A atriz Zahy Tentehar fala sobre o solo Azira’i, espetáculo premiado que une arte, ancestralidade e espiritualidade. Em entrevista, ela compartilha o processo criativo, as memórias que inspiraram a obra e a emoção de apresentar em Belém. Reportagem: Amanda Martins
00:00Olá, seguidores de Oliberal. A gente recebe aqui a atriz Zari Tenterara,
00:06que apresenta, nos dias 21 e 22 de outubro, no Teatro da Paz, o espetáculo Aziraí,
00:12que é um solo autobiográfico. Seja muito bem-vinda aqui com a gente para conversar.
00:18Muito obrigada, Amanda. Estou muito animada para chegar aí.
00:22Por agora, estou aqui no Uruguai, acabei de chegar aqui e já já estou aí.
00:27Estou muito ansiosa para chegar no Pará.
00:31Estamos todos, né?
00:33Eu também estou aqui.
00:35E eu queria que a gente começasse conversando e eu queria que você explicasse um pouco da peça, né?
00:41Que eu estava dando um Google e vi que é autobiográfica porque é inspirada na sua relação com a sua mãe,
00:47também trata outros temas. E eu vi numa entrevista exterior que você falou que são temas bem gerais, assim.
00:55E o que é que a gente precisa para a gente? O que o público vai encontrar nessa peça?
00:59Então, sim, é um espetáculo autobiográfico que aborda a minha relação com a minha mãe.
01:08Mas também é um tema que a gente entende que é um tema universal.
01:12Todo mundo que vê a peça super se identifica, né?
01:16Por se tratar de relação de mãe e filha.
01:19Muitas pessoas enxergam na minha mãe, porque eu dou vida da minha mãe no palco, né?
01:25Eu me transformo na minha mãe.
01:28E muitas pessoas identificam as suas avós, as suas mães, também ali quando vê a minha mãe no palco, né?
01:36Em cena.
01:36Então, é um espetáculo que é autobiográfico, como eu disse, mas com esse tema que é universal, que são as nossas relações com as nossas mães.
01:46É a minha história sendo contada ali em primeiro lugar, mas é também a representação da história do nosso país, né?
01:56É a nossa história.
01:58Fala também sobre o aculturamento dos povos indígenas, né?
02:02A marginalização dos povos indígenas depois que sai da margem do rio e vai para a margem da cidade.
02:09Então, minha mãe era uma mulher pajé.
02:12Foi a primeira mulher pajé da nossa reserva, da reserva indígena Canabrava, lá no Maranhão.
02:16E aí, no Pará, tem o povo tembé, né?
02:20O povo tembé também é tenterrara.
02:22Eles falam a mesma língua que a gente e também, eles também ainda continuam cultuando as mesmas culturas,
02:34que é a festa da menina-moça, a festa dos rapazes, né?
02:37E queria muito que os tembés fossem lá, que os meus parentes chegassem por lá.
02:42Vai ser um prazer imenso.
02:44E o espetáculo é bilíngue, é falado em português, em zengeté, que é a minha língua materna.
02:49Então, se tembés, se aparecer por lá, eu vou entender tudo que eu vou falar.
02:53Vai ser bonito isso.
02:54E é um musical, né?
02:57Que alterna entre texto, a dramaturgia, ela é muito costurada ali, né?
03:03Através da língua originária, que é o zengeté, da minha primeira língua, a minha língua materna.
03:09Então, é um espetáculo que ele aborda muitos temas indiretamente, né?
03:15Embora o tema central seja a minha relação com a minha mãe, mas ela é bem espaçosa, né?
03:22Ela abre espaço para muitos outros temas também serem abordados ali, né?
03:28É um espetáculo sensorial também, né?
03:32Não só pautado na palavra, mas também de sentir.
03:38É uma experiência.
03:39Mais do que ir para assistir um espetáculo, é um espetáculo para a pessoa viver uma experiência ali naquele lugar.
03:47Então, eita, que eu estou vendendo peixe, viu?
03:51Quero...
03:52Criando...
03:53Não tem problema, por favor.
03:57E eu queria saber como é que nasceu a ideia desse espetáculo.
04:00Você já tinha vontade?
04:02Foi após o falecimento da sua mãe que você sentiu vontade de fazer alguma homenagem?
04:06Como é que nasceu essa ideia?
04:08Não, nunca foi...
04:09A ideia nunca foi homenagear a minha mãe.
04:12Por acaso, acabou virando, naturalmente virou uma homenagem à minha mãe.
04:17Mas quando a gente idealizou o projeto, minha mãe ainda estava viva.
04:22Ela partiu durante o processo, né?
04:26Que foi ali no início da pandemia.
04:29A ideia surgiu ali em 2019, quando eu fazia o meu primeiro trabalho como atriz no teatro,
04:35que foi na peça Macunaíma, uma episódio musical que foi dirigida pela Bia Lessa.
04:39E era um projeto da Barca dos Corações Partidos, que é uma companhia de teatro muito conhecida no Rio.
04:45E muito respeitada, né?
04:48Então são grandes amigos.
04:50E um dos integrantes da Barca dos Corações Partidos se aproximou bastante de mim, né?
04:54Que é o Duda Rios.
04:56E a gente conversava muito, né?
04:58Então o Duda virou uma pessoa ali muito íntima,
05:00que acabava trocando muito com ele sobre as minhas experiências.
05:04E ele muito curioso, sempre perguntando também como era a minha vida na aldeia,
05:09como tinha sido a minha infância, como era a minha família.
05:12E aí eu contando algumas histórias pra ele, ele foi ficando cada vez mais interessado.
05:16Até que um dia ele disse assim, a gente podia fazer uma peça sobre a sua vida,
05:20porque é tanta coisa, né?
05:22E aí eu, despretensiosamente, a gente começou a escrever um projeto.
05:26Então a gente não tinha muita ideia do que seria,
05:30mas embora a gente soubesse que ia lhe girar em torno da minha história, né?
05:36A gente começou a coletar algumas entrevistas, né?
05:40Gravamos algumas entrevistas, ele me entrevistando.
05:45E aí a partir disso a gente começou a escrever a dramaturgia, né?
05:48Algumas coisinhas, né?
05:49Porque a dramaturgia foi muito construída ali durante a sala de ensaio.
05:53Então, quem teve a ideia foi o Duda Rios, né?
05:58Esse parceiro que é a pessoa que idealizou o projeto junto comigo.
06:01Ele também é um dos diretores do espetáculo.
06:03Eu tenho dois diretores, né?
06:05Que é a Denise Stutz e o Duda Rios.
06:09E então o Duda Rios, ele também assina a dramaturgia comigo.
06:13E também é um dos diretores, além de ter idealizado o projeto.
06:17Então surgiu muito aí por conta do Duda,
06:20que ele foi ouvindo as minhas histórias, né?
06:23Quanto mais eu ia contando pra ele, mais ele ia ficando interessado.
06:26E ele falou, gente, pude escrever um espetáculo sobre isso.
06:29E aí na sala de ensaio a gente foi entendendo que tudo o que eu falava,
06:33todas as histórias que eu contava, girava muito em torno da minha mãe.
06:37E aí minha mãe virou o tema central do espetáculo por conta disso.
06:42E como é que tá sendo pra ti mergulhar nessas memórias?
06:44Eu sei que já tá um tempinho a peça rodando o Brasil.
06:48Como é que tá sendo pra ti sempre estar no palco retomando essa história?
06:55Amanda, é curioso porque tem um lugar pra mim que é de muita intimidade ali com a minha mãe.
07:06Eu já até falei isso outras vezes, né?
07:08Que eu trato a minha mãe como se ela ainda estivesse viva, né?
07:11Então, tanto que no final do espetáculo eu leio uma carta,
07:14tô dando spoiler, né?
07:15Eu leio uma carta e na carta eu digo pra ela assim,
07:17olha mãe, eu tô fazendo um espetáculo com a senhora, né?
07:20Porque pra além de eu como atriz estar ali interpretando a minha própria mãe também,
07:28eu entendo que ela tá ali, sabe?
07:30Eu sou uma pessoa muito espiritualizada no que diz respeito a esse lugar sagrado pra mim.
07:37Então, eu acredito que mamãe, ela não morreu, né?
07:41Talvez ela partiu nesse corpo físico, mas pra mim ela continua viva.
07:47Então, fazer esse espetáculo ali tem um lugar pra mim que é muito íntimo, né?
07:52Então, eu tô entendendo que eu tô fazendo espetáculo com a minha mãe.
07:54E por outro lado, reviver todas essas histórias que são contadas pra mim,
08:00também me sobrecai num lugar muito...
08:07Às vezes eu...
08:09Me dói, assim, lembrar, né?
08:11Me dói...
08:13Me faz sentir saudades do cheiro da minha mãe.
08:18Enfim, a gente que é filho, né?
08:20Que a gente sabe como é o cheiro das nossas mães, né?
08:23Então, assim, eu sinto saudade do cheiro de mamãe,
08:26o cheiro dela, a voz dela falando.
08:30Então, vem, mas eu entendo também que o espetáculo,
08:33ele é um espetáculo ritualístico, né?
08:36Ele cura também.
08:37Então, eu me sinto num processo de cura constante
08:40a cada vez que eu tô fazendo espetáculo
08:42e que isso também ele vai reverberando nas pessoas.
08:45Eu tenho recebido muitas...
08:50muitos retornos, né?
08:53De histórias de pessoas contando as suas experiências
08:56do que viveram ali assistindo o espetáculo
08:59e que são muito positivas.
09:01Então, eu sinto muito honrada e feliz.
09:04E é um espetáculo que já chega em Belém
09:06com uma grande trajetória premiada, né?
09:09Que é recém reconhecida aqui no Brasil e também fora.
09:12E eu quero saber pra ti o que representa pra ti
09:14se apresentar e estrear com essa peça
09:17aqui no Pará, no Teatro da Paz,
09:19que a gente sabe que é um grande ícone aqui
09:21pra quem mora aqui e também artistas que vêm de fora
09:24também se sentem super felizes de estar no Teatro da Paz.
09:27Então, eu tô com muita vontade de chegar no Pará, né?
09:32Porque o Pará faz divisa com o Maranhão.
09:35Então, como eu disse, também no Pará tem o povo Tembé,
09:40que também é Tenterrara, né?
09:42O povo Tenterrara, que fala a mesma língua.
09:46Então, eu acredito que o Pará...
09:47Eu já fui no Pará gravar, né?
09:50Então, conheço um pouquinho, não conheço tanto.
09:53Então, tem um lugar pra mim que é muito incomum, né?
09:56Que é muito comum, na real, né?
10:00É muito comum, assim.
10:01Então, a maneira de ser das pessoas,
10:04a forma de como as pessoas se comportam.
10:07Então, é íntimo.
10:09É como se eu estivesse indo pro Maranhão, pra mim, sabe?
10:11Então, tô...
10:12Você me deu a sair, né?
10:13Que o Maranhão é Jussara, o nome, se eu não me engano.
10:16Como?
10:19O açaí, no Maranhão, não é chamado de Jussara?
10:22Isso, isso.
10:24Açaí, né?
10:25Enfim, a comida também, parecida.
10:28As músicas, né?
10:30Enfim, tem uma grande amiga aqui, a Gabi Amarantos também, né?
10:34Que é paraense, enfim.
10:36Então, tô muito curiosa, tô com muita vontade de chegar aí.
10:43E ver também como é que o espetáculo vai ser recebido, né?
10:46E como tu disse, tu dissestes aí nesse teatro, que é um ícone, né?
10:51No Pará.
10:52Ouvi falar, ouvi rumores de que é um espetáculo que é muito bem falado.
10:59Enfim, que honra eu poder apresentar nesse teatro.
11:04Enfim, é um espetáculo que foi premiado, como tu falou, me tornei a primeira indígena a receber essa primeira premiação, que é o Prêmio Shell de Melhor Atriz, que é basicamente o prêmio mais importante de teatro, né?
11:21Então, para mim, eu tenho uma grande alegria.
11:27Logo quando eu fui indicada e depois premiada, eu não tinha muita noção do que era receber um prêmio como esse, assim.
11:36E aí depois eu fui entendendo, eu fui entendendo e captando o recado.
11:44Então, hoje, um pouco mais entendida sobre o assunto e sobre também a importância de receber esse prêmio.
11:53Me sinto muito lisonjeada e quero mais é que outros parentes também possam ser premiados, não só com o Prêmio Shell, mas com outros prêmios também.
12:04E que outros indígenas também se enxerguem nesse lugar, né?
12:08Também queiram ganhar esses prêmios.
12:11A gente merece.
12:13Perfeito.
12:14Olha, foi um prazer te receber aqui.
12:16Vou começar a encerrar nossa entrevista.
12:18a noite toda a conversa contigo, foi um papo maravilhoso, viu?
12:23Muito obrigada.
12:24Obrigada, Amanda.
12:26Olha, tu vai ver um espetáculo, viu, bicha?
12:29Pode assistir o meu chefe, vai dizer, me lhe põe.
12:31Ah, minha, vai lá, fala com o seu chefe, chama o chefe também pra ele.
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