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  • há 2 dias
Reconhecida como patrimônio cultural do Pará, a cerâmica de Icoaraci segue como fonte de renda para dezenas de famílias. Neste vídeo, conversamos com artesãos da Feira do Paracuri sobre o desempenho das vendas neste ano, o perfil dos clientes, a presença de turistas e os obstáculos para manter a produção artesanal ativa e valorizada.

Reportagem: Fabyo Cruz
Imagens: Wagner Santana
Edição: Bia Rodrigues (supervisão: Tarso Sarraf)

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Transcrição
00:00O que é uma olaria?
00:20Olha, a olaria, ela já traz esse nome desde o início, né?
00:24A olaria é porque tem o oleiro, que é o cara que faz as peças,
00:28levanta as peças no torno aqui, então esse oleiro se tornou a olaria.
00:32Aí tem o forno dentro, tem o rapaz que faz o desenho, tem a pintura, né?
00:37É completo, a olaria é completa.
00:39Mas hoje em dia as pessoas já chamam de atelier, a olaria tá ficando pra trás.
00:44Não, eu tenho minha atelier.
00:46Eu pergunto, eu tenho minha olaria.
00:49E a olaria, você faz o seu material e deixa lá.
00:53A cultura das pessoas não mexe.
00:56Você deixa a peça pintada, deixa a peça... Entendeu?
00:59Só quem vem mesmo pra poder já...
01:01Mas se você levar essa peça aqui, você vender aqui na frente,
01:04o Edmilson vai ver quem tem o nome dele aqui embaixo.
01:07Eu nem tenho que comprar essa peça.
01:09Meu material todo leva meu nome embaixo.
01:12Os meus trabalhos, entendeu?
01:13Um dia eu vou descobrir onde tá ela.
01:15Se eu ver ela por aí, eu vou descobrir onde ela tá.
01:17Então, acho que você ficou lá à vontade.
01:19Você chega numa olaria, você...
01:21Não tem ninguém que senta ali.
01:22É cheio de peça lá.
01:23Ninguém mexe, não.
01:24A gente chama de olaria porque ela é aberta, tudo aberta.
01:27Bem, o mestre é essa pessoa que praticamente entende de tudo.
01:32Do artesanato tapajônico, marajoara, né?
01:36Por exemplo, eu conheço desde o tirar do barro pra chegar até as cerâmicas.
01:43Do forno, do desenho.
01:46Na minha arte mesmo, que eu gosto muito do trabalho tapajônico.
01:50É uma arte que eu me dediquei muito.
01:52Quando eu aprendi a trabalhar com um senhor chamado...
01:56Era um mestre chamado Sadim Moreira da Rocha.
01:59Já falecido.
02:01Mas aí que me deu a força.
02:03Na minha família, nenhum artesão, assim, deu pra ser artesão.
02:09Eu era um trabalhador de...
02:13Trabalhava na rua, eu.
02:15E tava em frente ao mercado aqui, que era assim mesmo.
02:18Quando apareceu esse senhor chamado Sadim,
02:21chegou lá de Oriximinar e me convidou pra...
02:25Você não queria trabalhar com ele na casa dele.
02:27E ele... Eu disse pra ele que eu ia na hora.
02:30Aí, quando cheguei lá, ele me mostrou o que eu tinha que vir a fazer.
02:34E eu, na hora, me dediquei muito.
02:36Eu gostei muito do que ele tava fazendo lá.
02:38Eu olhava pras peças assim e...
02:40É isso que foi aí, abrindo minha mente direto.
02:43Eu passei a me dedicar com ele.
02:45Eu trabalhei três anos com ele.
02:47Aprendendo, aprendendo ainda.
02:49Aprendendo a fazer o quê?
02:50Depois fui trabalhar com uma...
02:52Afinal, a esposa dele também, chamava-se Dona Olga.
02:54Aí, trabalhar com ela também não deu muita força.
02:56Depois, passei pra ela trabalhar sozinho.
02:58Aí, de lá pra cá, graças a Deus, eu tô nesse tempo todinho.
03:02Eu só trabalhei com artesanato.
03:03Meus filhos são tudo formados, tudo através do meu artesanato.
03:06Só tem quatro filhos?
03:08Tenho quatro filhos.
03:09Os seus quatro filhos quantos seguiram assim, Dona?
03:13Pra lhe falar a verdade, quem se dedicou mesmo foi a Vanessa.
03:17A que se dedicou, mas se dedica muito, é a Vanessa.
03:20Eu me chamo Silvia Vanessa.
03:23Eu tô na cerâmica desde sempre, porque eu sou filha de artesãos.
03:29E eles transmitiram pra gente, né?
03:32Ou trabalhando mesmo a partir dos 18 anos.
03:35Mas, durante a adolescência, eu sempre estive presente.
03:38A cerâmica sempre esteve presente na nossa vida.
03:41Os meus pais, eles...
03:43Eles são de dentro do artesanato já.
03:46Meu pai tem mais de 50 anos dentro da cerâmica.
03:50Ele é um mestre artesão.
03:53E a minha mãe também.
03:55Também está dentro do artesanato há uns bons anos.
03:59A cerâmica, ela sempre foi forte.
04:02Inicialmente, por brincadeira, porque os filhos dos artesãos os acompanham dentro das dolarias.
04:08Então, o meu pai, ele inventava brincadeiras.
04:11Como ele inventava um patinho, já que as peças dele têm uns bichinhos.
04:15Então, ele fazia aquelas pequenas esculturas.
04:17E dava pra gente brincar naquele momento, pra distrair a criança.
04:21E isso foi sempre nos aproximando como família e acabou passando a cultura.
04:30Quando foi chegando a adolescência e outras fases, a gente foi aprendendo a ajudá-los dentro das dolarias a trabalhar.
04:38E com o tempo, a minha mãe e o meu pai vieram pra cá, pra nossa feirinha de artesanato.
04:44E aqui, as peças do meu pai, elas precisam de um contexto histórico para serem vendidas.
04:51E eu fui atrás disso. Eu devia ter uns 18, 17 anos.
04:55Quando eu fui até o Centur, atrás da história das peças réplicas que ele produz.
05:03E aí foi onde aumentou mais o meu encantamento.
05:06Porque antes eu as via como peças que ele produzia.
05:10Depois eu passei a ver como história.
05:13Então, foi a partir desse momento que eu vi que aquilo ali realmente podia me gerar muito conhecimento.
05:20E me gerar, claro, também uma renda.
05:23Aí eu fui me aprimorando.
05:25Então, eu aprendi a desenhar.
05:28Eu aprendi a fazer os traços com a minha mãe, com ele.
05:32Eu aprendi a fazer as pequenas esculturas que ele fazia.
05:37Então, a gente tentava copiar, né?
05:39Olha, na qualidade de mercado, ele mudou.
05:42Principalmente depois da Cop 30.
05:44E a Feira de Caracê, para ser patrimônio, ela já entrou no roteiro do turismo.
05:51Depois que ela entrou no roteiro do turismo, ela passou a ser mais visitada.
05:55É uma referência agora.
05:57Ela tem 30 anos a Feira do Paracurismo.
06:00Mas agora ela se tornou uma referência agora.
06:02Uma expressão desse que também apoia o conjunto, né?
06:05É.
06:06Não só o Poder Público, como a Associação.
06:08Qual o nome da Associação?
06:09A Associação dos Amigos de Caracê.
06:11Todo mundo se juntou.
06:13É.
06:14Inclusive, através da feira aqui, surgiram os bares.
06:18Muito restaurante, né?
06:19Então, eles também apoiaram que isso acontecesse para que melhorasse.
06:25Hoje em dia, as vendas deles melhoraram muito também.
06:27A vendas deles, todos eles, em semana.
06:30Isso aqui é muito movimentado à noite.
06:32A COPE, ela trouxe muito, muito turista.
06:36Foi um evento atípico, realmente, para a gente como artesão.
06:42A gente, durante o período do Sírio, nós recebemos muita gente aqui na feira e em outros pontos.
06:50Mas a COPE trouxe uma variedade muito grande do mundo todo.
06:55Então, para a gente, foi assim, uma experiência inquestionável.
07:01Boas vendas.
07:02Nós tivemos gente que levou nossa cultura para todo canto.
07:07Aqui na nossa feirinha, as peças do meu pai são as réplicas.
07:11Elas saíram muito, por conta da história.
07:13Então, a gente teve muita saída.
07:15Mas, em geral, vendemos de todos os materiais.
07:19A gente também tem um ponto no Solar da Beira, que a gente produz imã de geladeira.
07:23Que são peças bem pequenas.
07:25Então, também teve uma grande saída.
07:27Um fluxo muito grande de 1.000Dzinhas, peças pequenas.
07:30A média de preço varia entre tamanho e arte.
07:33Sim.
07:34Se for uma peça pequena, mas com uma riqueza de detalhes muito grande,
07:37ela pode ser mais cara do que um vaso grande.
07:40Que não tem tantos detalhes quanto ela.
07:42Então, varia de conforme o nível de trabalho que tem naquela peça.
07:48Sim.
07:49Aqui na orla, você vai encontrar, acho que, de 5 reais até uns 500, talvez.
07:54Um jogo de feijoada, que são 43 peças.
07:57Ele está, se eu não me engano, 550 reais.
08:00Aliás, no meu caso, a grande maioria é vendido para turista mesmo, o consumidor final.
08:07Mas, a gente também tem encomendas dentro do bairro do Paracuri, que vem...
08:13O caminhoneiro chega, fecha um contêiner, fecha uma caçamba e leva de material para fora, para outras cidades.
08:22A gente manda para o Brasil todo.
08:24A gente exporta.
08:26Aqui na feira, também, a gente despacha, manda pela... a nossa associação de artesanato, a Suami.
08:32Ela emite a nota fiscal, tudo para poder... que as peças viajem tranquilamente para onde for necessário.
08:39Elzemi, conta para a gente, você...
08:41Ainda me deu e veio aqui presentear uma amiga ou uma mulher?
08:45Uma irmã.
08:46Uma irmã.
08:47Que ela mora... não mora aqui.
08:48Não, ela mora em São Luís.
08:50Então, conta para a gente por que desse presente especial para ela.
08:53Porque ela é apaixonada por esses desenhos de marajoaras, né?
08:57Então, eu prendi Natal, ela está inaugurando uma churrasqueira, e eu gosto de fazer feijoada na casa dela,
09:02então, eu decidi dar de presente para ela esse conjunto de feijoada.
09:06E sábado, eu estou indo e estou levando de presente.
09:09Eu vou dar para ela nos jogos, né?
09:11Para colocar farofa, laranja, couve, arroz, feijão...
09:17E vai ficar muito bonito lá no espaço dela.
09:20Hoje, a cerâmica, ela precisa de mais divulgação.
09:25Porque o nosso público, hoje, ele é mais criterioso.
09:30Ele busca, além de uma peça bonita, ele busca a história, conhecer a cultura.
09:38Então, a gente não vende só uma peça, só um artefato.
09:42A gente vende toda a nossa história, toda a nossa cultura.
09:45E, para isso, precisamos de pessoas que conheçam o nosso regionalismo
09:51para poder nos ajudar com as vendas, com a divulgação.
09:57O Icoaraci, ela iniciou como cerâmica de pratelhas, barros e coisas de tijolos, né?
10:04O barro, ele tinha muito nas beiras dos mangues e dos rios aqui que banham o Icoaraci.
10:11Então, ficou mais fácil para trazerem as fábricas de tijolos para cá.
10:15Os padres, na década de 70, 60, eles viram ali uma possibilidade de levar para as comunidades próximas
10:23uma forma de vender algo, né? Uma produção.
10:27E eles levaram para essas comunidades, então eles trabalhavam com peças utilitárias,
10:32panelas, jarros, que pudessem ser vendidos lisos mesmo.
10:37Depois, na década de 70, realmente, entram alguns artesãos que,
10:43junto com o Museu Emílio Guelde, foram conhecer as peças do Guelde,
10:50que estavam sendo encontradas na ilha do Marajó e trouxeram para fazer réplicas,
10:54para copiar os desenhos e introduziram nas peças produzidas no bairro.
11:00Então, elas deixaram de ser peças lisas para serem peças desenhadas com o grafismo do Marajó.
11:07Por isso, ficou conhecido como peças marajoara no Paracuripú.
11:10Mas, hoje, a gente já sabe que é uma cultura, é a cultura de coerce,
11:15tanto que ela é patrimônio e material de Belém.
11:19A pintura do Marajó, por exemplo, ela é só vermelha, branco e preto.
11:24Aqui, a gente desenvolveu uma outra pintura, são outros desenhos.
11:28Aqui, a gente já põe a fauna, a flora, tudo foi introduzido dentro das peças do Paracuripú.
11:37A nossa cultura ainda é muito viva.
11:39O nosso maior desafio, hoje, é mercado, que a gente precisa de muito apoio ainda
11:46para venda, para que o material saia, para divulgação, para feiras externas.
11:53E a produção em si, porque a gente tem bem pouco mão de obra,
12:00porque não estamos conseguindo formar novos artesãos.
12:04A gente precisa de uma valorização dos artesãos que já temos hoje
12:09para que eles mostrem aos jovens que o artesanato rende renda.
12:15Porque, senão, a gente vai morrer com os que tem hoje.
12:19Eles precisam mostrar para os mais jovens que não é só trabalho.
12:24Você acha que a presença, de repente, dos artesãos nas escolas poderia ajudar?
12:28Presença nas escolas, presença em eventos de grande, médio e forte,
12:34que leve, que demonstre que a nossa cultura existe, que ela está ali, firme ainda.
12:40Música
12:45Música
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