muitas vezes sentem-se sozinhas e sem apoio,
01:26porque elas não têm um espaço para poder compartilhar e expressar suas emoções e sentimentos.
01:34Mas, por outro lado, a convivência de duas ou mais gerações dentro de uma mesma casa, muitas vezes fazem com
01:45que a sobrecarga ocorra naquela geração que está na centralidade,
01:51que geralmente é essa pessoa que tem de 35 a 49 anos. Então ela tem que acumular as responsabilidades familiares,
02:00as responsabilidades relacionadas ao cuidado e as responsabilidades também relacionadas à vida laboral.
02:08Isso pode fazer com que essa geração central passe por muitas dificuldades.
02:14A geração sanduíche é uma geração que lutou muito pelo direito de trabalhar, de ter a sua renda, de ter
02:31a sua valorização como pessoa,
02:36mas que ela ainda tem muito da geração que dedicou todo o cuidado à família.
02:44Então ela está nesse impasse, nesse impasse, vamos dizer, existencial, esse impasse de como conciliar essas duas coisas.
02:59Ela viveu, ela tem vontades de viver as questões delas, de ter o espaço dela, de ter a possibilidade dela
03:10viver coisas por ela,
03:13mas ela ainda está muito ligada, mas ela ainda está muito ligada a essa questão do cuidado da família.
03:19Então eu acho que é muito importante que todos nós não enxerguemos essa pessoa que está aí nessa situação de
03:28geração sanduíche como uma obrigação dela.
03:31O cuidado, ele passa pelo cuidado de toda uma família.
03:38A transição demográfica não aconteceu de uma hora para a outra.
03:43Segundo as estimativas da população divulgadas pelo IBGE, o país chegou a 213 milhões de habitantes em julho deste ano.
03:52O crescimento foi de apenas 0,39% em relação a 2024.
03:58O ápice populacional está previsto para 2041.
04:03A partir daí, o Brasil começará a encolher.
04:06E o envelhecimento acelerado trará impactos diretos sobre a saúde pública, a previdência, a assistência social, a educação e o
04:15mercado de trabalho.
04:17O país também tem um encontro marcado com novas discussões sobre a previdência.
04:22Nas últimas quatro décadas, os benefícios cresceram a um ritmo quase duas vezes superior ao do PIB.
04:33No Brasil, essa transição ganha contornos ainda mais intensos.
04:37Em poucas décadas, a expectativa de vida do brasileiro cresceu de forma expressiva, ampliando o tempo de convivência entre gerações.
04:47Em 2019, 54,1 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais declararam cuidar de outros moradores da própria casa
04:57ou de parentes.
04:58Até o final de 2013, quase um milhão de brasileiros entre 35 e 49 anos viviam em domicílios com idosos
05:07e crianças ao mesmo tempo.
05:09Um dado que traduz em números, o que para muitos é uma rotina exaustiva.
05:17Quando nasci, a expectativa de vida que a minha geração tinha era de 46 anos.
05:23Ela, no final desta década, já terá passado 78 anos.
05:30São 32 anos mais de vida.
05:33E o aumento é maior ainda na expectativa de vida, proporcionalmente, para quem faz 60, 70 anos.
05:43Então, é uma vida muito mais longa e, ao mesmo tempo, uma carga muito pesada sobre essas pessoas que estão
05:54cuidando.
05:56O Brasil vai continuar a envelhecer de forma muito rápida.
06:03É dos três países no mundo que mais envelhecem.
06:07Nós passaremos de 15, 16% de sexagenários hoje para, em 2050, termos 31%.
06:17Ou seja, quase um terço da população com mais de 60 anos.
06:23Precisamos pensar em políticas públicas estratégicas e eficientes para facilitar ou para tornar mesmo viável
06:31que a mulher que deseja ir ao mercado de trabalho consiga conciliar melhor essas atividades laborais com as responsabilidades familiares.
06:44O crescimento econômico de um país depende muito da sua mão de obra.
06:48Então, dado o contexto de envelhecimento populacional e queda na taxa de fecundidade,
06:55nós precisamos contar com toda a mão de obra, principalmente a mão de obra feminina,
06:59que, dentre elas, tem muitos talentos em potencial.
07:03Então, se a gente pensar no mercado de trabalho e na economia brasileira,
07:09ter essas mulheres fora do mercado é um grande desperdício de mão de obra.
07:15Então, não se trata só de questão de equidade, se trata também de questão econômica,
07:20de permitir que essas mulheres, caso elas desejem, elas consigam ir ao mercado de trabalho,
07:27pois essa mão de obra é necessária para a nossa economia continuar crescendo.
07:35O mundo está envelhecendo.
07:37O Brasil é um dos países que envelhece mais rápido do mundo,
07:40já são 32 milhões de idosos no Brasil,
07:43e a gente percebe que as pessoas têm essa preocupação,
07:48elas querem morar sozinhas, mas aí o cônjuge morre,
07:52essa pessoa acaba ficando sozinha,
07:55a rede de apoio dela acaba diminuindo, os amigos também acabam falecendo,
07:59então é uma pessoa que precisa de cuidado.
08:02Elas querem viver sozinhas, mas existe o desafio de viver sozinha.
08:09Um afunilamento ainda maior quando se parte de um recorte de gênero.
08:14As mulheres são as mais afetadas quando o assunto é a sobrecarga causada pelo cuidado
08:19e representam 60% dos adultos pertencentes à geração sanduíche.
08:25As mulheres dedicam, em média, 10,4 horas por semana a mais do que os homens
08:31às tarefas domésticas e aos cuidados não remunerados com pessoas.
08:36Enquanto isso, a proporção de mulheres da geração sanduíche que estão fora do mercado
08:41é quase seis vezes maior que a dos homens.
08:44Elas movimentam uma verdadeira economia silenciosa,
08:48chamada de economia do cuidado.
08:51Trabalhos domésticos que não são remunerados,
08:54mas que, se deixam de existir, podem prejudicar todo o funcionamento econômico.
08:59Mesmo as mulheres que estão ocupadas têm rendimento menor que os homens,
09:04cerca de 34% a menos, com uma renda mensal que chega, em média, a R$ 2.949.
09:15No dia a dia, a gente vai carregando um pouco mais sozinha esse piano, né?
09:19Porque as outras pessoas também estão com as suas demandas, né?
09:22E também, muitas vezes, estão...
09:24As minhas amigas são da minha idade, mais ou menos,
09:27e está todo mundo nessa onda, né?
09:30Dos pais e dos filhos ainda, dependendo do cuidado.
09:35A gente fica no centro, sabe?
09:36Eu me sinto ali...
09:37Parece que tudo passa por mim.
09:40A gente sabe que o sedentarismo é fator de risco para a demência,
09:44que o isolamento social é fator de risco para a demência, né?
09:48Que as condições cardiovasculares, como hipertensão, colesterol, diabetes, obesidade,
09:56são fatores de risco para a demência.
09:58Então, elas acabam ficando sujeitas a ter mais doenças crônicas,
10:03entre elas, demência, porque elas se negligenciam e são negligenciadas pela sociedade, né?
10:15A idade ao ter o primeiro filho no Brasil,
10:19desde o final do século passado, está crescendo ano após ano.
10:25É uma opção, uma opção absolutamente válida.
10:29A mulher, ela vai adiar a ter o primeiro filho
10:34porque ela quer primeiro se estabilizar,
10:37ela quer ter que consolidar uma vida profissional,
10:41ou os abertos econômicos são tais
10:45e é preciso que aquele casal, e às vezes são mães solteiras,
10:51adiem a ter o primeiro filho,
10:54o que é hoje fácil.
10:56Quando eu era jovem, não era fácil,
11:00porque a mulher era vítima do seu aparelho reprodutor.
11:07Se ela começasse a ter vida sexual,
11:10não existiam métodos contraceptivos que nós temos hoje.
11:16Então, hoje a mulher pode, com facilidade,
11:20sobretudo através da pílula, mas há outros métodos,
11:23e escolher se vai ter filhos, quantos filhos e quanto.
11:28E esse quando determina que ela tem filhos mais tarde
11:32e chegue aos 45, 50, 55 anos,
11:37ainda com filhos jovens que precisam de cuidado.
11:48Nós ainda vivemos uma cultura machista
11:51em que o cuidado é para a mulher fazer.
11:55Desde as tarefas domésticas,
11:58essa mulher tem uma tripla carga,
12:01porque ela cuida dos filhos,
12:04crianças ou adolescentes,
12:05ela cria de cada vez mais idosos nessa família,
12:10e ela ainda tem que trabalhar
12:11para trazer e aumentar a renda dentro de casa.
12:16Espera-se tudo da mulher,
12:18e os homens saem de fininho,
12:21empurrando com a barriga,
12:23a barriga cresce,
12:25mas não cai a ficha.
12:27Eles acham que o idoso,
12:29o velho, no Brasil,
12:31é sempre um outro,
12:32não tem nada a ver com ele.
12:36Eu digo mais,
12:39a abnegação que se exige
12:41da mulher,
12:42que tem que cuidar, cuidar, cuidar,
12:44ela acaba sendo um tiro no pé,
12:48porque chega um ponto
12:49em que essa mulher
12:51está deprimida,
12:52não tem satisfação de vida,
12:55ela vai aumentando o estresse,
12:57ela pode adoecer,
12:58ela própria
12:59pode ter um problema cardiovascular,
13:02uma depressão,
13:04poder ter outras manifestações
13:07de saúde mental.
13:08Então, é fundamental
13:10que a sociedade como um todo,
13:12começando pelo poder público,
13:15perceba a importância
13:17da cultura do cuidado.
13:20O número que chama a atenção
13:22é a alta incidência
13:24de informalidade
13:25entre as mulheres
13:26que estão na geração sanduíche.
13:29Essa mulher, geralmente,
13:31ela precisa ir para o mercado
13:32de trabalho,
13:33então, muitas vezes,
13:34a única forma
13:35que ela encontra
13:36de trabalhar
13:37é fazendo bicos,
13:39trabalhando temporariamente,
13:39mas a informalidade
13:42é algo ruim
13:43para a nossa economia.
13:44Postos informais,
13:46geralmente,
13:46estão relacionados
13:47a maior evasão fiscal
13:48e também tem
13:49uma insegurança
13:50muito grande
13:51para o trabalhador.
13:52Esse trabalhador,
13:53ele fica desprovido
13:54de qualquer garantia social.
13:57A revolução da longevidade,
13:59ela atravessa,
14:02passa e, às vezes,
14:03vitimiza a mulher.
14:05Nós devemos muito
14:07a essas mulheres,
14:09a esse cuidado
14:11que elas continuam tendo,
14:13passando por cima
14:14de suas necessidades,
14:16de suas carências,
14:17para poder servir,
14:20cuidar dos outros.
14:21e, muitas vezes,
14:23elas aprendem
14:24muito antes
14:24que os homens,
14:26que a dádiva,
14:28a dádiva
14:29da longevidade
14:30é você
14:32pedir perdão,
14:33perdoar,
14:34ser perdoado
14:35e, de preferência,
14:37também,
14:37se auto-perdoar.
14:39Porque quantas
14:40ainda se culpam
14:41por não poderem,
14:43e elas sabem
14:44quando sim,
14:45quando não,
14:46por não poderem
14:47estar dando,
14:48ainda melhor
14:50do que amestim.
15:07Novo desenho demográfico
15:09também redesenha
15:10a economia.
15:11A sobrecarga contínua
15:13impacta a saúde mental,
15:15aumenta os casos
15:16de ansiedade,
15:17exaustão
15:18e esgotamento emocional,
15:19e amplia a procura
15:21por apoio psicológico
15:23e psiquiátrico.
15:24Um mercado
15:25que cresce
15:25à medida
15:26que a pressão
15:26do cuidado
15:27se torna
15:28mais intensa
15:29e prolongada.
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