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  • há 3 meses
O momento da perda de um familiar, amigo ou pessoa querida para a morte é sempre doloroso e difícil. Cada pessoa encara esse momento natural aos seres humanos de maneira particular. Quem convive com a morte cotidianamente, e tem no trabalho dos cemitérios o ganha pão, adquire uma sensibilidade necessária para lidar com a perda e o luto dos outros. No cemitério Santa Izabel, no bairro do Guamá, o maior cemitério público de Belém, os trabalhadores procuram entendem a morte como um momento que todos merecem respeito, independentemente de raça, classe ou credo.

REPORTAGEM: VITO GEMAQUE
IMAGENS: IGOR MOTA

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Transcrição
00:00Música
00:00Trabalho de coveiro, a minha função é, sempre que eu for chamado na secretaria para atender uma vez eu venho,
00:27faça a localização e explico para a família o que vai ter que ser feito e se a sepultura for construída, como nós chamamos de jazigo,
00:38nós informamos que vai ser limpa a gaveta e que vai ser preciso usar laje para poder chumbar e lacrar, para que não tenha mudança na decomposição.
00:48Não, a gente perde a noção porque no decorrer dos anos são muitos, então a gente não tem noção do quanto o sepultamento já fizemos.
00:56Porque tem dia que a gente não faz nada, não é chamado, mas tem dia que a gente trabalha até um pouco mais do previsto.
01:06Então o sepultamento eu costumo dizer que é imprevisível, tem dia que tem, tem dia que não tem, tem dia que não tem, tem dia que não tem, tem dia que não tem.
01:12Só no início como até hoje eu sinto, porque como você frisou, eu trabalho com pernas, trabalho com entes queridos, então eu respeito muito esse meu trabalho,
01:22porque eu trabalho com a dor do próximo, então é assim, eu não trabalho tirando gracinha, procuro atender com toda a educação possível,
01:32e demonstrando respeito pela família e pelo que vai ser sumado também, né, que é o féretro.
01:41Muda sim, a gente vai adquirindo experiência com o passar do tempo e a gente vai respeitando cada vez mais.
01:49Não mudança nem tanto, porque a perda de um ente querido, ela é irreparável, né.
01:56Então, tipo assim, o que eles sentiam há muitos anos atrás, continuam sentindo até hoje,
02:03sendo que nas datas de pai e mãe finados, já o movimento cai um pouco mais.
02:08Antes era mais tradição, hoje nem tanto, mas ainda tem um movimento muito grande aqui,
02:14de pessoas que vêm visitar, turmas de entes queridos, como também de amigos,
02:20de pessoas que nem conheceram, né, vêm por uma tradição.
02:22No final, a gente presta auxílio não só com o seu movimento, mas sim fazendo localização,
02:27que é levando a família no túmulo que ela quer visitar.
02:32Às vezes é túmulo da própria família, como às vezes é túmulo de pessoas que são ditos santos populares.
02:40Então, eles querem vir fazer visita, só que não sabem onde está localizada a sepultura e pedem o nosso auxílio.
02:47Então, nós como coveiro, nós temos que ter noção das quadras e sepulturas para poder encaminhar a pessoa lá.
02:55Pois é, eu vivi alguns momentos sobrenatural e um deles que marcou muito para mim foi uma visão que eu tive.
03:05Eu larguei meio-dia e era para eu ir embora, mas eu decidi dar uma volta no cemitério.
03:11E numa determinada quadra eu vi uma senhora, uma jovem senhora, visitando uma sepultura, como se ela estava fazendo uma visita, né?
03:20Então, eu olhei para ela e ela riu para mim.
03:24E eu fui olhar para o chão para ver se eu não batia em nada.
03:27E quando eu voltei à vista, ela já não estava mais, sumiu.
03:33E eu fiquei muito preocupado, porque nesse dia eu estava com uma filha hospitalizada e então me causou muita preocupação.
03:41Três dias depois, a minha irmã me encontrou numa rede social, depois de 45 anos sem nenhum contato.
03:49Então, eu fui lembrar dessa visão.
03:51Passou um tempo, eu fui fazer um sepultamento justamente nessa mesma sepultura.
03:56e tinha várias fotos na lápide.
04:00E eu fui procurar a foto dela e não estava.
04:04Me deu vontade de perguntar para a família, mas eu não quis causar constrangimento, então eu preferi ficar calada.
04:10Minha função é que eu sou zeladora de zelotona.
04:14Tenho sepultura que eu faço com atenção, com meus freguês, né?
04:17E me contratam.
04:18Tenho um que já tem seis anos, né?
04:21Seis anos que eu tenho zelando para essa pessoa.
04:23E eu gosto de trabalhar aqui, né?
04:26Porque é um dinheirinho que eu ganho.
04:28É um extra, né?
04:29Não somos contratados pela prefeitura.
04:31A gente tem zeladores autônomos.
04:34Porque a gente tem um...
04:35Nesse espaço que eles cederam para a gente trabalhar, né?
04:39E faço manutenção em jardineira, né?
04:44Como essa daqui.
04:45E campo como essa, entendeu?
04:47Mas eu gosto de estar aqui.
04:50É um local calmo, né?
04:53Que a gente não vem também todo dia.
04:55Se a gente dizer que a gente está todo dia aqui, a gente está mentindo, entendeu?
04:58Eu venho, acho que, quatro dias na semana, estou aqui.
05:01Quando eu não estou no outro trabalho, estou aqui.
05:04Eu trabalho com dois tipos de sepultura.
05:08Jardineira, que é essa daqui.
05:10Essa daqui é uma jardineira, entendeu?
05:11Eu tenho seis sepultura jardineira.
05:15E as outras são mais campas, entendeu?
05:17Que são essas daqui.
05:18Mas o que tem mais cuidado, o que eu tenho mais cuidado é com essa daqui.
05:23Por quê?
05:24Essa daqui está bonita, né?
05:26Está bem bonita.
05:27Então, porque está sendo tratada dela.
05:30Agora, se você ver uma que não esteja assim,
05:33porque a gente não está fazendo manutenção nela, entendeu?
05:37Mas essa está bonitinha.
05:39A moça cuida, a zeladora cuida dela, né?
05:42Então, o freguês dela paga todo mês.
05:45É ela para cuidar dessa sepultura.
05:47De longe, eu tenho quatro freguês aqui.
05:51Não moro aqui.
05:52Moro longe.
05:53Mas daqui, eu tiro foto e envio para ela.
05:57E dela, todo mês, ela manda o meu dinheiro.
06:01Ela envia para mim, entendeu?
06:02Como agora.
06:03Agora teve um que fez o pagamento.
06:05Ele não vem aqui, entendeu?
06:07Eu não sei nem onde ele mora.
06:09Vou fazer o quê?
06:10Um ano que eu estou zelando essa sepultura do pai dele.
06:13Mas ele já enviou o meu dinheiro aqui, entendeu?
06:15Então, essa ferramenta é muito útil, muito bom para a gente, para os zeladores, né?
06:21Porque dá para você fazer a limpeza da sepultura do meu pai?
06:25Você manda foto?
06:26Sim.
06:27Tira o foto e envia o foto só.
06:29Quanto é, Gina?
06:30Poxa, freguês.
06:32Olha, ela está muito suja.
06:34Pode ser 100 reais?
06:35Pode fazer a limpeza no finado, eu estou lá.
06:38Às vezes, nem vem no finado.
06:39Só tira o foto, limpa, antes e depois, né?
06:42Suja.
06:43Aí, tira o foto, limpa, envio para ela.
06:45Ela faz o pagamento, nem vem aqui.
06:46Uma atriz que eu venho em mim, sabe?
06:49Sim.
06:50E a pessoa está chorando, né?
06:53Muita coisa, mas não tem vento aqui, olha.
06:56Lembra que a pessoa, olha, quando uma pessoa morre, aí aquela pessoa chora, grita, com vontade
07:03de viver, entendeu?
07:04A gente não trata a pessoa, tá entendendo?
07:07Aí, depois vem chorar, olha, para tratar ela bem, entendeu?
07:10Não devia ser, entendeu?
07:12Aí, depois que morre, fica chorando.
07:14Aí, depois que morre, fica chorando.
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