00:00Por que os homens criam expectativas e depois caem fora?
00:04Essa não será uma coluna eles manipuladores, nós românticas vítimas da epidemia de Don Juan.
00:13Quem cria tantas expectativas não são eles, somos nós.
00:19Elas nascem dos gestos do outro, claro.
00:22Mas é nossa responsabilidade sobre como interpretamos e vivenciamos esses atravessamentos afetivos.
00:30Do contrário, caímos sempre na posição de vítima.
00:33O problema não está em ter expectativas, mas em tomá-las como promessas.
00:37Eu acredito que um dos nós da pergunta da leitora está em sentir-se decepcionada ao invés de assumir-se
00:44frustrada.
00:45Quando as coisas não saem como a gente esperava, a gente tem que lembrar que aquilo era o que a
00:50gente esperava.
00:52Nem sempre que a gente tinha combinado com o outro.
00:54A gente não sabe o que cada gesto significa para o outro.
00:58No início do envolvimento, a gente quer apenas viver e degustar o outro.
01:03Ou melhor, o que o outro nos desperta.
01:06Porque como Freud sugere em Introdução ao Narcisismo, a gente não se apaixona pelo outro.
01:12Mas pela forma como esse outro faz a gente se sentir.
01:16Projetar no amanhã a certeza ou a cobrança da continuidade exata do que tocou ontem, tem destruído encontros lindos.
01:26E aqui entra uma camada de gênero importante.
01:29Sabe gente que ronca e acorda assustada com o próprio ronco?
01:32Eu vejo um mecanismo parecido nos homens após uma vivência súbita de intimidade.
01:37Em vez de se permitirem seguir na experiência deliciosa que é conhecer alguém sem saber onde isso vai dar,
01:44eles tentam recobrar o controle de uma forma paternalista.
01:47É aqui que eles caem fora com aquelas famosas frases,
01:51olha, isso é incrível, mas eu não quero que você perca tempo comigo.
01:55Ou eu sei que você espera algo que eu não posso te dar agora.
01:59Querido, o ponto é, você não sabe.
02:01Ao se retirarem, subitamente, eles dizem que estão sendo responsáveis afetivamente, te poupando,
02:07mas eles estão apenas protegendo o próprio narcisismo.
02:11Sei que muitas mulheres dirão que não é nossa função educar marmande,
02:15mas eu acho terapêutico e libertador
02:19desconstruir a fantasia de que nós ficamos automaticamente reféns das expectativas
02:23só porque esse início de romance está sendo gostoso.
02:27Quando a gente não conversa sobre expectativas para não burocratizar a mágica da relação,
02:34a gente acaba jogando sozinho e muitas vezes um contra o outro.
02:38Na falta de diálogo, quem nos acompanha são nossos traumas e nossas interpretações enviesadas.
02:45Ter expectativas quebradas não vai partir nossos corações para sempre,
02:49desde que a gente se responsabilize por diferenciar frustração e decepção.
02:54É importante lembrar que o outro não traiu nossa confiança,
02:58apenas nos deixou triste, com raiva, com saudades,
03:02porque a gente queria seguir um pouco mais e ele não quis.
03:05Nossa expectativa não é responsabilidade do outro,
03:08é apenas um desejo nosso.
03:10Se a gente tiver coragem de conversar sobre as tais expectativas
03:14antes que elas se tornem tabus,
03:16talvez a gente encontre caminhos comuns,
03:18ou ao menos a gente possa ficar mais em paz com esse descaminho de nós dois.
03:24Criar contextos íntimos e cuidadosos é um ato de resistência
03:28ante a lógica do descarte.
03:30Se a gente pudesse normalizar o afeto,
03:33convidando os homens a entenderem que a gente não está numa prateleira
03:37esperando para ser escolhidas.
03:39A gente está num parquinho, brincando com eles,
03:42mas a gente também sabe conversar, como gente grande.
03:49Legenda Adriana Zanotto
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