00:00Um mercado de 722 milhões de consumidores e PIB, o Produto Interno Bruto, de 22 trilhões de dólares.
00:11É o resultado do acordo comercial da União Europeia com o Mercosul, um dos maiores do mundo,
00:16que deve ser ratificado no próximo sábado.
00:19Nós vamos nos aprofundar nas consequências desse acordo, para o bem ou para o mal,
00:25positiva e negativamente falando, com Roberto Jaguaribe, que é embaixador do Brasil na Alemanha,
00:31a quem, muito gentilmente, nos atende supostamente direto da Alemanha.
00:39Eu imagino, embaixador, muito obrigado por essa conexão.
00:44Espero que esteja frio aí, imagino o frio que esteja fazendo aí,
00:47mas sinta-se com uma bem-vinda aqui muito calorosa dos trópicos.
00:55Muito obrigado e bom dia para todos, bom dia para vocês.
00:59Mas há pequena confusão aqui.
01:01Eu fui um consultor na Alemanha, não sou mais.
01:04Então, estou no Brasil agora, no Centro Brasileiro de Relações Internacionais,
01:09como conselheiro, fui embaixador também na Inglaterra e na China,
01:13mas eu estou à frente do Grupo Europa, que cuida de um novo projeto com a Europa.
01:17E eu acho que esse entendimento que foi possível fazer, essa assinatura,
01:23assinatura ainda não, assinatura será prevista para o dia 17 da semana que vem.
01:29Mas a aprovação pelo Conselho Europeu do Acordo é um marco histórico de um projeto
01:33que vem sendo estudado pelas duas partes há mais de 30 anos,
01:37que consolida, como você mencionou, um mercado de 722 milhões de pessoas,
01:44com um PIB de 22 trilhões, como você também mencionou.
01:48Mas eu prefiro usar o PIB de 34 trilhões.
01:51Por quê?
01:52Porque é em paridade de poder de compra que é um reflexo mais realista das economias de cada país.
01:58E, com isso, esse é, possivelmente, o maior acordo já firmado em termos de paridade do poder de compra
02:04envolvendo países diversos.
02:07Eu acho que ele tem três coisas que precisam ser assinaladas.
02:11Número um, a sua magnitude, que nós já falamos aqui.
02:14E tem uma relevância grande pela população, pela tradicional presença europeia no Mercosul,
02:22no Brasil em particular.
02:24Os investimentos da Europa no Mercosul e no Brasil são maiores que qualquer outra região.
02:28Isso continua sendo válido hoje, com todas as mudanças que nós temos passado.
02:33Ele tem um potencial muito significativo.
02:36E ele também tem uma relevância não econômica comercial,
02:39num mundo que se encontra um pouco embaraçado, um pouco perturbado,
02:44um pouco sem norte em relação a coisas tradicionais.
02:47Então, eu acho que esse mercado traz uma coisa sólida, convencional,
02:52de países que acreditam na democracia, que acreditam no direito internacional,
02:56que acreditam no comércio baseado em regras e, portanto, algo que precisa ser refortalecido.
03:04Embaixador, oi.
03:06O terceiro ponto é que se cria potencialmente, porque nada se faz, o acordo em si não traz nada.
03:12São os atores dentro dos dois regiões que têm que fazer coisa em função do acordo.
03:16Mas ele cria o potencial de estabelecimento de uma nova linha de dinamismo de comércio
03:21e de investimentos globais, que já foi relevante no passado, que é da Europa com a América Latina,
03:27e que anda muito adormecida.
03:29Vamos descer um pouquinho o degrau para deixar...
03:32Claro que a sua introdução acabou pincelando os benefícios do acordo.
03:39O senhor acredita que é uma vitória do multilateralismo?
03:42O governo brasileiro sai fortalecido ou ele escreve uma página positiva da história
03:48justamente num momento em que a gente tem um governo americano
03:52que tenta quebrar um pouco esse multilateralismo.
03:56Já se falou aí no encolhimento da globalização.
04:01O multilateralismo volta a ter força com essa assinatura agora, embaixador?
04:05Olha, eu não tenho dúvida que esse acordo, como eu disse, sinaliza para o interesse do multilateralismo,
04:13o interesse no direito internacional, o indireito em regras que palpem o comportamento das nações e do comércio.
04:20Nós estamos encontrando uma coisa um pouco desregrada nesse momento.
04:24Evidentemente que o acordo não é direcionado contra nada.
04:27Ele é a favor dos dois grupamentos, do Mercosul e da Europa,
04:32para consolidar e ampliar as perspectivas que tem de crescimento da economia
04:39e de dinamização das suas cadeias produtivas.
04:43Agora, eu acho que você tem razão.
04:44É um mundo que anda meio perturbado e ele é uma linha, um marco,
04:49que aponta numa direção de credibilidade, de confiabilidade,
04:52baseado em regras, baseado em entendimentos entre nações.
04:56Embaixador, a gente, claro, estamos ainda nesse processo burocrático das assinaturas,
05:04talvez a gente tenha um arco de tempo aí de uma década, em dez anos,
05:08para a efetivação, para a gente ver tudo isso sendo colocado na prática.
05:13Imagino eu que vai ser também um período de uma adequação
05:16para que a indústria, o setor de serviços, se adeque a normas bastante rígidas exigidas na Europa,
05:25que o senhor conhece muito bem.
05:26Eu estou falando não só de regras de sustentabilidade, regras de compliance,
05:36ISOs de qualidade que são muito exigidos no mercado europeu.
05:40O senhor acha que agora esse tempo é suficiente e o Brasil tem essas condições
05:45de colocar a nossa produção, o nosso produto, em nível de qualidade com o que a gente vê
05:51na França, na Alemanha, na Itália, com aqueles grandes produtos que têm o selo da Alemanha,
05:59da Itália, da França.
06:00A gente pode exportar com esse mesmo selo de Brasil, com equiparação de qualidade?
06:06Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso.
06:10Eu acho que, inclusive, já podemos hoje, em vários segmentos, não em todos, mas em
06:14vários segmentos.
06:15Eu acho que você tem razão.
06:17A efetividade desse acordo vai, primeiro, passar pelo passo fundamental, que é a sua aprovação
06:24nos congressos.
06:25Os congressos do Mercosul, eu não vejo problema aí, e no Parlamento Europeu.
06:30O Parlamento Europeu é um pouco mais complicado, mas a leitura de todos é que também será
06:35aprovado no Parlamento Europeu.
06:37Depois começa a etapa de implementação, que vai demorar muitos anos para que toda
06:42a base tarifária seja eliminada, por volta de 15, pelo menos.
06:46Mas eu digo que, desde o primeiro dia, aliás, desde o anúncio, já gera uma expectativa
06:52que se transforma, possivelmente, em ações positivas em certos setores-chave.
06:57Eu estava vendo o seu programa aqui sobre mineração na Groenlândia.
07:02O Brasil tem um potencial mineral vastamente superior ao da Groenlândia e não explorado
07:09adequadamente.
07:10A Europa precisa tremendamente de minérios e cadeias produtivas para que o...
07:18...e voltado direto para a indústria.
07:21Isso pode ser feito e deve ser feito no Brasil.
07:24Por quê?
07:24Porque o Brasil dispõe de energia renovável barata e isso facilita o processo e barateia.
07:30Então, eu vejo, mesmo antes da consumação de todas as tarifas, um processo que pode
07:37gerar coisas muito positivas para a indústria brasileira.
07:41E eu não tenho dúvida que a indústria brasileira, já hoje, em certos segmentos e no futuro e muito
07:45mais, terá condição de entrar no mercado europeu e não só no mercado europeu.
07:50Também no mercado global, porque é a minha visão.
07:54É aí que eu queria chegar.
07:57Embaixador, eu vou fazer um arco de tempo.
07:59Para gerar?
08:01Acho que a gente perdeu um pouquinho a conexão.
08:04Embaixador, o senhor está nos ouvindo bem?
08:06A gente está tendo uma certa corta de...
08:10Uns cortes de conexão.
08:14Acho que foi restabelecido aqui o nosso sinal.
08:17A gente perdeu, acho que, um pouquinho da última frase do senhor.
08:20Por favor.
08:22Eu notei isso.
08:23Eu notei isso.
08:24Mas está restabelecido.
08:25Não.
08:25O que eu dizia é o seguinte.
08:27Eu acho que esse acordo permite uma novidade também em termos de investimentos no Brasil.
08:33Não apenas por parte da Europa, mas, sobretudo, por parte da Europa.
08:37Porque os investimentos europeus no Brasil são essencialmente dirigidos para aproveitar
08:42o vasto mercado brasileiro e um pouco a nossa área aqui sul-americana e um pouco latino-americana.
08:50Também, muitos deles já geram exportação para o mundo inteiro.
08:54Para os Estados Unidos, para a China e para outros lados.
08:56Mas, em princípio, eles têm um pouco esse foco.
08:59Isso vai continuar?
09:00Lá vai.
09:00E é bom que continue.
09:01Mas eu acho que haverá uma novidade.
09:04Essa novidade é essa de buscar criar, através desse acordo, cadeias competitivas globais
09:11para entrar em terceiros mercados em função dos elementos que eu falei e que eu vou agregar
09:16outros.
09:17Por exemplo, o Brasil precisa de investimentos.
09:21Investimentos com fundos estrangeiros.
09:24Precisa de firmas que tenham um alcance global.
09:27Tudo isso a Europa tem.
09:28Tem também tecnologia de compra e múltiplos setores que são importantes.
09:33Mas a Europa carece de matéria-prima, carece dos minérios que são indutores de toda essa
09:39nova fase de crescimento de inteligência artificial, terras raras, tudo que está sendo debatido
09:43pelo mundo afora.
09:45Carece de abundância de energia renovável, barata.
09:49O Brasil tem isso em abundância.
09:51Carece, muitas vezes, de mão de obra.
09:53O Brasil tem isso.
09:54Carece de sol, carece de ar.
09:56Carece de uma série de outros elementos que o Brasil tem em abundância.
09:59Então, eu acho que é uma complementariedade que permite tudo isso.
10:03Veja, é potencial.
10:04Não quer dizer que vai acontecer.
10:05É preciso que ambos os lados se empenhem e façam o dever de casa.
10:09Mas eu vejo como muito promissor a assinatura desse acordo para o Brasil.
10:15Acho que é uma vitória para toda o Mercosul e para a América Latina e para a Europa também.
10:20A Europa anda muito fragilizada, um pouco perdida nesse novo contexto internacional.
10:26Eu acho que isso também dá uma linha que já foi importante, que pode se transformar em
10:31mais importante ainda.
10:34Embaixador, o senhor que já foi diplomata na Alemanha vai entender essa analogia.
10:38Quem que pode botar água no chope aí?
10:40Quem que pode botar areia na engrenagem?
10:43Por quê?
10:43O acordo não é um consenso.
10:46Ele não está agradando 100% dos envolvidos, seja na esfera governamental e principalmente
10:52na população, nos setores produtivos.
10:55E aí, obviamente, quando eu estou falando dos agricultores franceses, a parte norte
11:00da Itália, os milaneses também não estão gostando muito, a Hungria também está fazendo
11:05cara feia.
11:06Tudo bem, não são unânimes.
11:08E, paralelo a isso, eu trago mais um argumento que também pipoca de vez em quando na União
11:14Europeia esses discursos anti-Europa, anti-unificação da Europa, uma fragmentação da Europa, como
11:23a gente viu o Brexit.
11:25Isso tem força o suficiente para, não sei se para melar o acordo, acho que não, mas
11:31para prejudicar em alguns pontos?
11:34Olha, a principal resistência ao acordo na Europa, provei, como você mesmo mencionou,
11:41da agricultura.
11:43A agricultura europeia é uma agricultura espetacular, com grande competência e capacidade, mas não
11:51tem um décimo da competitividade da agricultura brasileira.
11:57brasileira e do Mercosul em geral.
11:58Mas o que acontece, como eu já tive a oportunidade de falar, é que a defesa da agricultura europeia
12:06não se dá por tarifas.
12:07Esse acordo reduz tarifas, mas ele não reduz a proteção de que usufrui a agricultura europeia.
12:14Então, ela não vai, esse acordo vai permitir a ampliação de exportação brasileira, vai, inclusive,
12:21de produtos que a Europa não produz, mas que no Brasil ainda sofre uma pequena taxação
12:25e que vão diminuir.
12:27Mas não vai, a meu juízo, criar transtornos maiores, porque isso está pautado pela defesa criada
12:35pela política agrícola comum da Europa, a PAC, que é muito forte e que todos os países apoiam.
12:43Eu acho que, com o acordo, quem for opositor não tem como impedir que quem quer se aproveitar
12:50vai aproveitar.
12:51E isso são as empresas, a indústria em geral, tanto na Europa como no Brasil.
12:55vão aproveitar para fazer coisas em função das facilidades que foram geradas.
13:00Não tem como impedir que isso se dê.
13:02A única coisa que pode impedir é a falta de iniciativa e de tomar as medidas corretas,
13:07alguns ajustes de regulação no Brasil, possivelmente, algumas facilitações de acesso de logística
13:16que precisam ser feitas pelos governos.
13:19Mas em termos de impedimentos, não, porque uma vez que o acordo está assinado,
13:22quem quiser tirar proveito fará.
13:24E eu vejo isso como uma coisa positiva.
13:27Embaixador, o senhor que viveu os dois mundos, tem uma larga experiência como diplomata na Europa.
13:32Sabe aqui das questões problemáticas do Brasil.
13:36Eu estou falando de infraestrutura, os gargalos na nossa indústria.
13:40Eu preciso tocar na ferida.
13:41Nós passamos por um longo processo de desindustrialização.
13:45Alguns dos nossos setores pararam no tempo, em comparação com os gigantes que explodiram.
13:51O Sudeste Asiático, a própria outra parte da Europa, por exemplo, a Polônia,
13:56o que ela cresceu industrialmente, o Brasil foi ficando para trás.
13:59Agora, quando esses dois mundos estão se unindo, o Mercosul, e aí nós estamos falando não só de Brasil,
14:06mas Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia, que é um integrante mais recente,
14:13também tem esses gargalos de infraestrutura.
14:16Mas vamos olhar para o Brasil.
14:18Isto tem alguns ali, umas pedras no caminho.
14:22Mas este acordo pode ser uma alavanca?
14:26Pode ser uma ponta de lança para nós revertermos essa história recente ruim para o nosso desenvolvimento?
14:32A exemplo da nossa desindustrialização pode ser uma chance de um crescimento aqui?
14:38Talvez como os chineses vieram trazer o carro elétrico, a indústria do carro elétrico, telecomunicações?
14:44Eu acredito que a nova indústria global tem uma demanda essencial de energia que é altamente atraente para o Brasil,
14:58porque o Brasil dispõe de uma quantidade, não digo infinita, mas altamente significativa, de energia renovável barata.
15:07Esse é o elemento-chave, inclusive, dos setores mais demandados de crescimento e mais sofisticados,
15:15como a inteligência artificial, todo o calls, todos os data centers, toda a inteligência artificial
15:21depende de enorme abundância de energia.
15:25E todas as empresas, mesmo em países que são relutantes com relação à questão da sustentabilidade,
15:31sabem que a sustentabilidade é uma imagem, pelo menos, se não uma obrigação,
15:35que eles melhor mantêm, sobretudo quando ela é competitiva.
15:39Então, esse elemento já traz, independentemente desse acordo, uma nova aura de expectativas para o Brasil,
15:45inclusive, como eu falei, na mineração.
15:47Mas também, em certos segmentos, onde a matéria-prima e a energia são a parte mais significativa do produto final.
15:56Siderurgia, por exemplo.
15:57Entende?
15:58Então, isso aí são questões que abrem possibilidades, independentemente desse acordo.
16:03Esse acordo abre uma coisa adicional, que é uma linha nova de potencial dinamização.
16:10Vai acontecer?
16:11Não é certo de jeito nenhum.
16:13Aliás, eu diria que tem muitos desafios pela frente, mas abre uma possibilidade maior de que isso venha a se realizar.
16:20O embaixador Roberto Jaguaribe, muito obrigado por essa participação, nos ajuda a escrever,
16:26que eu espero que seja uma página muito relevante da nossa história.
16:31E, além dos meus agradecimentos aqui, deixa eu colocar as credenciais corretíssimas do diplomata Roberto Jaguaribe,
16:39hoje conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, o SEBRE,
16:44e já foi embaixador do Brasil, no Reino Unido, na Alemanha, na China.
16:50Comecei a entrevista credenciando-o como atual embaixador, mas não, é um diplomata de carreira,
16:56já teve esses postos diplomáticos e hoje está aqui fazendo o aconselhamento com relação a comércio exterior aqui no Brasil.
17:07Jaguaribe, muito obrigado mais uma vez, até uma próxima oportunidade, estou torcendo para que seja muito em breve.
17:13Muito obrigado, até breve.
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