00:00Sobre essa situação envolvendo a expectativa pela taxa de juros, a gente conversa agora com o economista e ex-ministro
00:07da Fazenda, Marilson da Nóbrega, sempre conosco aqui na programação da Jovem Pan.
00:12Ministro, bem-vindo, boa tarde, é um prazer te receber.
00:16Boa tarde, Cobaiacho, obrigado pelo convite.
00:19Ministro, a grande questão é a expectativa a respeito da manutenção ou não, diminuição ou não da taxa de juros
00:25com esse conflito global que tem impactado o preço do petróleo.
00:29E a gente sabe que quando o petróleo sobe, a tendência é de inflação, principalmente no nosso país, em que
00:34há tanta dependência dos combustíveis fósseis, enfim.
00:38Qual a sua análise a respeito disso? Qual é a projeção que o senhor faz em relação à taxa de
00:43juros?
00:45Agora, Cobaiacho, eu acho que vai cair.
00:48Agora, em março, o Banco Central deixou isso muito claro na ata da última reunião.
00:55Sinalizou, inclusive, para muitos avaliadores do quadro, como uma queda inicial de meio ponto percentual.
01:03A maioria dos que analisam esse assunto e oferecem suas estimativas à pesquisa Foco do Banco Central, está falando de
01:130,50.
01:13Nós da tendência também, só que semana passada nós revimos isso.
01:18Nós achamos que vai ser uma queda de apenas 0,25 ponto percentual.
01:23E por que isso?
01:24Porque surgiu um fato novo, que é a guerra do Irã, criando grandes incertezas, volatilidade nos mercados,
01:32aumento expressivo dos preços do petróleo, tanto nos mercados internacionais,
01:38como já começou aqui na bomba, no caso do óleo diesel, por exemplo.
01:42Daqui a pouco vai bater na gasolina também.
01:44Então, isso é razão suficiente para o Banco Central rever a sua expectativa,
01:51a expectativa com a qual ele iria participar, o Copom iria se reunir agora no mês de março, na próxima
01:59semana.
01:59Eu acho que vai ser 0,25 ponto, porque o Banco Central vai ser induzido pela piora do quadro
02:07a uma atitude de maior, digamos assim, cuidado, né?
02:12Maior, não estou encomendo a palavra assim, prudência, mais prudente na decisão do Copom em relação à taxa selic.
02:22Ministro, o anúncio feito pelo governo foi do corte do PIS e do COFINS em relação a combustíveis, né?
02:29É o suficiente para frear a alta no preço dos combustíveis e, por consequência, da inflação?
02:35Há alguma outra medida que poderia ser tomada como prevenção a essa pressão que vai recair sobre a nossa inflação?
02:45Olha, eu acho que algum impacto vai ter, né?
02:48Porque o governo está renunciando à receita de 30 bilhões de reais do PIS e do COFINS, né?
02:53Mas eu acho que nessa decisão, além do seu aspecto político,
02:57que tem a ver com evitar o efeito dos preços do petróleo na inflação brasileira
03:03e, assim, na corrida presidencial contra o governo da hora, que é o governo do PT, né?
03:10Outros governos fizeram isso, de alguma forma.
03:12O próprio Trump maneirou o seu discurso em relação à guerra no Irã,
03:17anunciando que ela estava chegando ao fim, o que fez os preços do petróleo despencarem
03:22de 120 para 80 dólares o barril, o Brent, né?
03:27Agora, só que essa medida, ela veio associada a uma aberração, né?
03:33Que é a compensação pela isenção do PIS e COFINS
03:40com aumento ou instituição, digamos assim, do imposto de exportação
03:45sobre vendas externas de petróleo.
03:48Isso é uma...
03:49Em primeiro lugar, o que o imposto de exportação não é um elemento de arrecadação,
03:56não é uma incidência arrecadatória, ela é uma incidência regulatória.
04:00O seu papel é regular os fluxos de importação, exportação, sobretudo de exportação,
04:07e proteger a economia brasileira de uma grave situação na balança comercial.
04:17Só que no passado, usava-se isso para combater a inflação.
04:22Na época, tinha controle de preço.
04:24Quando vinha um aumento do preço do petróleo ou de outros minerais, né?
04:28O governo criava o imposto de exportação para forçar o encaminhamento desses bens
04:36para o mercado doméstico e com assim evitar a alta da inflação, né?
04:41Sucede que imposto de exportação tem a ver com comércio exterior
04:47e não com controle de preço.
04:49Era uma aberração lá atrás.
04:50E qual é a aberração agora?
04:52Não há nenhuma ameaça às contas externas do Brasil.
04:57Pelo contrário, as contas externas do Brasil estão saudáveis,
05:01as exportações estão crescendo mais do que se esperava, né?
05:04Portanto, esse é um erro crasso de política econômica que o governo fez, com um agravante, né?
05:12Isso gera uma insegurança, porque você imagina as empresas estão se preparando,
05:18fizeram seus contratos de exportação, e de uma hora para outra, sem avisos,
05:22sem saber porquê, tira 20% da rentabilidade dessas empresas.
05:27Isso significa uma invasão desastrosa sobre as atividades de uma empresa,
05:33a incerteza que isso causa, né?
05:35Então, eu acho que é o lado lamentável desse processo, né?
05:39Eu acho que é hora, talvez, até de começar a se discutir
05:43se ainda é necessário, conveniente, manter esse imposto de exportação.
05:48Porque ele fica à disposição do governo para aumentar a qualquer momento,
05:53uma vez como é um imposto arrecadatório,
05:56não precisa ter autorização do Congresso Nacional, né?
06:00Mas o que o governo fez agora?
06:02Ele fez nitidamente, sem esconder, sem negar,
06:06o objetivo é arrecadar mais.
06:09Nesse sentido, eu acho, eu não sou advogado,
06:12mas esse ato pode ser interpretado como inconstitucional.
06:16Porque, para ser um item arrecadatório,
06:19o Congresso tem que aprovar previamente a instituição ou aumento do imposto.
06:25Ministro, eu vou trazer para a nossa conversa o Rodolfo Maris,
06:28nosso analista desta primeira edição do Fast News.
06:31Rodolfo.
06:33Ministro, boa tarde.
06:34Quero dizer que é um enorme prazer conversar com o senhor,
06:37a quem eu tenho muito respeito.
06:39Dito isso, eu gostaria...
06:40Obrigado, Rodolfo.
06:41Boa tarde.
06:42Dito isso, eu gostaria que o senhor fizesse uma comparação,
06:44no modo operante, no modo de gerenciamento,
06:47entre o Campos Neto, que era tão criticado até 2024,
06:51quando deixou o Banco Central, a presidência do Banco Central,
06:54e agora com o Gabriel Galípolo.
06:56Qual que é a diferença entre os dois?
06:58Por que eu pergunto isso, ministro?
07:00Porque esperava-se que entrando o Galípolo,
07:03talvez os juros, as taxas de juros fossem diminuídas.
07:06E a gente não viu que...
07:07A gente viu que não é bem assim.
07:08Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre isso.
07:11Olha, a única diferença que exige entre os dois e no seu trabalho é de nome.
07:16Um chama-se Roberto, outro chama-se Guilherme.
07:18Em relação à política monetária, nenhuma diferença.
07:21Aliás, eu apostei em um artigo na minha coluna da Veja,
07:25que essa seria a realidade do Banco Central sob o comando do Guilherme Galípolo.
07:32Porque se você se lembra, Rodolfo,
07:35quando o nome dele começou a ser cogitado,
07:38começou a circular,
07:39os mercados receberam mal.
07:41Porque ele tinha artigos escritos com um economista da Unicamp,
07:47um economista heterodoxo,
07:49ele tinha críticas à política monetária.
07:53Então, qual era o temor?
07:54Ele está lá para atender o comando do Lula
07:58e baixar a taxa de juros para ajudar nas eleições.
08:00E eu apostei que isso não ia acontecer.
08:03Por algumas razões.
08:06Três, pelo menos.
08:07Primeiro, o Galípolo sabe o que aconteceu em situação semelhante
08:12quando a presidente Dilma Rousseff forçou o Banco Central
08:16a baixar a taxa de juros.
08:18Então, a confiança do Banco Central despencou,
08:22as expectativas se deterioraram,
08:24a inflação subiu,
08:25e isso terminou influenciando o ambiente que levou ao impeachment da presidente Dilma.
08:31Ele sabe disso.
08:32Isso termina prejudicando os pobres,
08:34porque a inflação prejudica mais as classes menos favorecidas.
08:39Segundo lugar,
08:40ele sabe,
08:41como presidente de um banco que ele foi,
08:43como um sujeito que tem um mínimo de leitura,
08:45de conhecimento,
08:47que quem exerce essa posição
08:49do Banco Central
08:50se candidata a uma melhora do seu prestígio,
08:55da qualidade de seu patrimônio profissional.
09:01Normalmente,
09:01presidência de Banco Central,
09:03quando eles saem de lá,
09:04eles vão presidir um banco,
09:06eles vão presidir uma universidade,
09:07como aconteceu com o Ben Benek nos Estados Unidos,
09:10e, portanto,
09:11se ele se curvar
09:12a essa imposição,
09:15como as pessoas temiam de o Lula mandar ele baixar a taxa de juros,
09:18a reputação dele iria para o inferno.
09:22Ele não teria mais emprego no mercado financeiro,
09:26muito menos na universidade,
09:27porque as pessoas perceberiam que ele é um absente sem caráter,
09:31que ele não tem força,
09:32que ele não tem responsabilidade,
09:34e que ele é um pau mandado.
09:36Terceiro lugar,
09:38ele sabe que o Banco Central tem autonomia operacional,
09:42ou como outros chamam, independência.
09:44Mesmo que ele contrariasse o presidente Lula,
09:47não haveria como retirar de lá,
09:49porque ele teria que ser demitido pelo Senado
09:52em virtude de uma falta grave.
09:55E não obedecer Lula
09:57era mais uma virtude do que uma falta grave.
10:00Portanto, isso se confirmou,
10:02e o Galipo surpreendeu positivamente os mercados.
10:05A reputação dele até aumentou,
10:07a sua capacidade de articulação melhorou,
10:10isso foi bom para o Banco Central,
10:12foi bom para ele,
10:13foi bom para a economia brasileira,
10:14e foi bom para o comportamento dos preços.
10:17Portanto, não faz nenhuma diferença.
10:19Se o pessoal esperava isso,
10:22errou na avaliação,
10:24sobretudo do governo,
10:25quem achava que agora o menino do Lula,
10:28como ele chamava,
10:29ia baixar taxis de juros
10:30para favorecer a popularidade de Lula.
10:32Ledo é engano, como a gente sabe.
10:35Ministro, reta final do nosso papo aqui,
10:36temos mais um minuto,
10:37eu gostaria muito da sua análise,
10:39da sua avaliação sobre a gestão de Fernando Haddad,
10:42que pode estar próxima do fim,
10:44se ele de fato se descompatibilizar
10:46para disputar o governo de São Paulo.
10:47Sua análise, sua avaliação sobre a gestão Haddad.
10:50Eu acho que, em primeiro lugar,
10:52ele surpreendeu positivamente os mercados,
10:55os mercados imaginavam que ia aparecer lá
10:57alguém do PT para comandar o Ministério da Fazenda,
11:00repetindo o desastre
11:03do ex-ministro Guido Mantega,
11:05do governo Dilma,
11:06isso não aconteceu,
11:08ele foi favorável ao fim do teto de gás,
11:11porque isso era um assunto
11:13tido como essencial pelo PT,
11:16na campanha do Lula isso apareceu,
11:18mas, em compensação,
11:20ele não abriu a guarda
11:22para o PT gastar como ele quisesse
11:24com a expansão da moeda
11:25e com a expansão do crédito.
11:29Ele propôs um arcabouço fiscal
11:32que tinha um limite para o crescimento
11:36da despesa primária.
11:38Não era zero, como o do teto de gás,
11:41mas era de 2,5% em termos reais.
11:44Você pode fazer crítica
11:46aqui e acolá ao Haddad,
11:50eu, por exemplo,
11:51eu notei que ele sempre que podia,
11:54ele fazia crítica ao Banco Central,
11:56como para dizer,
11:56olha, eu continuo do PT,
11:58eu não virei tucano,
12:00eu não virei direita,
12:02então,
12:03a maneira como ele criticava os mercados,
12:07vez por outra,
12:07dava essa impressão,
12:08mas o que importava era a condução
12:10da política militar.
12:11será que acolá ele concordou com exclusões
12:16do cômputo do resultado primário,
12:19de uma série de gastos,
12:21mas eu diria que, do modo geral,
12:24a condução da política econômica
12:27frente a esses reparos foi adequada.
12:32Ministro,
12:33eu quero agradecer demais
12:34sua participação conosco,
12:35é sempre um prazer te receber
12:36aqui na O Jovem Pan,
12:38tenha um bom restante de domingo
12:39e até a próxima.
12:41Obrigado,
12:42companhia,
12:42para você também,
12:43mais uma vez,
12:43obrigado pelo convite,
12:45foi um prazer participar.
12:46Até a próxima.
12:47Até.
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