00:00E na coluna Olhar Espacial de hoje, aliás, Marcelo Zurita, que está aí nos comentários ao vivo conosco,
00:08ele vai nos contar a história da mulher que traduziu e explicou algumas das ideias de Isaac Newton.
00:16Lá vem a história com ele, Marcelo Zurita. Vamos lá!
00:28Olá, pessoal! Saudações astronômicas.
00:32Buracos negros curvando o espaço-tempo, estrelas convertendo massa em energia,
00:36com eficiência quase absurda, o próprio universo emergindo de um Big Bang.
00:40Hoje conseguimos escrever esses cenários com a elegância da relatividade geral.
00:45Todos agradecem a Albert Einstein, mas pouca gente sabe que, sem uma aristocrata francesa do século XVIII,
00:51que enquadrou o próprio Isaac Newton, Einstein talvez nunca tivesse chegado à famosa equação
00:57R igual a MC ao quadrado.
00:59No século XVIII, a França vivia o auge do iluminismo, mas esse século das luzes tinha zonas bem sombreadas.
01:06Cafés, academias e círculos intelectuais eram ambientes essencialmente masculinos,
01:12onde mulheres não eram bem-vindas, pelo menos não como participantes intelectuais.
01:16É nesse cenário que surge Emelie de Châtelet,
01:20nascida Gabrielle Emelie L'Henrié, na Paris de 1706,
01:24única menina em uma família aristocrática de seis filhos.
01:27Sua genialidade foi percebida logo cedo por seu pai,
01:31que tratou de convidar Bernard Lebuy de Fontenet,
01:33secretário da Academia de Ciências de Paris,
01:36para que viesse até sua casa a conversar sobre astronomia com Emelie.
01:39Seu interesse pelos estudos recebeu de seus pais um incentivo incomum para meninas daquela época.
01:45Tanto que, aos 12 anos, Emelie já era fluente em latim, italiano, grego e alemão.
01:51Além do francês, é claro.
01:53Tinha uma facilidade extraordinária com a matemática.
01:56A ciência fervilhava em sua mente.
01:58Mas, aos 18 anos, precisou interromper seus estudos para embarcar em um casamento arranjado
02:03com o marquês Florent Claude de Châtelet,
02:05o que lhe garantiu o título de marquesa de Châtelet e três filhos para criar.
02:09Depois do terceiro filho, aos 26 anos, Emelie de Châtelet resolveu chutar o balde.
02:14Afastou-se amigavelmente do marido e retomou os estudos.
02:18Seus recursos e a vontade de aprender lhe garantiram os melhores professores disponíveis,
02:23como Louis Malpetu, Johan Bernoulli e Alex Clerot.
02:26Mas seu dinheiro não podia comprar a aceitação de uma mulher em um meio dominado por homens.
02:31Chegou a ser expulsa de um café,
02:33onde se reuniam algumas das maiores mentes da época para discussões intelectuais.
02:37Inconformada, ela mandou fazer roupas masculinas e voltou ao mesmo café vestida de homem.
02:44Não era simplesmente uma rebeldia vazia,
02:46era necessidade de debater suas ideias e de aprender cada vez mais.
02:51Depois de separada, Emelie foi para uma casa de campo em Sirey,
02:55onde viveu com Voltaire, escritor, historiador e filósofo.
02:59Voltaire se encantou por Emelie e também pela ciência.
03:03Em 1738, eles participaram de um concurso da Academia de Ciências de Paris sobre a natureza do fogo.
03:10Andos mandaram seus artigos, que embora não vencessem, receberam menções honrosas e foram publicados.
03:17Emelie de Châtelet tornou-se assim a primeira mulher a publicar um artigo científico pela Academia.
03:22Durante sua vida, Emelie escreveu diversas obras,
03:25desde análises bíblicas, traduções de fábulas, trabalho sobre ótica, filosofia e especialmente física.
03:32Em 1740, ela publicou Instituições de Física,
03:37onde apresenta uma revisão de novas ideias em ciência e filosofia,
03:40mas incorporando e conciliando ideias complexas dos principais pensadores da época.
03:46Mas sua maior obra foi a tradução para o francês do Principia de Newton,
03:51um dos livros mais importantes da história da ciência.
03:53Mais do que traduzir, Emelie fez uma revisão crítica monumental,
03:57incorporando conceitos matemáticos mais modernos, especialmente o cálculo.
04:01E foi justamente nesse processo que surgiu um dos embates intelectuais mais interessantes da história da física.
04:08Newton descrevia o movimento e a dinâmica com enorme sucesso,
04:11mas havia uma questão em aberto.
04:13O que exatamente mede a força de um objeto em movimento?
04:17Para Newton, uma grandeza fundamental era proporcional ao produto da massa pela velocidade.
04:23Já pensadores influenciados por Cotterfield e Leibniz
04:26defendiam o que seria proporcional à massa vezes o quadrado da velocidade.
04:30Uma mudança sutil, mas que capturava algo essencial sobre a capacidade de realizar trabalho de um corpo.
04:37Emelie de Châtelet percebeu que esse não era apenas uma disputa filosófica.
04:41Ela poderia ser testada.
04:43Experimentos simples, como deixar cair esferas de chumbo sobre a argila,
04:47mostravam algo intrigante.
04:49Quando a velocidade do impacto dobrava,
04:51a profundidade do buraco cavado na argila não apenas dobrava, mas quadruplicava.
04:57Ou seja, o impacto não era proporcional à velocidade, mas ao quadrado dela.
05:02E isso indicava que havia, sim, uma grandeza física fundamental
05:06associada à massa vezes velocidade ao quadrado,
05:09o que hoje chamamos de energia cinética.
05:11Esse quadrado pode parecer um detalhe matemático,
05:14mas é exatamente o tipo de detalhe que muda tudo.
05:17Séculos depois, quando Einstein formulou a mais famosa equação da relatividade,
05:22o termo que aparece não é V², mas C², o quadrado da velocidade da luz.
05:28A estrutura conceitual é a mesma.
05:30A energia cresce com o quadrado de uma velocidade fundamental.
05:34Não é que Emelie tenha antecipado a relatividade,
05:37mas ela ajudou a pavimentar o caminho conceitual.
05:39Essa conexão não fica apenas no campo abstrato.
05:42Ela é essencial para entender como o universo funciona em escalas gigantescas.
05:47No interior das estrelas, pequenas quantidades de massa são convertidas em energia
05:52por meio de reações nucleares.
05:54E num ambiente extremamente quente do universo primordial,
05:57energia pura podia se transformar em partículas de matéria e vice-versa.
06:02Sem essa relação entre massa e a velocidade da luz ao quadrado,
06:05a cosmologia moderna simplesmente não faria sentido.
06:09Claro que Albert Einstein não dependia diretamente de Emelie de Châtelet,
06:13mas dependia de uma tradição científica que ela ajudou a moldar.
06:17E dentro dessa tradição, sua contribuição foi decisiva
06:20para esclarecer o que entendemos por energia.
06:23E não resta dúvidas do quanto ela queria contribuir.
06:26Já com mais de 40 anos, grávida e consciente dos riscos que isso representava na época,
06:31ela trabalhou intensamente para concluir a tradução do princípio.
06:35Dias depois de dar à luz ao seu quarto filho,
06:37ela faleceu, deixando uma obra que continuaria influenciando gerações.
06:41Sua versão do princípio a foi publicado postumamente,
06:44mas era um trabalho tão fantástico
06:46que até hoje é a única versão completa em francês da obra-prima de Newton.
06:51Mais do que contribuir,
06:52Emelie lutava para que outras mulheres também pudessem ter espaço na ciência.
06:56Ela defendia fortemente a educação feminina,
06:59argumentando que ao negar a elas uma boa educação,
07:02a sociedade impedia que as mulheres se tornassem eminentes nas artes e nas ciências.
07:07Estávamos abrindo mão de metade dos nossos cérebros
07:10e talvez de metade das ideias que nos ajudariam a entender melhor o universo.
07:15Por isso tudo, Emelie de Châtelet deixa um legado de grandes contribuições à ciência
07:21e à participação feminina em todas as áreas do intelecto humano.
07:24Além, é claro, de ser lembrada como a mulher que enquadrou Newton.
07:28Ou mais precisamente, a mulher que enquadradou a equação de Newton.
07:33Bons céus a todos e até a próxima!
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