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Nobel de Medicina 2025 vai para descobertas sobre ‘freio’ do sistema imune
Olhar Digital
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há 3 meses
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00:00
O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2025 foi concedido a Mary Branko, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi nesta segunda-feira.
00:12
Os três cientistas são reconhecidos por descobertas que explicam como o sistema imunológico consegue se defender de vírus e bactérias
00:22
sem atacar os próprios tecidos do corpo.
00:25
E para entender sobre esse assunto, temos uma participação especial do Dr. Álvaro Machado Dias,
00:32
que é neurocientista, futurista, professor, livre docente da Unifesp.
00:38
Dr. Álvaro, vamos falar um pouquinho sobre os cientistas que desvendaram o papel de células específicas
00:45
para, digamos, frear o sistema imune. Explica melhor pra gente como são essas pesquisas.
00:51
As pesquisas que geraram as indicações, em última análise, a laurea do Nobel de Fisiologia ou Medicina deste ano,
01:02
envolvem o sistema autoimune.
01:05
E a gente sabe que existem muitas doenças autoimunes.
01:09
São condições de difícil tratamento.
01:13
São aquelas em que o organismo se volta contra si mesmo.
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Então, os laureados descobriram um mecanismo chamado tolerância periférica,
01:24
que complementa aquilo que a gente já sabe sobre como as células de defesa, linfócitos, funcionam.
01:32
Então, especificamente, existe uma forma de tolerância chamada central, que é medida no timo,
01:39
que é um órgão que fica acima do coração e que funciona como uma espécie de...
01:43
É tipo um laboratório de treinamento do sistema imune.
01:47
E ali acontecem a triagem fundamental para evitar que o corpo ataque a si mesmo,
01:54
que são as doenças autoimunes.
01:55
Enfim, esses três pesquisadores, que eu vou chamar pelo primeiro nome,
01:59
o Shimon, a Mary e o Fred,
02:02
identificaram células que funcionam como freios para o sistema autoimune.
02:08
Então, essas células são capazes de inibir, ou a gente fala modular as reações
02:14
e, de outro modo, evitar que os tecidos sofram ataques do próprio organismo.
02:22
Ou seja, o ponto-chave dessa história é evitar as doenças autoimunes.
02:29
Trocando em miúdos, é isso.
02:30
O Shimon, que é japonês, ele fez uma primeira descoberta lá na década de 90.
02:37
Então, olha como as coisas são interessantes do ponto de vista do Nobel.
02:40
Como demora, muitas vezes, para uma descoberta ganhar relevância a nível global.
02:48
Às vezes, as coisas começam pequenininhas num laboratório,
02:51
como foi com a inteligência artificial que surgiu com um grupinho bem pequenininho
02:55
e, como essa generativa no Google DeepMind gerou a publicação daquele paper
03:00
Attention is all you need, em 2017, e aí transformou o mundo.
03:04
Aqui, a mesma coisa.
03:06
O Shimon publicou um estudo, em 1995,
03:09
seminal sobre esse sistema periférico de funcionamento de tolerância.
03:15
Quer dizer assim, como que o organismo previne ataques autoinduzidos.
03:20
E aí, esse pessoal americano, a Mary e o Fred,
03:25
encontraram um elemento, um gene especificamente,
03:29
chamado FOX, peraí, FOXP3,
03:35
que justamente regula a ativação dessa cadeia molecular.
03:39
Trocando em miúdos, esse gene, quando ele é ativado,
03:42
ele leva ao mecanismo de proteção.
03:45
Quando o gene é desativado, há um probleminha nessa história.
03:48
Então, a gente está falando de uma receita de bolo
03:52
e um negocinho que leva a máquina que faz bolos automaticamente
03:57
a produzir a receita ou não
03:58
e a da combinação das duas coisas que surgiu o prêmio desse ano
04:03
que fala sobre autoimunidade
04:05
e, em última análise, traz esperanças para quem sofre com doenças autoimunes.
04:12
Mas que doença autoimune, por exemplo, a gente pode pensar que é relevante?
04:16
A gente, por exemplo, na minha área, esclerose múltipla é uma doença autoimune
04:23
que tem aí bastante impacto na vida das pessoas
04:27
e a gente tem muitas outras em muitas áreas.
04:30
Então, a gente sabe, em muitos domínios do corpo,
04:34
a gente sabe que doenças autoimunes são muito, muito relevantes.
04:38
E uma curiosidade, Marisa,
04:40
as doenças autoimunes são mais comuns hoje em dia do que elas eram no passado,
04:44
porque, em última análise, o tipo de ambiente em que nós vivemos
04:51
do ponto de vista das substâncias químicas, do ar e outros fatores associados
04:58
impacta a chance de manifestação dessas doenças.
05:03
É isso aí que definiu o Nobel desse ano, muito bem laureado.
05:08
Interessantíssimo.
05:09
Agora, doutor Álvaro, por que é tão difícil encontrar tratamento para doenças autoimunes?
05:15
O senso comum diria, poxa, é mais uma falha dessa ciência que tem aspectos medievais,
05:28
porque o que não deixa de ser verdade, a medicina tem isso,
05:32
é muito mais fácil diagnosticar do que tratar para tratar mesmo,
05:35
quase nada anda para frente, é sempre assim, a gente vai se arrastando.
05:39
Mas a verdade é que é tudo muito mais complicado do que isso.
05:43
A grande questão é que você não pode chegar e falar assim,
05:47
beleza, vou encontrar um caminho para inibir os processos que justamente geram
05:55
as doenças autoimunes, que é a ativação do sistema imunológico.
06:00
Porque se você faz isso, o sujeito, isso humano ou mesmo uma outra espécie,
06:07
vai ter muitas chances de pegar uma infecção e também de contrair, de manifestar câncer.
06:15
Então, no final das contas, os linfócitos, que são essas células de defesa tão importantes,
06:23
elas têm que, enfim, atuar de maneira precisa e a regulação que está aqui em discussão
06:31
é justamente como você fortalece seletivamente alguns tipos de linfócitos em pacientes com doenças autoimunes,
06:39
restaurando o equilíbrio que foi perdido.
06:44
Ou então como você usa, coisa meio futurista, mas cada vez mais está rolando,
06:51
terapias genéticas para editar esse genzinho que eu te falei que é o FOXP3.
06:57
Então, o grande negócio é esse, é que não dá para desligar esse sistema,
07:02
porque, afinal de contas, sem ele, a gente vai para o beleléu.
07:07
Pois é, curiosíssimo.
07:08
Agora, doutora Álvaro, só uma curiosidade.
07:11
Como que funciona essa votação do Prêmio Nobel? Conta para a gente.
07:16
A votação do Prêmio Nobel, ela funciona de maneira bem secreta, viu, Marisa?
07:22
Eu posso te dizer como funciona a superfície da coisa.
07:25
É o seguinte, para começar, o Nobel de Fisiologia e Medicina,
07:31
ele é conduzido pela Nobel Assembly do Instituto Karolinska da Suécia.
07:38
E como funciona?
07:39
Todos os anos essa instituição, ela recebe uns pedidos de indicação.
07:45
Você não pode se autoindicar, mas se você tem bons amigos,
07:50
seus bons amigos te indicam.
07:52
Ou então, se você é pessoa de notório saber, certamente esse nome vai aparecer lá.
07:57
Então, esses nomes, que são guardados de maneira ultra secreta,
08:03
são avaliados por um comitê mais secreto ainda,
08:06
que ninguém sabe exatamente como faz.
08:10
E a gente sabe que, olha que interessante,
08:13
o comitê do Nobel trabalha com consultores externos,
08:17
então não é um processo de decisão endógena, muito pelo contrário.
08:22
É um processo que acontece através de uma avaliação,
08:27
de uma verificação da relevância efetiva do trabalho
08:30
e da ética também dos pesquisadores.
08:33
Por que raios a ética entra nisso?
08:36
Porque cada vez mais a gente está tendo casos de grandes estudos sendo desmascarados,
08:41
sendo, enfim, revelado que eles foram baseados em dados inflados,
08:48
eventualmente interpretações ambíguas que puxaram a sardinha para o lado que interessava
08:54
e assim por diante.
08:55
Isso aconteceu, por exemplo, ou diz a lenda,
08:58
em estudos muito importantes na doença de Alzheimer.
09:02
Mas há outros, muitos casos.
09:04
Então, hoje em dia, o que a gente sabe é que há uma espécie de auditoria
09:09
dos estudos científicos publicados para evitar este famoso mico.
09:15
Dito isso, como que os 50 votantes,
09:19
que são 50 votantes lá na Nobel Assembly,
09:24
como eles escolhem quais são os critérios,
09:26
se é uma pontuação linear ou não é,
09:29
isso é mantido assim a boca de Siri, Marisa.
09:32
Faz mais de 50 anos, ninguém sabe, até hoje, nunca vazou de verdade.
09:38
Então, o que a gente sabe são as coisas mais óbvias.
09:41
O prêmio tem que ser concebido para alguém que está vivo,
09:43
quer dizer, Nobel em memória não rola,
09:48
as descobertas têm que projetar impacto de larga escala,
09:54
ou seja, uma coisa muito restrita,
09:56
por mais genial que ela seja, não entra.
09:58
E elas, sobretudo, elas têm que ser descobertas
10:02
que passaram o que se chama de impacto do tempo,
10:08
ou seja, não é nada que 2, 3 anos depois
10:11
deixou de ser tão relevante quanto parecia.
10:13
Por isso que muitas vezes demora tanto tempo.
10:16
Então, esse tal impacto do tempo, às vezes toma 5 anos,
10:19
às vezes toma 10, mas o mais comum é que tome bem uns 20 anos,
10:24
até que fique muito claro que realmente aquela descoberta é relevante.
10:29
Por que eu estou colocando dessa maneira e simplesmente eu não fui lá
10:31
e fui absolutamente taxativo?
10:33
Porque, por exemplo, o Nobel concebido,
10:37
concedido em relação ao desenvolvimento das vacinas de RNA,
10:43
que, se eu não me engano, foi 2023,
10:47
ele justamente veio de uma linha de descobertas,
10:50
que era muito mais antiga do que a pandemia de Covid-19,
10:53
mas que, em última análise, evoluiu nos últimos anos.
10:56
Então, aquele foi um caso de, vamos assim,
10:59
de uma vida, de uma história da ciência em si mais curtinha.
11:04
Mas, em geral, há uma espera maior
11:07
para ver se realmente aquele negócio fez impacto na humanidade.
11:10
É mais ou menos por aí.
11:12
Certo, está aí.
11:13
Doutor Álvaro Machado Dias ajudando a gente a entender
11:16
e comentar sobre o Nobel da Medicina desse ano.
11:19
Doutor Álvaro, muitíssimo obrigada pela participação especial aqui hoje,
11:23
abrindo a nossa semana.
11:25
E o nosso encontro no Olhar do Amanhã, na quarta-feira, está mantido.
11:30
Segue mantidíssimo.
11:32
Você que está nos acompanhando, põe na agenda.
11:34
Quarta-feira a gente se vê aqui, umas 7h35.
11:37
Até lá.
11:38
Até, doutor Álvaro.
11:39
Boa noite.
11:40
Até quarta-feira.
11:41
E aí, pessoal, doutor Álvaro Machado Dias,
11:46
neurocientista, futurista, professor da Unifesp,
11:49
que sempre está conosco no quadro Olhar do Amanhã,
11:52
hoje, numa participação especial,
11:54
abrindo a nossa semana,
11:56
trazendo todas essas informações para a gente.
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