00:02O Januário, ora faz lá conta o dinheiro dos hóspedes.
00:06Quatrocentos escudos da Luizinha.
00:08Quatrocentos e cinquenta do Sr. Costa, não é?
00:11É, onde paga são quatrocentos e cinquenta.
00:17Ora vem a ser oitocentos e cinquenta escudos.
00:21Se alugarmos este quarto por quinhentos,
00:24e com a tua reforma da Câmara, digam cá isto.
00:28Ah, estou aqui!
00:29Então, encontrou a Luizinha?
00:31Encontrei, mas tive que dar as canetas.
00:32Doida agora.
00:33Deixe-me cá, eu quando saio à rua é isto.
00:35Venho aqui farto de trabalhar.
00:36Trabalhar?
00:37Olha que hoje não é primeiro de abril, eu sou Costa.
00:39Palavra de honra.
00:40Olha, viver com a Marcolina e o homem que está com a Esgana entre o seu joelho.
00:43Com a Esgana?
00:44Ai, pobre mulher.
00:46Não é mulher, é o cão, senhora.
00:47Depois fui consertar o relógio da butica.
00:49Pois precisava.
00:50Pois precisava.
00:50Quando eram dez horas, marcava oito e faltava um quarto para uma.
00:53E agora?
00:53Agora está muito melhor.
00:54Quando são zero horas, não dá nenhuma.
00:56E marca sete e meia.
00:59Olha, digo isso, se não entro no carvoeiro para meter dois dedos de carburante,
01:02não deitava cá.
01:05O que eu queria ter era à sua boa disposição, senhor Costa.
01:08Pois olha, senhora Rita, aquela de uma vez,
01:10tinha a mais razão para chorar, para rir.
01:14Foi tudo na vida.
01:16Estive alto, desci, calcorrei as sete partidas do mundo
01:20e tudo por causa de uma mulher.
01:23É o fado de cada um.
01:26Ah, e agora pelo fado?
01:27A Rosa Maria estava a ver-te no seu quarto à sua espera.
01:30É verdade, a lição de guitarra e fado.
01:33Já me tinha esquecido.
01:34É isto, não me deixam.
01:35Até a Rosa Maria.
01:38Até a Rosa Maria.
01:48Bom dia, Sr. Costa, julguei que o senhor hoje não aparecia.
01:53Também que tu ontem não apareceste.
01:54Olha, que longe tive a ginela.
01:56Foi toda a manhã, amárica.
01:58A juntei 10 partes calçadas e não tive a levar obra ao almazém.
02:01Oh, rapariga, a tua senha juntadeira se traga das mãos.
02:03Como é que tu vais tocar guitarra?
02:04Ah, mas é que eu gosto depois de ser cantadeira.
02:07Largo o ofício.
02:08Largo o ofício, mas não largues paulitadas.
02:11Não se diz, oh, depois.
02:14É depois.
02:16Olha que não é fácil.
02:18Fácil.
02:19Fícil.
02:20Outra.
02:21Também não é?
02:22Olha que eu sou assim contra a placada que eu não sei falar.
02:24Mas como queres tu cantar o fado em público a dizer as neiras?
02:28Quando cheguei à ginela, oh, depois no almazém.
02:32Ah, também que exagero.
02:34Eu não canto com essa voz charroco.
02:36Não é a voz, é a letra.
02:38Tu sabes o que é ser cantadeira?
02:39Então não sei.
02:41Olha, Alzira já teve um menino.
02:42E o que tem isso?
02:43É que casou com o farmaceto e eu também já tenho o meu indial.
02:47Indial?
02:48Então é da Índia?
02:49Sim, me parece que ele é lá das bandas do Lintés.
02:52E é rico?
02:52Já me prometeu uma mobilha de casa de jantar.
02:54Ah, vocês já vão na casa de jantar?
02:55Mas não passem daí, hã?
02:56Não, senhor, isto é a servo.
02:58Bom, vamos lá à lição.
03:02Mão na cintura.
03:04Cabeça levantada.
03:06Sorriso nos lábios.
03:08Assim?
03:09Assim atiravam-te com uma cadeia.
03:11Um ar natural, rapariga.
03:12Sei lá qual é o ar natural?
03:13O museu parece que fala em estrangeiro.
03:15Bem, vai com o ar que Deus te deu e acabou-se.
03:18Canta lá o fado da saudade.
03:19Deixa ver se me lembra.
03:23Foja, triste pin...
03:27Pin quê?
03:30Pinsamento.
03:33Não ligues, continua.
03:35Vamos lá outra vez.
03:37Foja, triste pinçamento.
03:51Minha febre, meu tormento, foge nas asas do vento.
03:59Foja nas águas do mar.
04:06Vês o efeito?
04:07Até o gato foge nas ásias do vento.
Comments