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  • há 4 meses
Ismaelino Pinto recebe a estilista, uma referência na moda produzida no Pará e na Amazônia, com uma trajetória ousada nas criações de looks e ainda com a devoção externada na confecção de mantos para Nossa Senhora de Nazaré.

Reportagem: Eduardo Rocha

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Transcrição
00:00Olá, está no ar o Mangueirosamente.
00:09Bom, a gente conversa hoje com Maria de Nazaré Martins Grelo.
00:14Sabe quem é?
00:15Bom, a gente explica.
00:17É Lelê Grelo, uma pessoa conhecida, ela tem história na moda, ela é a história da moda.
00:23A história da moda no Pará, a história da moda em Belém, passa por Lelê Grelo.
00:28Tudo bem, Lelê?
00:30Oi, tudo bom.
00:31Tudo tranquilo?
00:31Tudo ótimo.
00:32Que bom que você veio aqui conversar com a gente.
00:35Vamos começar lá do início.
00:37Está bem.
00:38Como é que surgiu?
00:39Por exemplo, eu soube que você era estudante de arquitetura.
00:42Você era estudante de arquitetura, já estava quase para se formar e aí surgiu a moda.
00:47Não, a moda já estava ali.
00:49A moda já estava, mas como eu não tinha uma faculdade, eu migrei para a arquitetura, certo?
00:54Aí, antes do final, eu fui, viajei, fiquei dois anos fora, exatamente em Paris.
01:02E nesse, digamos, tempo lá, eu tive certeza que eu queria migrar para a moda.
01:08Você não viajou lá especificamente para fazer cursos de moda?
01:12Você foi para lá?
01:13Na verdade, eu fui para aprender a língua, porque eu não sabia.
01:16E também fui com essa pesquisa, com essa, digamos, vontade de ver tudo isso, de ver
01:24os ateliês, de ver a moda como era, na verdade, lá na fonte, né?
01:28Sim.
01:29Então, quando...
01:30Paris.
01:31Quando eu vi isso, eu tive certeza que era isso que eu queria.
01:34E aí, nessa temporada de dois anos, assim, o que você viu especificamente com relação
01:39à moda, claro, em Paris tem museus, tem história da arte, e tudo está ligado ali.
01:43Moda, arte, está tudo junto, né?
01:46Paris é arte, né?
01:48Mas, nesse momento, eu resolvi fazer um desfile.
01:51Peguei uma costureira, que era uma espanhola.
01:53Isso voltando para Belém.
01:54Não, ainda em Paris.
01:56Eu fiz, tenho um convite desse desfile em Paris, no hotel, lá no Boulevard Saint-Jacques.
02:04E aí...
02:04Você fez um desfile em Paris?
02:05Em Paris.
02:06Ah, tá.
02:06E esse desfile, eu divulguei bastante.
02:10Foi ótimo.
02:11Isso era a década de quê?
02:13De 80?
02:13Uma aspiração bem brasileira, tá?
02:19Principalmente, eu foquei muito na Bahia.
02:21Então, eu fiz uns looks brancos, mas tudo assim, bem finos.
02:24E musselínico, renda, tá?
02:26Nessa época, a Marluci...
02:28Puxando pela uma brasilidade.
02:29Pela brasilidade.
02:30E a Marluci desfilou nessa época, tá?
02:33Depois, eu fiz o desfile em Lisboa, ainda nessa época.
02:36Porque eu tava lá.
02:38Depois, eu voltei pra Belém.
02:39Quando eu voltei pra Belém, na verdade, não tinha boutique.
02:43Boutique, aquela boutique...
02:44Mas é década, só pra situar, gente.
02:4682, mais ou menos, 83.
02:48Década de 80.
02:49Isso da década de 80.
02:51Isso.
02:52Aí, não tinha boutique.
02:55Quer dizer, aquela boutique que tinha o saco escrito, a loja escrita, as sacolas.
02:58Porque eu via isso tudo em Paris.
03:01Então, eu vim com essa inovação, com essa vontade de misturar, de fazer, de inovar em Belém.
03:07E assim eu fiz.
03:08Então, eu fiquei um bom tempo fazendo boutique sozinha.
03:13Eu lembro de uma matéria, falando de você, quando você voltou, Marta Correia, que foi rainha do carnaval.
03:22Marta Correia, jornalista, repórter, até hoje, atuante em Brasília.
03:26Fez uma matéria com você e perguntou pra você uma pergunta que todo mundo depois falou.
03:30Como foi que foi essa conexão Pará-Paris, Pará-Paris, que você fez?
03:36Você tentou fazer uma conexão ali e fez, na verdade.
03:39A gente, quando está no espírito, na alma, a gente acaba fazendo as coisas.
03:43Eu me lembro que eu fiz umas fotos nessa época.
03:47Manchete, lembra?
03:48E eles falaram nisso, Paris-Pará.
03:51Então, eu acho que já vem esse clima.
03:54A gente tem uma ligação histórica com Paris, na verdade.
03:57Sim, a Belle Epoque.
03:58A história de Belém se confunde ali com a...
04:01Sim, toda a francesa, que naquela época, Belém era... foi o centro de tudo.
04:06Mas, voltando, Belém era outra coisa.
04:09Belém não tinha boutiques, na verdade?
04:11Não, não tinha.
04:12Tinha umas lojas que vendiam roupas, confecção, mas não tinha essa cara.
04:18É porque também, talvez, você tenha trazido essa coisa de ter uma moda autoral.
04:23Você já tinha isso.
04:24Como é que era que se chamava na época? Modista?
04:27Não, estilista.
04:28Estilista, já era estilista.
04:29Já era estilista.
04:31Então, você, o estilista cria, né?
04:33Ele cria as peças, ele tem esse dom, digamos, de fazer um look também, que combina muito
04:40com aquela pessoa, um look sob medida.
04:43Então, isso é o estilista.
04:45Porque quando você vende a roupa, você compra e vende.
04:48É comércio, né?
04:50Mas, no meu caso, não.
04:52Eu nunca vendi as roupas.
04:53Eu sempre fiz as roupas, confeccionei.
04:57Pois é que era uma coisa diferente.
04:58Porque, claro, lembro acompanhando minha mãe.
05:00Minha mãe ia numa pessoa, levava uma revista.
05:03Isso, levava uma revista e dizia, eu quero esse modelo.
05:05O tecido, né?
05:06Geralmente.
05:07Exatamente.
05:07Mas, bom, eu quero isso aqui.
05:09Na verdade, você já entrou com um trabalho de criação.
05:12Totalmente diferente.
05:13Criando.
05:14Aí, eu comecei a comprar os tecidos fora, né?
05:17Escolher as coleções.
05:19Comprar as cores, fazer a tendência daquele momento.
05:22Foi isso que eu fiz ao longo do tempo.
05:24Muitos desfiles.
05:26O mais me chamou a atenção, acho que foram muitos, acho que mais de cem.
05:30Mas, o que me chamou a atenção muito foi o do Teatro da Paz, com o Edivaldo Martins.
05:37Esse eu gravei, porque eu acho que é o teatro que foi ali, nós começamos a receber naquela escadaria.
05:42Porque você se lançou como a estilista, na verdade.
05:46Como a estilista, exato.
05:47Como a estilista que foi, voltou para cá e, a partir desse momento, começou esse trabalho de criação.
05:52Exatamente.
05:53Não era uma coisa comum.
05:54Não, não era uma coisa totalmente...
05:56Não tinha outra, entendeu?
05:58Tinha alguém vendendo roupa?
05:59Tinha, mas não era uma loja com o nome da estilista criando...
06:03Não era um ateliê.
06:04Um ateliê.
06:05Um ateliê.
06:06Então, foi isso que fez a diferença.
06:08Como é que as pessoas, por exemplo, te receberam?
06:10Porque, como eu te falei, tu estava falando agora, que as pessoas já iam com o modelo pronto, com o tecido,
06:17e a pessoa copiava aquilo, né?
06:18Sim.
06:19A partir do momento que você entrou, que você mostra o seu trabalho de criação,
06:22como é que é esse processo de criação?
06:24Você vê a pessoa, você dá ideias, você se ajusta...
06:28No sob medida, sim.
06:29No sob medida, a gente faz de acordo com o local que a pessoa vai, o evento e o tipo físico, claro.
06:38Porque ela quer ficar linda, né?
06:39Claro.
06:40Qualquer pessoa quer ficar ótima, muito bonita.
06:43E eu também tenho essa expectativa.
06:46Então, eu procuro fazer um modelo que vai combinar com ela, com o tipo físico dela.
06:52E também, dependendo do evento que ela vai, o horário, né?
06:57Que é importante.
06:58Sim. Agora, pois é.
06:59Então, como é que as pessoas recebeu esse tipo de coisa?
07:01Essa coisa de você estar ali criando?
07:03Essa coisa deu certo, sabe?
07:05Foi muito, assim, receptivo.
07:07Você está há quanto tempo, por exemplo, assim, que você já tem a sua botinha estabelecida?
07:11Isso é um ateliê, na verdade.
07:12Isso.
07:13Um ateliê de criação.
07:15Olha, de 80...
07:16Quando eu cheguei, de 84, digamos, 85 para agora.
07:22Muito tempo.
07:22Mais de 30.
07:23Pois é, e outra coisa, como é que todo esse processo, essa época, esse processo todo de moda,
07:29porque a gente viu aí que também, por exemplo, hoje a indústria da moda era poderosa, né?
07:33Sim, claro.
07:33Na verdade, as pessoas já compram a roupa pronta, isso é uma coisa comum, né?
07:38Não só as roupas de grife, né?
07:39As grifas famosas, mas enfim, existem lojas de roupas que você já compra a roupa pronta, na verdade, né?
07:45Não só pronta, porque em grandes centros, mesmo em São Paulo,
07:49ainda tem estilistas com ateliê, fazendo roupa sob medida.
07:54Isso é um luxo, você entendeu?
07:57É um luxo.
07:57Eu digo que Belém tem esse luxo, porque fazer uma roupa sob sua medida, ela tem que ficar ótima,
08:03ela tem que vestir o espetáculo, porque foi para você, né?
08:07Então, isso tem muito na Europa, mas em grandes, assim, famosas, as atrizes, né?
08:14Isso, elas vão, com certeza, encomendar as roupas.
08:17Ou vão para um Oscar, ou vão para algum evento, casamento, e querem isso e fazem sob medida.
08:25Mas, hoje, realmente, o preta-porter, mesmo na alta costura, existem os vestidos que já estão prontos,
08:32que têm um preço diferenciado do vestido feito sob medida.
08:37Com exclusividade.
08:38Com exclusividade, exato.
08:39Como é esse mercado da moda?
08:41Exclusividade mesmo, você não vê mais esse vestido, entendeu?
08:44O que era Belém naquela época?
08:48O que as pessoas se importavam?
08:49Porque, na verdade, é que, claro, nós éramos, de uma maneira ou de outra, continuamos sendo um reflexo daquilo que acontece lá fora.
08:59A moda que é lançada.
09:01Mas, hoje, o mundo é reflexo.
09:04Como existe essa integridade, a internet, o que acontece?
09:07Você assiste os desfiles de alta costura, assiste os desfiles do preta-porter.
09:13Na hora, vai começar agora, dia 29, os desfiles de preta-porter, lançamento em Paris.
09:21Então, você vai ver tudo na hora.
09:23Então, você vai ter essa, digamos assim, essa essência do que está acontecendo, das cores.
09:30E o mundo todo segue.
09:32Não é só Belém, entendeu?
09:34Então, vai todo mundo fazer a seca de segmento, criando, recriando, fazendo a sua parte, ao seu modo, digamos assim.
09:43Mas, com aquela...
09:46Nessa história toda, a arquitetura foi embora.
09:49Foi, mas eu gosto muito.
09:50E ela me ajudou muito, porque até hoje...
09:54Por exemplo, eu gosto de fazer minha casa, eu gosto de comprar os objetos.
10:00E gosto, porque como o bom gosto, isso que eu quero te dizer, ele é nato.
10:04Quem gosta de arquitetura gosta de maquiagem, gosta de cabelo, gosta de moda, gosta de arquitetura.
10:11E também a coisa do bom gosto também, né?
10:13Exatamente.
10:13Então, você tem essa visão.
10:14Junta tudo, né?
10:16Junta.
10:16É um espetáculo.
10:17Você teve uma página dentro do Jornal Liberal, né?
10:22Sim.
10:23O Cômulo Maiorana, aliás, fundador do Grupo Liberal.
10:25É um grande incentivador.
10:27Ele era um homem artista.
10:28Você tinha uma página fixa, né?
10:30Fixa.
10:31Como é que era que se processava?
10:32Olha, aos domingos eu fazia essa página, todos os domingos.
10:35Então, os sábados, a gente tinha que montar essa página.
10:38Muitas vezes, no sábado à noite, para cá, para a redação, para outro prédio, né?
10:43E ficavam, vamos dizer assim, horas, porque não tinha internet.
10:47Então, é...
10:48Era tudo na mão, era manual, né?
10:48Na mão.
10:49Feito à mão.
10:50Guaxá, feito à mão.
10:52Era arte, né?
10:53Aquilo era pura arte.
10:55Mas foi uma época boa, uma época que eu tenho certeza...
10:58Porque ali também tinha fotografias, né?
11:00Sim, sim.
11:02Tinha toda uma produção.
11:03Toda uma produção.
11:04Aquelas criações que você fazia...
11:07Semanal.
11:07Eram para a página.
11:08Fazia semanalmente para a loja, para a página e ia para a loja, entendeu?
11:12Aham.
11:13E isso, as pessoas mesmo me falavam.
11:15Olha, eu quero comprar esse jornal cedo para ver a tua página.
11:19A página era uma beleza, assim, uma arte, sabe?
11:22Durou 20 anos, né?
11:23Durou 20 anos.
11:24Eu lembro de um projeto seu junto com a artista plástica Carmeliana.
11:28Isso.
11:28De visitar uma tribo indígena, né?
11:31E dali buscar inspiração, né?
11:33E fazer um trabalho com conexões...
11:36Da Amazônia.
11:37É, da Amazônia.
11:38Conta para a gente essa história.
11:40Essa história.
11:41Essa ligação.
11:42Nós resolvemos ir à tribo para sentir de perto...
11:45Qual foi a tribo?
11:46Caiapó.
11:47Para ver de perto o trabalho deles.
11:51E aí foi realmente muito interessante, porque eles fazem até hoje a pintura corporal com o genipapo,
11:59que é uma fruta que dura, assim, dois, três meses na pele, né?
12:04Uma tintura.
12:04Uma tintura.
12:05Mas não é tóxica, tá?
12:07Uma coisa natural.
12:08Então, eles fizeram muito isso, mostraram, fizeram no braço, na barriga.
12:14E daquilo foi um arquétipo que ela tirou para pintar as sedas.
12:19E eu tinha sido convidada para mostrar esse trabalho em Lisboa.
12:23Aí nós fomos, fizemos um desfile grande em Lisboa.
12:26E depois foi para uma galeria de arte.
12:29Ficou lá na galeria uns dez dias de exposição.
12:32Que eram pinturas feitas...
12:35Direto na seda.
12:37Eu fazia um modelo.
12:39E, de acordo com o modelo, cortava a seda.
12:42E ela vinha fazendo a pintura, imitando o genipapo, que era tudo meio cinza, quase preto.
12:49E os arquétipos originários do Caiapó.
12:54Hoje em dia, a gente...
12:56Você acha, por exemplo, uma pergunta.
12:58Você acha que nós temos uma moda com a cara paraense?
13:03Ou a moda é muito maior do que para nós regionalizarmos ela?
13:09Olha, a moda paraense, eu queria te dizer que eu fiz um look.
13:12Que São Paulo mandou uma pessoa aqui em Belém, da Globo, porque ela queria um look com a cara da Amazônia.
13:19Mas ela me disse, bem, eu vou dar uma olhada nos teus looks, para ver, porque eu quero uma coisa fina.
13:25Eu disse, nem te preocupa, que eu vou fazer uma coisa bem estilizada.
13:29Amazônia, vou usar materiais da Amazônia.
13:31Foi quando eu fiz um vestido em musselhinho de seda pura, com casca de árvore, miriti e chifre de búfalo.
13:38Esse vestido, ele está no Museu de Nova York, em exposição.
13:42Eu tenho a foto dele, que eu trouxe para você mostrar.
13:46Esse vestido foi belíssimo.
13:48E eu fiquei ao lado, em exposição em São Paulo, dos Irmãos Campana.
13:53Foi, assim, uma honra, sabe?
13:55E ficou essa exposição, ficou lá por uns três meses.
13:58Depois, ela fez um giro no Brasil inteiro.
14:01E eles me pediram a doação do vestido para expor em Nova York.
14:05Pois é, mas de que maneira a gente identifica essa moda que a gente pode chamar de moda paraense?
14:10Moda amazônica.
14:12Olha, essa moda, ela tem que ser uma coleção à parte, tá?
14:19Eu fiz muitas coleções com esse olhar da Amazônia.
14:23Tem que ser à parte, porque você...
14:26Mas o que identifica essa moda da Amazônia?
14:28O que você usa, o material?
14:30Exatamente, os materiais.
14:32São signos que estão ali naquela roupa.
14:34Por exemplo, pega a Palmeira Bussu, que é uma palha maravilhosa, forra com mucelinha, como eu fazia, com seda, e faz um vestido que tenha isso.
14:46Por exemplo, tem um busto, ou tem um cinto.
14:48Então, isso tem a Amazônia ali integrada, mas com produtos finos, tecidos maravilhosos, finos.
14:55Então, essa moda seria a utilização de materiais para incluir nessa vestimenta.
15:03Exatamente.
15:04O que quase ninguém fez, eu acho, com isso, é isso, misturar, essa mistura que fica uma coisa fina, elegante.
15:13Entendeste?
15:14Porque, geralmente, eles pegam açaí e colocam aquele fiozinho, que é o que fazem, digamos, na Praça da República.
15:20Pegam o chifre, fazem pulseira, mas de um outro jeito.
15:24Então, eu misturei com pedra brasileira.
15:26Design e sofisticação, eu acho.
15:28Agora, por exemplo, com relação ao comprador, com relação à pessoa que vai usar essa roupa,
15:34tu acha que existe ainda uma resistência do consumidor comum de usar?
15:40Não é o consumidor comum.
15:42De, talvez, preocupar-se e estar usando uma coisa que, diríamos, folclórica até?
15:50Não, porque a roupa não fica folclórica.
15:52Ela fica com esse toque fino, essa visão, esses materiais da Amazônia, mas fica fino, fica elegante.
15:59Por exemplo, você é procurada para fazer uma roupa, alguém te procura hoje em dia,
16:05para dizer, eu quero fazer uma roupa amazônica.
16:07Não, é difícil alguém chegar agora e fazer essa pergunta.
16:11Mas toda exposição que eu tenho, por exemplo, a minha sobrinha foi participar do Messe Brasil.
16:17Então, ela colocou um biquinho de tururi que eu fiz, que é da casca de árvore,
16:21com uma bolsa de maramaraca, uma semente indígena, e bota uma musseline, um chale.
16:26Então, fica uma coisa fina.
16:28Então, tem que ser a apresentação.
16:29Mas é uma roupa de apresentação.
16:30De apresentações, tá?
16:31Tá, tá, tá.
16:32De apresentações, exatamente.
16:34Porque, na verdade, eu acho assim, para a gente classificar uma moda como uma moda amazônica,
16:38claro, além da inclusão de materiais, eu acho que a moda é muito ampla, né?
16:42Ampla, exatamente.
16:43Não dá para dizer assim mesmo, né?
16:44Porque, na verdade, os tecidos são praticamente os mesmos.
16:47Os mesmos, claro, com certeza, é isso.
16:49E hoje, como é que é a tua carreira?
16:53Hoje, o que eu estou fazendo, eu estou mais feliz do que eu tenho no meu ateliê.
16:57E estou com a cliente com hora marcada, tá?
17:00A cliente marca o horário.
17:02Então, eu vou, converso, atendo ela, sabe?
17:05Junto dela, vejo o que ela está precisando.
17:09Então, ela tem que ficar satisfeita, feliz.
17:11E eu também, né?
17:12Então, procurando fazer ela ficar mais bonita ainda, né?
17:17Realçar a beleza e que ela vai atrás, geralmente, algum casamento ou eu vou...
17:24Às vezes, é...
17:24Belém, que é um mercado de festa.
17:26A gente sabe que é um movimento de festa todo final de semana.
17:29É verdade.
17:29Em megas festas.
17:30As pessoas se vestem para ir para a festa.
17:32Verdade, para ir para a festa.
17:34Esse mercado, então, é um mercado aquecido.
17:36É, um mercado bom.
17:38Mas eu também gosto de fazer o preta-porteiro.
17:40Aquela roupa que você sai, um vestido de algodão...
17:42Que estão aonde?
17:43Estão na tua loja?
17:44Na loja, comigo, no ateliê.
17:46Uns têm feitos, eu sempre tenho um preta-porter, algumas coisas prontas para vestir.
17:52E outras, ah, mas eu não queria com esse tecido.
17:54Esse look aqui fica bom com um linho?
17:58Falei, fica, então vamos fazer.
18:01Dessa época, dessa tua época de página dentro do jornal, no principal jornal da cidade.
18:06Verdade.
18:06Página inteira, no domingo, que você diz que as pessoas te procuravam, comentavam contigo.
18:12Isso, muito.
18:13O que mudou dessa época para agora, em termos de consumidor, dessa pessoa que te procura?
18:17Depois de dentro, já estás atendendo as filhas, não é?
18:22É verdade, é o que eu ia te falar.
18:24Já tem outra geração.
18:25Já tem outra geração, já tem outra geração, sabe?
18:29E isso é muito bom, eu acho que mudou muito o tempo.
18:32A gente sabe que foi uma mudança muito radical, mas que trouxe novidades.
18:38Sempre o tempo.
18:39Você tem que fazer parte do tempo, do tempo atual.
18:42Então, houve o tempo, agora estamos em outro tempo.
18:46A tua filha trabalha com?
18:48Trabalha com a parte de joias.
18:50Joias, né?
18:51Joias, então ela também cria.
18:53Tem essa parte do toque amazônico também, não só isso.
18:56Aí, nessa coisa da criação de joias, de objetos, tem uma coisa de arquitetura também.
19:00Tem, muito, tem sim.
19:02Tem muito aí, tem um desenho.
19:04Muito, muito de arquitetura, design.
19:06É muito interessante.
19:07Você viaja muito para ver moda, para ver desfile?
19:10Geralmente, a gente tem que ir, tem que viajar.
19:13Não só para ver desfile, mas para ver o mundo, para ver tudo, as vitrines, para ver a essência do trabalho.
19:21Eu gosto muito de Paris para a moda e Milão.
19:24Milão é muito bom para a moda.
19:26Me diz uma coisa, você vive disso, na verdade, né?
19:30Sim, sim.
19:32A sua profissão é essa.
19:33A minha profissão é essa, é o que eu sei fazer.
19:35Você vive isso.
19:36É.
19:36Isso é bacana, isso, né?
19:37Porque você já tem todo um nome, já tem um mercado aí.
19:40É, já sabe fazer.
19:41Porque é tão bom quando a gente faz o que sabe, né?
19:44Não adianta fazer o que não sabe.
19:46Então, eu, digamos assim, me realizei, porque era isso que eu queria, né?
19:52E gosto muito do que eu faço.
19:54E você, com qualquer estilista da cidade, passou também por um momento muito interessante,
20:01que é fazer o manto da Senhora de Nazaré, o manto da imagem.
20:07Foi, é verdade.
20:07Já fez duas vezes.
20:08Já fez duas vezes.
20:09Como é que é esse trabalho?
20:10Esse trabalho é muito...
20:13Primeiro que é um trabalho manual, né?
20:15Manual, mas assim, é um trabalho que você se debruça sobre ele, sabe?
20:20E fica-se muito atenta nas orações, sabe?
20:25Em tudo.
20:26Então, é um trabalho totalmente diferente.
20:28Mas aí te consome bastante naquilo.
20:31Quanto tempo leva para fazer o manto?
20:32Olha, eu levei seis meses.
20:34Seis meses?
20:35Seis.
20:36Em quatro, tu acaba.
20:37Mas seis, você fica no total.
20:40Detalhe, sabe?
20:41Então, porque eu bordei só...
20:43Eu tinha um bordador.
20:44Aquilo ali já tem um molde, na verdade.
20:47Já tem um molde.
20:47Você faz em cima daquilo, né?
20:48Em cima daquilo, você tem uma criação.
20:51E você define cores, os detalhes, você vai definindo.
20:57Hoje em dia, inclusive...
20:58Existe um tema.
21:00Inclusive, hoje em dia, com recurso de computação, a coisa deve ser mais fácil, né?
21:04Quase não entra nada disso.
21:06Não.
21:06Não.
21:07Ele vem na forma e você vai desenhando, fazendo, sabe?
21:12Não é tão, assim, digamos assim, aplicado essa parte.
21:16Mas é muito manual.
21:19E é um trabalho solitário?
21:21Não.
21:22Tem vários...
21:23Tem uma equipe que...
21:24Não, é uma equipe de...
21:25Eu trabalhei com três pessoas.
21:26Eu, mas dois.
21:28Um rapaz e uma senhora, né?
21:30E o rapaz está acostumado a bordar os mantos, que é o Antônio, acostumado a bordar.
21:37E aí eu fui com ele dizendo, olha, Antônio, vamos fazer isso, isso, isso.
21:42Desde a hora que eu fui comprar o material, tá?
21:45Eu saí para comprar o material.
21:46Como é que é ver isso lá na hora da posição?
21:48Aí foi muito interessante isso.
21:51Na hora que eu fui escolher a cor, eu queria um verde.
21:55E ela me disse, não, esse cristal, os varovos, que não tem mais no Brasil, só nos Estados Unidos.
22:01Mas eu tenho um restante aí, que eu não sei nem qual é.
22:04Foi buscar o verde que eu queria.
22:06Aí eu disse, é esse que eu quero.
22:08E a quantidade era exatamente o que eu precisava.
22:10Então, são coisas que vêm assim, sabe?
22:12Aí você começa a fazer, a abordar e começa a entrar aquela coisa do sentimento de querer fazer o melhor, sabe?
22:21E que Nossa Senhora esteja gostando.
22:23Então, é toda uma...
22:24Tem toda uma...
22:25Como é que é ver isso lá na hora, assim?
22:27Contemplar aquele teu trabalho ali, que tem uma participação ali?
22:31As pessoas ali, né?
22:32Uma vez eu fui lá no CAM, depois que eu já tinha entregue o manto, né?
22:38O manto já tinha passado o sírio.
22:40E eu queria ver a reação das pessoas.
22:42Tinha muita gente olhando de perto.
22:44Aí uma senhorinha, foi muito interessante, ela ficou me olhando, ela disse assim, você
22:49me explica esse manto?
22:52Como é que aquela pessoa colocou?
22:53Aí eu comecei a explicar para ela.
22:55Expliquei, expliquei, expliquei tudo para ela.
22:58Aí ela disse, olha, tirou da bolsa uma Nossa Senhora de Nazaré, me mostrou e disse,
23:02poxa, eu estou emocionada.
23:03Eu disse, ah, eu que fiz esse manto.
23:06Ah, ela ficou mais emocionada ainda, sabe?
23:08É muito interessante.
23:09A história também é interessante que o manto não é só aquilo que é colocado e bordado.
23:15Tem toda uma história ali, né?
23:17Tem todo um simbolismo contado ali naquele pequeno pedaço de pano.
23:22Exatamente, são seis meses.
23:23O que que te dá mais prazer de fazer, por exemplo, assim, noiva, deputante?
23:29Eu gosto muito de fazer noiva.
23:31Mas, olha, eu gosto de fazer vestidos de festa.
23:34Vestidos chique, alinhado.
23:36Sim.
23:36Sabe?
23:37Com diferenciados.
23:39Eu gosto muito.
23:41Vestidos, assim, para a pessoa, né?
23:44Que fique realmente que você olhe e diga, olha, é tão espetáculo.
23:48Para homem, não.
23:49Para homem, você não...
23:50Não, geralmente eu não faço.
23:52Mas já fez, já tentou.
23:53Já, não, já fiz.
23:54Eu faço camisa, calça, não tem problema.
23:57Claro que eu sei fazer.
23:59Gosto de modelagem, tá?
24:01E a modelagem é tudo na moda, sabe?
24:04É o início para a roupa ficar bem.
24:07É a modelagem.
24:08Então, eu gosto.
24:09Mas, com o homem, é muito diferente da roupa feminina, né?
24:13Porque é aquela roupa mais...
24:14Homem é mais básico.
24:16Básico, é isso.
24:17Não tem como sair daquilo, né?
24:18Não tem como sair, mais ou menos.
24:19Um processo de criação.
24:20Com bolsa, uma lapelinha só, né?
24:22Só um detalhe.
24:23Um detalhe.
24:25Então, é isso.
24:25Tá bom.
24:26Interessante conversar contigo, Jalei.
24:28Foi ótimo.
24:29Ah, que bom.
24:30Eu estou aqui com você.
24:31Contando essa história toda, né?
24:32É.
24:32Acho que a tua história está ligada a essa história do Pará.
24:36Tá, a história daqui, do jornal, do Pará.
24:38Você vê, por exemplo, se você acha que esses últimos tempos, com essa coisa da visibilidade
24:44do Pará e tudo mais, você acha que aumentou isso?
24:47Você acha que teve um movimento em relação à moda?
24:50Porque também surgiu muita gente nova aí, né?
24:53É verdade.
24:55Surge muita gente nova, mas, assim, tem que ser pessoas novas com experiência.
24:59Tem hoje em dia que é faculdade de moda, né?
24:59Sim, com experiência.
25:02Experiência é muito importante, né?
25:03Você ter o conhecimento, né?
25:05A capacitação, né?
25:08Para você ser forte, você saber realmente falar daquilo, você tem que ter conhecimento.
25:14Então, eu acho que poucas pessoas têm esse conhecimento, principalmente quando liga
25:18a Amazônia, tá?
25:19Então, eu acho que essa nova geração, ela está mais, assim, junto da moda toda, do
25:27mundo, né?
25:28Mas tem que fazer parte, assim, da cidade.
25:31Eu acho que eu já tive muito esse, digamos assim, o jornal, inclusive o Liberal com a Globo.
25:39Eu participei, não sei se você sabe, que naquela época do Romulo, ele me chamou para
25:44fazer o jornal de Fortaleza.
25:47E o dono do jornal lá era o Demócrito.
25:50Ainda é o Demócrito Rocha, né?
25:52E eu fiz durante muito tempo, mais de dois anos, as páginas de moda em Fortaleza.
25:59Era muito trabalhoso, né?
26:01Porque eu tinha que mandar para lá.
26:03Mas eu fiz isso...
26:04O que te fascina, assim, no mundo da moda desses criadores e dos clássicos, claro?
26:08Você sabe que morreu ontem um grande criador, né?
26:12Que é o Armani, né?
26:13O italiano, que teve, acho que um dos que deu início, estava com 91 anos.
26:18Eu acho que o Armani simplificou a elegância.
26:21A elegância, exatamente.
26:23Então, ele é uma inesquecível, né?
26:25Pois então, mas o que te fascina, assim, desses criadores dos clássicos, antigos, né?
26:31Das grandes mesões aí de...
26:33A história, a história da Chanel.
26:35Chanel, Saint Laurent, o quê?
26:36A história da Chanel.
26:37O Saint Laurent, eu vou te falar ainda, foi a desfile do Saint Laurent.
26:41Com o Saint Laurent, tá?
26:42Era o Marc Boan, que era o diretor.
26:46E ele...
26:48A gente ia assistir mesmo o salão fechado.
26:53Tinha que dar nome, marcar a hora, mas eram várias pessoas, tá?
26:58E foi um espetáculo aquilo.
26:59E desses novos criadores, assim, o que que tu acompanha, por exemplo?
27:03Do Brasil.
27:04Do Brasil, não é de dizer que eu não gosto de nada, mas eu acho que não tem muita...
27:14Eu gosto muito do Lino, te lembra do Lino e Vila Aventura?
27:16Sim, claro, Lino e Vila Aventura.
27:18Isso.
27:18Ativo até hoje, maravilhoso.
27:20Meu amigo, e estávamos muito aqui em Belém.
27:25Eu acho que ele é muito criativo, viu?
27:26Acho que talvez um dos mais criativos que eu acho.
27:28Realmente.
27:30Tá certo.
27:31Obrigado pela...
27:31Obrigada.
27:32Obrigado por ter aceitado o convite.
27:34Obrigadíssimo.
27:35Estamos por aqui.
27:36Vamos ver todas essas imagens aí que a gente vai editar, tá certo?
27:39Tá bom.
27:40Este é o Mangarosamente, que você assiste no LibrePlay, dentro de o liberal.com.
27:46O que é o Mangarosamente, que você assiste no Libre, dentro de o liberal.com.
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