00:00Me ajudou muito no começo para ter acesso a bons patrocinadores, a boa visibilidade.
00:04Me atrapalhou muito por uma cobrança indevida e era quando muito jovem,
00:09se eu ganhasse uma prova, ah, ganhou porque o filho do Galvão deve ter o melhor equipamento.
00:13Se um outro jovem ganhar, eu falava, cara, está vendo? Esse cara é fenômeno, o jovem já ganhou.
00:16E no dia que eu perdi, acontecia também algo similar, né?
00:20Está vendo? Falei, só estava lá porque era filho do Galvão.
00:22E o outro, quando eu era jovem, perdia.
00:23Não, mas tem que dar tempo para ele, ele ainda é muito jovem, tem que errar.
00:26Então, tinha essa cobrança, mas não atrapalhou, não, de jeito nenhum.
00:31Mais ajudou do que atrapalhou.
00:32Era uma cobrança que eu precisava me livrar, que eu consegui desvincular.
00:36Como eu falei, a passagem pela Argentina foi fundamental.
00:38Quando eu cheguei no momento em que eu, sendo brasileiro, morando na Argentina,
00:42eu tinha gente que torcia para mim lá, eu falei, cara, quebrei essa barreira.
00:45Mas quando eu volto ao Brasil, papo de velho, faz tempo.
00:48Quando eu volto ao Brasil em 2002, muitos anos atrás,
00:51era a Copa de 2002, Brasil sendo campeão,
00:57Galvão voando na audiência pelo título brasileiro de Copa do Mundo e tal.
01:01Então, teve muita essa conexão na minha volta.
01:04E eu tinha, às vezes, arquibancadas em certas cidades locais.
01:08A curiosidade, as pessoas querendo tirar foto comigo.
01:10E isso te infla o ego um pouco, te faz levar, às vezes, comportamentos que não seriam ideais e tal.
01:15E a arquibancada aplaudindo.
01:17E depois você tinha um contraste que talvez você fosse para uma outra cidade.
01:20Ou porque tinha tido, sei lá, um jogo do que o Galvão criticou aquele time.
01:25E aí você tinha a arquibancada inteira vaiando.
01:28Te vaiando por nada.
01:29Você não fez nada.
01:30E se o carro quebra, você volta a pé do lado da arquibancada.
01:32E gente que manda dedo, jogava coisa, xingava.
01:36E eu falava assim, nem sei quem são esses caras, o que eu fiz.
01:38Então, assim, ao mesmo tempo, se as pessoas gostam de algo famoso para seguir, idolatrar,
01:45também adoram odiar.
01:47Então, era o começo ali, talvez, das redes sociais, o começo da internet.
01:52E as pessoas até entendiam menos do que hoje.
01:55E eu acabei vendo uma necessidade de desvincular a carreira ainda mais nesse período.
02:00Eu falei, cara, se misturar, se as pessoas não entenderem que o que eu faço é diferente do que ele
02:04faz,
02:04vai ficar complicado conviver.
02:06Porque acho que aquele momento, sim, me perturbou um pouco, de 2002 a 2004.
02:10Tanto é que o Galvão, as corridas passavam na Globo, da Stock.
02:13Ele fazia algumas.
02:15E ele narrou uma vitória minha de 2004.
02:17E repercutiu tanto aquela vitória de 2004, que logo depois ele falou, cara, não vou mais narrar.
02:21Porque as pessoas estão confundindo um pouco.
02:23E a história é legal, porque quando ele para de fazer essa vitória de 2004,
02:26no qual ele quase não fala meu nome, e as pessoas,
02:28cara, teu pai ficou enlouquecido contigo na corrida que você ganhou.
02:31Aí eu olhava o replay e falava, cara, mas só o Reginaldo falava meu nome, eles policiavam em não falar.
02:36E eu ganhei a corrida, sei lá, 10 anos depois, 2014, 2015.
02:39Eu encontrava pessoas que falavam, cara, gosto muito de você correndo.
02:42E quando teu pai narra, é incrível, eu fico arrepiado com o seu pai narrando.
02:45Eu falo assim, cara, meu pai não está narrando tem 10 anos.
02:47E ficava no imaginário das pessoas, meu pai narrando.
02:50Então demorou um pouco a desvincular isso.
02:52E hoje eu acho que é super natural.
02:54O ano que o Ayrton ganha GP Brasil,
02:57que ele sai muito cansado segurando o troféu,
03:00que o troféu quase caiu da mão dele, aquela cena histórica dele.
03:03Eu estava na cabine com meu pai, meu pai narrando.
03:06Ele ganha.
03:08Algum produtor da Globo, da Fórmula 1, já na época,
03:12consegue agendar com a Ayrton uma entrevista pós-corrida, mais tarde.
03:16Aí ele fala, não, então eu faço a entrevista,
03:18mas quero que seja o Galvão e vai ser lá na minha casa.
03:21Não vai ser aqui no autódromo.
03:23Então a gente espera o autódromo esvaziar, acabar.
03:26E aí quando acaba, essa história eu já contei algumas vezes,
03:29quando acaba, a gente vai até os blocos.
03:32E aí fala, vamos embora no meu helicóptero.
03:34Então ele pega o troféu, carrega para mim, moleque.
03:37E me dá o troféu e eu vou pelo paddock da Fórmula 1,
03:40segurando o troféu de vitória do GP Brasil, do Ayrton.
03:43Caminhando, me sentindo a pessoa mais importante do mundo.
03:46Ninguém me olhando, óbvio.
03:47Mas eu me senti a pessoa mais importante do mundo.
03:49E vou caminhando até o helicóptero, sento no helicóptero,
03:51viajo, vou com meu pai até lá.
03:53E fico, como a gente está fazendo isso aqui,
03:55tem gente nos bastidores, vendo os bastidores,
03:58o Ayrton dando uma entrevista para o Galvão Bueno.
04:00Cara, é um privilégio ter assistido isso, né?
04:03E ter guardado isso.
04:04Então são momentos que acaba guardando na memória,
04:10como outros da prática em si do esporte.
04:13Mas são momentos esses, que obviamente,
04:15de bastidores que eu tive o privilégio de observar de perto.
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