- há 1 ano
Bruxelas, meu amor? O impacto do turismo de massas na Europa e Portugal
Nesta edição de "Bruxelas, meu amor?", falamos sobre o estado atual do turismo da Europa e Portugal e o impacto do turismo de massas nos destinos mais populares e nas principais estâncias balneares
LEIA MAIS : http://pt.euronews.com/2025/08/09/bruxelas-meu-amor-o-impacto-do-turismo-de-massas-em-europa-e-portugal
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NotíciasTranscrição
00:00Olá e sejam bem-vindos ao Bruxelas Meu Amor, o programa da Euronews que lhe traz todas as semanas em português as notícias e os debates que marcam a atualidade europeia.
00:21Eu sou a Mariana Correia e hoje vamos falar sobre turismo. Em pleno verão analisamos o estado atual do turismo da Europa e, claro, Portugal.
00:31Em cidades como Barcelona, Nápoles e Lisboa, milhares de residentes já serão às ruas para exigir o fim do turismo urbano.
00:38O que leva a esta reação, quando os turistas são uma importante fonte de receita, perante o impacto do turismo de massas nos destinos mais populares e nas principais distâncias balneares,
00:48serão as novas tendências, como o turismo de natureza ou outros destinos, uma alternativa viável e acessível à maioria dos europeus.
00:56E ainda este verão, 15% dos portugueses não planeiam ou não podem tirar férias, o dobro em relação ao ano passado, e mais de 40% dizem não ter capacidade financeira para o fazer.
01:07Apesar do Algarve ser a região preferida para as férias de verão, os preços elevados levam muitos a optar pelo sul de Espanha ou por destinos mais económicos.
01:16E para quem viaja de avião, como lidar agora com as novas regras dos direitos dos passageiros sobre as bagagens de mão e as compensações nos atrasos dos voos.
01:25Para nos ajudar nesta conversa, temos hoje António Buscardini, editor-in-chief do jornal de turismo Travel Tomorrow, seja bem-vindo.
01:32Catalina Figueiredo Leici, representante da região autónoma da Madeira, em Bruxelas.
01:36E João Lança, representante da região autónoma dos Açores, também aqui em Bruxelas.
01:40Obrigado aos três e obrigado a si que está desse lado.
01:45As feiras são um dos momentos mais aguardados do ano, trazem muitas vantagens económicas às populações,
01:51mas às vezes podem ser uma dor de cabeça para alguns dos moradores das cidades mais visitadas da Europa.
01:58Catalina, vamos começar por si.
01:59Quais são os sinais mais clars de que uma cidade ultrapassou o seu ponto de retura?
02:04Bom, há vários sinais, mas eu diria, vou-me pôr no lugar de uma pessoa que está num sítio a viajar,
02:12vai ser fazer fila, estive em Paris há uns dias atrás, fazer fila para entrar num museu,
02:18fazer fila para entrar em qualquer sítio, esperar para um restaurante, dificuldades para apanhar um táxi, um Uber.
02:26Isso tira o gosto pela viagem?
02:28Um bocadinho, um bocadinho.
02:29Muito bem. António, o turismo beleno está a provocar estas reações nas principais cidades turísticas,
02:35temos como exemplo mais emblemático o de Barcelona, mas o Porto e também Lisboa sofrem muito com isto.
02:42Como é que se pode diminuir o impacto na vida das comunidades em cidades onde há muito turismo?
02:48Muito obrigado pelo convite.
02:50Para falar de turismo, obviamente temos que ter em conta também alguns números.
02:53As Nações Unidas recentemente publicaram um relatório em que divulgaram que há 747 milhões de turistas de movimento no continente europeu.
03:06Isso obviamente tem um grande impacto naquilo que chamamos o over-tourism,
03:10porque desses 747 milhões, grande parte vão para um mercado do sul da Europa.
03:15E Portugal acaba por beneficiar deste volume anormal de turistas e de uma concentração também que não é proporcional.
03:26Lisboa sabemos que está em voga, Porto também, o que faz com que haja uma enorme pressão nestas duas grandes cidades.
03:35O over-tourism acaba por subcarregar tanto o que a Catlin estava a dizer, a experiência do turista,
03:43mas também acaba por subcarregar a própria cidade em si e tem sido o desafio...
03:49E tira a qualidade de vida a quem lá mora?
03:51Tira, naturalmente, porque a qualidade de vida mede-se não só relativamente ao poder de compra, mas no dia-a-dia.
04:00Faz tudo aumentar os preços também?
04:01Faz aumentar os preços, mas para lhe dar um exemplo muito clássico em Portugal,
04:05que é que nós temos a calçada, e uma das medidas que foram tomadas pelo governo anterior
04:11foi precisamente de tentar reduzir com que haja barulho de transporte de malas.
04:17Porque imagino que de manhã, em certas ruas, há um movimento anormal de turistas vão para o aeroporto
04:23e pode parecer uma brincadeira, mas o ruído existe.
04:26E viver todos os dias com um ruído desse provoca danos na qualidade de vida de quem vive naquela rua.
04:36João, estávamos aqui a falar de números e, portanto, a União Europeia é um dos principais destinos turísticos do mundo.
04:43Como é que se explica a força do turismo europeu, mesmo tendo custos altos,
04:49e às vezes até países com tensões políticas existentes?
04:53Também eu quero agradecer o convite e a possibilidade de falarmos, não só de turismo,
04:59mas também depois, mais à frente, certamente, da região que estou aqui a representar.
05:04Sobre a questão concreta, e vou começar por onde o António acabou,
05:08a questão do barulho, que não é propriamente a pergunta, mas curioso.
05:11Eu cheguei a Bruxelas e uma das coisas que eu identifiquei em Bruxelas
05:15era o barulho do trolley, como morava aqui na zona, no barro europeu.
05:20Mas, concretamente, em relação à questão, eu acho que acaba por ser um conjunto de vários fatores
05:25que levam, de alguma maneira, a que tenhamos esse fluxo de turistas.
05:33E, para mim, é a combinação da história, da gastronomia, da cultura e, portanto,
05:39e da proximidade, em alguns casos, e da possibilidade de deslocação entre vários,
05:44de fazer um circuito ou uma combinação de países.
05:47Não acho que há um conjunto de explicações que, de alguma maneira, contribuem para isso.
05:53Catiline, o turismo é vital para o crescimento e para a criação de emprego?
05:58Falamos aqui há bocadinho de alguns números, eu vou introduzir mais outros.
06:023 milhões de pequenas e médias empresas que suportam 20 milhões de empregos
06:06e que criam 10% do PIB da União Europeia.
06:09Estes são números bastante expressivos.
06:11Como é que se explica que não haja um comissário ou uma comissão no Parlamento Europeu exclusiva
06:16só para tratar deste assunto do turismo?
06:19Para já é preciso também reconhecer que é a primeira vez que temos um comissário europeu
06:23com, no título do cargo dele, o termo turismo.
06:27Mas junto a outro?
06:28Junto a outro.
06:30Transporte sustentável e turismo.
06:32Portanto, já é um grande passo.
06:34Veremos, talvez, se na próxima legislatura haverá uma proposta para também acompanhar
06:42este tema mais especificamente no Parlamento Europeu.
06:46Mas penso que é um tema transversal que se encontra em várias comissões no Parlamento
06:52Europeu neste momento.
06:53Temos, claro, o tema no ambiente, nos transportes, na nova comissão especial sobre o housing,
06:59portanto, a habitação.
07:00Portanto, há uma série e penso que é um tema que pode vir a ser, neste momento está
07:06a ser tratado em várias comissões.
07:08E que vem numa boa altura.
07:09E que vem numa extremamente boa altura.
07:11Muito bem.
07:12João, a Comissão Europeia, estávamos aqui a falar sobre a Comissão Europeia, que está
07:16a trabalhar na primeira estratégia da União Europeia para o turismo sustentável, que vai
07:22ser apresentado na primavera de 2026 e está agora na fase de consulta às regiões.
07:27Portanto, a Madeira e os Açores estão aqui incluídos.
07:30O que é que Portugal, e nomeadamente os Açores, querem ver escrito nesta estratégia?
07:37Relativamente a essa questão, a consulta vai decorrer até 30 de setembro e eu espero
07:44que seja possível, num caso concreto, nós trabalhamos a Açores e também a Madeira, integrados
07:50na Conferência de Presidentes das Regiões Ultraperiféricas, estabelecer uma posição
07:54comum, porque, de facto, reforça a posição quando se trabalha em conjunto.
07:59Mas, especificamente para os Açores, eu penso que é um pouco o que gostaríamos de ver
08:04e vai em linha com algumas das medidas que já tomamos ao nível da região.
08:09nomeadamente o Plano Estratégico para o Turismo 2030 e, a esse nível, tudo de medidas, de
08:18alguma maneira, que contribuem para o reforço da sustentabilidade.
08:22Desde logo, nós, nos Açores, implementámos aquilo a que chamamos uma cartilha de sustentabilidade,
08:28tendo em vista a implementação dos Objetivos de Envolvimento Sustentável da ONU.
08:33E aí, é um aspecto que, em colaboração com, neste momento, já mais de 350 entidades,
08:41temos vindo a desenvolver uma política tendo em vista o reforço dessa sustentabilidade.
08:49E o que é que mais falta?
08:51O que mais falta?
08:52E um pouco o que a Catalina já lançou quando lançou a questão da transversabilidade em relação
09:00às comissões é um pouco também abordagens multi, nomeadamente, ao nível dos impactos
09:05na habitação, nos impactos nas acessibilidades.
09:09São tudo aspectos que têm de ser, de alguma maneira, equacionados e que, esperemos nós,
09:14que venham a ser, de alguma maneira, contemplados e abordados na futura estratégia.
09:19Catalina, e para a Madeira?
09:20O que é que gostava de ver transposto para este relatório?
09:24No caso da Madeira, a Madeira está aqui já bem à frente deste trabalho, porque, no
09:30caso da nossa região, já temos uma estratégia 2022-2027 para o turismo e outra também, 2027-2032,
09:39também para o turismo.
09:40Portanto, é um trabalho que o Governo da Madeira já começou há algum tempo a preparar
09:47para termos um turismo que tenha em conta, claro, os recursos naturais que temos, os recursos
09:55humanos, que tenha em conta todos estes aspectos de sustentabilidade.
10:02Portanto, o turismo, sim.
10:03Aliás, o turismo, no nosso caso, da região autónoma da Madeira, são 20% do PIB que vem
10:09do setor do turismo, mais de 80% da força laboral na nossa região está no setor do serviço
10:18e, em grande parte, é turismo.
10:21Portanto, para nós é um setor absolutamente essencial, vital.
10:26E, portanto, isto aqui vai ser também uma grande oportunidade para introduzir possíveis
10:30mudanças.
10:32E, por falar em mudanças, António, estamos a mudar a forma como viajamos.
10:37E, hoje em dia, há outras preocupações para quem viaja, que não são só a praia
10:44e o sol.
10:45Quais são?
10:45Certo.
10:46Eu só queria comentar relativamente a esta mudança e o ponto sobre a Comissão Europeia.
10:52Na verdade, a pandemia obrigou a União Europeia a refletir sobre o papel do turismo, a Covid-19.
10:58E eu, na verdade, já estou muito satisfeito com a decisão da Comissão Wonderland de termos
11:03um comissário que tem o portfólio do turismo juntamente com o transporte, porque é assim
11:10que faz sentido de pensar o turismo.
11:13Tudo isto começou, na verdade, no Parlamento Europeu e nós tínhamos uma eurodeputada da
11:17Madeira que tinha um papel importante nesse movimento de fazer lobbying para que as instituições
11:25europeias reconheçam o papel do turismo, porque havia uma certa vergonha, de alguma
11:30maneira, de assumir que tem o peso que tem, 10% do PIB global da União Europeia.
11:35Mas vergonha por quê?
11:36Porque, normalmente, países que dependem exclusivamente do turismo são países que
11:41estão dependentes de terceiros.
11:43Ora, a indústria não pode ser apenas pensada na perspectiva do viajante.
11:48Tem que ser pensada com os atores económicos que compõem a indústria do turismo.
11:54Por outro lado, quando pensamos no top 20 dos países que recebem mais turismo, 12 estados
12:01são europeus.
12:03Ora, isto quer dizer que é uma indústria que tem peso, que deve ser pensada e que tem
12:10desafios.
12:11Esses desafios que estava a colocar de tendência de pensar, em primeiro lugar, num turismo responsável,
12:18de pensar na questão do overtourismo e pensar também em medidas para criar um equilíbrio
12:26entre a proteção de certas cidades, penso em Veneza com as day trips, que foi uma medida
12:32que muito importante foi introduzida para reduzir o fluxo de turistas diários, como também
12:38uma cidade como Barcelona, que até decidiu mudar o slogan de visit Barcelona, como sabem
12:46os turismos nacionais e regionais, começam sempre com visit.
12:51E Barcelona quis passar a mensagem que nós não queremos visit, que queremos que Barcelona
12:57seja pensada de outra maneira.
12:59Queremos que tantas autoridades como os turistas venham descobrir viver Barcelona, mas com peso
13:07e medida.
13:08Então essas boas práticas podem ser transpostas para outras cidades também?
13:11Tem que ser.
13:13E já está a ser feito?
13:14Já.
13:16Um bom exemplo que posso partilhar aqui, para fugir um bocado à perspectiva europeia,
13:21na Ásia Central há um país, o Zubequistão, que está a fazer um trabalho incrível de desenvolvimento
13:27do turismo, e aquilo que tem acontecido é que acaba por adotar boas práticas europeias,
13:36não tendo o volume de turistas que a Europa tem.
13:40Catlin, hoje em dia existe o chamado efeito Instagram e costumamos ver às vezes praias
13:48com filas de pessoas para, enfim, para entrar na própria praia.
13:55Como é que, isto tudo por causa de influências que fazem posts nas redes sociais, isto é
14:01bom para o turismo?
14:03Vem-me imediatamente um caso à mente que é o da Croácia.
14:07Aconteceu isso há poucos anos atrás, era o novo New Place to Be e a Croácia transformou-se
14:14um bocado num sítio pouco agradável do Kioiço, um bocado um Ibiza, e estou a ver este ano
14:20a novidade, onde é que vai toda a gente?
14:22A Albânia.
14:23Então, é bastante interessante de ver, é verdade, eu estou um bocado fora das redes
14:26sociais, mas quando abro as redes sociais é imagens maravilhosas, é...
14:30Mas pode-se aproveitar as redes sociais para, enfim, para dar um impulso às regiões
14:38que têm menos turismo?
14:39Claro que sim, e aí é a responsabilidade, claro, das autoridades locais de conseguir
14:45gerir essa nova fama e de conseguir ter algumas regras que tentem conter essa nova fama.
14:58Mas, claro, hoje em dia estamos à procura de meios para nos mantermos nós, europeus,
15:04competitivos, e o turismo faz parte dessa busca de competitividade.
15:11E não há como fugir.
15:12E não há como fugir.
15:12E não há como fugir.
15:13E dentro destas novas tendências, como já falamos, do turismo, da natureza e da sustentabilidade,
15:19que os Açores são um bom exemplo, não há o risco de se perder a qualidade se os Açores
15:24se tornarem num destino de moda?
15:27O risco pode haver, mas também há, como a Kathleen disse, alguma responsabilidade das autoridades
15:33responsáveis por o setor de acompanharem a situação.
15:38E desde logo, por exemplo, no nosso caso, há uma preocupação, nomeadamente, através
15:42da monitorização dos fluxos turísticos nos locais principais.
15:47E através dessa monitorização e desse acompanhamento de perto, é possível, de alguma maneira,
15:54tentar introduzir, e introduzir até, medidas que podem mitigar, em alguns casos, as situações,
16:00ou mesmo até resolvê-las.
16:02E nós, por exemplo...
16:04Há um número limite de pessoas para...
16:07Num caso concreto, nós nos Açores, e particularmente na ilha de São Miguel, há vários locais
16:13emblemáticos, mas desde logo ocorreu como um exemplo a apresentar aqui, na ilha de São Miguel.
16:21Temos um local, em particular, em que está dentro do roteiro de todos os litanes, que é a ilha do Fogo.
16:30A ilha do Fogo, a Lagoa do Fogo, peço desculpa, e o Governo Regional criou um programa específico,
16:39bem particularmente na época alta do turismo, em que controlou o acesso a essa zona, através
16:48de criação de parques de estacionamento no supé da cratera, e, através de um shuttle,
16:58permitiu que os turistas visitem todo o espaço e furam daquela vista magnífica, sem terem os carros
17:05a passar por eles.
17:06Portanto, há aqui uma forma de equilibrar...
17:08Há exemplos, há formas de equilibrar e tentar mitigar esses impactos, para além de outros
17:14aspectos que podemos desenvolver e que temos essa preocupação presente sempre, e particularmente
17:21nos sítios em que são mais... em que toda a gente quer ir, basicamente.
17:25António, o que é preciso para ser um novo destino e quais são as novas tendências?
17:29Bom, a questão é complexa, porque sim, mistura decisão política, porque o turismo hoje em dia
17:39é pensado politicamente, como também um trabalho de promoção.
17:45Aquilo que estávamos a falar há pouco, a promoção que passa por vezes nas redes sociais, mas passa
17:49sobretudo pela experiência, pela experiência que influencers, jornalistas, famílias muitas
17:59vezes partilham e acabam por o influenciar.
18:03E essa campanha pode demorar quanto tempo?
18:06Até que se comece a pensar, depois planear, montar...
18:11Pensarmos no caso da... foi referida aqui à Albânia.
18:15Na verdade, a Albânia está a promover o país como destino já há mais de uma década.
18:21Ainda este ano, a Albânia foi o país convidado para o maior evento de turismo, que é em Berlim,
18:27como país convidado.
18:29O que revela que é o culminar de toda uma campanha.
18:33A mesma coisa aconteceu com Portugal.
18:35Portugal acabou por ser beneficiado por um turismo espanhol, em grande medida.
18:45Foi descoberto a seguir e, paulatinamente, foi-se desenvolvendo.
18:52E quanto tempo é que duram essas boas graças?
18:55Até se descobrir um destino novo ou...
18:58Esse é um ponto muito importante, porque nada é líquido.
19:02Nada nos garante que cada turista gostou dos Açores.
19:08Nós partimos do pressuposto que sim, obviamente gostamos do nosso país
19:11e achamos que o turista veio e gostou.
19:14Mas há um efeito de cansaço.
19:19Porque foi uma vez e não quero voltar mais.
19:22Porque a interação no país que visitou não foi agradável.
19:28Vamos refletir apenas, por exemplo, com as Ilhas Baleares,
19:32em que há manifestações mensais, em que há um movimento que é das potevalas de água.
19:40Quer dizer, são movimentos a mais que podem prejudicar a experiência.
19:46Ao fazer isso, podemos, na verdade, alterar...
19:50Estar a afastar e estar a afastar os turistas, não é?
19:54Sim, porque, ao fim e ao cabo, nós não queremos que não haja mais turismo em Portugal.
19:59Catilino, mas a Madeira tem um histórico de ser um país de turismo,
20:05uma cidade, desculpa, uma ilha de turismo, há muito tempo.
20:09O que é que faz a Madeira tão especial?
20:12A Madeira é fantástica.
20:13E acho que não houve nunca ninguém que tenha ido à Madeira que tenha voltado a dizer que não gostou.
20:17Pelo menos nunca.
20:18Há alguma receita mágica para ir mantendo o turismo sempre a crescer?
20:22Bom, a verdade é que também nós tivemos, a partir do Covid, uma mudança na população turística na Madeira.
20:31Historicamente, foram sempre as pessoas, talvez um bocado mais idosas, com mais meios financeiros,
20:38que iam de férias num hotel.
20:40Portanto, o turista, vamos dizer, aquele tradicional.
20:45Depois do Covid, tivemos uma abertura para toda uma nova gama de turistas.
20:54Turistas, mas também os novos nómadas digitais, sendo que na Ilha da Madeira temos um acesso a uma rede internet
21:05e todo um desenvolvimento tecnológico bastante importante que atrai também novas gerações.
21:11Temos hoje também, e penso que é não só na Madeira, mas penso que é de forma geral,
21:16também devido talvez às redes sociais, jovens que viajam de forma diferente,
21:22que é mais last minute, que não querem tanto estar num hotel, um all inclusive,
21:29que gostam de ir para fazer um turismo rural, um alojamento local.
21:35Portanto, temos também nós na Madeira uma abertura e conseguimos responder esses pedidos.
21:41e isso traz mais gente, certamente.
21:44Nós vamos ter que fazer aqui uma curta pausa.
21:46Quando voltarmos, iremos falar sobre os direitos dos passageiros.
21:50Até já.
21:50Bem-vindo de novo ao Bruxelas, meu amor, e à conversa com os nossos convidados.
22:03Vamos continuar a debater neste bloco o tema do turismo.
22:07Ora, viajar pode ser por vezes um pesadelo por causa do caos que se gera em alguns aeroportos
22:12nesta altura do ano e também por causa dos custos inesperados com as malas.
22:15A partir de setembro entram em vigor regras unificadas para as bagagens de mão.
22:21A mudança, aprovada em junho pelo Ministro dos Transportes da União Europeia,
22:26põe um ponto final às várias interpretações sobre dimensões e tarifas.
22:30António, vamos começar por si.
22:32Estas medidas é suposto que virem simplificar a vida dos passageiros,
22:36mas há também outros temas em discussão que ainda terão que ser votados em plenário.
22:41Quais são as que, na sua opinião, são mais importantes?
22:44Sim, isto tem sido a conversa um bocado do ano.
22:49Tem havido uma campanha de lobbying, em particular pelas companhias aéreas,
22:53que é uma entidade que representa todas, que é Airlines for Europe,
22:57que tem tentado dar voz a um ponto de vista que não colhe nenhuma adesão com o passageiro.
23:05Portanto, esta reforma é importante, melhora a qualidade de vida do passageiro
23:12e, sobretudo, traz transparência, porque não era normal de termos preços em função da companhia aérea
23:20e estar a cobrar um preço que, no vazio sentido, estar a cobrar.
23:25Isto é o primeiro ponto.
23:26O segundo ponto é relativamente ao caos que se tem vivido também nos aeroportos na Europa.
23:33Tem havido um enorme problema com os aeroportos em França.
23:37As greves são quase que mensais, desde o início do ano, o que tem provocado, muitas vezes,
23:44a reação que, bom, isso é um problema francês, não é um problema europeu, o que não é verdade,
23:48porque os atrasos que ocorrem a partir de França de voos que têm destino,
23:52como, por exemplo, Porto ou Lisboa,
23:55obviamente que vão afetar depois a dinâmica de trabalho nos aeroportos de destino.
24:00E por falar em coordenação, Catarina, será que a implementação efetiva do espaço único europeu
24:05resolveria este problema que o António estava agora aqui a referir?
24:09Isso é um bocado uma pergunta a um milhão de euros, imagino que sim.
24:13Porque nos Estados Unidos já funciona assim, não é?
24:15Já é tudo mais um...
24:16Mas os Estados Unidos é um país e a verdade é que nós, como para todos os outros temas,
24:22são, na verdade, coordenação entre 27 autoridades.
24:25Portanto, claro que vai facilitar, pelo menos, ter regras base que são compreensíveis
24:33e que podem ser adaptadas transportas de forma mais geral nos 27 Estados-membros,
24:40vão certamente...
24:42Beneficiar os passageiros.
24:44João, há aeroportos que estão...
24:48Já que estamos a falar aqui dos aeroportos, nós temos um problema grande com o nosso em Lisboa
24:54e que ainda vai demorar muitos anos a ser resolvido.
24:59Como é que se faz esta gestão do prejuízo ou do risco,
25:05uma vez que também vai ter impacto nos aeroportos dos Açores?
25:13Não, como o António há bocado de referiu, desde logo, isto aqui é um efeito que é de contágio,
25:20porque as rotações, os equipamentos, ou seja, os aviões têm de fazer rotações
25:23e o atraso num, obviamente, numa rotação vai-se repercutindo nos outros.
25:28Os direitos dos passageiros estão assegurados na Europa ou, da sua experiência,
25:31comparativamente com outros países do mundo, ainda temos muita coisa a mudar?
25:36Sim, de alguma maneira, sim, há regras que estão definidas relativamente à proteção dos passageiros.
25:47Agora, não está aí coordenado, mais uma vez, não há uma coordenação europeia.
25:52E, portanto, depende muito de cada Estado-membro.
25:55Agora, aquilo que acaba por ser interessante neste assunto é perceber qual será o impacto
26:03neste verão de 2025, em que se perspectiva, novamente, um aumento de passageiros,
26:09em que se perspectiva, em particular no nosso país, a WTTC perspectiva um aumento de 15%
26:17e já em 2024 batemos todos os recordes, qual será a consequência disto?
26:22Porque o aeroporto de Lisboa, o maior aeroporto do país, já está sufocado.
26:28Temos criado engenho, já fico sempre surpreendido, enquanto passageiro,
26:33pela criatividade do staff, de maneira que se consiga agilmente passar,
26:37mas é notório que chegámos a um limite e que já não dá a prazo para continuar a trabalhar com este aeroporto.
26:49Isto pode limitar as visitas a Portugal?
26:53Isto tem...
26:55Isto é, as pessoas podem não querer passar por isto nos aeroportos e querer...
27:00Catarina, o que é que acha?
27:01Eu acho que sim. Mais uma vez, se eu ponho no lugar de uma pessoa que viaja,
27:06quando chego a Lisboa, muitas vezes penso, meu Deus, isto é um momento em que já não vamos conseguir
27:11porque realmente vê-se, sente-se, o passageiro sente que está a haver agora um too much.
27:18E é muito importante, mais uma vez, que as autoridades consigam ter em conta,
27:24não é fácil, mas ter em conta esta problemática e desenvolver soluções,
27:32como diz, já há anos que andamos a falar em soluções e que...
27:35E que não aparecem.
27:36Exato.
27:37Mas, Mariana, só para...
27:38Só mesmo para terminar?
27:40Não é só o passageiro, na verdade, são as companhias aéreas também, porque há slots.
27:45E, portanto, se a pressão cresce, há o perigo de certas das companhias aéreas começarem a reclamar,
27:51e que já reclamam, porque não conseguem, na verdade, trabalhar.
27:55Nós já vimos esse braço de ferro aqui em Bruxelas, em particular com a Rainer.
27:59A Rainer saiu daqui por uma guerra de slots.
28:03Portanto, isso também pode acontecer em Lisboa.
28:05E, portanto, e aí teremos ainda mais um problema a juntar todos os outros.
28:09Pronto, então, se calhar agora perguntava ao João o que é que acha sobre este problema do aeroporto de Lisboa
28:20e da capacidade de termos esta solução dos slots e que não é resolvida.
28:26Não, obviamente a questão do aeroporto de Lisboa, como nós falámos há pouco, é um efeito contagiante,
28:31porque o atraso em Lisboa repercute-se necessariamente na operação em São Miguel.
28:35Tudo o que não é voos diretos, obviamente, acabam por ser isso.
28:39E nós ainda dependemos muito também das ligações, particularmente a Lisboa,
28:43porque os voos que fazem o Lisboa-São Miguel, São Miguel, ou Açores, melhor dizendo, destino Açores,
28:51são muito importantes em termos de canalização de turistas, mas também de residentes.
28:58Portanto, são as duas componentes.
28:59E aqui, sim, também é um fator de perturbação e não pode ser imputável unicamente aos turistas,
29:05porque é uma questão que, de facto, de alguma maneira, compromete quer a vida dos residentes e dos turistas
29:11e depois todas as operações conexas, porque partimos do princípio que alguém que chega aos Açores,
29:16no caso, um não-residente, tem normalmente programas que já pré-comprou.
29:22Portanto, tudo isto acaba por perturbar o normal funcionamento da economia e do setor.
29:28Muito bem. Como sempre, pode ver as últimas notícias nas diferentes plataformas da Euronews.
29:33Obrigada aos nossos convidados e a SIC que está desse lado. Até já.
29:46Olá e sejam bem-vindos ao Bruxelas, meu amor, o programa da Euronews que lhe traz todas as semanas,
29:51em português, as notícias e os debates que marcam a atualidade europeia.
29:55Eu sou a Mariana Correia e hoje falamos de turismo e temos connosco António Buscardini,
30:00editor-in-chief do site de Viagens Travel Tomorrow. Seja bem-vindo.
30:05Catiline Figueira de Leici, representante da região autónoma da Madeira em Bruxelas.
30:10E João Lança, representante da região autónoma dos Açores, também aqui em Bruxelas.
30:14Ora, Portugal consolidou-se como um dos destinos de eleição na Europa.
30:19Em 2023 recebeu mais de 26 milhões de turistas internacionais, ocupando o 15º lugar mundial em chegadas.
30:28A qualidade das praias, com mais de 400 bandeiras azuis, e a diversidade da oferta são fatores
30:33chave na preferência dos visitantes.
30:36António, estes 26 milhões de turistas trazem muitos milhões de euros a Portugal.
30:42Em termos económicos, o turista é um dos setores mais valiosos do país.
30:46O que é que as pessoas procuram, para além do sol e da praia, quando passam férias em Portugal?
30:51Bom, eu acho que, em primeiro lugar, grande parte dos turistas são europeus,
30:56apesar de nós termos tido um aumento de turistas norte-americanos e brasileiros.
31:02Mas é a proximidade, é a segurança, é a nossa costa, que é inacreditável.
31:09Portanto, são quilómetros e quilómetros de praias.
31:13São paisagens também atípicas, de norte a sul, passando pelas ilhas.
31:19Portanto, Portugal oferece uma diversidade de experiências.
31:26Continuando, depois, numa realidade do turismo rural,
31:30de um turismo noturno, de alguma maneira,
31:36com bachelor parties, com casamentos.
31:40Portanto, há nichos que foram desenvolvidos nos últimos anos
31:44que acabaram por dar credibilidade e sustentabilidade
31:49ao desenvolvimento do turismo português.
31:51E esses nichos são caros?
31:53É um luxo fazer turismo em Portugal?
31:57Ou há para tudo?
31:58Bom, acho que há aqui várias respostas.
32:02Se for de uma perspectiva portuguesa, naturalmente que sim.
32:05É cada vez mais difícil.
32:08Eu sou Luís Boeta e eu recordo-me que era perfeitamente normal
32:13no verão ir para o Algarve.
32:14E hoje em dia, para a classe média, é um desafio.
32:18Porque, se calhar, é mais caro ir para o Algarve
32:22do que viajar para o outro lado do mundo.
32:24Só para acrescentar, mesmo assim,
32:28constitui 12% do PIB nacional.
32:31Portanto, quer dizer que há procura interna e externa.
32:35E sobretudo externa.
32:36E sobretudo externa.
32:37Isso é uma realidade também nos Açores, João.
32:41Há mais visitantes internacionais do que nacionais.
32:44É uma realidade que tem vindo a ser confirmada.
32:46E dentro do que o António estava a dizer no último ano,
32:49que nós, tradicionalmente,
32:51tínhamos uma prevalência de turismo residentes em Portugal.
32:56Em 2024 já houve essa inversão.
32:58E dentro dos estrangeiros,
33:01do turismo não residente em Portugal,
33:03o turista não residente em Portugal
33:04era o turista alemão que assumia a liderança.
33:08Em 2023 a tendência começou a esbater-se.
33:13Em 2024 já é o turista norte-americano que predomina.
33:19E em 2025 vem a confirmar essa tendência.
33:22Portanto, nós, neste momento,
33:23o turista dos Estados Unidos da América,
33:26o alemão,
33:27mas com uma prevalência neste momento
33:30do turista não residente em Portugal.
33:31Então, onde é que os portugueses passam férias,
33:34Catarina, e na Madeira?
33:36Muitos, mas...
33:37Também tem perfil...
33:39Temos o mesmo perfil
33:40e, ultimamente, este ano,
33:43houve uma nova rota também que abriu para os Estados Unidos.
33:46É a primeira vez que na Madeira
33:47que chegam três voos semanais de Nova Iorque,
33:52Newark, para ser mais preciso.
33:54E, portanto, temos, claro, sempre os turistas
33:57tradicionais de Inglaterra, da Alemanha,
34:00da Polónia, vê-se também muito da Ucrânia.
34:03Portanto, temos turistas muito fora da zona Portugal
34:08e temos turistas, como disse também há pouco,
34:13cada vez mais jovens.
34:14E o que é que procuram na Madeira?
34:17Desportes radicais, muito,
34:19e é uma oferta que temos.
34:21Claro que há sempre Porto Santo,
34:23que temos praias fantásticas,
34:26como as que temos também no continente,
34:29de areia amarela,
34:31extensas, muito bonitas,
34:33mas temos na Ilha da Madeira
34:36muitos desportes radicais,
34:38tanto no mar como na serra,
34:39os trilhos,
34:40e, portanto, isso é uma...
34:42É muito atrativo.
34:43Uma atração, exatamente.
34:44Para quem visita.
34:46Temos um ativo diferenciador
34:47no qual testamos também a apostar.
34:49Mas agora, queria insistir um bocadinho
34:51na pergunta onde é que os portugueses passam férias.
34:54Se em Portugal é muito caro,
34:58vamos para onde?
35:00Sim, em Portugal,
35:01no que estávamos a falar à bocada,
35:02é nos destinos tradicionais.
35:05Portanto, quando falamos de Lisboa,
35:08quando falamos do Algarve,
35:10mas tem havido um movimento para o interior.
35:14Portanto, cada vez mais temos famílias portuguesas
35:17a viajar para o interior do país,
35:21a ter experiências de turismo rural,
35:26a passar férias em quintas.
35:29Portanto, existe, continua a haver,
35:31na verdade, um turismo nacional,
35:33mas são opções diferentes.
35:36E isto também é muito recente.
35:39Portanto, nós precisamos de tempo também,
35:42e quem gera o turismo em Portugal,
35:45para compreender as tendências.
35:47Eu acho que este verão
35:48será um barómetro muito interessante
35:51para perceber precisamente essa tendência.
35:55Isto é uma perceção, com alguns dados,
35:57que há um fluxo para fora
36:00e há um fluxo para o interior.
36:02Mas a confirmar, obviamente.
36:04João, sente que a situação geográfica dos Açores
36:07prejudica mais o arquipédago
36:10ou é uma vantagem?
36:13É um desafio, acima de tudo.
36:14E é um desafio não só pelo facto
36:16de estar onde está,
36:18e isso é inegável,
36:20mas também pode, ao mesmo tempo,
36:22ser uma oportunidade.
36:23E a oportunidade, por exemplo,
36:24na captação de turismo dos Estados Unidos da América,
36:27pode ser uma oportunidade,
36:28porque está a meio caminho.
36:29E desde logo aí,
36:32parte justifica este aumento
36:35que tivemos nos anos mais recentes.
36:37Não só pelos voos diretos,
36:38mas também pela situação geográfica
36:41e pela segurança que nós falávamos há pouco,
36:44que é um fator certamente diferenciador
36:47e que ativa certamente também.
36:50Não só isso,
36:50mas depois de toda a oferta que temos,
36:52temos destino, natureza, trilhos
36:54e as atividades radicais que tínhamos.
36:57Muito bem.
36:58Eu quero agradecer aos nossos convidados
37:00por terem aceitado o nosso convite,
37:03o tempo passou a correr.
37:05Um especial obrigado a si,
37:06que está desse lado,
37:06por nos ter feito convenia.
37:07Se quiser deixar as suas sugestões ou comentários,
37:10escreva-nos para
37:11bruxelasmeumor.com
37:14Quanto a nós, já sabe,
37:16voltamos em breve com mais notícias,
37:18sempre em português,
37:20aqui na Euronews,
37:21porque Portugal também tem uma voz na Europa.
37:23Fico bem.
37:24Até lá.
37:27Tchau.
37:28Tchau.
37:29Tchau.
37:30Tchau.
37:31Tchau.
37:32Tchau.
37:33Tchau.