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Ana Maria Magalhães detalha retorno de uma mulher ao comando da associação após duas décadas, desafios das facções e humanização da gestão
Reportagem: Gabriel da Mota
Reportagem: Gabriel da Mota
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NotíciasTranscrição
00:00Olá, sou o Gabriel da Mota, repórter do Grupo Liberal.
00:03Depois de um hiato de 22 anos, o Ministério Público do Pará voltou a ter uma liderança
00:08feminina à frente de sua associação de classe.
00:11Hoje eu vou conversar com a promotora Ana Maria Magalhães, presidente da Associação
00:15do Ministério Público do Estado do Pará, a ANPEP, no triênio de 2024 a 2027.
00:22Com o histórico marcado pelo combate ao crime organizado e pela vivência no interior do
00:27Estado, ela faz um balanço desses dois anos de gestão.
00:30Promotora, primeiramente, muito obrigado pela sua presença aqui.
00:33Eu que agradeço a oportunidade de falar desse tema que é importante, no caso, para nós
00:39mulheres, dar uma entrevista com a temática que tem a mulher nos cargos de poder, sempre
00:46é relevante para levar conhecimento e até mesmo para tirar uma certa incompreensão
00:51sobre o tema que, por parte de algumas mulheres também, não só dos homens, mas de algumas
00:57mulheres.
00:57aliás, eu percebo que muitos homens já avançaram muito na compreensão do tema e muitos
01:05homens, claro que a gente vivencia num momento de violência e isso aí é outro assunto, não
01:11tem nada a ver com uma grande quantidade, uma maioria, eu diria, de homens que compreendem
01:19a necessidade da mulher estar nos espaços e ter um tratamento igualitário.
01:25Eu considero que essa questão de violência de gênero é uma minoria mesmo, mas infelizmente
01:32é uma minoria que causa muitos danos, muito problema.
01:36mas enfim, mas nós temos também mulheres em âmbito de todas as esferas de serviço que não
01:46compreendem porque deve existir uma luta por igualdade de gênero nos espaços de poder.
01:55Então, para nós, não deixa de ser uma grande oportunidade de falar nesse assunto.
01:59momento, mas sobre esses que eu já estou com um ano e meio de gestão, quando eu aceitei
02:09concorrer depois de 22 anos e o que me desafiou foi também porque um dos colegas me disse
02:17assim, vocês não ganham porque vocês não concorrem.
02:19O que não é bem verdade porque eu fui ver que eleições anteriores nós tivemos sim
02:26mulheres que foram candidatas a presidente da Ampep, mas não foram eleitas.
02:32Então, eu aceitei aquele desafio e tive apoio político porque ninguém vence uma eleição
02:38se não tiver apoio e esse apoio, ele inclui os homens.
02:41inclusive também existe uma certa incompreensão porque eu ouvi algumas mulheres falando assim,
02:48ela ganhou porque foi apoiada pelos homens.
02:52Não, isso também é uma forma de discriminação.
02:54Eu ganhei porque a classe entendeu que eu era a que iria representar da melhor, sem desmerecer
03:00os outros candidatos de forma alguma.
03:02Sei que eram muito boas, pessoas inclusive com amplo conhecimento da luta classista,
03:08mas naquele momento os meus iguais, as minhas iguais entenderam que eu era o melhor nome
03:14e não porque eu fui apoiada por homem ou por mulher, simplesmente eu entendo que foi
03:18um voto de confiança na credibilidade do meu trabalho, da minha pessoa e em relação
03:24a isso eu estou me esforçando para que realmente esse desiderato de avançarmos nas nossas lutas
03:31e nos nossos direitos e outras situações classistas que não envolvem só isso,
03:38que eu me esforço para que não se arrependa desse voto de confiança.
03:42E aí na prática, o que muda com o comando feminino nessa missão?
03:46Como é que a senhora avalia as prioridades?
03:49Pois é, eu não quero desmerecer ninguém que veio antes de mim porque eu tenho 22 anos
03:53de homens que lideraram e lideraram muito bem, inclusive são todos meus amigos,
04:00pessoas que eu admiro, inclusive o atual PGJ foi o que me passou a cadeira,
04:04ele era presidente da Ampep, então eu tenho muito respeito pelo trabalho de todos os que me antecederam.
04:10Mais uma coisa que eu coloco como pontual da minha gestão foi que meu primeiro ato
04:16foi construir banheiros na Ampep, banheiros para os funcionários e funcionárias,
04:23porque nós temos 15 funcionários entre homens e mulheres, sendo que a maioria é mulher.
04:29E acredita que nós não tínhamos um banheiro exclusivo de mulheres, um banheiro exclusivo de homens.
04:35E por que isso é importante?
04:36Porque nós temos lá uma cozinha, então as nossas funcionárias precisam tomar um banho
04:43depois de terminar o serviço e antes também, enfim, era uma coisa tão necessária
04:49e que aquilo era invisível, aquela necessidade.
04:53Eu entendi que pelo fato de eu ser mulher e nós mulheres, não sei se nós tomamos mais banho,
04:59mas a gente tem muita necessidade de ter um espaço que seja nosso
05:04para a gente poder fazer a nossa sepsia, enfim, cuidar dessa parte da higiene,
05:11e o detalhe que construir banheiros não é necessariamente uma política que vá beneficiar os associados em si diretamente,
05:22mas indiretamente beneficia, porque no momento que nós temos funcionários e funcionários mais satisfeitos,
05:29é lógico que também repercute no tratamento que eles dão aos associados.
05:33Mas como uma política assim direta, agora diretamente, ninguém tinha pensado tanto como eu, mulher, pensei.
05:42E o tempo todo o pensamento é nesse sentido, de um cuidado, porque faz parte da alma feminina,
05:50e eu também não quero dizer que os homens não pensem em cuidado, que também cuidam, claro,
05:54mas a mulher tem aquele olhar de mais proteção, mais cuidado em relação a todas as pessoas, eu penso assim.
06:01Não deixa de ser uma questão de saúde, né? Saúde também.
06:04Também, né? Claro, uma questão da higiene, aí eu construí não só os banheiros, né?
06:10E como banheiro completo, que não existia, olha só, nós tínhamos lavabos, mas não tínhamos banheiros completos.
06:19E isso aí trouxe uma grande alegria para os nossos funcionários.
06:23E eu construí também a cozinha industrial.
06:25Hoje, nosso restaurante é pequeno, ele atende, ele aperta ao público, mas ele atende principalmente nossos membros e os servidores.
06:35Mas hoje nós temos uma cozinha industrial, que qualquer um é convidado a chegar lá a hora que quiser,
06:41quero conhecer sua cozinha.
06:43Nós vamos ter um grande orgulho de mostrar como ela está bem feita, e isso aí foi o meu primeiro ato de gestão.
06:50Que bacana.
06:51Tivemos outras, atualmente, agora, no final de ano, sempre a Ampep concede brindes, uma agenda para nossos membros, né?
07:03E algumas pessoas amigas, enfim.
07:07Mas esse ano eu pensei em opcional, porque tem associados que são, por exemplo, aposentados,
07:14que não se interessam mais por uma agenda, ou então tem associados que não se interessam por agenda física,
07:20porque quase tudo atualmente é no celular.
07:24Aí eu coloquei uma opção, que você pode escolher uma cadeira, você pode escolher uma sombrinha,
07:30você pode escolher a sua agenda.
07:32Eu acho que isso é coisa de mulher, de pensar em opção que não seja só aquela situação.
07:38Também nossa festa de final de ano, nem todos vão, então aqueles que não vão,
07:43eu não permito que faça uma sessão do seu ingresso.
07:48Você é associado, você tem direito a dois ingressos, você não vai, você não pode ceder,
07:53para evitar que no final seja uma festa de pessoas desconhecidas,
07:57porque a festa, ela realmente é para membros e seus convidados.
08:00E aí eu sempre mando um brinde para aquele que não foi, como ele não pode também ceder,
08:07ele recebe algum mimozinho para compensar, vamos dizer.
08:12Eu acho que isso é coisa de mulher.
08:13Eu também acho, atenção aos detalhes.
08:16Isso.
08:17Promotora, eu queria que a senhora explicasse para a gente alguns compromissos internacionais sérios,
08:23alguns deles, a Convenção de Belém do Pará e a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher.
08:30O que são essas convenções e como é que está atualmente a aplicação desses tratados por parte do Ministério Público?
08:38Olha, a CEDAL, que é aquela convenção que é de 1979, mas o Brasil, salvo engano, aderiu a ela em 1984,
08:48o que condiz com aquele nosso momento de redemocratização e de valorização da mulher e de reconhecimento.
08:55Então, ela, essa convenção, ela é considerada como uma verdadeira carta de direitos humanos da mulher.
09:05E ela proíbe todo tipo de discriminação e aí envolve uma ação positiva do Estado.
09:12Não basta uma omissão, dizer, são iguais perante a lei.
09:17Não, não é isso. O Estado tem que agir para promover essa igualdade e impedir, na prática, que qualquer discriminação contra a mulher exista.
09:27Hoje em dia, não se vai ver escrito numa norma, numa determinação, que mulheres não podem fazer isso, mulheres não podem fazer aquilo.
09:37Mas existem as barreiras invisíveis, que são aquelas chamadas de teto de vidro.
09:42Aquela situação que você não vê, não está escrita, mas ela existe de fato.
09:48Então, sendo detectado isso, o Estado e o Ministério Público, com essa obrigação de defesa de direitos humanos,
09:56tem que sim exigir, inclusive judicialmente, mas não só judicialmente, por meio de acordos, por meio de taques,
10:04que aquela forma de discriminação seja, de alguma forma, retirada daquele ambiente, seja de trabalho, seja social, enfim.
10:15E a questão já da Convenção de Belém, ela já veio num contexto mais dos países daqui, interamericanos, né?
10:27E ela já vem tratar e vem colocar um holofote na violência que existe contra a mulher.
10:35Porque, durante muito tempo, parece que não se queria enxergar que existe violência, e não é só física, né?
10:43Existe a violência moral, existe a violência estrutural.
10:49E essa Convenção de Belém, ela veio justamente colocar em visibilidade esses conceitos e proibir definitivamente que eles sejam,
11:03que eles coexistam nos relacionamentos, seja social, seja dentro de casa, no âmbito doméstico, enfim.
11:11Agora, o desafio é como atuar para que essa legislação, que ela tem um status supra legal no país, que ela se transforme em realidade.
11:26Agora, nesses dias, com tantas notícias de mortes de mulheres, a gente fica com aquela impressão,
11:34meu Deus, será que tudo piorou?
11:35Nós temos uma lei, nós temos rigor na aplicação da lei, o que é que está faltando?
11:42Foi até feita uma proposta para a Comissão de Mulheres da Ampep, porque nós temos uma comissão,
11:48e nós temos no âmbito do Ministério Público também o Núcleo Mulher e a Ouvidoria da Mulher.
11:53Então, nesses três âmbitos, nós estamos nos reunindo para pensar o que fazer,
12:02efetivamente, para que aquela violência não chegue a acontecer.
12:07O que é que está faltando?
12:08Está faltando mais educação nas escolas, porque se vê, por exemplo, que pessoas que cometem violência contra a mulher
12:18não são necessariamente aquilo que nós chamamos de pessoas ignorantes.
12:22Nós vemos médicos, advogados, pessoas letradas, e que praticam violência,
12:30e depois se descobrem que praticam ao longo de anos, que não foi um fato isolado no momento que perdeu a cabeça,
12:36mas que já vinha acontecendo dentro de casa.
12:38Então, o nosso desafio é pensar, primeiro, por que isso está acontecendo,
12:44embora nós tenhamos uma legislação firme, forte, severa e justa para combater,
12:51mas o que nós podemos fazer, o que nós devemos fazer para avançar no sentido que ela não aconteça.
12:57E essas principais barreiras invisíveis que ainda persistem, queria que a senhora citasse assim,
13:04só para a gente ilustrar.
13:05Olha, por exemplo, a dificuldade da mulher de chegar nos cargos de poder.
13:13Aparentemente, homens e mulheres são iguais e podem concorrer,
13:16mas muitas decisões de apoio político, inclusive, e isso agora eu já posso falar,
13:24porque eu já estou num ambiente que eu já consigo verificar, enxergar,
13:29muitas decisões são tomadas em locais que as mulheres não estão,
13:33em ambientes que são majoritariamente masculinos e que a mulher não consegue furar aquela bolha
13:40por diversos motivos, mesmo que ela seja uma igual.
13:45Por exemplo, olha só, eu vou aqui fazer uma meia-culpa, mas acabei cedendo,
13:51eu não estou no grupo de futebol, porque é um grupo de WhatsApp
13:57que os homens não se sentem confortáveis com a minha presença lá.
14:01Então, para não deixar ninguém desconfortável, eu aceitei não estar,
14:06mas, no entanto, todavia, sempre sou chamada a intervir em situações de lá,
14:13porque, afinal de contas, sou eu a presidente e sou eu que tenho o poder de definir várias coisas.
14:19E essas vezes que eu tenho que decidir, eu sou chamada por eles.
14:25Não é porque eu decidi, não, vocês não mandam, sou eu que mando e eu que...
14:28Não, eles me convocam.
14:31Ana, estamos com uma situação que precisamos da sua autoridade para definir uma questão aqui.
14:38Então, quer dizer, eles reconhecem, sim, a minha autoridade e sempre, não tem nenhum problema com isso.
14:43No entanto, não se sentem confortáveis com a presença de uma mulher naquele grupo
14:47que sabe lá Deus, como se tratam e uma maior intimidade, não sei.
14:51Mas, muitos lugares, nós mulheres não estamos.
14:54São aqueles tetos de vidro, aquelas barreiras.
14:57E o apoio político, ele surge ali, naquele contexto.
15:01Quando você menos vê, você já foi excluída.
15:04Não estava lá, você não foi considerada e você sem apoio, como se diz.
15:09Quem é que consegue chegar em cargo de poder?
15:13Mesmo aqueles que não são eletivos, você tem dificuldade de chegar se não tiver apoio.
15:17Dentro de corporações, por exemplo.
15:19Promotora, vamos falar de uma outra realidade difícil que também afeta as mulheres de uma forma diferente.
15:27Crime organizado na Amazônia e a atuação dos promotores.
15:31Quais são os principais perigos que existem hoje para a atuação dos promotores?
15:35E quais são os que afetam mais especificamente as mulheres?
15:40Eu vou falar da mulher que se envolve, por exemplo, com criminosos organizados.
15:46No primeiro momento, foi feito um levantamento e isso foi da academia.
15:54Então, não é só um machismo.
15:56Foi verificado a partir de celulares apreendidos, com mensagens e tal.
16:04Que se a mulher que não se envolve com criminosos organizados, sofre violência, aquela que se envolve, ela sofre muito mais.
16:14Ela não tem direito de ter outros parceiros se o antigo dela determinar.
16:20Ela só pode usar o que é autorizado, ela só pode, enfim, trabalhar naquilo que a organização criminosa, que tem mulheres sim, mas a maioria dos que estão no cargo de poder é homem.
16:39Então, essas mulheres, elas sofrem extrema violência no âmbito doméstico, no âmbito daquela organização.
16:48Para a mulher que já trabalha no combate ao crime organizado, eu não percebo assim que tenha uma diferença, porque esse combate é mais intelectual, a mulher trabalha no âmbito da inteligência.
17:04Agora, nas ações que são repressivas, e eu falo no âmbito do Ministério Público, porque a parte da polícia eu não vou falar, que não conheço com propriedade.
17:16No âmbito do Ministério Público, nós temos mulheres sim, que são policiais que fazem parte do nosso gabinete militar, mas não é a maioria.
17:25A maioria também são homens que estão, e normalmente é aquele homem treinado, embora existam mulheres muito treinadas, mas se vê uma atuação maior da mulher na área de inteligência.
17:41Embora algumas também estejam nessa parte que é já das operações, como a gente costuma falar.
17:47Eu queria que a senhora falasse, em linhas gerais, a sua avaliação sobre o combate hoje em dia ao crime organizado por parte do Estado.
17:54O crime organizado ainda é mais forte, o Estado se faz mais presente, como é a sua avaliação?
17:59Em termos do Estado do Pará, não do Estado Brasil, não do Estado brasileiro, eu entendo que dos cinco anos para cá, dos seis anos para cá,
18:10houve uma compreensão, uma aceitação de que o crime organizado realmente era organizado,
18:16porque quando nós falamos em organizado, dá a impressão que é uma retórica, não é.
18:21Eles são altamente organizados, com cargo de poder, com definição de tarefas e com objetivos definidos,
18:29o que eles querem chegar, onde eles querem chegar e com dominação territorial.
18:34Quando isso foi finalmente compreendido e aceito, aí o Estado passou a ter uma atuação também mais forte.
18:43Então, você vê, salvo engano, a delegacia de combate às organizações criminosas,
18:50ela é de 2021 ou 22.
18:53Foi quando ela realmente passou a funcionar.
18:57Então, quando se sabe que essas organizações criminosas, elas estão aqui no Pará,
19:05desde os anos 2000, aí foram se fortalecendo, em 2005 elas começam a se expandir um pouco mais,
19:11e aí chega 2012, é quando elas têm um avanço realmente muito forte.
19:17Mas nós não tínhamos um combate.
19:19GAECO, sim, nós temos GAECO no Estado do Pará,
19:23mas até a forma como ele agora está organizado, ele permite uma atuação mais forte.
19:31Eu acredito, sim, que o Estado tem condições de vencer o crime.
19:36Sim, claro, o Estado existe para isso.
19:39Um dos pilares do Estado é promover a segurança.
19:41Onde existe um predomínio de organização criminosa, não se pode falar em segurança.
19:46Então, por exemplo, combater a territorialização das organizações criminosas.
19:52Isso é primordial, porque, afinal de contas, um dos elementos constitutivos do Estado é a soberania.
19:59E não existe soberania onde você não tem território.
20:03Se existe um território, como nós sabemos no Rio de Janeiro, que o Estado não entra,
20:07então ali não existe a soberania do Estado.
20:09Mas eu acredito, sim, que com inteligência, com investimento,
20:15essa batalha, essa verdadeira guerra vai ser, ganha pela sociedade, com, claro, a atuação do Estado.
20:23A senhora também já teve experiência no interior, em outras comarcas, né?
20:28Sim.
20:29Como é que a senhora avalia os desafios para quem trabalha nesses locais?
20:31É muito grande.
20:34Olha, eu fui, trabalhei, por exemplo, em São Félix do Xingu, Orilândia do Norte, Tucumã.
20:43Isso eu estou falando de 2003, 2004.
20:47Itupiranga, passei bastante tempo lá.
20:50Tailândia, uma Tailândia anterior, que não é como hoje está.
20:54E o deslocamento por essas estradas, eu não quero ser aquela pessoa que valoriza só o passado,
21:05que tem pessoas que, ah, porque na minha época e tal.
21:08Mas, realmente, houve um avanço, hoje em dia, de como era, eu estou falando de vinte e poucos anos atrás.
21:15Então, as estradas precárias, você não tinha segurança.
21:19Eu viajava sozinha, não tinha policial militar para viajar com um promotor, isso não existia.
21:27E viajava correndo risco naquelas estradas precárias, enfim.
21:32E nas residências de Ministério Público, eu sabia de histórias de colegas.
21:40Eu nunca fui assaltada, graças a Deus.
21:42Mas colegas que, de vez em quando, sofriam esse tipo de violência.
21:47E, no Pará, você trabalhar no interior, principalmente você que viveu a vida inteira na capital,
21:57como era o meu caso, que eu era uma pessoa, como se dizia daqui, do bairro de Nazaré.
22:03De repente, você se depara com pessoas analfabetas.
22:07Aí você diz, meu Deus, isso não é uma estatística.
22:10Eu estou vendo uma pessoa analfabeta, elas existem.
22:12Estou falando assim porque, quando nós estamos olhando as estatísticas, a gente não está vendo o ser humano.
22:19E eu, Itupiranga, por exemplo, atendia quase que todos os dias, a maior parte de atendimento
22:25eram pessoas que não sabiam assinar seu nome, que tinha que ter, obrigatoriamente, a digital,
22:31naquele termo de declarações, naquela notícia de fato.
22:34E isso causa um impacto muito grande.
22:36Eu, inclusive, depois de tanto sofrer, porque o ser humano, a gente tem um impacto,
22:42de ver a situação daquela precariedade, eu fui fazer mestrado.
22:46Já dentro do Ministério Público, eu fui fazer um mestrado em Direitos Humanos.
22:51Fiz, tirei meu mestrado em 2009, porque eu queria realmente avançar para entender
22:57toda essa circunstância de violação de direitos, tendo uma Constituição que garante,
23:03mas, ainda assim, o Estado não chegando para dar conta.
23:07Mas eu também acredito que avançamos nesse sentido de melhoras
23:12e que temos muita esperança de melhorar cada vez mais.
23:16A senhora teria algum momento mais crítico dessa gestão, desse um ano e meio que a senhora destacaria,
23:24da sua gestão à frente da Ampep?
23:26Olha, nós tivemos um momento muito crítico no ano passado, em dezembro,
23:36quando uma proposta de uma PEC queria simplesmente adentrar nos nossos direitos
23:45e garantias não só do Ministério Público, mas de outras carreiras jurídicas também.
23:51E foi muito tenso, porque aquele movimento lá em Brasília era muito forte,
23:58mas eu me lembro que era já praticamente Natal e nós estávamos ali naquela luta
24:05até que conseguimos, com a CONAMP, que é a associação das associações,
24:10onde todos estamos lá, que é muito experiente,
24:13também atuaram os juízes e os defensores públicos e delegados de polícia e outras carreiras
24:19e conseguimos reverter aquelas injustiças que estavam sendo tramadas, né?
24:26Ali praticamente para destruir nossas carreiras.
24:30Esse é o principal, então?
24:32Aquele momento foi bem intenso, porque foi um momento de luta por direitos.
24:36Eu me lembro que meu grande amigo César Matar, hoje desembargador,
24:42quando ele me viu naquela aflição lá em Brasília, ele disse
24:46bem-vindo à luta classista. A nossa luta é essa.
24:49O tempo todo querem tirar nossos direitos, nossas prerrogativas
24:54e nós temos que estar vigilantes e preparados para combater.
25:00Nós temos um problema.
25:01Nós, promotores de justiça e juízes, não podemos ser deputados,
25:07não podemos ser senadores, porque nós não podemos nos candidatar.
25:10Para haver candidatura, você tem que estar já exonerado.
25:14É diferente de outras carreiras que você pode se candidatar.
25:17Eu acho isso um absurdo, mas infelizmente é a regra posta, né?
25:21Então, a questão de lutas pelos direitos,
25:24ela perpassa por você também estar dentro daquilo que você vive
25:30para ter uma melhor compreensão.
25:32Então, você como repórter, você sabe das feridas da carreira
25:36e da necessidade de você ter suas garantias e seus direitos reconhecidos.
25:41A mesma coisa nós que estamos nessas carreiras jurídicas.
25:47Promotora, eu vou trazer aqui uma das suas, eu pesquisei,
25:50uma das suas bandeiras de atuação era a integração dos promotores aposentados,
25:55certo?
25:55Dos promotores eméritos.
25:57É uma realidade importante.
26:00Por outro lado, muitas vezes colocado como um outro lado,
26:03a gente tem uma aceleração digital, a integração da IA no judiciário hoje em dia.
26:08Como é que essas realidades coexistem hoje em dia?
26:12A integração de quem não está tão acostumado com essas novidades
26:15e a necessidade dessa tecnologia?
26:18Nós temos 96 eméritos, alguns gostam de ser chamados de aposentados,
26:23outros de eméritos.
26:24Nós, eu acredito que o Torinho já iniciou,
26:28mais uma vez sem desmerecer quem veio antes de forma alguma.
26:31Não falo o Torinho porque ele que estava antes de mim,
26:33mas ele já iniciou e eu dei um grande andamento para essa aproximação.
26:40Então, hoje, os nossos aposentados, os nossos eméritos,
26:44eles estão dentro da nossa associação, valorizados, falando conosco diariamente.
26:50Inclusive, uma das bandeiras que eles possuem hoje
26:55é o voto para Procurador-Geral de Justiça.
26:57Existem alguns pareceres contrários a isso e existem também outros favoráveis.
27:04Eu não vou aqui expor os argumentos porque eles são longos de um lado e de outro,
27:08mas, da minha parte, eu compreendo que eles precisam, sim,
27:15estar habilitados para eleger o Procurador-Geral,
27:19embora tenha pensamento contrário, inclusive, dentro da classe de quem está na ativa.
27:24Com relação à inclusão digital, os nossos aposentados,
27:32eles talvez, porque vêm de uma carreira jurídica,
27:35vêm já de um costume de ter que se adequar,
27:40de ter que estar aprendendo,
27:42a maioria se adaptou bem.
27:44Então, hoje, tranquilamente nos e-mails,
27:47tranquilamente no WhatsApp,
27:48tranquilamente estão utilizando até a própria inteligência artificial
27:53e a Ampep dá para os que querem,
27:57claro, os que têm interesse,
27:59amplo apoio para que eles tenham esse letramento digital, por exemplo.
28:05Eu quero dizer que, da minha parte,
28:07os aposentados, eles são prioridade em tudo.
28:10Inclusive, hoje, eles estão recebendo com prioridade os brindes deles.
28:15Que bacana.
28:15Promotora, já nos encaminhando para o final,
28:18eu queria saber quais são as suas prioridades
28:20nesses últimos dois anos, certo?
28:23A senhora vai até 2027?
28:24É um ano e meio que falta.
28:25Um ano e meio.
28:26O que ainda falta fazer?
28:27O que ainda dá para fazer nesse tempo?
28:30Vou falar em termos de estrutura.
28:32Nós temos duas sedes,
28:34uma social, que é da Cidade Velha,
28:36e nós temos uma sede campestre.
28:39Então, na nossa sede social,
28:41hoje iniciou uma reforma
28:45para que nós temos um promotor cadeirante.
28:49Então, o Torinho deixou a plataforma elevatória,
28:53um elevador.
28:55Mas nós não tínhamos ainda
28:57a acessibilidade para a cadeira entrar
29:00na nossa sede.
29:03Hoje eu comecei essa reforma,
29:07um investimento, no caso,
29:08na nossa sede,
29:09para a acessibilidade,
29:10não só para o meu associado,
29:12como nós temos um restaurante aberto,
29:14ou outros cadeirantes que queiram
29:16utilizar o nosso restaurante.
29:19Inclusive, temos servidores também
29:21que têm essa necessidade especial.
29:24Então, isso para mim é uma prioridade.
29:26Eu quero melhorar também
29:28a nossa sede campestre.
29:29O Torinho deixou muito bonita,
29:32ela com uma boa reforma,
29:33mas como todo patrimônio na vida,
29:36ele envelhece,
29:37ele precisa de estar em constante reforma.
29:40Eu quero, por exemplo,
29:42colocar uma parte com ar-condicionado,
29:44que nós não temos.
29:46Eu penso que talvez seja possível
29:48fazer uma quadra de beat tênis.
29:51Isso aí é uma promessa para as mulheres,
29:53não que os homens não joguem,
29:55mas quem mais reivindica
29:57a quadra de beat tênis são as mulheres.
29:59Então, eu fiz essa promessa
30:01que até o final da minha gestão,
30:03eu tenho que estar com essa quadra construída.
30:06E por que é um desafio?
30:07Porque a gente tem que fazer a gestão
30:09de um recurso que não é tão grande assim.
30:12E temos muitos compromissos assumidos.
30:15Como eu disse, nós temos 15 funcionários.
30:17Então, uma promessa que é voltada,
30:20principalmente para as mulheres,
30:21é essa da quadra de beat tênis.
30:24Eu acho que eu vou conseguir.
30:25Como é que a senhora quer que a sua gestão
30:27seja lembrada?
30:28Sua principal marca ou principais marcas?
30:32Eu quero que as pessoas lembrem de mim
30:34como uma presidente que ama a Ampep.
30:38Eu aprendi a ter um gosto
30:41pelo que eu estou fazendo,
30:43que até, inclusive, no início,
30:47foi difícil para mim,
30:48porque eu costumo dizer,
30:49a gente costuma dizer,
30:50eu sou promotora raiz,
30:51eu estou acostumada a processar as pessoas.
30:53Eu disse, meu Deus,
30:55a minha vida, eu estraguei a minha vida,
30:57porque aqui o que eu faço
30:58não é mais o que eu era,
31:00ou seja, eu saí da minha zona de conforto.
31:02Mas hoje, eu fiquei tão apaixonada
31:04pela presidência da Ampep,
31:07pela gestão, não pela presidência,
31:09pela gestão da Ampep
31:11e pela luta classista,
31:12porque eu passei a entender
31:14a importância do que nós temos hoje,
31:16que foi fruto do que vieram construir,
31:19construindo outros antes de mim,
31:20bem antes de mim, a Ampep faz 55 anos
31:23de existência,
31:25em agosto do ano que vem,
31:26e ao longo desses anos,
31:28cada um colocou o seu pilar.
31:29Então, eu quero que lembrem de mim
31:31como uma presidente
31:33que se dedicou com muito amor
31:36por tudo que é feito
31:38em prol dos seus associados e associadas.
31:41Ana, muito obrigado pela sua presença,
31:44desde já, um feliz 2026 para você.
31:46Muito obrigada, igualmente para você.
31:48E a você que nos acompanhou até aqui,
31:50obrigado pela audiência,
31:51acesse oliberal.com
31:53e as nossas redes sociais
31:54para ver outros conteúdos.
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