00:00E a gente continua conversando agora sobre essas decisões do Banco Central com o economista Roberto Troster, sócio da Troster e Associados, conectado aqui com a nossa audiência no Real Time.
00:11Muito bom dia, seja muito bem-vindo, obrigada pela disponibilidade.
00:15Obrigado pelo convite, Natália. Bom dia para você.
00:19Sr. Roberto, como o senhor recebeu essa notícia sobre a liquidação extrajudicial da REAG Investimentos e o que tem chamado a sua atenção nessas ações?
00:30Bom, primeiro, assim, tem alguns problemas no Banco Master, então, aos poucos, vão saltando alguns outros problemas, que foi o que aconteceu agora.
00:42Segundo, a operação descrita, quer dizer, primeiro, o fato de ter um patrimônio de 15 mil e saltar para 450 milhões não é um problema.
00:53Quer dizer, às vezes você tem o que a gente chama um fundo de prateleira.
00:56Você abre o fundo, abrir um fundo demora sempre alguns dias, alguns meses, dependendo do fundo, você deixa ele parar de lá e depois você começa a usar.
01:06Aí, a operação, sim, que preocupa.
01:09Uma empresa de 22 milhões toma um empréstimo de 450 milhões.
01:14Quer dizer, é pouco patrimônio para muito empréstimo, né?
01:21Aí, segundo ponto, esse patrimônio circula e aí compra ativos e esses ativos são reavaliados em 2.300%.
01:31Quer dizer, é comum você ter uma reavaliação de ativos, 10%, 20%, 50%, assim, se for uma galinha morta, como é chamado no mercado financeiro, 100%.
01:44Mas 2.300% está fora de questão, fora do radar, mostra que tem alguma coisa que não está cheirando bem.
01:51E o Banco Central identificou a operação e decidiu liquidar a empresa e fez bem.
02:01Vou aproveitar todo o conhecimento e a didática do senhor para pedir para a gente voltar uma página, então, né?
02:06Para que todo mundo consiga entender melhor.
02:10Com as informações que foram divulgadas até o momento, como é que funcionava esse esquema e essa conexão entre REAG, então, e Banco Master?
02:17Então, o REAG pegou, uma empresa pegou e fez um empréstimo de 450 milhões.
02:28Então, o fundo que estava lá parado, quer dizer, o fundo devia ter 15 mil reais em caixa e 15 mil reais em corpos.
02:35Aí, o que ele faz?
02:37Ele aplica 450 milhões.
02:40Então, tem 450 milhões em caixa e, obviamente, patrimônio sobe para 450 milhões.
02:46Até aí, normal, isso acontece todo dia.
02:50Não todo dia, mas acontece com frequência.
02:53Você tem um fundo na prateleira, você investe e o fundo cresce, né?
02:57E é ideal que todos os fundos querem crescer sempre.
03:01É um salto alto, mas até aí não acendeu nenhuma luz vermelha.
03:05Aí, o que acontece?
03:06O fundo compra, com os 450 milhões, um ativo, e esse ativo é valorizado e aí esse ativo salta 2.300%.
03:18Aí que acenderam todas as luzes vermelhas e os alarmes.
03:23Quer dizer, não é o fato do patrimônio do fundo ter crescido, mas o fato é essa reavaliação de ativos sem justificativa.
03:32Por mais barato que esteja um ativo, nenhum ativo se valoriza 2.300% assim, numa reavaliação.
03:41Sim.
03:42Sr. Roberto, vou pegar a analogia que o senhor fez aqui, né?
03:44Dessas luzes vermelhas de alerta acendendo.
03:47E queria a sua avaliação sobre o tempo para essas luzes acenderem.
03:50O senhor acha que houve nesse processo gente que não deveria, ignorando os sinais importantes,
03:58ou o tempo de percepção e de reação e de ação foi adequado?
04:05No caso do Banco Master, sim.
04:07As luzes deviam ter se acendido há mais de ano, há mais de dois anos.
04:13Você tinha elementos no balanço, você tinha uma série de elementos mostrando que tinha fumaça.
04:19E onde tem fumaça, tem fogo.
04:21Nesse caso específico, foi rápida a reação.
04:24Viram, pegaram e fizeram.
04:27Então, nesse sentido, eu diria que essa operação, a reação foi rápida.
04:32A reação do Banco Master não foi rápida.
04:35Certo.
04:36E o senhor vê algum tipo de contaminação pelo sistema por conta dessas ações?
04:41Não.
04:42Acho que o sistema...
04:44Sim e não.
04:45Como dizem os mineiros, nem sim nem não, muito pelo contrário.
04:48Primeiro, nós tivemos casos parecidos aqui no passado.
04:54Por exemplo, o caso do Banco Santos, em 2004, foi muito parecido com o que está sendo o caso do Banco Master hoje.
05:02Um banco que cresce rapidamente, um empresário com grande projeção social,
05:11operações com derivativos, esse tipo de coisa, cresce.
05:15Uma coisa que...
05:17Não existe milagre em bancos, né?
05:19Então, mas esses milagres deveriam chamar a atenção.
05:23Outro milagre, não na mesma proporção, foi o Banco Cruzeiro do Sul.
05:27Mesma coisa.
05:28Então, demoraram pra agir.
05:34Isso é inexplicável.
05:37Se isso vai acontecer de novo, eu acredito que não.
05:41Acho que temos aprendido a lição.
05:44Tem que ficar mais ligado todo mundo.
05:46É mais grave agora, porque se agora você tem mais informação do que você tinha há 22 anos.
05:52Mas acredito que o sistema deve ter aprendido agora e ficar com as luzes.
05:58Com o sistema como um todo, ele é sólido.
06:00Mesmo com um baque de 41 bilhões, vai ser menos um pouco,
06:04porque sempre você recupera alguma coisa dos ativos,
06:09o sistema continua sólido, ninguém não tem uma corrida aos bancos, nada disso.
06:15Então, o sistema é sólido.
06:16Foi um baque forte?
06:17Foi, mas foi absorvido.
06:20O sistema, nesse sentido, funciona e funciona bem.
06:24E o que esse baque, então, mostra de lição,
06:26tanto do ponto de vista de investidores,
06:28para diferenciar um crédito legítimo de esquemas,
06:32como esses que a gente tem visto serem revelados,
06:35e como rastrear esse tipo de operação?
06:39Eu diria que você tem duas maneiras de associar,
06:43analisar um banco ou analisar um investimento.
06:46Um é o que a gente chama de compliance, você olha os indicadores.
06:50Então, você olha a alavancagem do banco,
06:54você olha a qualidade dos ativos do banco,
06:57você olha a gestão do banco,
06:59você olha a liquidez do banco,
07:03e você vê esses indicadores.
07:05Isso é uma coisa.
07:06A outra coisa é você ver como esse banco gera dinheiro.
07:10Você analisa o desempenho.
07:12O que faltou para os investidores olhar só para os indicadores de compliance
07:20e não olhar para os relatórios de desempenho.
07:24Com um agravante, o Banco Master teve o rating A,
07:29dado por uma classificadora de risco,
07:33em outubro de 2024,
07:37quando já tinha uma série de sinais.
07:39Quer dizer, aí você nota claramente uma falha nas empresas de rating.
07:44Uma questão importante agora seria rever essa questão dos ratings.
07:49Por que as empresas de rating falharam?
07:52E por que as empresas de auditoria falharam também?
07:55Isso é importante, eu diria que isso é urgente.
07:57Isso foi proposto logo depois do Banco Santos ter reuniões,
08:02foi proposto que fosse feita uma série de medidas nesse sentido
08:07e não foram feitas, tanto que aconteceu de novo.
08:09Então, eu diria que uma lição importante para o sistema é ver ratings
08:14e um pequeno investidor tem que escolher uma instituição conhecida.
08:19Mas o grande investidor tinha que ver
08:21por que aplicam no banco o que tinha esses sinais dissonantes da realidade.
08:26Perfeito, lição de casa fundamental mesmo.
08:30E para a gente finalizar,
08:31o senhor disse que, nesse caso da REAG Investimentos,
08:34a ação veio no tempo certo,
08:36que foi muito ágil.
08:38Quero saber o que o senhor espera daqui para frente
08:39de tudo isso que a gente tem visto desse noticiário
08:41envolvendo o Banco Master, também a REAG?
08:46Olha, quando você vai ficando mais velho,
08:50você tem esperança e experiência.
08:53Aí vai mais experiência e menos esperança.
08:57A maior esperança ainda está dominando aqui.
08:59Eu espero que mude dessa vez.
09:01Espero que a experiência não domine meu cérebro.
09:05Perfeito.
09:05Quero agradecer demais a participação ao vivo
09:08do Roberto Troster, sócio da Troster
09:10e associados ao vivo aqui no Real Time.
09:13Muito obrigada, ótima quinta-feira e volto sempre.
09:16Obrigado, Natália.
09:17Ótima quinta-feira para você também.
09:19Até a próxima.
09:20Ótima quinta-feira para você também.
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