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  • há 4 meses
Renato Abrantes conta que ele próprio, quando era padre em Cajazeiras, suspendeu um casamento para que os noivos recomeçassem "do zero" o processo da habilitação matrimonial.

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Transcrição
00:00O matrimônio celebrado na Igreja Católica não é um mero ato social ou um espetáculo festivo, é um sacramento.
00:10Enquanto sinal sensível da graça de Deus, instituído por Cristo, o matrimônio une homem e mulher
00:18num consórcio, num contrato íntimo de toda a vida, ordenado ao bem dos cônjuges e à geração e educação dos filhos.
00:28Desde os primórdios da humanidade, a união entre o homem e a mulher sempre ocupou um lugar central na vida da comunidade, nas diversas culturas.
00:41Com a fé cristã, essa realidade foi elevada à dignidade de sacramento, tornando-se sinal visível, concreto, palpável do amor fiel de Cristo por sua Igreja.
00:54No rito católico, o consentimento, a entrega que o homem faz à mulher, de forma livre e consciente, é a fórmula do sacramento.
01:05Ou seja, as palavras dão sentido sagrado àquilo que está sendo feito.
01:11Sem um consentimento verdadeiro, não existe matrimônio.
01:15A matéria, ou seja, o elemento concreto da nossa natureza, do nosso mundo apresentado a Deus, para que comuniques a sua graça, é a própria vida dos esposos, assumida de modo irrevogável.
01:31Desde a consumação, ou seja, o primeiro ato sexual do casal após a celebração, até a sua dissolução natural com a morte.
01:40O Código de Direito Canônico estabelece que o matrimônio válido jamais pode ser anulado, nem mesmo pelo Papa.
01:50E quando a gente olha para a história, a Igreja, a gente vê lá no século XVI, 1500 de Lavai Pedrada, perdeu nada menos que a Inglaterra,
01:59uma vez que o Papa se recusou a anular o casamento do Henrique VIII com Catarina de Aragão.
02:05O rei, então, se rebelou e foi, então, unindo-se aos demais reformadores, separando-se da Igreja.
02:14Porém, se existem dúvidas quanto à validade do matrimônio, a Igreja, depois de um procedimento, um processo judicial canônico sério, rigoroso,
02:26pode declará-lo nulo, se se constatam haver as hipóteses de impedimentos que não foram dispensados,
02:34de vícios no consentimento, aquela entrega livre, ou então de falha na forma canônica como se deu a celebração.
02:41Entre essas causas, o vício de consentimento é particularmente delicado, pois basta a ausência de liberdade interior,
02:51ou a presença de qualquer coação, de qualquer pressão, seja psicológica, seja social,
02:57para que a validade seja comprometida, aquela velha história.
03:01Ou casa ou morre, esse casamento, se acontece, ele é nulo.
03:04O sacramento exige que o sim seja livre, maduro, consciente, sem pressões de qualquer natureza.
03:13Ultimamente, infelizmente, eu tenho observado isso, não é raro acontecer,
03:19a gente percebe um fenômeno que é preocupante.
03:22Celebrações matrimoniais, litúrgicas, marcadas, infelizmente, por encenações de gestos com gosto duvidoso.
03:32Cartazes com frases como, abre aspas, corre que ainda dá tempo.
03:39Noivos algemados, de brincadeirinha, ou apelos cômicos, engraçados, pedindo socorro,
03:47tornaram-se práticas frequentes em cerimônias litúrgicas.
03:51Embora muitos encare isso como uma mera brincadeira, uma mera diversão,
03:57na verdade, do ponto de vista jurídico, canônico e também pastoral,
04:02elas são extremamente perigosas.
04:04No momento exato da troca do consentimento,
04:08José, você recebe Maria como sua legítima esposa?
04:11Maria, você recebe José como seu legítimo esposo?
04:14Sim, nesse momento, qualquer elemento que indique falta de liberdade
04:19ou induza a um constrangimento público, pode configurar vício invalidante.
04:25E aquilo que é uma mera piada, uma mera brincadeira,
04:29na realidade, pode transformar a celebração, o matrimônio, em um ato nulo,
04:34uma farsa revestida de solenidade.
04:38Diante disso, é preciso entender que o padre ou o diácono que assiste ao matrimônio
04:42não é um mero espectador diante de situações assim.
04:47Ele não é o celebrante.
04:48Os celebrantes são os noivos.
04:50Mas aquele que está à frente como testemunha qualificada da igreja
04:54não é um espectador somente.
04:56O cano 1066, lá do Código de Direito Canônico,
05:00estabelece que antes da celebração
05:02deve constar que nada obsta à validade e à liceidade do matrimônio.
05:07E se durante o rito, durante a celebração como tal,
05:13surgirem sinais de ausência de liberdade,
05:17ou o que é pior, de simulação,
05:19o ministro tem o dever grave de interromper a cerimônia.
05:24Eu mesmo, não digo o pecador, mas falo o pecado,
05:29quando exerci o ministério sacerdotal em uma determinada paróquia
05:33em que fui paro com a Diocese de Cajazeiras,
05:35lá pelos idos dos anos 2000,
05:38eu notei que um dos páginas,
05:40aquela criancinha que entra lá, né, rapaz, meninozinho,
05:43que entra na igreja,
05:44ele entrou na igreja com o cartaz, justamente com esses dizeres,
05:48fulano, não fuja não, ela está tão linda,
05:51com referência à noiva.
05:53Precisei interromper a celebração em consciência,
05:56expliquei os motivos,
05:57e convidei os noivos a começarem novamente,
06:01do zero, o processo de habilitação matrimonial,
06:04para verificar se, de fato, eles eram livres para um ato tão sério
06:08na vida deles e da comunidade.
06:10Não se trata de um rigorismo,
06:13mas de zelo pela sacramentalidade e pelos bens dos nubentes.
06:17Celebrar um matrimônio viciado
06:19é permitir que um ato nulo seja revestido de aparência sacramental,
06:25ferindo a própria dignidade do sacramento
06:27e gerando graves consequências jurídicas e espirituais.
06:31O matrimônio não é um palco teatral,
06:35não é um lugar para se fazer um show de humor.
06:38Transformá-lo em espetáculo
06:40é desrespeitar a fé, a liturgia e os próprios noivos.
06:45É dever de todos, portanto,
06:47do sacerdote, dos familiares, dos padrinhos,
06:50dos convidados, da comunidade,
06:53preservar a sacralidade desse momento,
06:55evitando qualquer atitude que possa induzir
06:59ou comprometer a liberdade do consentimento.
07:02O amor verdadeiro se manifesta na liberdade,
07:06não na pressão disfarçada de humor.
07:09O sacramento do matrimônio exige seriedade,
07:12fé, reverência,
07:14porque aquilo que é celebrado no altar
07:16não é um teatro,
07:18é um compromisso de vida diante de Deus e da igreja.
07:22Direto ao ponto, Renato Abrantes.
07:25Direto ao ponto.
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