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  • há 11 horas
Travão à extrema-direita, mas a que preço? Confronto eleitoral português no The Ring

Neste episódio do The Ring, gravado a partir da Nova School of Business and Economics, em Lisboa, debatemos o resultado das eleições presidenciais portuguesas e as implicações para o país e para a Europa.

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00:08Olá e sejam bem-vindos ao The Ring, o programa de Euronews, onde as vozes mais influentes da
00:14política europeia debatem as grandes questões da atualidade. Desta vez numa edição oficial,
00:19gravada a partir da nova School of Business and Economics em Lisboa. Esta semana vamos falar das
00:25eleições presidenciais em Portugal, depois de uma segunda volta marcada por sucessivos fenómenos
00:30naturais extremos que obrigaram ao adiamento das eleições em algumas das freguesiras do país,
00:35Portugal ainda está a digerir os resultados que fizeram de António José Seguro, o 21º presidente
00:40da República Portuguesa. A 8 de fevereiro, o socialista de centro-esquerda António José Seguro
00:47derrotou o líder do Chega, André Ventura, candidato da direita radical, com cerca de dois terços dos
00:52votos alcançando um dos maiores resultados da história da democracia portuguesa. A vitória foi
00:57clara, as implicações são mais complexas. Dez dias após a segunda volta das presidenciais,
01:03há uma mensagem inequívoca. A extrema-direita foi derrotada, mas o panorama político mudou de forma
01:08duradoura. A vitória de Seguro resultou de um amplo esforço transversal aos partidos para conter o que
01:14muitos consideraram uma deriva autoritária e anti-imigração na campanha de Ventura. Forças do chamado
01:20Arco da Governação, incluindo setores do centro-direita, convergiram no apoio ao candidato
01:25socialista para bloquear um avanço populista. Estas eleições refletiram um debate mais profundo
01:31sobre a identidade nacional, normas democráticas e o tom da vida pública. Para muitos eleitores,
01:36apoiar Seguro foi menos um alinhamento ideológico e mais uma afirmação contra a polarização.
01:41Mas o apoio à Ventura revela ansiedades persistentes, em torno da imigração, da pressão
01:46económica e da confiança nas instituições. E embora o Presidente da República tenha
01:50funções sobretudo moderadoras, o voto sinaliza um país a redefinir o seu rumo.
01:55A história que Portugal está a contar não se resume por isso a quem venceu. Trata-se
02:00de saber quem molda o debate e como uma democracia europeia gera visões concorrentes sobre o futuro.
02:07O futuro e o papel do Presidente eleito são os temas que estarão em debate com os nossos
02:12convidados de hoje. Vamos então saber quem é quem.
02:17Carlos Coelho, político português e antigo membro do Parlamento Europeu pelo Partido Popular
02:21Europeu por mais de duas décadas. Ao assinalar os 40 anos da adesão de Portugal às comunidades
02:26europeias, Coelho, que ficou conhecido como o Mr. Schengen, sublinhou a importância histórica
02:31desse momento para o país e para a União, afirmando que a adesão à União Europeia valeu
02:35a pena, vale a pena e continuará a valer a pena com o empenho de todos. E defendendo que as
02:40celebrações devem lançar sementes para o futuro, um reflexo da sua visão de um Portugal
02:45ativo e comprometido no projeto europeu.
02:48André Franqueira Rodrigues, deputado europeu português do Grupo da Aliança Progressista
02:53dos Socialistas e Democratas, representa Portugal no Parlamento Europeu desde 2024 e tem dedicado
02:58uma parte significativa do seu trabalho às políticas agrícolas e ao futuro da política
03:03agrícola comum, defendendo que esta não pode perder substância nem financiamento adequado.
03:07Em janeiro de 2026, Rodrigues alertou que a agricultura não pode ser um detalhe do
03:12Orçamento Europeu, enfatizando a importância de um apoio orçamental robusto e regras justas
03:17para garantir a sustentabilidade do setor e a coesão territorial.
03:22Carlos Coelho, André Franqueira Rodrigues, muito obrigado, seja bem-vindos ao The Ring.
03:28Vamos começar com uma leitura dos resultados das eleições.
03:32Ora, António José Seguro foi o Presidente mais votado sempre da história da democracia
03:37portuguesa, numa candidatura unipessoal, no entanto, os partidos estão a fazer, a disputar
03:43a leitura dos resultados.
03:44André, vamos começar por si.
03:45Quem é que sai mais forte destas eleições, o PS ou o Governo?
03:50Olá Mariana, agradeço o convite, cumprimentar também o meu Carlos Coelho, cumprimentar as
03:54pessoas lá em casa que acompanham.
03:56Eu julgo que quem sai mais forte em primeiro lugar é mesmo a democracia portuguesa e as instituições
04:00democráticas que, confrontadas com perfis de candidatos muito diferentes, com projetos
04:05e visões do país também muito diferentes, escolheram a união em vez da divisão, escolheram
04:10a sobriedade em vez da berraria e escolheram responsabilidade em vez de aventura.
04:15Naturalmente, também penso que o líder do PSD errou.
04:18Errou quando escolheu um candidato que não federava o seu próprio campo político, errou
04:22mais uma vez quando equiparou António José Seguro e André Ventura como dois extremos
04:27e errou uma última vez ao dizer que nada muda com os resultados eleitorais destas eleições.
04:33Carlos, concorda?
04:34Luís Montenegro errou.
04:36Não, eu acho que antes de mais muito boa tarde, muito obrigado pelo convite e é um
04:41prazer estar aqui com o André.
04:44O PSD tinha um candidato próprio e na primeira volta apoiou esse candidato.
04:49Acho que isso é perfeitamente normal.
04:50Como é perfeitamente normal que na segunda volta, face às oportunidades que se apresentavam,
04:57a grande maioria dos dirigentes do PSD tivessem apoiado António José Seguro.
05:01Acho isso completamente normal.
05:03Acho, aliás, que a expressão da vitória quantitativa de António José Seguro, como disse
05:08bem o mais votado de sempre, dois terços dos portugueses, dão uma expressão de consenso
05:17nacional a esta vitória eleitoral e também a circunstância de nós, quando temos um
05:23Parlamento, vamos ser completamente sinceros, com uma maioria sociológica à direita, termos
05:29eleito um presidente de esquerda, eu acho que faz algum sentido à tese dos ovos.
05:35Houve uma noção de equilíbrio que os portugueses quiseram escolher e não foram os portugueses
05:41por uma escassa maioria, foram mais de dois terços dos portugueses que encontraram essa
05:45solução e eu acho que isso é positivo para o país.
05:47Mas, de qualquer forma, o Governo, se há enfraquecido destas eleições, é que Luís
05:51Montenegro apelou ao voto em Luís Marco Fernandes na primeira volta e não apoiou José António
05:58José Seguro.
05:59Não, isso que apoiasse Luís Marco Fernandes era o normal, era o candidato que saía do
06:03PSD, assim como teria sido normal que mais cedo o Partido Socialista tivesse apoiado
06:08António José Seguro e não o tivesse feito tão tarde.
06:10Agora, o que eu acho sinceramente é que aquilo que distingue António José Seguro do
06:16seu adversário na segunda volta é o apreço pelas instituições e o valor da estabilidade
06:21política.
06:22E, sob esse ponto de vista, o Governo não tem nada a que recear, porque António José
06:26Seguro, se estou certo, vai ser o campeão da estabilidade e de respeito pelas instituições.
06:32No entanto, é inegável do crescimento, a democracia ficou a ganhar, mas no entanto é inegável
06:38do crescimento da extrema-direita em Portugal.
06:41Qual dos dois partidos, o PS ou o PSD, tem mais responsabilidade neste cenário?
06:47A esquerda, que não respondeu ao descontentamento social, ou a direita, que não ofereceu uma
06:52alternativa convincente?
06:53Carlos.
06:55Não sei agora, é muito fácil fazer o passa-culpas.
06:58No Governo do Partido Socialista, que antecedeu estes governos da AD, houve algumas vezes uma
07:05atitude, eu digo, de comprometimento com o Chega, na medida em que ao escolherem o Chega
07:11como principal adversário, deram-lhe um destaque mediático, viu-se isso na Assembleia da República,
07:16viu-se no debate político, que eu acho que não foi muito inteligente.
07:20Agora, concordo, no fundo, com a razão que estava subjacente à sua pergunta.
07:24Eu acho que aquilo que permite o espaço do crescimento da revolta nos descontentes, à
07:30volta de projetos como a extrema-direita ou a extrema-esquerda, é a circunstância dos
07:34partidos do regime não terem respostas para os cidadãos.
07:37Se resolvemos os problemas das pessoas, há menos espaço de crescimento para os extremos.
07:41Concordo, André.
07:42Concordo que se resolvermos e tivermos soluções para o problema da maioria das pessoas, há
07:47menos espaço para ressentimento e para descontentamento eleitoral.
07:50Agora, eu julgo também importante que não haja qualquer equívoco relativamente à posição
07:55das diferentes forças políticas.
07:56O Partido Socialista, no Governo e fora dele, está nos antípodas dos valores que defende o
08:02Chega e julgo que o próprio PSD, na componente social-democrata que ainda tem no Partido,
08:06também se encontra nos antípodas.
08:08O que é um bocadinho um infortunio é nós verificarmos que atualmente nós temos um
08:13chefe do Governo e um líder do PSD que não é, nesse sentido, muito fiel à história
08:18e à matriz social-democrata que nós estávamos habituados a ver neste Partido Fundacional
08:22da Democracia.
08:23E é por isso que nós temos também de atender aquilo que foi a resposta das pessoas.
08:27E as pessoas têm alguma razão em estar descontentes porque não encontram um conjunto
08:33de respostas para problemas como a habitação, para problemas que se sentem na área da saúde,
08:37mas é preciso também não deixar passar a mensagem de que os 50 anos, a narrativa de
08:41que os últimos 50 anos foram negativos e representam um retrocesso no nosso país,
08:45tem que ser combatida porque não representa minimamente a verdade histórica.
08:49Montenegro devia ter apoiado António Jair Segura nesta segunda volta.
08:54O líder do PSD achou que, não estando o PSD a um candidato seu presente na segunda volta,
09:02devia ter uma atitude de neutralidade.
09:04Eu respeito essa posição.
09:06Mas também não o impediu que vários dirigentes, eu próprio, a doutora Leona Beleza e outros,
09:13tivessem manifestado o seu apoio a António Jair Segura.
09:16E é compreensível que José Luís Carneiro tente capitalizar esta vitória para o PS?
09:21Eu julgo que é perfeitamente compreensível que o secretário-geral do Partido Socialista,
09:26aliás, como todos os socialistas, estejam satisfeitos com esta vitória,
09:29que, repito, há uma vitória, em primeiro lugar, de António José Segura,
09:33e é uma vitória das forças democráticas.
09:35Aliás, eu quero saudar todos aqueles que, à direita do PS,
09:38na segunda volta não tiveram qualquer tipo de equívoco,
09:40nem tiveram nenhuma insegurança em manifestar, como é o caso do Carlos Coelho,
09:44em manifestar o apoio ao António Jair Segura.
09:46Eu julgo que isto é positivo, porque quando está em causa um discurso
09:50que é disruptivo relativamente às instituições democráticas,
09:53nós não podemos ter qualquer tipo de hesitação,
09:55e lamento que o líder do PSD tenha equivalido,
09:58quer o António Jair Segura, quer ainda o André Ventura.
10:02Acho que isto não foi um bom serviço que o Luís Routinho
10:04prestou à democracia europeia.
10:05Houve vários outros.
10:07Recordo o Luís Marques Mendes, que apoiou claramente
10:11António José Segura na segunda volta.
10:13Recordo o pessoal que estava a receber, o doutor Paulo Portas.
10:15Por isso, não sei exatamente por saudar as personalidades de direita
10:17que o fizeram.
10:19Várias pessoas de áreas diferentes, mas que estiveram nessa linha.
10:23E a expressão dos dois terços é o resultado disso.
10:26Conforme a pessoa.
10:27Senhores, vamos seguir em frente.
10:28António José Segura herda um país politicamente diferente
10:31dos seus antecessores, portanto uma Assembleia tripartida.
10:36Nós vamos ter que nos habituar a governos minoritários
10:39nos próximos tempos.
10:40Essa é uma realidade que nós estamos a ver na Europa toda.
10:43Portanto, a polarização e a fratura nos parlamentos,
10:46a criação de más soluções que passam por coligações
10:50e menos por partidos sozinhos nos governos,
10:53já se tem notado nos últimos anos na Europa.
10:56Não é de agora. Em Portugal chegou um bocadinho mais tarde,
10:59se calhar temos que viver com isso.
11:00Mas que são, por norma, governos mais fracos.
11:04Eu não digo que são governos mais fracos.
11:06São governos que têm mais problemas de coesão.
11:09Alguns têm mais problemas porque há tensões internas
11:13quando há vários partidos no governo.
11:15Isso é relativamente normal.
11:17Outros têm maior estabilidade.
11:19Agora, isso não me preocupa muito.
11:22O que me preocupa é que, face a essa realidade,
11:25precisamos de mais soluções nas políticas,
11:28e na política portuguesa também,
11:29que levem a consensos, levem a compromissos,
11:33levem à capacidade das pessoas de trabalharem
11:35umas com as outras e não uns contra os outros.
11:37Isso supõe que os governos sejam capazes de dialogar,
11:40mas que o Presidente da República também ajude a isso.
11:42Muito bem, nós terminamos aqui o primeiro round.
11:45Vamos agora dar início ao segundo.
11:49Agora é hora dos nossos telespectadores terem uma ideia
11:52de como é que são feitos os debates no Parlamento Europeu,
11:56onde os deputados se desafiam diretamente um ao outro
11:59e, como tal, os senhores vão poder fazer perguntas difíceis neste momento.
12:04Vamos começar pelo André. Qual que é seu?
12:06Eu gostaria de perguntar ao Carlos Coelho,
12:08que é uma pessoa consensual, moderada,
12:11se não ficou impressionado com a lógica apesiguadora
12:15de Luís Montenegro face ao líder do Chega nestas últimas eleições.
12:18Relembrando, aliás, a frase do Winston Churchill,
12:20que dizia que apesiguar alguém radical
12:23era como alimentar um crocodilo
12:25na esperança de ser o último a ser devorado.
12:27Não acha que Luís Montenegro corre o risco
12:29de ser devorado pelo Chega
12:31com tanto apesiguamento como foi o caso destas últimas eleições?
12:34Eu não vejo a portuguesa um pouco como o fosso dos leões
12:38no colisão na Roma Antiga.
12:39Agora, o que eu acho, em abono da coerência com aquilo que estava a dizer há pouco,
12:44eu acho que é necessário haver respeito institucional.
12:48E André Ventura é dirigente de um partido com uma expressão muito grande
12:52na Assembleia da República e, neste momento,
12:53o segundo maior partido na Assembleia.
12:56Portanto, eu creio que o Primeiro-Ministro,
12:57ao falar com o Presidente desse partido,
13:01deve ter respeito por aquilo que ele representa.
13:02Como fez António José Seguro no debate da segunda volta,
13:06quando o debate arriscava-se a resvalar,
13:09ele disse vamos respeitar,
13:11porque eu amanhã, como Presidente da República,
13:13vou ter de respeitar como Presidente o chega.
13:15Eu acho que essa atitude faz a diferença.
13:16Carlos, agora a pergunta é sua.
13:19Eu queria perguntar ao André, ao Sr. Deputado,
13:23como é que ele vê a realidade das eleições?
13:26Isto é, em Portugal nós elegemos um europeista,
13:28António José Seguro, que sempre foi um europeista à sua vida
13:31e ainda é membro da direcção da nossa Europa.
13:35Vai deixar de ser quando assumiu funções como Presidente da República.
13:38Agora, noutros países não é assim.
13:40Eu pergunto como é que vê a evolução das políticas nacionais,
13:45por exemplo, na Hungria e na França.
13:47Vejo com muita preocupação, para responder diretamente,
13:51aliás, num fenómeno que tem sido cada vez mais agravado,
13:54de recuo das democracias liberais e de aumento das figuras autocráticas.
13:58Nós estamos vindo a assistir, nos últimos 15 anos,
14:01a este movimento de aumento de autocracias,
14:04diminuição das democracias liberais.
14:05E é por isso que é importante, julgo eu também, no nosso país,
14:08termos uma pedagogia que contraria aquela que é a narrativa que se procura espalhar,
14:12de que com a democracia o Estado sai mais fragilizado
14:15e as pessoas têm menores soluções do que aquelas que tinham.
14:19E é por isso que penso que, um pouco por toda a União Europeia,
14:22nós temos que fazer um caminho,
14:24no sentido de privilegiar o fortalecimento das instituições democráticas,
14:28e sabendo de nós que há eleições em oito países na União Europeia este ano,
14:32o que eu espero é que as forças moderadas, quer do centro-esquerda,
14:35quer do centro-direita, possam prevalecer nestes combates eleitorais,
14:38a bem da União Europeia.
14:40André, próxima pergunta também só.
14:42Eu gostaria de saber, na opinião do Carlos Coelho,
14:45que é uma figura incontornável da história do parlamentarismo português
14:50no Parlamento Europeu,
14:51se tivesse que escolher dois dossiers relevantes
14:55para o Presidente da República terem consideração
14:58nesta nova configuração e nos novos desafios que a União Europeia tem pela frente,
15:02que o dossier escolheria, nos quais Portugal não pode efetivamente falhar.
15:07Carlos.
15:08O André tem mais conhecimento da matéria agora,
15:11porque está no centro do jogo político no Parlamento Europeu.
15:13Mas se eu tivesse que escolher dois dossiers,
15:16escolhia em primeiro os recursos próprios da União.
15:20A União tem um problema de subfinanciamento,
15:22não é possível fazermos mais omeletos com menos ovos,
15:25e, portanto, encontrar novas fontes de rendimento,
15:31novas fontes de financiamento é essencial.
15:33O discurso e a narrativa dos recursos próprios tem que estar na primeira linha.
15:37E eu sou suspeito, porque durante muitos anos acompanhei essas áreas no Parlamento Europeu,
15:42mas acho que o cerne da alma do projeto europeu está na liberdade de circulação,
15:48está na capacidade de nós sermos cidadãos em qualquer espaço da União.
15:52Podemos viajar, podemos estabelecer, podemos estudar,
15:57podemos fazer aquilo que quisermos e sermos tratados como cidadãos e não como imigrantes.
16:02Olha, a análise...
16:03O Carlos teve um papel revolver.
16:05Fui o Sr. Schengen durante alguns anos.
16:07A análise dos desafios do espaço Schengen hoje,
16:11salvar o espaço Schengen que está ameaçado,
16:14creio que é outra prioridade que deveríamos eleger na Europa.
16:17Muito bem, Carlos. A próxima pergunta é sua.
16:21O André é membro de duas comissões muito importantes na agricultura e nas pescas
16:26e acompanhou aquilo que aconteceu com o Mercosul.
16:29O Parlamento Europeu adiou na prática a ratificação do Mercosul.
16:33E a pergunta que lhe faço é como é que vê isso?
16:35Qual é a razão que leva uma maioria parlamentar a afirmar-se
16:39quando aquilo que seria lógico seria a Europa diversificar as suas pontos comerciais?
16:44Mas, face à situação geostratégica que vivemos até com aliados,
16:48nossos aliados há muitos anos,
16:50não faz nenhum sentido, em meu ver,
16:53estarmos a prejudicar o acordo com o Mercosul.
16:55Como é que vê esta equação e como é que justifica a decisão do Parlamento?
16:58Vejo com muita preocupação, como o Carlos certamente sabrá,
17:01sou um defensor da necessidade da União Europeia
17:05redesenhar as suas políticas de aliança,
17:07de reforçar a sua presença noutras geografias
17:09e um acordo que está há 25 anos a ser negociado.
17:13A União Europeia, sobretudo numa fase em que temos uma tensão
17:16cada vez mais latente nas relações transatlânticas,
17:19só tem a ganhar e assinar acordos como o Mercosul
17:21e como aquele que assinou quer com a Índia
17:23e aqueles que estão em preparação agora no futuro com a Tailândia e com a Austrália.
17:26Julgo por isso que a União Europeia está numa situação difícil,
17:30por um lado, com esta pressão geopolítica,
17:32mas por outro lado, isto significa que temos aqui uma oportunidade
17:35e uma oportunidade que o Parlamento, no meu entendimento,
17:39não aproveitou ao adiar a decisão relativamente ao Mercosul.
17:43Parece-me que não faz justiça ao trabalho que tinha sido realizado
17:47ao longo do tempo, é negativo para a União Europeia
17:51e também é fruto de muita desinformação.
17:54Aqui também se nota a importância da desinformação
17:57na influência que tem nas decisões políticas.
17:59Mas eu gostava agora de introduzir uma nova voz a este debate,
18:02até porque estas eleições não acontecem num vazio
18:05e o que se passa em Portugal é importante para a Europa
18:08e, como tal, os sinais internos são seguidos com atenção em Bruxelas.
18:17Foram vários os líderes europeus que enviaram os parabéns
18:20a António José Seguro pela vitória.
18:22Um deles foi António Costa, presidente do Conselho Europeu
18:26e passo a ler,
18:27felicito António José Seguro pela sua eleição
18:29como presidente da República Portuguesa
18:31e desejo-lhe os maiores sucessos no exercício do seu mandato.
18:35Os portugueses demonstraram hoje o seu apreço pela democracia,
18:39reafirmando Portugal como um pilar do humanismo europeu.
18:42Carlos, António Costa fala do apreço dos portugueses pela democracia.
18:46A democracia esteve de facto em causa nestas eleições.
18:49Olhando para aquilo que estava em causa, parece-me evidente que o candidato que ganhou
18:54é mais portador dos valores democráticos, do pluralismo, do consenso, do respeito,
19:02do que o outro e, portanto, só esse ponto de vista pode-se dizer que ganhou a democracia.
19:06André, durante anos Portugal foi citado como uma exceção à vaga populista na Europa.
19:12Ainda continuamos a ser essa exceção?
19:13Eu julgo que os números desmentem o carácter de excecionalidade que Portugal teve nos últimos anos, infelizmente.
19:19Agora, o que me parece importante é que nós consigamos encontrar soluções dentro das instituições democráticas,
19:25dentro do espaço político da moderação, para responder às inquietudes e às preocupações dos portugueses.
19:31E também julgo que o Estado tem aqui um papel importante,
19:34que é um papel de combater a desinformação e impedir que ela mine por completo o debate público.
19:39E julgo que esta é uma das causas e feito relativamente ao declínio que nós temos assistido na democracia,
19:45um pouco por toda a União Europeia.
19:47Muito bem, muito obrigada, meus senhores.
19:48Nós vamos ter que fazer um pequeno intervalo, mas voltamos já a seguir com mais um duelo político.
20:02Olá e sejam bem-vindos ao The Ring, o programa de Euronews,
20:06onde os vozes mais influentes da política europeia debatem as grandes questões da atualidade.
20:11Desta vez, numa edição especial, gravada a partir da nova School of Business and Economics em Lisboa.
20:17Com a participação de Carlos Coelho e André Franqueira Rodrigues, a quem eu agradeço já a participação.
20:23Ora, meus senhores, António José Seguro herda um país que, apesar de um desempenho macroeconómico,
20:29vive a braços com uma grave crise da habitação.
20:32Por isso, pedi agora a vossa ajuda na leitura deste próximo gráfico que vamos passar.
20:36Segundo o Eurostat, os preços da habitação em Portugal registaram uma das subidas mais acentuadas da última década.
20:44Entre 2015 e 2024, o preço das casas aumentou 143%, enquanto o salário médio bruto queixou apenas em 36%.
20:54Ora, o tempo não atenuou esta tendência.
20:56Os preços voltaram a subir em 17,2% no segundo trimestre de 2025.
21:02Por isso, resumindo, Portugal foi o país que liderou a subida dos preços da habitação na União Europeia,
21:08seguido da Bulgária e da Hungria.
21:11Ora, Carlos, que leitura é que faz destes números?
21:13Bem, faço duas leituras.
21:14Primeiro, uma leitura de urgência.
21:17Nós temos realmente um problema de habitação em Portugal, isso é sabido, não tem novidade nenhuma,
21:22o que obriga os poderes públicos a ter respostas.
21:24É necessário aumentar a resposta pública da habitação, é necessário facilitar a aquisição,
21:29é necessário facilitar o mercado de arrendimento, mas temos que ter soluções concretas
21:33que envolvam o Estado Central e que envolvam as autarquias locais.
21:37Mas a segunda questão, para mim é clara, creio que o André concordará,
21:42é que hoje o problema da habitação não é apenas um problema nacional, isto é,
21:45não há só um problema de habitação em Portugal.
21:47Há na França, há na Espanha, há na Estónia, há na Alemanha.
21:51Ele é diferente em função de cada país, mas pode-se dizer que todos os países da Europa
21:57estão confrontados com o problema de habitação, ou seja, há espaço para uma resposta ao nível europeu,
22:03à escala europeia, que ajuda os governos nacionais, ou às vezes as autarquias locais,
22:08a dar resposta a este problema.
22:10André, mas eu gostava de ouvir a sua opinião sobre se o crescimento dos votos em André Ventura
22:14nestas eleições, por um reflexo de satisfação da franja mais jovem da população.
22:20Gostaria de acrescentar a este dado que referi um outro dado,
22:23é que os jovens portugueses são também, no cúmputo da União Europeia,
22:27daqueles que saem mais tarde de casa, exatamente porque têm essa dificuldade
22:31de encontrar habitação acessível, o que dificulta em muito a emancipação jovem,
22:35a constituição da família, enfim, o seu projeto de vida.
22:38E por isso julgo que esta é uma matéria que é urgente no nosso país,
22:41mas, como disse e bem o Carlos, não se circunscreve ao nosso país.
22:45Razão pela qual, no Parlamento Europeu, estamos mesmo a avançar com um programa
22:50para habitação acessível, apesar da habitação não ser competência exclusiva da União Europeia,
22:55há uma percepção clara de que a União Europeia tem que fazer mais,
22:59e tem que fazer mais depressa, no sentido de ter soluções complementares
23:03para apoiar e resolver uma crise que se está a espalhar pelo continente,
23:07e que depois tem um impacto social e eleitoral muito profundo,
23:11porque há um descontentamento cada vez mais generalizado,
23:13e se nós olharmos para aquilo que tem sido o resultado eleitoral
23:16um pouco de todos os países da União Europeia,
23:18verificamos que os mais jovens são aqueles que se deixam seduzir mais facilmente
23:21pela crítica e pelo ressentimento, porque também se percebe
23:25que não têm visto soluções para os problemas com os quais estão confrontados.
23:28Mas neste tema, para a resolução destes problemas,
23:31PSD e PS não estão de acordo, certo?
23:34Em que sentido?
23:35Não estão de acordo nas medidas a serem tomadas,
23:38por exemplo, a liberalização do mercado.
23:39Há um conjunto de medidas que, é preciso também ter noção,
23:42não há uma varinha mágica,
23:44não há soluções instantâneas que possam resolver de imediato o problema.
23:49Agora, esta é uma área que tem que ter soluções que são,
23:52em certa medida, mistas,
23:53quer na lógica do mercado de arrendamento,
23:55quer na lógica do incentivo à habitação,
23:59na questão relacionada com a bonificação dos juros,
24:02na melhoria de oferta do parque público habitacional,
24:05no qual o nosso país é dos países que têm um parque habitacional público
24:09mais reduzido no contexto europeu.
24:11Portanto, nós temos que fazer mais para responder aos problemas das pessoas,
24:15mas também temos que falar a verdade aos portugueses e perceber
24:17que, por mais que se faça, não se vai conseguir resolver um problema
24:21que foi-se acumulando ao longo de anos, num curto espaço de tempo.
24:24Concorda com estas propostas feitas pelo PS?
24:28Não, eu acho que é desejável que, sobretudo no plano da Assembleia da República,
24:33haja a capacidade de aproximar posições entre os diversos partidos,
24:37incluindo entre o PS e o PSD, e o mesmo no Parlamento Europeu.
24:40Ou seja, quer na resposta nacional, quer na resposta ao nível europeu,
24:44é essencial que haja um consenso alargado.
24:46Porquê?
24:47Porque o ciclo político das legislaturas,
24:49seja a legislatura nacional, seja a legislatura europeia,
24:52é mais curto do que a eficácia destas medidas.
24:55Ou seja, estamos a falar de medidas com alcance temporal
24:58que ultrapassam a legislatura.
25:00Portanto, tem que haver um compromisso entre partidos diferentes.
25:02Meus senhores, estamos quase no final do nosso programa,
25:05mas não vamos embora sem passar ao nosso quinto e último round.
25:13Ora, neste round nós vamos introduzir aqui mais rapidez nas perguntas.
25:18Vão ser perguntas de resposta sim ou não,
25:22sem qualquer justificação. É possível?
25:24Muito bem, vamos a isso.
25:26A mesma pergunta para os dois, vamos a isto.
25:28Começamos com o Carlos.
25:29Carlos, estas eleições são um ponto de viragem para Portugal, sim ou não?
25:33Todas as eleições são, sim.
25:35André?
25:35Sim.
25:37André, André Ventura é o líder da direita?
25:39Não.
25:40Não.
25:41O bipartidarismo acabou?
25:43Não.
25:44Não.
25:45Os portugueses usaram estas eleições para castigar os partidos
25:48de centro-direita e de centro-esquerda?
25:51Talvez.
25:53Não.
25:53Há hoje maior distância entre os eleitores e os partidos tradicionais?
26:00Talvez.
26:01Sim.
26:02Os partidos têm de repensar a forma como fazem política?
26:05Sim.
26:06Sim.
26:06O primeiro-ministro devia ter apoiado António José Seguro na segunda volta?
26:11Só depende dele.
26:12Sim.
26:14José Luís Carneiro deve apoiar o Governo até o final da legislatura?
26:18Depende das circunstâncias.
26:19Vamos a ver.
26:21Era desejável que o fizesse.
26:22Com este resultado, o Presidente eleito tem um mandato mais forte do que o próprio Governo?
26:27São legitimidades diferentes.
26:29Sim.
26:30O crescimento das forças populistas em Portugal preocupa a Bruxelas?
26:34Muito.
26:35Bastante.
26:36O contexto de guerra na Europa exige um Presidente mais interventivo?
26:41Sim.
26:42Sim.
26:43Portugal deve alinhar-se sem reservas com a estratégia de defesa europeia?
26:48André.
26:49Talvez.
26:50É mais complexo que um senhor ou um não?
26:51Eu subscrevo, talvez.
26:54Última pergunta.
26:56Algum dos senhores mudou de opinião ao ouvir o seu adversário?
27:01André.
27:02Carlos Coelho é uma pessoa do campo moderado, portanto não mudei de opinião.
27:06Temos pontos de convergência que são bastante maiores do que aquele que muitas vezes acontece
27:10mediaticamente entre as nossas forças políticas.
27:12Eu acho que quem sabe ouvir aprende sempre quando fala com pessoas inteligentes.
27:16É seguramente o caso.
27:17Meus senhores, muito obrigada.
27:19Isto era um round de sim ou não.
27:22Tivemos aqui vários, talvez, mas de qualquer forma não posso deixar de agradecer a vossa análise.
27:29Obrigada a si por nos que esteve desse lado e nos fez companhia.
27:32Se quiser deixar as suas sugestões ou comentários, inscreva-nos para thering.euronews.com.
27:38Da nossa parte é tudo.
27:39Fique bem.
27:40Tenha uma ótima semana.
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