Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 3 meses
Entre outras produções, Bodanzky dirigiu com Orlando Senna o filme ‘Iracema - Uma Transa Amazônica’, de 1974, que foi censurado pela Ditadura Militar e revelou o drama social ao longo da rodovia que corta a região.

Reportagem: Ismaelino Pinto
Op. de Corte: Natália Bemmuyal
Edição: Bia Rodrigues (supervisão: Tarso Sarraf)

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Olá, está no ar o Manguerosamente. Se você quiser ouvir falar de cinema documental no Brasil e no
00:12mundo, você vai falar de Jorge Bodansky. Se você quiser falar da Amazônia Real no cinema, você vai
00:19falar de Jorge Bodansky. E se você quiser ouvir falar de um filme seminal para o cinema brasileiro
00:25no cinema mundial, nas listas dos melhores de todos os tempos, você vai falar de Jorge Bodansky. Nós
00:32temos a honra, eu tenho a honra principalmente, de estar aqui com Jorge Bodansky, um dos maiores que
00:38a gente pode ter documentarista. Tudo bem, Jorge? Tudo bem, obrigado pelo convite. Prazer enorme ter
00:44que estar aqui com você, que você arranjou aí um tempinho nessa mostra. Eu quero te fazer a primeira
00:49primeira vez que você viu a Amazônia, que você está na Amazônia. Em que situação?
00:55Foi em 68. Eu era fotógrafo freelancer da revista Realidade, uma revista da editora Abril, que fazia
01:03matérias bastante ousadas para o período da ditadura. E mandaram um repórter e eu como fotógrafo para a
01:13cidade de Paragominas fazer uma matéria que acabou não sendo publicada, dinheiro falso, mas a gente chegou aqui
01:18a Belém. Em Belém pegamos um pequeno avião que foi para Paragominas, na Belém-Brasília, que na época
01:24não tinha aeroporto. Então o avião pousava na própria estrada, né? Nos deixou lá e o repórter me deixou
01:30esperando num posto de gasolina que tinha lá na beira da estrada. A cidade era praticamente um lugar de
01:38abastecimento, né? Lanchonete, borracheira, aquelas coisas. E o repórter sumiu, foi procurar a matéria e me
01:46deixou solto. Geralmente os repórter se esquecem do fotógrafo, né? Sim, sim, sim. E aí o fotógrafo tem
01:53que inventar o que fazer. Quando voltar, tem alguma coisa para mostrar, né? E era bem isso também. Ele me
02:00esqueceu no posto de gasolina. Ficamos uns dois, três dias eu esperando ele tentar achar a matéria que
02:06acabou não acontecendo. Observando o que estava acontecendo lá, né? Durante o dia era um posto de
02:11abastecimento normal, né? E à noite esses mesmos personagens se transformavam num grande bordel, né?
02:19Então os choferes traziam as meninas aqui de Belém, muitas de menor idade, e lá trocavam de caminhão.
02:27Era um entreposto mesmo, né? E iam para a vida, né? Na estrada. Eu pensei, se um dia eu contar a história
02:36dessa estrada, vai ser através desses dois personagens, de um chofer de caminhão e de uma menina que se
02:42prostitui. Isso foi a semente do Hiraceno, mas naquela época eu nunca tinha dirigido um filme ainda,
02:47foi em 68, né? Aí foi só em 74, 1974, que eu consegui convencer o produtor da televisão alemã
02:56para fazer essa história.
03:02Eu não sou índia, não.
03:03O que que tu é? Tu é branca?
03:05Sou.
03:06Filho de inglês?
03:07De inglês não, mas de brasileiro.
03:11E aí nasceu o Hiracema, né? Uma trans-amazônica.
03:14O Hiracema nasceu, na realidade, nasceu em Paragominas.
03:16Como é que surgiu essa história desse título aí, uma trans-amazônica? O que foi isso?
03:21Primeiro tem que saber o Hiracema, né? Havia dois cinemas aqui, o Nazaré e o Hiracema.
03:26Lembra?
03:26Sim, sim, sim.
03:27E eu queria dar o nome de mocinha, de mulher, né? As meninas, muitas chamavam Nazaré e
03:33Hiracema, era o nome mais popular.
03:35Sim.
03:35Mas o Nazaré é muito religioso e tal, vamos pegar Hiracema, né? E aí colou o Hiracema,
03:41né? E eu descobri muito depois que Hiracema é o anagrama de América.
03:45Olha.
03:46E a trans-amazônica, eu queria, pô, porque a história se passa na trans-amazônica.
03:51Sim, claro.
03:51É. E aí, não sei como que surgiu a junção da palavra trans-amazônica, ter esse duplo
03:57sentido.
03:58Sim, tem um duplo sentido aí na história, né?
04:00Foi acontecendo.
04:01Agora, me diz uma coisa. Sim, você falou aí desse início de tudo, né? Como é que chegou
04:07até esse filme? Tem o Orlando Senna também no meio, né?
04:10Sim, tem uma longa história. Eu trabalhava como cameraman para correspondentes da televisão
04:16alemã. E com essa ideia, com essa história na cabeça que eu tinha, né? E numa oportunidade
04:22que eu tive de conhecer um produtor de um programa experimental da TV alemã. E eu contei
04:29essa história para ele. Olha, eu gostaria de fazer esse filme. E ele falou, olha, você
04:33nunca dirige um filme, a história é bacana, mas me traga uma coisa concreta para eu ver.
04:38Quando eu voltei para o Brasil, eu peguei o Orlando Senna, que era meu parceiro na época,
04:44né? Jornalista, refugiado lá em São Paulo. Ele tinha fugido da Bahia, perseguido pela
04:50ditadura. E o meu parceiro alemão, que era o Wolf Gauer, e a gente tinha uma produtora
04:55alemã.
04:55Wolf Gauer tem uma história em Belém do Pará, através da Casa de Estudo Germânico.
04:59Passou um tempo aqui, tem uma história de um equipamento que foi parado.
05:02Não, isso não é o Wolf, não. Isso é um outro Pedro Jungmann.
05:06Sim. Mas eram todos muito amigos, né? E aí nós saímos do meu Fusquinha, em 1972
05:17ou 73, não me lembro exatamente, de São Paulo, e fomos até Marabá. E em Marabá
05:24entramos na Transamazônica.
05:25De Fusca.
05:25De Fusca, os três de Fusca. Eu fui com uma câmera Super 8, que na época eu registrava
05:31tudo em Super 8. Era uma espécie de caderno de notas, essa Super 8 para mim.
05:35Orlando foi escrevendo, entrevistando as pessoas, e o Wolf foi fotografando.
05:41Fomos, imagine você, em 72, Marabá, era o centro da guerrilha.
05:46A gente sabia que tinha uma guerrilha, só não sabíamos que estávamos lá, que era em
05:51Marabá.
05:52E aí eu fiz essas imagens de Super 8, levantamos esse material, eu fui para a Alemanha e mostrei
06:01para o produtor da TV alemã as imagens Super 8. Simplesmente, eu não editei, porque eu
06:05não editava em Super 8. Muito ruim editar em Super 8. Então eu já editava com a própria
06:11câmera. Tinha uma câmera e fazia fusão, então eu já montava o filme ao filmar. Eu juntei
06:17os rolinhos, que deu mais ou menos uns 20 minutos, mudo, Super 8 era mudo naquele tempo,
06:23e mostrei para o produtor da TV alemã e ele ficou fascinado com as imagens. Ele disse,
06:27se você me colocar essas imagens no filme, eu produzo o filme para você. Eu falei, essas
06:32imagens estão aí, na beira da estrada. E assim ele topou arriscar fazer o filme.
06:37E era o meu primeiro filme de direção que eu tinha dirigido.
06:40Pois é, para chegar a esse roteiro, como é que é? Porque o filme, na verdade, acaba sendo um filme
06:44também documental, né? Ele mostra aquele nosso momento, o momento daquela Amazônia,
06:49dessa situação toda que você falou, dali do transporte, dos caminhoneiros, das meninas, né?
06:55Existe ali uma questão de prostituição também, né? Como é que você chegou a chegar até o
07:02Amazônia, o Iracema, no filme dele? Não, a história do Iracema eu vi na minha frente,
07:08em Paragominas, né? Tudo aquilo que eu vi, eu coloquei no filme, né? E desde saída,
07:18eu queria ter um ator para ter o controle da situação. Então, um ator para fazer o
07:23chofer de caminhão era mais fácil, porque o chofer de caminhão, até hoje, é a maioria
07:26do sul, né? Então, eu queria uma pessoa com sotaque do sul. E conheci o Pereio, né?
07:33O Paulo César Pereio, que faleceu ano passado. E ele era um ator que já tinha
07:38trabalhado comigo em outros filmes. E ele estava, naquela época, levando uma peça
07:45do Chico Buarque, chamado Roda Viva. E essa Roda Viva foi atacada pelos fascistas.
07:53E ele era um cara muito, assim, destemido. Falei, esse é o que era para o filme, né?
07:57E o grande problema foi a menina. Como que eu ia arranjar uma menina jovem, muito jovem,
08:03e com aparência de nortista, né? Caboclinha, né? O sul não ia achar nunca, né?
08:09E aí a gente veio, eu vim com Orlando Sena para Belém, ainda um tempo antes, para procurar
08:15a Iracema, né? E a gente não podia abrir o jogo, porque era ditadura militar, né?
08:20Não queria que as pessoas soubessem o que eu estava fazendo. E aí o chofer de táxi
08:28que nos levava, era um fusquinha táxi, eu ia, assim, para a porta de colégio, para agremiações,
08:37enfim, a gente ia procurando, né? E não achava. Estavam todas aí andando na rua, mas quando
08:42você ia falar, alguma coisa não funcionava. Aí o chofer disse, mas o que é que vocês
08:47estão procurando, né? E já era, nós tínhamos nos dado prazo de 10 dias. Eu vou ficar 10
08:52dias em Belém, se a gente não achar, vamos para Manaus, sei lá, fazer outra coisa, com
08:56Orlando Sena, né? E aí a gente resolveu abrir o jogo com o chofer, né? Pareceu que
09:01era legal. Eu falei, olha, a gente tá procurando uma menina assim, assim, para fazer esse papel.
09:04Eu falei, isso é fácil. Nos levou no programa de auditório no Sesc, do, como é que é o nome
09:10daquele radialista? Eu acho que era Paulo Ronaldo, era ele. Era Paulo Ronaldo, exatamente.
09:14Era um programa de rádio, tinha auditório, na verdade, e muito sucesso, né? A Edna
09:18descreve isso muito bem. E estavam lá, 100 meninas, né? Todas matando aula naquele
09:23auditório. Quando eu entrei com o Orlando Sena, eu vi dois olhinhos pretinhos lá no
09:27fundo. Eu falei, Orlando, aquela é Irassema. Aí o Orlando foi falar com ela, a gente
09:33trouxe ela, olha, não dissemos o que que era, a gente queria tirar umas fotos, estamos
09:38procurando um modelo e era próximo ao ver o peso, né? Então levamos a Edna para o
09:44ver o peso. Aí eu falei, olha, compra uma coisa legal para você e enquanto isso eu
09:48vou te fotografando. Aí logo no começo a Edna veio uma gritaria, uma pancadaria, todo
09:54mundo gritando, uma senhora batendo nela. E eu fotografando, falei, que coisa incrível,
09:59né? Aí eu falei, o que que tá acontecendo aqui? A Edna falou, é minha mãe, ela me pegou
10:04matando aula. Ah, tá. Quantos anos tinha a Edna? A Edna tinha 15 anos. E foi difícil
10:10convencer assim? Primeiro convencer a família, né? Não, não foi difícil não, porque a
10:18Edna, primeiro, claro que ela não queria, nunca tinha ido ao cinema, né? Não sabia o que
10:22era fazer cinema, né? Mas era uma menina inteligente, uma menina e a gente, a gente
10:28simpatizou muito, houve uma afinidade desde o início, né? E eu fotografei, mandei essas
10:33fotos para a Alemanha, o Wolf Kauer estava na Alemanha, o produtor do filme também, gostaram
10:38muito das fotos, ela é muito fotogênica, né? Então a gente imediatamente aprovou.
10:44Vai ser ela. Vai ser também amazônico também.
10:46E aí já conhecemos a mãe, né? Naquelas circunstâncias do ver o peso. E o irmão também,
10:55fomos no Juizado de Menores e uma produtora antes de sair, foi feito o contrato do Direitinho
11:00e, enfim, a gente teve confiança e escolhemos ela como a protagonista do filme.
11:08Agora, nessa época, como era que era driblar o governo militar, a ditadura, a censura,
11:14claro, também, né?
11:15Era complexo pelo seguinte, eu trabalhava como câmera para TVs estrangeiras e eu já tinha
11:22uma grande experiência de ir em situações perigosas e saber como lidar com isso, né?
11:28A primeira coisa é ser muito rápido, até as pessoas perceberem o que você estava fazendo,
11:32você já tinha feito, né?
11:35Então essa equipe pequena não aparecer o mínimo possível e ser muito rápido, né?
11:41Então foi essa forma de fazer cinema, né?
11:44Que eu trouxe da minha experiência jornalística, que eu utilizei no Iracema.
11:48Pois é, mas especificamente assim, não tinha abordagem assim?
11:51Vocês chegaram a ser perseguidos ou chegaram a ser vigiados?
11:57Não, não, não tanto vigiados não, mas a gente havia barreiras do Exército, né?
12:03Em todas as estradas, né?
12:04Porque ainda havia os resquícios da guerrilha, né?
12:07Situação muito tensa no entorno de Marabá.
12:10Nós filmamos na PA-70, né?
12:12Que é próximo a Marabá, uma região muito tensa.
12:15E havia de tempos em tempos, a gente se deparava com uma barreira do Exército.
12:20E eu tinha, era uma Kombi, a gente saiu de São Paulo com uma Kombi, vi tudo.
12:24E eu coloquei nas janelas da Kombi uma série de autorizações de tudo que eu conseguia,
12:28do Touring Club, da Sociedade de Amigos da Cinemateca, do Museu de Não Sei das Quantas.
12:34Tudo aí pra parecer muito importante.
12:35Vou me revalidar, né?
12:36É.
12:37E o soldado, coitado, eu olhava aquilo e achava, deve ser gente importante.
12:40Sim, sim, sim.
12:42E aí, numa dessas barreiras, o técnico de som era um alemão, que fumava muito.
12:48E ele trouxe da Alemanha, ele usava um isqueirinho, um bique pequenininho,
12:53que no Brasil não se conhecia esse isqueiro na época.
12:55E o soldado viu aquele isqueiro e ele disse, toma, fica com o isqueiro pra você, né?
13:01E ele ficou todo feliz da vida, mandou um rádio pra barreira seguinte,
13:05falou, ó, eles têm isqueiros.
13:06Então a gente chegava na barreira com um isqueirinho na janela, o cara, opa, e saía pra próxima.
13:12Mudança com o filme pronto, na verdade.
13:14Eu tô folclorizando um pouco.
13:16Claro que é uma situação de barra pesadíssima.
13:19A questão psicológica também deve ser muito forte, não?
13:22Você sempre paira uma ameaça, não?
13:24Porque, imagina, você tá com as latas do filme, né?
13:27O filme é feito em 16 milímetros, é filme negativo, não tinha vídeo na época, né?
13:32E esse negativo, ele não podia pegar muito calor, senão ele deteriorava.
13:36Então você filmava, guardava nas latas, tinha um isopor dentro da comp.
13:40E qualquer apreensão, qualquer coisa, não tinha cópia.
13:45É aquele negativo que tinha que ir pro laboratório, entende?
13:47Então o risco era muito grande.
13:48Alguém dizia, o que vocês estão levando aí, né?
13:52Mas...
13:52Pelo processo do filme, tipo assim, de que maneira você...
13:55As locações, por exemplo, de que maneira...
13:57As locações, isso é muito importante.
14:00As locações, a gente já conhecia as locações.
14:02A gente tinha feito essa viagem de pesquisa.
14:05Então a gente tinha uns assuntos que a gente queria tratar, né?
14:09Queimada, gado, ocupação irregular da terra, né?
14:13Prostituição.
14:15Indígena, né?
14:15Então a gente já sabia em que...
14:17Onde a gente poderia fazer o quê, né?
14:20E o Pereio, ele jogava o assunto, né?
14:23Provocava as pessoas em torno.
14:25E saía as conversas todas.
14:29A forma com que a gente fez o filme, ela não permitia uma repetição de cena.
14:38Porque senão os não atores começam a querer atuar, aí fica falso.
14:42Então a gente criava a cena, provocava a cena, dava certo, ótimo.
14:49Não dava certo, não repetia, ia pra um outro lugar e fazia o mesmo assunto de novo.
14:53E outra coisa, e aí o filme foi exibido no Brasil?
14:56Chegou a ser exibido no Brasil?
14:57Filme pronto?
14:58O filme pronto foi pro ao ar, na televisão alemã.
15:01Foi ao ar no...
15:02A primeira exibição foi na Alemanha?
15:04Não, o filme é um produto de TV.
15:07Ele não foi concebido pra ser produto de cinema.
15:10Ele foi feito nos padrões da televisão alemã, que era 16 milímetros.
15:14E passava o telecine, era feito na hora, ao vivo.
15:18E era quarta-feira, tarde, a noite, fevereiro, inverno na Europa, né?
15:26Eu falei, quem vai ligar a TV quarta-feira à noite, né?
15:30E havia um jogo muito importante no canal concorrente.
15:33Naquela época não tinha as TVs privadas, eram dois canais estatais.
15:38E falei, esse jogo vai matar o nosso filme, ninguém vai querer ver, vai chegar a ver o filme.
15:43Você estava lá?
15:44Eu estava lá.
15:46E na última hora houve uma nevasca e o jogo foi cancelado.
15:52Então quem ligou a TV viu o Iracema.
15:55Natureza é mãe coisa nenhuma, natureza é meu caminhão, rapaz, natureza é a estrada.
16:01Jurema.
16:03Meu nome não é Jurema, meu nome é Iracema.
16:06Iracema.
16:09E como é que foi esse momento pra ti, de ver o filme?
16:12Olha, é engraçado falar isso, não só pra mim, mas pros meus companheiros também.
16:20Como era um filme pra TV, era pra passar naquele programa da TV e morrer ali, né?
16:25Não se pensava em cinema.
16:27Não, nem em consequências, entende?
16:29Quer dizer, eu estava feliz da vida de ter exibido o filme.
16:32É como fazer o Globo Repórter, né?
16:33Vai lá, faz, aquela reportagem, morreu ali, entende?
16:36Depois, outras coisas acontecem.
16:40Mas saiu uma crítica no dia seguinte, no jornal em Munique, né?
16:46Chamando atenção pro filme.
16:48Essa crítica foi parar na França.
16:51E o Jean Rouch, que era um antropólogo, cineasta francês, muito conhecido,
16:57no qual, coincidentemente, eu me inspirei muito nele.
17:00Usamos o mesmo equipamento que ele usava, pra fazer som direto.
17:04Ele soube da existência do filme, pediu pra ver, a gente mostrou.
17:08E ele ficou entusiasmado com o filme, né?
17:10Ele imediatamente deu o que chama-se Pris-sadu, um prêmio da crítica francesa ao filme.
17:16E ele indicou o filme pra Cannes.
17:19Aí surgiu um outro problema.
17:21Nós fomos convidados pra Semana da Crítica em Cannes, né?
17:24Selecionado, no ano seguinte.
17:28Mas em Cannes só passava em 35 milímetros.
17:31E o filme foi feito em 16.
17:33Como ampliaram pra 35?
17:35Já existia esse processo de conversão.
17:38Já. Era caro, complicado.
17:39E não é todo laboratório que fazia.
17:41E o fator complicador é o seguinte.
17:43Quando você faz um filme em 16, prevendo ampliação pra 35,
17:48você tem banda A e B.
17:50Então, quando você faz os cortes, um cobre o outro.
17:53Então, você não percebe o corte.
17:56Mas como não foi previsto ampliar, ele foi feito com uma banda só.
18:00O filme foi simplesmente colado um plano no outro, diretamente.
18:04E nenhum laboratório queria aceitar a ampliação sem a banda A e B.
18:09Eu consegui um laboratório na Inglaterra, que topou fazer,
18:12dentro dos limites financeiros que eu tinha.
18:15Eu fui pra lá, fiz.
18:16A ampliação foi muito bem feita.
18:18Isso já pro convite de Cannes.
18:19É, pra poder passar em Cannes.
18:21E essa ampliação foi tão bem feita que foi a base do filme
18:26até recentemente, quando o filme foi restaurado.
18:29Quando o filme foi restaurado.
18:30Que, aliás, passou por um processo de relançamento, né?
18:34O filme foi todo restaurado.
18:35É, o restauro é interessante.
18:37O que é, na verdade, o restauro de um filme?
18:39Porque agora a gente tem visto muita coisa a voltar, né?
18:42Filmes brasileiros, né?
18:43Carlota Joaquina, tem alguns filmes do Cacá também, né?
18:48Como é que é esse restauro?
18:49O restauro é quando você pega os originais do filme e redigitaliza isso, né?
18:57Dentro da tecnologia que tem hoje, né?
18:59Que permite corrigir arranhões, corrigir a cor, aperfeiçoar o som.
19:04Mas isso é muito trabalhoso e muito caro, né?
19:06Isso é feito em lugares muito especializados, como a Cinemateca de São Paulo, o restauro.
19:12Alguns laboratórios, algumas produtoras têm condições de fazer o restauro, né?
19:17No caso do Iracema, a gente conseguiu chegar aos originais do filme na Alemanha.
19:23Ao negativo original e, o que é muito importante, ao som magnético original.
19:29E aí, então, foi um restauro realmente 100%, né?
19:33Voltando lá pra trás, o filme vai pra Cannes.
19:35O filme já pronto, telecinado, né?
19:38Já passado, ampliado.
19:40Como é que foi?
19:42Olha, num primeiro momento, o Cannes não tinha esse auê que tem hoje.
19:49Era uma coisa menor.
19:50Havia a exibição principal, né?
19:53Com os atores, fotógrafos.
19:55E havia exibições paralelas.
19:57Esse que ano?
19:58Foi em 76.
20:01O filme saiu em 75 na TV e em 76 foi pra Cannes.
20:06Auge da ditadura militar, né?
20:08Auge da ditadura militar.
20:09Época severa, né?
20:10Os militares, depois que passou na TV, os militares se deram conta do que estava acontecendo, né?
20:16O adido militar da Embaixada Brasileira na Alemanha mandou um telegrama pra televisão alemã
20:24dizendo que esse filme não era brasileiro.
20:26Ele não podia apresentá-lo como filme brasileiro.
20:28É claro que ninguém deu bola pra isso, né?
20:30Sim.
20:30Mas onde o filme ia, o Itamaraty mandava um telegrama dizendo que o filme não é brasileiro.
20:35Olha só.
20:35Porque ele não foi revelado no Brasil.
20:37Ele foi finalizado na Alemanha.
20:39Mas estava falando de Cannes.
20:43É da exibição em Cannes.
20:45Eu quero que você me fale desse momento.
20:47Você estava lá, claro.
20:49Eu estava lá.
20:49O Orlando Senna também.
20:50A Conceição Senna.
20:51Passou na quinzena dos realizadores?
20:52Não.
20:53O que passou na quinzena dos realizadores foi o nosso segundo filme, o Gitirana.
20:57Mas o Irassema passou na Semana da Crítica, que é, digamos, a segunda amostra mais prestigiada
21:02de Cannes.
21:03Tem a principal e a Semana da Crítica, que já era naquele tempo num cinema menor, num
21:07cinema do lado.
21:09E eu mesmo fazia os xerox dos cartazes, pendurava no poste pra chamar a atenção do filme, colava
21:15algumas fotos.
21:17Um amigo meu fez o cartaz no Brasil.
21:19E Cannes nessa época era essencialmente cinema também, né?
21:21Não é esse glamour que é hoje, né?
21:24Não, era glamouroso na seleção oficial, né?
21:29Mas não tinha esse aoe todo que tem em torno, não tinha isso.
21:35E o Irassema, como não era a amostra principal, estava meio que jogado num canto lá, né?
21:40Mas a repercussão foi muito forte, né?
21:42Saiu os principais jornais, fizeram ótimas críticas ao filme, o Le Monde...
21:49A Amazônia tem, então, ainda um território muito desconhecido, né?
21:53Principalmente fora do Brasil.
21:54É, não, ninguém associava muito a isso a Amazônia, assim.
21:58O que mais chocou as pessoas, desde o início, é aquela cena da queimada.
22:04Ninguém imaginava que a floresta podia pegar fogo, né?
22:07Desse jeito.
22:08E essa cena de queimada do filme, que tem quase um minuto, é um plano inteiro, assim,
22:14até hoje ela é extremamente marcante, né?
22:17Ainda quando as pessoas se referem ao filme, dizem, ah, eu me lembro da cena da queimada.
22:21É a primeira imagem que fica na memória das pessoas.
22:25Imagine, 50 anos depois, continuam queimando a Amazônia e ainda as pessoas ficam chocadas
22:30com uma imagem de fogo.
22:31E a repercussão do filme, assim, nesse momento?
22:34A partir daí, qual foi a carreira do filme?
22:36Ah, a carreira foi fantástica, né?
22:38Porque o filme, ele provocou depois várias questões, inclusive, cinematográficas, pela
22:44linguagem dele.
22:46A mistura de ficção com a realidade, o docudrama, que a gente chama, né?
22:54Era uma novidade na época, né?
22:56Quem tinha feito o docudrama, mas não de uma forma tão, assim, ampliada como eu fiz,
23:01era o Jean Rouch, né?
23:02Foi aí, vendo os filmes do Jean Rouch, que me deu coragem de fazer, encenar com não-atores
23:09e misturar atores com não-atores, né?
23:12No caso, era o Pereio, o ator, né?
23:15A Edna não era atriz, né?
23:17A Edna contrassinava com o Pereio, mas era um improviso total.
23:22Era uma menina muito inteligente, ela sabia o papel que ela estava fazendo, sabia que ela
23:26não era uma prostituta, mas que estava representando uma prostituta, ela sabia distinguir isso, né?
23:31E aconteceu uma cena muito engraçada, logo no início da filmagem, o primeiro plano
23:38que eu tinha que fazer com o Pereio, logo no início do filme, o caminhão sai de uma
23:42serraria e o Pereio está lá na boleia do caminhão e eu falo, Pereio, toca o caminhão,
23:47olhando para cima, ele olha para mim e não faz nada.
23:50Eu com a câmera ali, esperando.
23:52E ele, mas Pereio, toca, vai em frente, eu preciso do caminhão andando.
23:57Ele olhando, olhando para mim, não falando nada.
23:59Mas Pereio, o que está acontecendo?
24:00Ele falou, eu não sei guiar, eu não tenho carteira.
24:04Eu falei, mas Pereio, como é que você aceita fazer o papel de chofer de caminhão e não
24:09tem, não sabe guiar?
24:12E ele falou, se eu tivesse falado para você, você não teria me contratado.
24:17E é verdade.
24:18Então, todas as cenas do Iracema, onde aparece o Pereio no caminhão, são fakes.
24:24É outra pessoa que está guiando, no caso era o dono do caminhão mesmo.
24:28Ficou ótimo, ninguém percebe.
24:29Até então, o filme não tinha sido exibido no Brasil.
24:34Já tinha passado na Alemanha, passou em Cannes.
24:36Não, logo no início, a gente trouxe uma cópia de 16 milímetros aqui para o Brasil.
24:43E projetava com um pequeno projetor, o Bell Hall, que eu tinha, projetava em casa, em casa dos amigos.
24:49Aí o pessoal começou a ver o pessoal de cinema e teve uma repercussão muito grande no meio.
24:57Sim, sim.
24:58E aí havia, na época, uma coisa muito interessante, um movimento cineclubista muito ativo.
25:05E era um cineclubismo político mesmo, ativista.
25:10Sim.
25:10E eles tinham uma capilaridade muito grande.
25:13No Brasil inteiro tinha cineclubes.
25:14Tinha até uma distribuidora chamada Dina Filmes, que distribuía os filmes em 16 milímetros.
25:19Acho que o Bell Hall era um cineclubes dirigido por um pesquisador chamado Pedro Vereano.
25:23Sim, mas o Pedro Vereano, vou contar a história depois.
25:25O Pedro Vereano foi uma pessoa fundamental para a realização do Iracema.
25:29Eu conhecia ele justamente como cineclubista.
25:33Quando eu vim, antes de fazer o filme para cá, eu pedi ajuda dele.
25:37Cineclube Bandeirante.
25:38É, era no quintal da casa dele.
25:40Isso.
25:41Ele era médico, né?
25:42Sim.
25:43Pedro Vereano, Direito Álvares.
25:45Falecido ano passado.
25:46Sim, infelizmente.
25:47Grande Pedro.
25:48Grande Pedro.
25:49Mas o Pedro foi uma pessoa chave para a realização do Iracema aqui.
25:54Mas voltando ao filme no Brasil.
25:56Sim, aí o filme começou a circular.
25:58Lá, em 16 milímetros, a gente trouxe mais algumas cópias da Alemanha, acho que três
26:03ou quatro.
26:04E ele teve uma ampla circulação no movimento cineclubista.
26:09Ele estava censurado para o cinema, mas a censura não tinha.
26:14Já existia essa censura em cima dele.
26:16A censura desde o início, porque os militares falaram que esse filme é brasileiro.
26:19Não passa, exatamente.
26:21Não tem certificado de produto brasileiro.
26:23Enfim, nem queriam nem saber do filme.
26:25Para cinema, proibido mesmo.
26:30Mas os cineclubismos, eles burlavam a censura.
26:33Então, ele foi muito visto.
26:36O Brasil inteiro, anos e anos e anos.
26:38Porque era toda uma geração mais velha.
26:40Todos viram em cinema, em cineclube.
26:42Ele chegou mais tarde depois, sete anos depois, ele foi finalmente liberado pela censura.
26:52Em 1980, quando ele passou no Festival de Brasília.
26:57A gente tentava assim, mas a censura...
26:59Brasília, aliás, é o lugar ideal para ter essa exibição.
27:02Ele foi convidado, aí o filme passou, a Edna ganhou o prêmio de melhor atriz, o filme ganhou o prêmio de melhor filme, a gente ganhou direção.
27:11Enfim, o filme bateu todos os prêmios daquele ano.
27:13E também foi um festival muito confuso, não tinha dinheiro.
27:18Brasília.
27:19Brasil, o Festival de Brasília daquele ano, uma briga política.
27:21Não sei o que estava havendo, não tinha dinheiro nenhum.
27:24Passagem para ninguém.
27:25E aí eu fui com o Wolf e nós saímos de também, do meu carro, de São Paulo, para ir a Brasília, para poder participar.
27:33Orlando Senna também, para poder participar da exibição do filme em Brasília.
27:37Foi aquele ao e, foi muito bem recebido.
27:40Mas uma confusão no dia da premiação e aconteceu o seguinte.
27:45A Globo soube na véspera que a Edna ia ganhar o prêmio.
27:49Então eles foram na casa vizinha de onde ela morava e filmaram ela, ela estava lavando, ela não era lavadeira,
27:57mas ela estava lavando roupa no quintal da casa, coisa mais normal do mundo.
28:02E aí sai o prêmio e a manchete no Jornal Nacional, lavadeira, ganha prêmio de melhor atriz.
28:08Foi isso que chateou ela profundamente.
28:11E me diz uma coisa, qual a repercussão na época do filme da imprensa?
28:17O que você falou do filme?
28:18Não, a imprensa repugnou muito.
28:20Mas foram sempre positivas.
28:22Sim, sim, nós tivemos uma imprensa muito boa.
28:25Porque ali, nos anos 80, já tinha um efeito ali, né?
28:28Não, a imprensa sempre...
28:31Era um prato quente para a imprensa, né?
28:33Porque era uma oportunidade de poder chamar atenção para os males da ditadura, né?
28:39E a questão da ocupação da Amazônia, as pessoas não sabiam o que estava acontecendo aqui.
28:44A propaganda oficial era um trator derrubando uma árvore.
28:47Sim, a trans-Ambasônia que acendeu a pele em Brasília, né?
28:50Então as pessoas achavam que não, o progresso está chegando lá, né?
28:53Estamos tirando a floresta, estamos implantando agrovilas.
28:58Ninguém pensou que lá tem indígenas, que tem quilobolas, que tem ribeirinhos que moram lá, né?
29:03Isso não foi levado em conta.
29:04Engraçado que o filme tem uma coisa também premonitória, né?
29:07Porque a gente vê o que está...
29:08Vocês viram aquilo lá acontecendo, na verdade.
29:11Isso continua até hoje, né?
29:12É uma realidade incrível isso.
29:14Depois de 50 anos, o filme tem uma contemporaneidade ali muito forte.
29:18É uma triste contemporaneidade.
29:20É uma triste contemporaneidade.
29:20Lembra a gente imaginar que tudo, sem exceção, absolutamente tudo que o filme mostra...
29:25Contrabando de madeira, desmatamento, gado...
29:30Prostituição.
29:31Prostituição, trabalho escravo, invasão de terra, jaguços matando os poceiros.
29:40Tudo isso estava...
29:43Floresta virando pasto, né?
29:45Está tudo lá.
29:46Está tudo hoje aí.
29:48De uma forma mais intensa, né?
29:52Vamos dizer assim.
29:53Agora, nesse seu filme, você está aqui para uma mostra, né?
29:56Que é uma mostra que se chama Amazônia, né?
29:58Memórias para o Futuro, né?
30:00Confio com vários filmes que tem como tema Amazônia, enfim.
30:04Tem uns temas relacionados a esse assunto.
30:08Como é que você vê hoje, por exemplo, o teu filme,
30:10que você vai exibir, né?
30:12É o Olhar Inquieto, né?
30:13Esse bodanche do Olhar Inquieto continua, né?
30:16Continua, né?
30:17Que vem lá de trás.
30:18Conta para a gente uma história.
30:19Tem aí uma imagem, né?
30:21Você resgatou uma imagem.
30:22O filme passou, não é tudo verdade, né?
30:24É.
30:26Quando o meu material foi digitalizado no Instituto Moreira Salles,
30:31meu material analógico, né?
30:33Super 8, os filmes, as fotos...
30:36Está tudo lá.
30:37Está tudo lá.
30:38E não os filmes.
30:41Os filmes estão na Cinemateca de São Paulo.
30:43O Super 8 e as fotos estão no Instituto Moreira Salles.
30:48Ano passado fizeram uma exposição do meu trabalho,
30:50juntando meu trabalho de cinema com o de fotografia.
30:53E, paralelamente a essa exposição,
30:55teve uma amostra dos meus filmes, né?
30:57E para essa amostra,
30:59eles restauraram grande parte do meu acervo, né?
31:03Cinematográfico e fotográfico.
31:05Ah, você perguntou o filme que eu estou mostrando aqui,
31:09O Olhar Inquieto.
31:10Exatamente.
31:11E no meio desse material que foi restaurado,
31:14redigitalizado, vamos dizer assim,
31:16principalmente o Super 8,
31:18que eu filmava muito o Super 8, né?
31:21Isso ficou esquecido, né?
31:24Para mim mesmo, né?
31:25Também eu sabia que eu tinha muito Super 8,
31:26mas eu não tinha a menor ideia do que eu tinha feito.
31:28Aí surgiu uma imagem que me intrigou muito.
31:30Você ainda é repórter cinematográfico, né?
31:32Você era o fotógrafo, né?
31:34Eu sempre fui, né?
31:36Até hoje eu...
31:38Até hoje você está na função.
31:39Sim, sim.
31:41E aí apareceu uma imagem que me intrigou muito.
31:45Sobrevoo que eu fiz em cima de uma tábua indígena,
31:48e o avião circulou e saíram os indígenas lá de dentro
31:54tentando flechar o avião.
31:56Isso foi feito num contexto de uma reportagem
31:59que eu estava fazendo para a TV alemã
32:00de um outro assunto.
32:02Eram projetos da Universidade de Humboldt
32:04que acabaram acontecendo, enfim.
32:07E aí o piloto, por acaso, fez esse sobrevoo
32:10para nos mostrar como curiosidade,
32:11ele disse, olha, esses indígenas aí
32:13não foram contactados ainda.
32:15A gente não sabe quem são.
32:16Isso, não?
32:17No Mato Grosso.
32:19No Mato Grosso, em Aripuanã,
32:22no início dos anos 70, 72 ou 73.
32:27E essa imagem, como eu fiz em Super 8,
32:30eu não fiz em 16,
32:31porque não era a pauta da televisão alemã,
32:33foi uma coisa que aconteceu,
32:35e eu registrava tudo que eu via, né?
32:38Ficou esquecido.
32:39Quando apareceu a imagem, eu falei,
32:41puxa vida, eu quero saber quem são esses indígenas.
32:44Vamos achá-los, né?
32:45Vamos atrás deles.
32:46Então essa é a história.
32:47E daí nasceu o filme, né?
32:48O filme nasceu também numa circunstância engraçada,
32:54porque é uma produção de Manaus,
32:56da co-diretora Liliane Maia,
32:59que é uma produtora de Manaus.
33:02E ela tinha um edital,
33:03um pequeno edital local,
33:05do estado do Amazonas,
33:07e ela queria entrar com um projeto,
33:09não sabia que projeto queria colocar,
33:11então ela estava procurando na prateleira dela
33:13um tema para apresentar para o edital.
33:16E ela disse que literalmente caiu o livro,
33:19um livro que o Carlinhos Matos,
33:21crítico de Cidiba, fez sobre o meu trabalho,
33:24caiu no pé dela.
33:24Ela falou, ah, é isso, vamos filmar o livro, né?
33:28E assim surgiu a ideia do filme.
33:30É, nesse documentário,
33:31a gente acha que você vai contar um pouco ali,
33:33que você vai contar a sua história toda,
33:35a sua biografia,
33:35mas não, isso é um momento, né?
33:37Que você acaba narrando em primeira pessoa,
33:39mas enfim, contando um pouco da tua história, né?
33:42Tem muita história ainda para contar, né, Buda?
33:44Muita, tudo foi surgindo aos poucos, né?
33:48Aí, ela sabia, não sabíamos direito
33:52o que a gente queria fazer, né?
33:54Aí eu perguntei para a Liliane,
33:56Liliane, mas o que você quer fazer?
33:57Ela disse, ah, eu gosto do jeito que você filme,
33:59eu queria te mostrar filmando.
34:01Eu falei, ótimo, eu quero fazer um filme,
34:03você quer me mostrar filmando,
34:04vamos juntar as nossas duas cabeças
34:06e vamos fazer esse filme.
34:08E o que eu queria fazer
34:10era exatamente ir atrás dessa imagem,
34:12quem são esses indígenas, né?
34:14Então, o filme é uma procura, vamos dizer,
34:17do que aconteceu nessa região,
34:21com esses indígenas,
34:21o que aconteceu com o projeto Rumba, etc.
34:24E ela me filmou aquilo que eu estava filmando, entende?
34:27Então, o filme intercala essas duas visões,
34:30a dela mostrando o meu trabalho
34:31e eu correndo atrás dessas imagens.
34:34E agora, nessa volta,
34:3550 anos depois do Iracema, né?
34:37O filme agora foi redescoberto,
34:41que nunca teve escondido,
34:42mas foi descoberto de uma maneira ou de outra, né?
34:44É, ele entrou no cinema...
34:45Suscitou muita agitação, na verdade, né?
34:49Sim, bastante.
34:50Porque o filme já,
34:51todo mundo conhece,
34:51mas pouca gente,
34:52só a geração mais velha que viu, né?
34:54As gerações mais novas não viram o filme, né?
34:57Então, agora ele está,
34:58ele finalmente foi para o cinema,
35:00como se deve mesmo,
35:02projeções de ótima qualidade,
35:04som muito bom.
35:05E ele, justamente por causa dessa temática não resolvida,
35:09é um filme que parece que foi feito hoje.
35:11Você é um cara que conhece muito a Amazônia, né?
35:13Já contou essas histórias,
35:15como é que você vê esse momento hoje em dia?
35:17Como é que você vê esse momento da Amazônia,
35:20com todo, enfim,
35:21com toda essa figura, né?
35:24Que se passa para o mundo inteiro de uma floresta,
35:26de um lugar que deve ser perdoado,
35:29que deve ser...
35:29Primeiro, eu não conheço a Amazônia,
35:32eu conheço alguma coisa da Amazônia.
35:33Uma coisa assim, nós todos, né?
35:35O cara que conhece a Amazônia...
35:37Sim, sim, sim.
35:38...tá inventando.
35:40Mas o...
35:42As pessoas também me perguntam assim,
35:43mas o que mudou em 50 anos, né?
35:45Como é que você enxerga?
35:46Qual é a diferença, né?
35:48Eu falei, tem uma diferença muito grande sim.
35:51Na época, o que está acontecendo hoje
35:54é que a sociedade civil está muito organizada, né?
35:57Há 50 anos atrás, a sociedade civil
35:59não tinha representatividade, né?
36:01Então, hoje, você, em qualquer comunidade que você vai,
36:04seja indígena, quilombola, ribeirinha,
36:06por mais perdida que ela esteja,
36:09tem a sua liderança,
36:11sabem o que querem, né?
36:13E isso é um dado novo.
36:16E essas pessoas estão atuando hoje,
36:18estão se articulando,
36:19principalmente usando as novas mídias, né?
36:22Estão bem articulados, né?
36:23E isso é a grande novidade.
36:27Então, eu imagino
36:28que se houver alguma mudança na Amazônia
36:31nos próximos anos,
36:33ela não vem de governo,
36:34ela vem da sociedade civil.
36:37Você acredita nisso?
36:38Eu acredito nisso.
36:39Agora, outra coisa,
36:41a gente está aí na véspera da COP, né?
36:43É.
36:43E aí a gente vai ter várias discussões e tudo mais, né?
36:47Como é que você vê esse momento para o Brasil,
36:48na verdade, com relação a essa questão ambiental?
36:50Essa questão é uma questão mundial,
36:54prioritária, né?
36:56Você tem um lado das pessoas que se preocupam
36:58e o outro lado dos negacionistas, né?
37:01Que acham que não é isso, né?
37:02Isso vai estar representado na COP, claro, né?
37:06Mas a Amazônia tem um papel importantíssimo nisso.
37:10E o Brasil tem uma responsabilidade muito grande
37:13por conter a maior parte da Amazônia.
37:16Então, eu estou muito curioso
37:20para ver como é que vão lidar com essa história, né?
37:23Porque a gente tem uma ala, vamos dizer,
37:29econômica muito forte, né?
37:32Que é do agronegócio, da indústria do petróleo,
37:35que evidentemente tem uma visão diferente, né?
37:37De ocupação da Amazônia.
37:39E vai entrar em conflito com a sociedade civil, com certeza.
37:42Como é que você, por exemplo,
37:43como é que nasce um projeto de um documentário agora?
37:46Com você já tendo feito outras coisas?
37:48Como é que agora você se debruça sobre um tempo
37:51e diz, bom, agora eu quero um filme.
37:52Você conta a história desse último agora, né?
37:54Do olhar, né?
37:57Como é que nasce essa história?
37:58As coisas sempre nascem, engraçado, no meu caso,
38:02sempre em função de uma coisa que eu já fiz.
38:05Uma coisa que eu faço, me leva a outra,
38:07me leva a outra, me leva a outra.
38:08Então, no olhar, foi uma imagem que eu produzi, né?
38:12Um outro filme que passa aqui nessa mostra também,
38:14que é a Amazônia Nova Minamata,
38:16que discute a questão do envenenamento por mercúrio
38:20nos rios da Amazônia.
38:21Que é uma questão, aliás, fundamental, né?
38:23É uma questão gravíssima, né?
38:25Porque impacta tudo, né?
38:27Não só a questão ambiental, como também impacta.
38:29É a questão de saúde, né?
38:33E essa contaminação não é localizada,
38:35ela está espalhada praticamente em todos os rios.
38:37Sim, sim.
38:38Mas esse tema, por exemplo,
38:41apareceu quando eu estava fazendo um trabalho,
38:43uma série sobre a transamazônica,
38:45chamada Transamazônica,
38:47o Estrada para o Passado, para a HBO,
38:49em 2016.
38:52E quando a gente passou em Jacareacanga,
38:57que fica na transamazônica,
38:58havia uma reunião de caciques,
39:03uma grande reunião dos mundurukus.
39:05A gente entrou,
39:06era uma reunião que estava discutindo a questão de barragens
39:09que queriam construir no Rio Tapajós,
39:11que acabaram construindo.
39:13E tinha um médico ali, né?
39:15E eu achei estranho o que é que um médico estava fazendo ali, né?
39:18Comecei a conversar com ele,
39:19muito simpático,
39:20e ele me disse,
39:21olha, eu vim aqui porque houve uma demanda
39:23fora do comum
39:24de cadeira de rodas para a criança.
39:27Eu vim pesquisar por quê.
39:28Já desconfiava que podia ser o mercúrio,
39:30mas ele não tinha a prova, né?
39:33E aí ele disse,
39:34olha, os sintomas que a gente está vendo aqui
39:36são os mesmos que aconteceram
39:38na Baía de Minamata, no Japão,
39:40nos anos 50,
39:42onde uma indústria química
39:43derramou mercúrio na Baía,
39:45os pescadores pegaram os peixes
39:47envenenados pelo mercúrio
39:49e, por sua vez,
39:51a população sofreu danos neurológicos
39:55e os danos neurológicos
39:57são irreversíveis, né?
39:59Por princípio.
40:00E não se sabia na época
40:03que o mercúrio é que provocava isso.
40:05Então eles pesquisaram,
40:06viram que era o mercúrio
40:07e isso foi uma comoção muito grande no Japão
40:10porque milhares de pessoas
40:12foram afetadas por isso.
40:13e eles fizeram uma grande luta política
40:18no Japão,
40:18conseguiram fazer com que a fábrica
40:21mudasse o seu sistema
40:23para não jogar mais mercúrio
40:24no fundo da Baía,
40:25despoluíram a Baía de Minamata,
40:27hoje se voltou a pescar lá, né?
40:30E eu achei,
40:34com essa observação do médico,
40:38que é o doutor Gênes,
40:40que é de Santarém,
40:42que essa comparação
40:44de você poder mostrar
40:45um mal que é invisível, né?
40:48Que existe, está aí,
40:50mas ele não aparece,
40:51não tem cheiro,
40:51não tem cor,
40:52as pessoas não acreditam
40:53que estão contaminadas.
40:55Se você mostrar
40:56as consequências
40:57dessa contaminação
40:58numa população
40:59que já foi contaminada,
41:01é uma forma
41:02de você poder
41:02enxergar o futuro
41:04se você não fizer nada aqui, né?
41:05Então isso foi
41:06o motivo desse filme.
41:08Então, o que você perguntou?
41:09De onde surgem as ideias?
41:11As ideias, elas vão...
41:13Uma vai levando a outra.
41:14Você apresenta, inclusive,
41:15esse filme agora,
41:16você estava me falando antes?
41:17Você vai apresentar?
41:18Esse filme está sendo apresentado aqui,
41:20já foi apresentado ano passado,
41:22na Mostra Antropológica
41:24do Alessandro Campos,
41:27e ele vai ser apresentado
41:28na COP também,
41:30pelo Greenpeace
41:31e outras organizações,
41:34e o que é muito interessante,
41:36ele vai abrir
41:37a COP de Minamata
41:39da ONU
41:41em Genebra,
41:42agora,
41:42no início de novembro.
41:44Chama-se COP 6.
41:46O mal de Minamata,
41:47que ficou sendo...
41:48Essa doença provocada
41:50pelo Mercúrio,
41:51ganhou o nome
41:51de mal de Minamata.
41:53E o mal de Minamata
41:54gerou uma convenção
41:55na ONU,
41:56assinada por cento
41:57e tantos países,
41:58o Brasil também assinou,
42:00e que prevê
42:01que não vai mais
42:02se utilizar o Mercúrio
42:03a partir de 2030.
42:05Coisa difícil de acontecer.
42:07Mas existe
42:09essa convenção.
42:11E essa convenção,
42:13o ano passado,
42:14nós tentamos exibir
42:15o filme na Convenção
42:16de Minamata,
42:18ele não foi aceito,
42:19mas as pessoas viram,
42:20algumas pessoas viram
42:21e se deram conta
42:22de que não havia
42:23representantes indígenas
42:24na Convenção
42:25de Minamata.
42:26Havia um indígena ali,
42:28imagine,
42:28eles são os principais
42:30atores,
42:31que sofrem as consequências
42:33disso.
42:33Então, agora,
42:34pela primeira vez
42:35na Convenção
42:36de Minamata,
42:36há representantes
42:37indígenas também,
42:39e o filme vai abrir
42:40a convenção.
42:42Agora, você,
42:43por exemplo,
42:44você,
42:45cineasta,
42:46diretor,
42:47você já teve
42:48algum projeto
42:49ficcional?
42:50Já pensou em fazer um...
42:52já, eu fiz um projeto
42:53chamado Osmuker,
42:55que é uma história
42:55que eu fiz junto
42:56com o Wolfgauer,
42:57que a gente ficcionou,
42:59que é uma história
43:00que acontece,
43:01uma revolta mística
43:02que teve junto
43:03aos colonos alemães
43:04no final do século XIX.
43:07Mas a gente reencenou
43:09esse fato,
43:10esse episódio,
43:11muito sangrento,
43:12um episódio terrível,
43:13com os descendentes
43:15dos colonos
43:16que sobreviveram
43:18àquele massacre.
43:19Então, também eram
43:20não atores,
43:21mas a gente ficcionou
43:22essa história,
43:23a gente recriou a história.
43:25A gente vê,
43:25hoje em dia,
43:26o cinema documentário
43:27está mais forte,
43:29eu acho,
43:29sempre foi bastante.
43:31Ele está mais forte,
43:32a gente está vendo muito.
43:33A gente tem exemplos
43:34como o É Tudo Verdade,
43:36que é um dos melhores
43:36festivais do mundo,
43:37de documentário
43:38que acontece em São Paulo.
43:40A gente vê
43:40a quantidade de filmes.
43:41Como é que você vê
43:42hoje em dia
43:42essa produção indígena?
43:44Está chegando não só
43:46aos festivais de documentário,
43:48como também está chegando
43:48aos festivais
43:49que têm ficção também.
43:52Quer dizer,
43:52é uma produção
43:52de coletivos,
43:54o próprio indígena
43:56está sendo o protagonista,
43:58está fazendo tudo.
43:59Como é que você vê
44:00essa produção?
44:01Inclusive,
44:02é o tema
44:02dessa mostra
44:03que está tendo aqui.
44:04Sim,
44:04que está acontecendo
44:05lá no Cine Líbero do Charlles.
44:09O cinema indígena,
44:12ele começou com vídeo
44:14nas aldeias,
44:15quase 30 anos atrás.
44:16O Vansan Carelli,
44:17que está aqui,
44:18que vai ser homenageado
44:19ao festival.
44:20E primeiro exibindo filmes
44:22e depois formando,
44:23criando,
44:24formando cineastas indígenas.
44:26O VHS no início.
44:29E esses cineastas
44:30principiantes,
44:31hoje,
44:32já estão,
44:33já surgiram
44:33outras gerações
44:34de cineastas.
44:35Entende?
44:36Então,
44:36eles foram
44:36amadurecendo
44:38e desenvolvendo
44:41as suas próprias visões
44:42daquilo que eles
44:43queriam mostrar.
44:44E é uma produção
44:47grande,
44:47muito grande.
44:49E hoje,
44:49isso tem tal importância,
44:51eu digo o seguinte,
44:52que se há algo de novo
44:54no cinema brasileiro
44:55e talvez mundial,
44:57é o cinema indígena
44:58brasileiro.
45:00Com muita força.
45:01Hoje,
45:01não existe um festival
45:02no mundo
45:03importante
45:04que não
45:05exiba filmes
45:07da produção indígena
45:08brasileira.
45:08sim,
45:09sim,
45:09isso é forte.
45:11Claro,
45:12acho que qualquer
45:13documentarista,
45:14qualquer fotojornalista,
45:16qualquer jornalista
45:17flerta com o perigo.
45:18O maior perigo,
45:20assim,
45:20você falou agora
45:21de toda aquela situação
45:24ali de ir acima,
45:25de ter barreiras
45:26e tudo mais,
45:27em plena ditadura militar,
45:29mas sempre existe,
45:30ainda existe isso,
45:31ainda existe essa sensação
45:32de que estou flertando
45:34com o perigo,
45:34o perigo está perto de mim.
45:35Mas certas regiões
45:38da Amazônia
45:39são dominadas
45:40pelas milícias,
45:43você vê a morte
45:44dos dois jornalistas
45:45há dois anos atrás,
45:46o Tom e o Philip,
45:48o perigo está aí
45:50do mesmo jeito,
45:51não são os militares,
45:53mas são as milícias.
45:55A Amazônia
45:55é dominada hoje
45:57pelo tráfico,
45:59quem domina
46:00a extração do ouro
46:01e a distribuição
46:03do mercúrio
46:04é o tráfico.
46:05Eu acho que eu conversava
46:07antes,
46:07você falava que Belém
46:08é a sua segunda,
46:09você é paulista, não?
46:10É a minha cidade do coração.
46:12Belém é a sua cidade do coração,
46:14fala disso para a gente aí,
46:15que a gente está
46:15no momento de Belém,
46:16vamos elevar Belém.
46:18Belém merece tudo isso
46:20e muito mais,
46:21eu acho.
46:22Belém é linda,
46:23as pessoas,
46:24Belém tem uma característica
46:25muito interessante
46:27e rara no Brasil,
46:28as pessoas prezam muito
46:29a sua cultura,
46:30a sua história.
46:31Aqui eles sabem
46:32defender a sua cultura,
46:34a sua história.
46:34Manaus foi totalmente destruída
46:36com a Zona Franca,
46:38mas aqui não,
46:39talvez justamente porque
46:40não teve a Zona Franca,
46:42teve a chance
46:43de manter
46:44a sua arquitetura
46:46e uma cultura tradicional
46:49muito forte
46:51na música.
46:53Em todos os aspectos,
46:55Belém sempre foi um expoente.
46:56você como um diretor
46:59famoso,
47:02a gente pode falar assim,
47:03mas enfim,
47:04respeitadíssimo
47:05no mundo inteiro,
47:06ainda é difícil fazer filmes,
47:08fazer cinema,
47:09documentários,
47:09assim,
47:09para você?
47:10Tem ainda mais
47:11aqueles entraves
47:12burocráticos,
47:14qualquer outro tipo de entrave?
47:16Você se sente mais
47:17firme
47:19dos seus projetos?
47:21Eu sempre fugi
47:24dos grandes projetos
47:27porque quanto mais dinheiro
47:28você precisa
47:29para fazer um filme,
47:30mais difícil se torna
47:31a sua liberdade
47:33de se expressar
47:34porque entram
47:34mil interferências.
47:36Então eu sempre
47:36procurei um cinema
47:37o mais leve,
47:39mais barato,
47:41mais simples possível.
47:42E hoje eu filmo
47:43com celular.
47:44Hoje não,
47:45já há alguns anos
47:46que eu utilizo o celular.
47:47e hoje você tem
47:51todo,
47:52nesse momento,
47:53uma boa política
47:54de editais,
47:55muito dinheiro
47:56nos editais,
47:57que tem também
47:58um outro lado
47:59preocupante
48:00porque as pessoas
48:02hoje não estão
48:03mais desenvolvendo
48:04as suas ideias,
48:04eles estão fazendo
48:05filmes para os editais.
48:06Ah, tem edital,
48:07não sei das quantas,
48:08vou bolar uma história
48:09para esse edital.
48:10Isso é um absurdo,
48:11você tem que fazer
48:12o filme que você quer
48:13fazer,
48:13que você sente.
48:14E o edital é que tem
48:15que se adequar
48:16a sua necessidade
48:17e não o universo.
48:21Mas o...
48:22E tem uma outra coisa
48:24também,
48:24você pode exibir
48:26o filme no YouTube,
48:27nas redes,
48:28você não depende mais
48:29de um circuito
48:30de cinema complicado,
48:32competitivo.
48:34Então você tem
48:35mais liberdade
48:36tanto para filmar,
48:37porque você não precisa
48:38de grandes equipes,
48:39de grande coisa,
48:40você pode fazer o filme
48:41do teu com uma câmera
48:42simples,
48:43editar no seu computador
48:44e exibir um também
48:46de uma forma alternativa
48:47e muito eficiente até.
48:49Só que isso não dá dinheiro,
48:50se for o filme do YouTube
48:51você não ganha nada com isso.
48:53Mas também os streamings
48:54também te pagam
48:54tão pouco,
48:55quer dizer,
48:56o gargalo do cinema
48:58hoje é a distribuição.
49:01Não que ele não seja
49:02distribuído,
49:03para você conseguir
49:04se remunerar
49:05pela distribuição.
49:06Para a distribuição.
49:07você falou da série
49:08da HBO,
49:09você fez uma viagem
49:13de retorno ali,
49:14uma viagem de volta,
49:15passou por vários lugares.
49:16O que mais te impactou
49:17naquele momento ali?
49:19A questão humana,
49:20a questão...
49:22Não,
49:23aquilo que sempre impactou,
49:24quer dizer,
49:25os problemas não resolvidos
49:27e a consciência
49:29da sociedade civil.
49:30as pessoas estão
49:33muito cientes
49:34do que está acontecendo.
49:36Não é aquela ingenuidade
49:37de achar que derrubar
49:39traz progresso.
49:42Quem acha isso
49:43é o pessoal
49:43que está fora da Amazônia.
49:44Quem está lá dentro
49:44sabe o que quer.
49:46Exatamente.
49:46A gente falava ainda agora aqui
49:48sobre a vinda
49:48da Edna Cassi aqui,
49:50numa primeira entrevista
49:51depois de longo,
49:52muito tempo,
49:53ela não falava com ninguém,
49:54acabou com a Seitona,
49:54a gente conversou aqui
49:55e agora a Edna está aí,
49:57está com você nos festivais,
49:58nas apresentações,
49:59no retorno do filme.
50:00Qual é a sua relação
50:01com ela hoje?
50:03É muito boa.
50:04Eu acho que é ótimo.
50:05A Edna é uma pessoa fantástica.
50:06Ela tem 65 anos.
50:07Edna Cereja.
50:08É.
50:09E o nome de artista
50:13ela queria...
50:13Assinava Edna de Cassia.
50:15Edna de Cassia, sim, sim.
50:17No filme está Edna de Cassia.
50:18É, foi o nome
50:19que ela queria colocar.
50:20Mas o nome dela mesmo
50:21é Edna Cereja.
50:22Edna Cereja.
50:23E a Edna,
50:24para mim,
50:26ela está igual.
50:27Alegre,
50:28uma pessoa
50:29super rápida
50:30no pensamento.
50:31Positiva também.
50:32Positiva.
50:33Posições muito boas,
50:34muito inteligente.
50:36E ela teve também
50:38uma relação difícil
50:40com a história dela,
50:42depois do filme.
50:43Mas eu acho que ela superou isso.
50:46Superou muito bem.
50:48E hoje ela está contente
50:49de aparecer.
50:50Sim.
50:51E de participar.
50:52Ela é convidada
50:53para participar
50:55de filmagens,
50:56de publicidade.
50:57Então,
50:57eu acho ótimo
50:58que isso tenha acontecido,
51:00mesmo tardiamente.
51:01Mas ela merece.
51:03Bom,
51:03Dush,
51:04para nós é um prazer
51:04receber você aqui
51:05e saber que você
51:06continua com esse olhar inquieto,
51:08que nós vamos ter
51:08muitos e muitos filmes.
51:10É um prazer enorme.
51:11prazer enorme
51:12falar com você.
51:12Você não sabe
51:13com a minha felicidade
51:14que eu sou cinéfilo.
51:16Eu estou até achando
51:16que eu estou gostando mais
51:18de...
51:18Com o tempo que está passando,
51:19eu estou gostando mais
51:20de documentário
51:20de ficção.
51:21Eu viajo para São Paulo
51:23para assistir
51:24os filmes do
51:25É Tudo Verdade,
51:26quero ver tudo,
51:27sou curioso,
51:28fico procurando.
51:29Mas é um prazer enorme
51:30para mim.
51:30Você não sabe
51:31a satisfação
51:32que eu tenho.
51:33O prazer
51:33de estar falando com você.
51:35Uma pessoa
51:35que eu admiro muito.
51:36Eu que agradeço
51:37a oportunidade
51:38por estar aqui
51:38no seu programa
51:39em Belém.
51:40Sim, em Belém.
51:41Falando para os belenenses,
51:43fico muito contente
51:44com isso.
51:45Obrigado.
51:45Muito obrigado.
51:46Este é o Mangarosamente
51:48que você assiste
51:49no Libreplay
51:49dentro de
51:50liberal.com
51:51e no YouTube.
51:55Obrigado.
51:56Obrigado.
51:57Obrigado.
51:58Obrigado.
51:59Obrigado.
52:00Obrigado.
52:01Obrigado.
52:02Obrigado.
52:03Obrigado.
52:04Obrigado.
52:05Obrigado.
52:06Obrigado.
52:07Obrigado.
52:08Obrigado.
Seja a primeira pessoa a comentar
Adicionar seu comentário

Recomendado