00:00A primeira observação que eu gostaria de fazer é de que minha fala não vai de encontro a nenhum projeto político especificamente.
00:08Então, assim, você pode pensar, ah, mas Cajazeiras está abaixo em relação a Sousa e a Patos.
00:18Porém, isso tem a ver exatamente com a administração pública?
00:23Não diretamente. E aí eu vou dizer o porquê da minha visão como educador.
00:28Então, assim, são vários fatores que levam o município a obter melhor êxito em relação aos resultados.
00:38Eu moro num estado bastante exitoso nesse sentido, o estado do Ceará.
00:45E aqui a gente tem, por exemplo, vou dar um exemplo para poder iniciar as minhas explicações.
00:51Existe um município chamado Coreau, fica próximo da cidade de Sobral, aqui no Ceará.
00:57E lá, o secretário da Educação do município implementou o que ele chamou de ciclo de alfabetização já no quarto, com as crianças de quatro anos.
01:11Ou seja, as crianças ainda estão ali para a linguagem de alguns no infantil quatro.
01:16Então, como que ele descobriu isso?
01:21E aí eu vou dizer três fatores que elevam os índices de educação em qualquer município.
01:30E aí a gente tem um problema brasileiro, que já é grave, né?
01:34A educação brasileira tem várias falhas, falhas em seus documentos institucionais, falhas na legislação e, consequentemente, se reboca nos municípios, já que a vida, ela se dá no município.
01:50Você não mora num estado, você não mora num país, você mora num município, especificamente no seu bairro, na sua cidade, né?
01:57Então, é isso que acontece.
01:59Falando lá do exemplo de Coreau, ele pegou gente especializada, né?
02:06Uma metodologia testada e ele testou essa metodologia dentro do município, que foi a implementação do ciclo de alfabetização já na idade mais tenra.
02:18Enquanto que, no nível nacional, né, esse ciclo, ele só se inicia no ensino fundamental, no primeiro ano do ensino fundamental.
02:29E qual foi o êxito de Coreau?
02:31Ficar entre os melhores, né?
02:35No quesito alfabetização.
02:37Então, você precisa ter gente especializada, ter um projeto específico e, claro, as condições de trabalho.
02:46Então, aqui no Brasil, a gente tem esse resquício de estar imitando modelos internacionais.
02:58E esse é o problema do Brasil, sem testar.
03:01Então, os municípios que obtêm êxito, e aqui a gente poderia citar vários, Sobral, Coreau e outros municípios aqui no Ceará,
03:09e a educação do Ceará no sentido dos indicadores é melhor do que a média brasileira,
03:16foi por conta que esses municípios, a despeito da conjuntura nacional,
03:21implementou gente especializada, pegou uma metodologia já testada e testou de forma local,
03:28numa escola específica, para depois implementar em toda a rede de educação.
03:33O que acontece, José Dias Neto?
03:36Às vezes, o município tenta implementar uma metodologia,
03:40mas o município pega a metodologia e implanta em todo o município, sem testar antes.
03:46Porque toda a metodologia precisa do seu contexto.
03:50Uma coisa é algo ser aplicado lá na Coreia, nos Estados Unidos, no Ceará, na Paraíba,
03:57e aí existem as peculiaridades municipais.
04:01Uma coisa é Cajazeiras, outra coisa é Patos, outra coisa é Souza.
04:06Então a gente precisa desses três elementos essenciais para implementar uma boa educação.
04:12Gente especializada, um projeto já testado, e é o problema nacional, como eu destaquei, Neto,
04:19é que, infelizmente, o Brasil vive de muitos modismos.
04:22E quando muda um secretário de educação, especificamente, aí muda toda a política educacional.
04:31Porque o novo secretário tem novas relações, e aí ele quer mostrar trabalho,
04:36e muitas vezes ele implementa uma metodologia em todo o município,
04:41e essa metodologia não é exitosa.
04:43Não sei se foi o caso de Cajazeiras,
04:45mas a troca reiterada de secretário de educação não é assertivo para o poder público,
04:54desde que essa mudança seja pacífica e o secretário posterior possa dar continuidade
05:00ao serviço que foi implementado anteriormente.
05:03Porque quando se trata de educação, toda ação educacional não pode ser pontual,
05:10ela não pode ser abrupta, ela tem que ser continuada e tem que ter uma certa longevitude,
05:16um certo tempo, senão a gente não consegue enxergar os resultados.
05:22Eu vou só dar um exemplo também da conjuntura nacional,
05:26para a gente entender por que as coisas no Brasil, especialmente no sistema de educação,
05:32é como se fosse modismo.
05:33Existia uma lei, uma lei americana de 1845,
05:38ela foi atualizada em 1997,
05:42e essa lei americana, ela dizia que todo mundo tinha que aprender a mesma coisa.
05:48Então trouxeram essa importação para o Brasil, por exemplo,
05:52e aí quando se faz um plano nacional de educação,
05:57quando se constrói os documentos institucionais de educação,
06:03faz nessa linha uma coisa para todo mundo.
06:06Apesar de ter as peculiaridades loco-regionais, se pensa nisso.
06:12Mas o projeto geral é para todo mundo.
06:15Então será que todo mundo aprende a mesma coisa no mesmo período de tempo?
06:21Foi assim com esse discurso que se desconstruiu,
06:25por exemplo, a educação especializada no Brasil, que é uma defesa minha.
06:30A gente precisa ter mais centros especializados,
06:34porque no Brasil o que chamam de inclusão não é inclusão.
06:38Pegar todo mundo, colocar no mesmo lugar, não é necessariamente incluir.
06:43Só dando um exemplo de como muitas vezes as coisas funcionam em termos de projetos educacionais.
06:50Professor Ivo Lavô, ao vivo com a gente, analisando esse desempenho da cidade de Cajazeiras,
07:01nesse comparativo, claro, com Souza e Pato, já que são as principais concorrentes.
07:06O senhor falava justamente, professor Ivo, sobre essa realidade de exemplos internacionais
07:13que são trazidos para os nossos pequenos municípios aqui do interior do Nordeste.
07:20Isso, e que muitas vezes, como eu falei, nem as políticas são continuadas,
07:28porque se houver uma mudança de governo, acontece ali a quebra abrupta daquela política.
07:36E outra coisa, todo projeto que é trazido de forma das experiências internacionais
07:43precisa passar por uma discussão dos educadores brasileiros, do contexto brasileiro.
07:50E aí, quando vai se implementar dentro do município, tem que se pensar na conjuntura do município.
07:56Então, eu, ao meu ver, para que se tenha resultados, nós precisamos ter gente especializada
08:04nas secretarias.
08:07Não que o secretário tenha que ser necessariamente um técnico, mas ele tem que ter uma visão técnica.
08:12Se ele não é o técnico, é a figura política, ele precisa ter alguém que faça esse trabalho
08:18para ter essa sensibilidade, para perceber as reais peculiaridades do município.
08:25E outra coisa, o projeto de educação tem que ser um projeto já testado.
08:30Como eu citei, essa experiência de Corea U.
08:33Será que ela seria assertiva aí em Cajazeiras?
08:36Então, trazer a experiência de Corea U, trazer um formador, aplicar em uma escola,
08:42e depois aplicar em escala em todo o município.
08:47E, por último, a questão das condições de trabalho.
08:49Porque, por mais que o projeto seja maravilhoso, sem condições de trabalho,
08:56não dá para acontecer.
08:58Inclusive, José Dias Neto, eu me disponibilizo, eu tenho várias metodologias que eu implemento.
09:07Já fiz isso, inclusive, aí no estado da Paraíba, em alguns municípios,
09:11que é a Escola para Paz.
09:13A Escola para Paz é uma metodologia que eu trabalho com as famílias
09:18no sentido de gerar o engajamento dessas famílias no projeto educacional,
09:25por meio do autoconhecimento...
09:26Professor Ivo, aproveitando ainda a sua participação,
09:30o senhor falava justamente sobre esse contexto educacional,
09:34muitas das vezes a questão política que atrapalha.
09:36Mas, por exemplo, olhando para a realidade de Cajazeiras,
09:40que é o exemplo concreto que a gente está trazendo esses dados.
09:43Por exemplo, a educação, nos últimos oito anos,
09:47ela foi comandada, liderada, por Corrinha Delfino,
09:50professora, que é a atual prefeita da cidade.
09:54E não houve troca, não houve nenhuma troca.
09:57Houve a troca justamente no ano passado,
10:00justamente pela delimitação eleitoral,
10:03e, obrigatoriamente, ela teria que se afastar do cargo.
10:05E eu aproveito para lhe perguntar o que é que a Prefeitura de Cajazeiras,
10:10a Secretaria de Educação, tem que fazer para ter um bom desempenho.
10:16Porque é um desempenho lamentável, do ponto de vista
10:19de uma das principais cidades do Estado, na educação.
10:22O que o professor Ivo Lavô deixa como dica,
10:25como orientação, já que é especialista,
10:28para que a Secretaria possa conseguir superar essa dificuldade,
10:34esses índices terríveis da educação municipal.
10:39Muito bem, José Dias Neto.
10:41Como o problema de Cajazeiras não foi a continuidade,
10:44eu posso apontar de forma genérica, claro,
10:47porque eu não conheço de forma profunda
10:49como acontece a educação aí na cidade de Cajazeiras.
10:53Mas, de pronto, já posso afirmar que está faltando gente especializada.
11:00E se as pessoas são especializadas,
11:03porque eu tenho que respeitar a formação de todo o pessoal
11:06que trabalha nas secretarias aí da cidade de Cajazeiras,
11:11o projeto que foi testado, ou se não foi testado,
11:14não está dando certo.
11:16E é necessário que os profissionais que atuam na educação
11:20urgentemente tomem as rédeas.
11:23Eu costumo dizer que duas coisas são essenciais em qualquer projeto,
11:29seja ele na empresa, seja ele numa prefeitura, numa secretaria.
11:33Primeiro, é o respeito.
11:35Então, deve estar havendo aí algum problema com relação...
11:38Tem gente no lugar errado,
11:40tem pessoas que têm um potencial e estão em outro local.
11:45O município, o líder que lidera,
11:48a pessoa que lidera o espaço educacional,
11:51especialmente o secretário, ele tem que ter uma sensibilidade
11:54de alocar as pessoas nos lugares certos.
11:58E tem que haver ali um respeito total.
12:01Quando eu falo respeito, eu estou me referindo a uma coisa mais ampla.
12:06É respeito no sentido amplo mesmo.
12:08Se a pessoa tem um potencial de estar numa sala de aula e estar na gestão,
12:13você está perdendo um professor.
12:15E se você tem um professor que está atuando na sala de aula
12:20e ele seria bom como gestor, você está perdendo.
12:24Então, é preciso fazer todo esse estudo dentro da Secretaria da Educação
12:29para verificar esse fator.
12:32E a outra coisa é entrega.
12:35Então, eu tenho certeza que a prefeita do município,
12:38ela quer resultados.
12:39Qualquer líder quer resultados.
12:42Até porque nós sabemos, de acordo com nossa legislação,
12:46que os bons indicadores são necessários para a vinda de recursos.
12:53Então, isso está diretamente proporcional, está ligado.
12:56Então, o gestor tem interesse nos resultados.
12:59Então, se não estão acontecendo esses resultados,
13:02é preciso urgentemente a liderança verificar se não está havendo a entrega.
13:08Porque tem que ter a entrega.
13:09Quando eu falo de entrega, qual é o papel da educação municipal?
13:14Então, tem que alfabetizar na idade certa,
13:17tem que cumprir o Plano Nacional da Educação,
13:19que terminou a sua vigência.
13:20E nós estamos aguardando o novo Plano Nacional da Educação.
13:23Tem que cumprir todas as metas lá estabelecidas.
13:26Então, como que está esse panorama?
13:29Então, o líder tem que dar esse feedback para a prefeita
13:32para que ela possa tomar as devidas providências.
13:38E eu tenho certeza que tem gente capacitada para isso.
13:42E tem as empresas também que prestam serviço aos municípios,
13:46como eu faço essa prestação de serviço,
13:48que pode dar esse olhar.
13:49Nós temos que entender que nós não sabemos de tudo.
13:53Quem lidera na política não entende necessariamente de educação.
13:57Mesmo que a pessoa seja um professor ou uma professora,
14:01ela tem limitações quando se trata de um sistema educacional.
14:05Uma coisa é eu saber ministrar uma aula.
14:07Outra coisa é eu saber liderar uma universidade.
14:10Outra coisa é eu saber liderar uma secretaria.
14:12Então, essas competências precisam ser alocadas urgentemente
14:16para se acontecer os resultados.
14:17Eu não diria, José Dias Neto,
14:20nem uma questão de estrutura física necessariamente.
14:24Porque, olha, eu conheço municípios no Brasil que eu já visitei
14:27que reformaram as escolas,
14:29que ampliaram os laboratórios,
14:33reformaram, colocaram o computador,
14:35rede de Wi-Fi,
14:36mas o que faz uma educação acontecer é gente.
14:41Então, gente capacitada,
14:42às vezes numa sala de aula com quadrigis,
14:45o antigo GIS pode ter mais resultados
14:49do que, muitas vezes, uma escola climatizada,
14:53com todos os aparatos tecnológicos que nós conhecemos.
14:56Não que as condições não sejam necessárias,
14:59como eu apontei.
15:00Elas são, elas é um pão de fundo.
15:02Se tiver as condições de trabalho,
15:04mas não tiver um projeto assertivo,
15:07as condições vão ficar bonitas,
15:09lindas nas fotos,
15:10mas os resultados não vão acontecer, infelizmente.
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