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  • há 3 meses
O No Ataque entrevistou a jogadora do Minas Tênis Clube e da seleção brasileira Nyeme Costa.

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Transcrição
00:00Eu acho que o meu maior sofrimento nem foi com o que o povo falava, né?
00:05Era mais pessoal, porque eu sofri muito isso aí aos 13 anos
00:08e eu sentia muita falta do meu pai, da minha mãe, da minha irmã e da minha avó.
00:13Então eu ligava todos os dias, mãe, eu quero ir embora, eu não quero ficar aqui sozinha,
00:16porque eu morava sozinha numa capital.
00:19Aos 13 anos eu falo hoje, como que minha mãe teve coragem, meu pai, de aceitar que eu fosse, né?
00:24E sobre o preconceito, eu não tenho tantas lembranças, se sofri, né?
00:32Mas eu lembro uma vez, em São Paulo, a gente ia para o treino,
00:39não, eu ia para falar com a diretora do meu time, era a base ainda.
00:43E aí um técnico, era assistente, comentou assim,
00:46ah, você está acostumada a andar a pé, por que você quer ir de elevador?
00:51Eu fiquei assim, como é que você me falou isso?
00:54E ele era bem mais velho, né?
00:56Aí eu, isso eu não esqueço, né?
00:58Se teve outras coisas, eu não lembro.
01:00Aí eu falei assim, meu Deus, e eu fiquei calada, né?
01:03Aí depois eu falei, nunca mais alguém vai tentar me diminuir por onde eu vim, sabe?
01:08Porque, ah, não é porque você é de São Paulo e eu sou do Nordeste que você é melhor do que eu, né?
01:13Então depois disso, eu acho que eu fiquei mais bocuda.
01:16Então acho que as pessoas nem cogitavam falar, porque se elas falassem, elas iam ouvir também.
01:21Então acho que eu aprendi desde cedo a ter essa casca, sabe?
01:25De não ser humilhada pelas pessoas só porque eu sou do interior.
01:32Já é difícil para mim, eu sempre fui a única nordestina de onde eu estava,
01:37sempre fui a única maranhense a sair do Maranhão e ir para outro estado para conquistar,
01:43para viver o seu sonho no vôlei.
01:45Acho que no vôlei não tem outra do Maranhão, né?
01:48Eu acho que eu sou a única. Então é um feito muito grande, né?
01:51Eu fico muito orgulhosa porque eu não desisti.
01:55E sobre, eu sempre tentei treinar mais que todo mundo,
01:58para ninguém ter nada para falar, ah, ela é do Nordeste, ela não é boa,
02:01ela não sabe jogar.
02:03Eu sempre cheguei nos lugares, eu falava, eu nunca fiz base.
02:06E as meninas sempre passaram por infantil, infanto, eu já cheguei no infanto.
02:11Então eu sempre mostrei, eu demonstrei na quadra, né?
02:15O meu valor, tanto fora e dentro.
02:17Então todo mundo sempre me respeitou muito.
02:20Por isso que eu não lembro, ainda bem, né?
02:23Inclusive você falou sobre como foi difícil esse processo de sair de casa, né?
02:27Chegou a ter alguma resistência, assim, inicial do seu pai, da sua mãe,
02:31enquanto você tomou a decisão de sair?
02:33Como é que foi, assim, essa decisão?
02:35Ah, eu lembro que eu falei para o meu pai e para a minha mãe,
02:37eu quero muito ir para São Paulo, porque eu jogava lá no Maranhão,
02:41era mais campeonato escolar, e eu fui lá, aí criaram um time
02:45a jogar Superliga A adulto, só que eu era mais nova,
02:48eu tinha 13 anos, então eu não jogava, eu só treinava.
02:51Meus técnicos do Maranhão Vôlei, na época, falaram,
02:53vai para São Paulo, porque lá tem a base, né?
02:56Eu ia ser infanto, então eu ia jogar infanto, juvenil,
02:59aí que eu ia chegar no adulto, então eu tinha muito tempo ainda.
03:02Aí eu falei para os meus pais, pai, mãe, eu quero ir.
03:05E a minha mãe, Deus, me livre, não vou deixar você aí tão nova.
03:09E eu chorava, eu lembro que eu chorava, eu falei, pai, mas é o meu sonho.
03:13E ele falava, não, não tem como, e ele disse que eu berrava, sabe,
03:17assim, é o meu sonho, por favor, deixa eu ir.
03:20Aí ele falou, eu acho que se eu não deixasse, tu ia fugir,
03:22do tanto que tu estava certa, do que tu queria.
03:26Aí eu, como os técnicos também me apoiaram muito, né,
03:30falaram, não, vai lá, a gente ajuda você lá,
03:32e graças a Deus, eu nunca, nunca me faltou nada, sabe,
03:36nem carinho das pessoas, nada,
03:39eu nunca passei nenhuma dificuldade, nem financeira,
03:41de nenhuma forma fora, né, porque é difícil, né, sim,
03:44isso, eu já vi várias atletas aí para o sul,
03:48para tentar jogar, né, e passar,
03:50os times não cumprem o combinado,
03:53aí lá não tem ninguém, aí fica sem dinheiro,
03:56tem que voltar para casa.
03:57E eu, graças a Deus, nunca tive esse problema,
03:59que eu joguei em Barueri e no Bradesco.
04:01Então, são instituições bem sérias,
04:04que, infelizmente, o Bradesco acabou hoje,
04:06mas acho que um dos melhores lugares da base era lá,
04:10eles ensinavam, eles abraçavam,
04:12e o principal, eles não queriam que a gente só se dedicasse ao vôlei,
04:16eles investiam muito na nossa educação.
04:20Se a gente não fosse para a escola, a gente não treinava.
04:22Então, era tipo assim, a educação em primeiro lugar,
04:25e depois o vôlei.
04:26Então, eu aprendi muito com eles,
04:29e eu sou muito grata por ter passado por esses lugares tão importantes,
04:33que foi o que me fizeram permanecer, né,
04:35e chegar até onde eu estou hoje.
04:38Legal.
04:39A gente até tinha, você tinha comentado sobre o Maranhão antes,
04:42e a gente até tinha notado que você é a quarta maranhense
04:45a ser medalhista olímpica.
04:46A gente tem antes Tânia Maranhão, Codó e a Raíssa Leal.
04:50E como que é, assim, ter essa representatividade, principalmente,
04:56que você já citou um pouquinho,
04:57e como que é também, talvez, esse carinho na sua cidade?
05:00Porque eu imagino que, né, todo mundo te conhece, claro.
05:03Então, como que é também sentir isso,
05:06e saber que você é essa pessoa que representa o Estado?
05:10Eu fico muito feliz.
05:11Estava até conversando ontem, outro podcast,
05:14falei que eu chego na minha cidade, o povo já fala,
05:16Nayemi, tu chegou, eu tô jogando,
05:20as criancinhas pequenininhas,
05:22eu tô jogando vôlei por causa de você.
05:24Aí começa a chorar, eu falo, gente, é tão lindo, assim, é tão puro,
05:27porque elas não me conhecem, não me conheciam pessoalmente,
05:30e os pais já falavam, ela te ama, ela não para de falar em você.
05:34Aí escreve, tem várias cartinhas que ela descreveu,
05:37com o sonho de te conhecer pra te entregar.
05:39E eu falo, gente, eu só tô jogando vôlei,
05:42nem mereço tanto amor, tanto carinho, assim,
05:45de criancinhas, de pessoas que,
05:47não é por maldade, é realmente por ver em mim
05:50algo que elas podem se tornar também, né,
05:53porque, como a gente já comentou antes,
05:55ser do Nordeste já é muito difícil.
05:58Como você falou, só a quarta medalhista olímpica do Maranhão.
06:03É muito pouco comparado a São Paulo.
06:05Vai ver quantos tem de São Paulo, de Minas,
06:08são muitos, então eu me sinto muito orgulhosa de mim mesmo,
06:13por poder estar gerando sonhos em outras pessoas.
06:17E eu sempre falo pra elas,
06:18gente, se eu conseguir, vocês também conseguem.
06:20Eu sou da mesma cidade que vocês,
06:22só não desistir e sonhar.
06:24Eu sempre sonhei muito alto,
06:25então é isso que eu sempre deixo pra elas, né,
06:27sonhar alto, porque a gente consegue,
06:29se a gente batalhar, não é fácil,
06:31mas a gente consegue.
06:33Eu sou, é que eu sou muito confiante, sabe?
06:36Às vezes o Mikael, ele fala,
06:39as pessoas falam, eu quero responder a ele,
06:41calma, que tu não tá dentro de quadra,
06:42respira, respira.
06:45Porque eu acho que eu já aprendi a ser assim, sabe?
06:47Porque eu preciso,
06:49como eu sempre fui a diferente, né,
06:53a nordestina,
06:55aquela do Nordeste a única,
06:57então eu tinha que ser confiante naquilo que eu fazia.
07:00E isso pode ser que pro povo que pareça ser afrontosa.
07:03Às vezes eu sou, eu falo a verdade mesmo,
07:08que às vezes eu sou,
07:09porque tem hora que tem atacante que quer atacar
07:12e faz ponto e fica encarando.
07:14Eu já não posso fazer,
07:15eu ponto nela,
07:16então eu tenho que fazer o quê?
07:17Afrontar.
07:19E isso é bobo,
07:20porque às vezes quando eu saio do jogo,
07:21minhas amigas falam,
07:23nossa, a gente joga contra você só nesse time,
07:27porque a gente fica com ódio de tu,
07:28que tu defende em pé,
07:30tu pega uma largada,
07:31a gente não consegue fazer ponto,
07:32então o nosso time joga contra você.
07:34Eu falo, ah, é, que bom então,
07:35que eu consigo desestabilizar elas
07:37pela minha confiança, né?
07:39Eu falo, gente,
07:40se a pessoa,
07:41se eu tomei um ace,
07:42às vezes eu levanto a mão,
07:44tipo, saca de novo.
07:45Porque eu quero saber que a pessoa é tão boa assim
07:48pra fazer de novo.
07:49E normalmente eu acerto
07:51esse segundo chance, né,
07:53que eu tenho.
07:54Então isso demonstra,
07:57afronta,
07:58mas pra mim é mais a confiança,
07:59sabe?
07:59que eu tenho.
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