- há 8 meses
- #melhordanoitenaband
No quadro O Dia Em Que Tudo Mudou, o Melhor da Noite revisita o maior massacre em escolas do país, ocorrido em Realengo, no Rio de Janeiro, e mostra como o caso marcou a história do Brasil. #MelhorDaNoiteNaBand
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NotíciasTranscrição
00:00E também a sua companhia fundamental de quarta a sexta-feira, às dez e meia da noite, tem o melhor da noite, entretenimento e informação e quadros que já estão marcando o calibre, o senso estético, ético, contextual desse programa, a qualidade do nosso jornalismo também aqui, além do entretenimento popular rasgado pra você com os convidados nesse palco, poder se entreter, se divertir na sua TV ou na sua tela qualquer.
00:25Mas agora a gente vai falar de algo muito importante e sério, que é o bullying, que o bullying, gente, continua sendo pauta constante e séria pra ser tratada em todo o Brasil, aliás, em todo o mundo.
00:40Assunto sensível e delicado, que mantém pais, professores e toda a sociedade em constante estado de alerta, temos que estar alertas.
00:49No episódio de hoje, de o dia em que tudo mudou, que nós já mostramos a queda do avião da TAM, o trágico acidente da TAM que vitimou todos que estavam a bordo, mostramos o sequestro do ônibus 174 no Rio de Janeiro e também mostramos o dia que tudo mudou com o PCC, a facção PCC que parou o estado de São Paulo inteiro.
01:07E hoje, a gente abre um capítulo aí de uma memória muito importante pra revisitar uma das maiores tragédias escolares do Brasil, o Massacre de Realengo.
01:1914 anos depois, a gente vai voltar ao Rio de Janeiro pra poder reviver por meio de relatos marcantes, com protagonistas, personagens que fazem parte daquele dia que chocou o país.
01:32Você lembra desse momento na sua vida, Pan?
01:34Eu lembro, foi realmente muito chocante. Eu era adolescente ali, mas chama atenção porque envolve crianças, né, Otta?
01:41Então a tragédia, ela se acentua, fica ainda mais grave dentro de uma escola, crianças, meninas na sua maioria e um, acho que um dia que a gente não vai esquecer.
01:52Jamais.
01:5314 anos depois, a gente apresenta pra vocês essa contada, ou essa recontada, dessa trágica história na escola municipal Taço da Silveira, que tirou a vida de 12 estudantes e deixou outros 12 feridos.
02:09Senhoras e senhores, a partir de agora, bem-vindos ao dia em que tudo mudou.
02:16Quinta-feira, 7 de abril de 2011, são 7 horas. Estes são os destaques do dia.
02:34Portugal pede auxílio financeiro à União Europeia. Pacote de socorro pode chegar até 80 bilhões de euros.
02:42Brasil pode ter safra recorde de grãos este ano. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, vão ser colhidos mais de 150 milhões de toneladas.
02:55E o Santos conseguiu uma vitória suada em cima do Colo-Colo na Vila Belmiro.
03:00Quinta-feira, 8 da manhã, realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
03:08Um rapaz chega ao portão de uma escola pública, se apresenta como ex-aluno e recebe autorização pra entrar.
03:14Na mochila dele, dois revólveres e munição.
03:17Instantes depois, gritos, correria, desespero.
03:21Ele mata 10 garotas e 2 rapazes, deixando pelo menos outros 10 feridos.
03:27Já são 14 anos do maior massacre de estudantes do Brasil.
03:327 de abril de 2011, o dia em que tudo mudou.
03:35Meu nome é Adriana Silveira.
03:43No dia 7 de abril de 2011, minha filha perdeu a vida dentro de uma escola em Realengo.
03:49A gente não teve tempo nem de pensar.
03:58Acordou, saiu pela porta e não voltou mais.
04:03Meu nome é Tayane Tavares, eu tenho 27 anos.
04:06No dia 7 de abril de 2011, eu fui uma das sobreviventes do massacre de Realengo.
04:09Me chamo Ana Mendes, tenho 28 anos.
04:13E no dia 7 de abril de 2011, eu fui uma das vítimas do massacre de Realengo.
04:17Eu sou Frederico Roriz, sou jornalista.
04:19E naquele 7 de abril de 2011, eu participei da cobertura do massacre de Realengo pela Band.
04:31Sou policial militar reformado, Márcio Alexandre Alves.
04:34Eu fui o primeiro policial a entrar na escola Taça da Silveira, no dia 7 de abril de 2011.
04:39Márcio, conta pra gente como começou aquela sua manhã, você já estava de plantão desde a madrugada, né?
04:50Comecei o serviço por volta das 3 horas da manhã.
04:53Nosso negócio era pegar compras irregulares, vans.
04:56Tem um restaurante ali na frente, paramos ali próximo e abordamos a primeira, o primeiro carro.
05:02E ali ficou.
05:02Pô, eu andava com meu irmão de manhã cedo, tomava café da manhã.
05:11Sendo que de uns meses pra cá, entrou a Samira na escola.
05:16Então, nossa rotina mudou, porque ao invés de ir direto pra escola, a gente passava na casa da Samira, buscava ela.
05:22Sempre matava o primeiro tempo pra poder tomar café com a minha avó.
05:29Todos os dias, todos os dias.
05:31Era sagrado.
05:32E ia pra escola atrasada, chegava 8h10, 8h15 e entrava.
05:36Sendo que nesse dia eu não fiz isso.
05:38Queria começar te perguntando como começou aquela sua quinta-feira, qual era a sua rotina, o horário que você acordou, amanhã com a Luísa antes da escola.
05:47Nós acordamos, né? E quando eu acordei ela, eu senti algo muito ruim.
05:53E eu falava, Lu, levanta, olha a hora, já tá atrasada.
05:58E ela com sono muito, muito pesado. E não era normal isso.
06:01Ela sempre levantava logo, sabe? Ela levantava, se arrumava, tomava banho.
06:06Na hora que ela levantou, tentou levantar da cama, ela caiu.
06:11Com os braços abertos.
06:12Aquilo me assustou na hora.
06:16Isso devia ser que hora, você acha? Adriana, uma sete?
06:19Ela pegava, não, devia ser umas seis e meia.
06:22Na hora que nós estávamos saindo, eu me sujei e voltei pra trocar a roupa.
06:27E eu falei, vai andando, porque já tava um pouquinho atrasada, que eu te encontro no meio do caminho.
06:32E nesse dia, tinha uma coisa diferente na Ipiraquara.
06:35Tinha uma blitz.
06:37Uma coisa que nunca teve e até hoje também nunca teve mais.
06:39Teve só aquele dia mesmo.
06:41Tá por aqui, Marcos, que vocês estavam?
06:42Sim, como tava muito cedo, não tinha esses carros, né?
06:45Colocamos os reboques aqui.
06:47Aí pegou a Kombi, colocou aqui em cima, aí depois parou outra.
06:50Eu sei que já tinham quatro Kombis paradas aqui.
06:53Aí subimos, né, pra nossa sala, lá no primeiro andar.
06:56E sentamos, normal, sendo que eu sempre sentei nos fundos.
06:59E a Samira sentava na frente.
07:01Foi uma amizade de quatro meses.
07:03Mas foi...
07:05Chegando lá, nós estávamos na aula de educação física, que era o primeiro tempo.
07:15Eu tinha acabado de chegar no colégio, então eu tava sofrendo um pouquinho de bullying ali, das meninas.
07:19Foi um totó humano.
07:21Então todos tinham que dar as mãos pra ser uma despedida, porque foi algo tão inesperado, sabe?
07:26Foi o tempo de sentar e a gente começar a ouvir os disparos.
07:34Do nada, abre a porta e entra o cara.
07:41Aí a professora perguntou assim,
07:43Oi, menino, o que você veio fazer aqui?
07:44Ela ia responder, a vida é uma palestra.
07:46Ela pegou e falou de novo, que tipo de palestra?
07:49Aí ele, essa aqui, ó.
07:53Matou a Samira.
07:56Aí a Samira caiu no chão, começou a...
08:09Muito sangue, muito sangue no chão.
08:11Foi quando ele veio pra cima de mim.
08:13E me deu o tiro no rosto.
08:15Veio o foguinho da arma saindo.
08:17E isso é o sonho até hoje.
08:20A cabeça foi...
08:22Entrou aqui, saiu aqui.
08:25Meu peito entrou e ficou alojada.
08:27Da mão entrou aqui e saiu aqui.
08:29E teve o de raspão que foi aquilo, coisa.
08:31Aqui na barriga.
08:32Aí depois eu consegui correr.
08:40Eu simplesmente congelei.
08:42Sabe cena de filme que você fica parada e você vê todo mundo correndo do lado?
08:48Foi exatamente aquela sensação que eu tive.
08:50Você achava que você ia morrer ali?
08:52Achava.
08:54Achava.
08:56O olhar dele era um olhar muito de ódio.
08:58Mais que as crianças pedissem, o olhar dele não tinha pena.
09:01Ele já tava cego mesmo, que ia me matar mesmo.
09:03Saí logo e fui andando no caminho.
09:06Aí tava uma agitação.
09:07E aí eu encontrei um amigo.
09:09Ele, pô, cara.
09:10Um louco entrou ali na escola.
09:12E tava atirando nos crianças.
09:18Falei, que escola?
09:21Aí ele falou assim, na Taça da Silveira.
09:25Falei, cara, minha filha tá lá dentro.
09:27Pouco tempo depois, as notícias começaram a surgir.
09:37Seria o maior massacre em escolas de atentado de escolas no Brasil.
09:42Os gritos traduzem o desespero.
09:45Mostra o desespero das crianças para tentar escapar.
09:49Alto mundo generalizado.
09:54Eu me escondi com meu amigo Luan.
09:56Ficava, Luan, a gente vai morrer.
09:57A gente vai morrer, Luan.
09:58A gente vai morrer.
09:59Depois de proferir todas essas palavras, a única coisa que restou foi aquele silêncio absurdo.
10:10Foi quando ele entrou na sala e um dos primeiros disparos pegou na cabeça do Luan.
10:17Quando eu vi o Luan sangrando, foi que caiu a minha ficha.
10:21Que ele realmente tava dando tiro pra machucar.
10:23Que era tiro de verdade.
10:24Foi quando ele deu o segundo disparo pra pegar na cabeça.
10:27E aí eu defendi com o braço, pegou aqui.
10:30Você viu o que?
10:31Quando ele foi perto de você pra atirar.
10:34Você viu raiva?
10:35Eu vi ódio, fogo nos olhos dele.
10:38Assim como eu também vi empatia quando o Matheus, um amigo meu, gordinho, levantou na frente dele.
10:46Por favor, não me mata.
10:47E ele falou, fica tranquilo, gordinho, que eu não vou te matar, não.
10:49Por que ele tomou essa iniciativa?
10:51Ele pensou, esse menino aqui, com certeza, é alguém que sofre bullying.
10:57O Elton tinha 23 anos, ex-aluno aqui da escola.
11:03Em certo tempo passou a viver isolado, não tinha função social, não tinha uma base familiar.
11:10Sofria muito bullying e uma tendência de práticas terroristas.
11:14Acho que foi a partir daí que o bullying começou a ser falado, como pode ser negativo, pode ser perigoso.
11:21Eu acho que ele devia estar achando que o que ele estava fazendo é o que o pessoal fez com ele.
11:35Não sei se ele enxergava a mesma agência, se ele não enxergava.
11:37Porque falaram pra mim que aquela sala que ele invadiu primeiro, que foi a minha, era a sala que ele estudava.
11:42Era a sala 4.
11:43Eu acho que o bullying é um perigo mesmo.
11:46Logo após isso eu comecei a me fingir de morta.
11:47Quando eu levantei a cabeça, ele botou a arma na minha testa e falou, tu não morreu não?
11:51Tu vai morrer porque você é muito bonitinho.
11:53E aí foi quando ele disparou mais três tiros a queima-roupa.
11:55Que foi quando pegou dois na minha barriga, um na minha cintura e eu perdi imediatamente o movimento das pernas,
12:02perdi o controle do tronco, caí pra trás, continuei me fingindo de morta.
12:07Em nenhum momento eu esbocei qualquer tipo de reação, nem de dor, nada, nada.
12:20E graças a Deus, os dois portões da escola estavam abertos.
12:23Eu consegui sair.
12:25Não tinha quase ninguém na rua.
12:27Fui pedindo ajuda, algumas não ajudas eu não recebi.
12:29O que eu pedi foi pra uma moça que vendia a coisa na frente.
12:34Aí, sendo que ela também assustada também, fechou o portão.
12:39Que por um lado até hoje em dia, foi bom também.
12:42Porque se ela tivesse fechado o portão, não ia encontrar a polícia.
12:46Nós estávamos aqui parado.
12:48Quando eu vejo a lã aparecer lá naquela esquina, percebi a camisa dele suja de sangue,
12:52eu já fui ao encontro dele.
12:54Perguntei o que estava acontecendo.
12:55Ele pôdei um cara dando tiro na escola.
12:57Eu botei ele na viatura, pedi pra viatura seguir com ele pro hospital
13:01e vim correndo pra cá, vim a pé.
13:03Aí eles me colocaram dentro do carro da polícia
13:06pra ir direto pro hospital.
13:08Quando eu virei pro carro da polícia,
13:10o meu estava aberto.
13:13Aí minha cara estava inchada.
13:14Você conseguia, com 12 anos, ter a dimensão de tudo que você estava vendo?
13:23Eu lembro que eu chorei sangue.
13:26Minha lágrima era vermelha.
13:28Minha cabeça já tinha acabado.
13:30Entendeu?
13:31Acabou.
13:32O garoto acertou quem tinha que acertar, foi embora.
13:34Mas não, quando eu cheguei,
13:36tô ouvindo os tiros ainda no andar de cima.
13:38E era aquilo, ele atirava, a criançada gritava.
13:42E quando ele acabava de atirar,
13:43sabe como silêncio?
13:44Um estudecedor, assim.
13:45Ele silêncio e você...
13:46Aí daqui a pouco começava...
13:48E aquela gritaria,
13:50o tempo dele recarregar, aquele silêncio.
13:56Ele saiu da sala algumas vezes pra recarregar,
13:59voltava, continuava dando disparos.
14:01Mas teve uma vez que ele saiu e não voltou mais.
14:03Se eu fosse seguir a cartilha,
14:05o que é ensinado não era pra eu ter entrado.
14:07Era pra cercar a escola,
14:08ninguém mais entra, ninguém sai.
14:10Aí chamaria a supervisão,
14:12a supervisão acionaria o BOP,
14:14pra vir com o atirador,
14:15aquele pessoal negociador,
14:17aquela coisa toda, né?
14:18O sentimento que a gente tem ali na hora,
14:20é o sentimento até no momento que eu entro aqui,
14:22naquele sentimento de pai.
14:23O pai tem que defender seus filhos.
14:25Aquela hora ali, eu tinha que defender,
14:27que eles pensavam o jeito.
14:28Falei, não podia esperar, não podia aguardar.
14:30Ninguém chamar ninguém.
14:32Era eu que tava ali, a gente tinha que fazer isso.
14:34Foi mais o pai do que o policial.
14:36Mas enquanto isso, ele estaria lá,
14:38atirando as crianças.
14:39Então, não tinha tempo pra fazer aquilo ali.
14:41Onde tá essa marquise aqui,
14:42aqui que era a entrada da escola.
14:44Foi por aqui que você entrou
14:45e também aqui que as crianças saíram.
14:47Isso, é.
14:48Foi aqui que elas saíram.
14:48Então, eu subo o primeiro lance de escada,
14:52viro pra minha esquerda,
14:54subo o segundo lance,
14:55faltando uns três degraus pra acabar,
14:57o Elton sai de dentro da sala de aula,
14:59a última sala da minha esquerda.
15:00Ele saiu pro corredor,
15:02com a cabeça baixa, recarregando a arma.
15:03Parecia uma cena de filme.
15:05No momento que eu vi,
15:06ele levantou a cabeça também,
15:08me viu, correu.
15:09Aí eu efetuei dois disparos.
15:11Um disparo pegou na perna,
15:12um pegou na barriga dele,
15:13e ele caiu.
15:14Foi quando eu ouvi disparos bem mais fortes.
15:18Eu peguei a minha arma,
15:19coloquei pela parede,
15:20apontando a arma pela parede,
15:21sem me expor,
15:22ele efetou um disparo.
15:24Eu achei que aquele disparo,
15:25ele tentou me acertar.
15:26Eu olhei pro pé dele novamente,
15:27vi o pé dele se batendo.
15:28Aí foi onde eu recolhi a minha arma,
15:29vim andando,
15:31olhei,
15:31a arma tava caída no chão.
15:34A arma dele, né,
15:34no chão,
15:35ele tinha feito esses disparos
15:36na própria cabeça.
15:37Aquela sala que ele saiu
15:38foi a primeira sala que eu entrei.
15:39Foi onde eu vi
15:40o primeiro cenário.
15:42Eram as crianças ali feridas,
15:44caídas ali,
15:45já mortas.
15:47Primeira coisa,
15:47quando eu vi aquelas crianças,
15:49a primeira coisa que veio
15:50na minha cabeça
15:50foi o meu filho.
15:52Meu filho tem aquela idade,
15:53aí a vontade que deu
15:54foi aquela.
15:55Era ajoelhar,
15:56botar a arma no chão
15:57e perguntar pra Deus
15:58o que que tava acontecendo.
15:59Meu Deus,
15:59o que que é isso?
16:00O que que aquelas crianças
16:01fizeram pra ele,
16:02pra ele vir aqui fazer isso?
16:04Logo depois surgiu
16:04uma policial mulher,
16:07e aí ela entrou na sala,
16:08tem alguém vivo?
16:09Tem alguém vivo?
16:10E aí eu comecei a bater
16:11com a minha cabeça
16:12no ferro da mesa
16:15que eu tava encostada.
16:17E aí foi quando ela veio,
16:19ela veio pulando
16:21por cima dos corpos
16:22e chegou até a mim.
16:23Foi o tempo do socorro chegar
16:25e me descer,
16:27levar pro hospital.
16:28Chegar na porta da escola,
16:29já tinha um movimento,
16:30já tinham fechado a escola,
16:33ninguém entrava,
16:33ninguém saía.
16:34tinha criança lá dentro ainda.
16:37E aí eu falei,
16:38não, precisa entrar
16:38dentro da sua escola,
16:39ela deve estar lá dentro.
16:42E não deixavam,
16:43não deixavam a gente passar.
16:44Falei,
16:44ela só pode estar
16:45na casa da Lohane,
16:46que era uma amiguinha dela
16:47de colégio.
16:48Não tem outro lugar,
16:49ela deve estar no desespero,
16:51saiu correndo com ela
16:52e foi pra casa dela.
16:54A mãe da Lohane chega lá,
16:56ela falou,
16:57a Luísa não tá com a Lohane.
16:59E ali eu falei assim,
17:01não tem mais lugar nenhum pra ela.
17:04Aí meu marido falou,
17:05vou pro hospital.
17:07E aí ele entrou com o meu cunhado
17:09e tiveram logo a notícia.
17:11Ela já saiu sem vida
17:12dentro da escola.
17:15E quando eles chegaram em casa,
17:17não precisaram me falar nada.
17:19No olhar deles,
17:20eu já...
17:22E aí você descobre
17:24que no lugar que você acha
17:25que ele tá seguro,
17:26eu sei,
17:26era onde estava o perigo.
17:29e você não sabia.
17:33Eu só pensava,
17:34eu preciso me manter viva
17:35até minha mãe me achar.
17:36Até eu falar pra alguém
17:37o meu nome e o nome da minha mãe.
17:39Eu só pensava isso.
17:40A enfermeira ficava,
17:41qual é o seu nome?
17:42Qual é o seu nome?
17:43Eu ficava,
17:43Thayane,
17:43tá aí no de quê?
17:44Tá aí no Tavares.
17:45Tá aí no de quê?
17:45Tá aí no Tavares.
17:46Qual é o nome da sua mãe?
17:47Aí eu, Andréia Tavares.
17:48Quando eu falei o nome da minha mãe,
17:49eu senti que eu...
17:51Tipo,
17:51se eu for morrer,
17:52eu posso morrer
17:52porque minha mãe vai me achar.
17:54Quando eu acordo,
17:55eu já tinha feito cirurgia,
17:56eu já tinha passado por tudo.
17:58Quando eu saio,
17:58eu encontro com a minha mãe.
18:00Eu falei pra minha mãe
18:00que eu amava muito ela.
18:03Aí ela falava,
18:03eu não falo muito não,
18:05porque todas as pessoas
18:07que você ama
18:07estão lá fora te esperando,
18:09seus professores de atletismo.
18:10E eu falei,
18:11mãe,
18:12eu não vou poder voltar.
18:13Ela,
18:13vai,
18:14você vai.
18:14Eu falei,
18:14não,
18:14mãe,
18:14não vou.
18:15Ela,
18:15por quê?
18:16Aí eu falei,
18:17porque eu não sinto mais
18:17as minhas pernas.
18:18de tudo isso,
18:22o pior
18:23foi viver na pele
18:25a experiência
18:27de ter se tornado paraplégico.
18:30Eu simplesmente
18:31perdi a minha identidade,
18:32eu não sabia quem eu era,
18:33eu só ficava,
18:34eu tô fazendo hora extra aqui,
18:35o que eu tô fazendo aqui?
18:36Aí o que me deixou triste,
18:37que não podiam te tirar a bala,
18:39a bala que tá aqui,
18:40perto do meu coração.
18:41Tem muita artéria,
18:42melhor deixar
18:43do que tirar.
18:44Aí a minha mãe concordou,
18:45meu pai concordou,
18:46todo mundo concordou
18:47e ela ficou até hoje.
18:49Tá aí,
18:49até hoje.
18:49Isso,
18:50e dói,
18:50tá?
18:51Não consegui
18:52firmar numa faculdade,
18:54porque quando começava
18:55a prova
18:56e aquele silêncio,
18:57eu vou lembrar da prova
18:58que eu fiz,
18:58que eu tinha que fazer
18:59com a Samira,
19:00que a gente não terminou
19:00essa prova.
19:01É a lembrança
19:01do tiro na sua cara.
19:04Vários sonhos
19:05das adolescentes
19:07foram por água abaixo,
19:08porque lá de um
19:09morreu tantos.
19:11Eu fiquei muito traumatizada,
19:13eu fiquei com síndrome
19:14de perseguição,
19:15eu sonhava com ele,
19:17apontando arma pra mim
19:18pela janela.
19:20Eu só pensava,
19:20meu Deus,
19:21eu só quero ser normal,
19:22eu só quero viver
19:23a minha vida normalmente
19:24sem ter que ficar falando
19:25sobre isso 24 horas,
19:26sem ser a Tayane
19:26sobrevivente do massacre,
19:27simplesmente ser a Tayane
19:29que estuda direito,
19:30que tá tentando passar
19:31na prova da OAB,
19:32que gosta de praticar esporte.
19:34Eu fiz o que precisava
19:35ser feito,
19:36eu segui em frente.
19:37Superar isso,
19:38nunca vou conseguir,
19:40mas a gente tenta.
19:41Eu fui chegar em casa
19:42às quatro da manhã
19:43do outro dia,
19:44eu fui falar com o meu filho,
19:45a primeira coisa que eu fiz,
19:46né?
19:46Aí ele olhou pra mim,
19:46acelerou o olho,
19:47pô pai,
19:47tô orgulhoso de você.
19:52Aí ele falou isso pra mim,
19:54né?
19:55Tava orgulhoso.
19:56Tomei um banho e deitei.
19:58Era fechar o olho,
19:59viu os flashes, né?
19:59Das coisas que eu vivenciei
20:01aqui dentro dessa escola.
20:02Na segunda-feira,
20:03o Elton esteve aqui
20:04em Realengo
20:05e passou em frente
20:06à casa onde morou.
20:07Segundo testemunhas,
20:08ele estava vestido
20:09todo de preto.
20:10A roupa era a mesma
20:11usada na invasão da escola.
20:1314 anos depois,
20:15o cenário que você encontra
20:17é bem diferente
20:17de onde os jornalistas
20:18estavam naquele dia.
20:19É diferente.
20:20Os bancos existiam,
20:21mas não era pintadinho,
20:22era de cimento,
20:23essa quadra esportiva
20:24não tinha.
20:25E nós ficarmos sentados
20:26em frente à casa
20:27do Elton.
20:29Pra qualquer movimentação,
20:30a gente ficar atento, né?
20:31E aí, a senhora ali
20:33veio até o portão
20:34jogar o lixo,
20:34se não me engano.
20:35E ela entrou correndo
20:37e nós fomos atrás dela.
20:38E ela, lá de dentro,
20:39ela falou que ele era
20:40solitário, sozinho.
20:42Menino bom,
20:42mas solitário, sozinho.
20:44A grande lição, assim,
20:45bullying não.
20:47Não faça isso.
20:53Eu acho que é isso.
20:56Hoje, 14 anos depois,
20:58você faria algo diferente
21:00daquele dia?
21:01Não.
21:02Teria a mesma atitude.
21:03Deem força aos seus filhos
21:05para continuar.
21:08Só assim vocês vão
21:09superar esse momento.
21:11As famílias das vítimas
21:13foram indenizadas
21:14e a escola passou por reforma.
21:16As salas onde o atirador
21:18entrou já não existem mais.
21:20A memória foi
21:20ressignificada nesse mural,
21:23onde sobreviventes
21:24e familiares
21:25deixaram mensagens.
21:26a gente está chegando
21:30na Praça dos Anjos.
21:31Aqui foi montado
21:32um memorial.
21:34A gente fala que lembrar
21:35e reagir
21:35que ele se ia permitir.
21:37E cada vez que a gente
21:38lembra
21:38é para que não aconteça
21:40nunca mais.
21:40essa é a representação
21:42da sua Luísa.
21:43É.
21:44Quem era a Luísa?
21:45A Luísa era uma menina
21:46muito alegre,
21:47muito sonhadora.
21:50Desculpa,
21:50porque às vezes
21:51ainda me emociona.
21:52Imagina.
21:53Todo o tempo
21:54que você quis...
21:54tinha uma alegria
21:56contagiante.
21:58Quem conheceu sabe,
22:00né?
22:01Sonhava muito,
22:02queria ser engenheira,
22:04adorava o Flamengo.
22:07A gente fica
22:07com a recordação boa, né?
22:10As pessoas falam
22:11muito em superação.
22:13Adriana,
22:14você já superou?
22:15Superei nada.
22:17Uma mãe não supera
22:18a morte de um filho.
22:19Hoje eu sou a voz dela.
22:21Fiquei aqui
22:22para falar em nome dela,
22:24em nome de todos eles
22:25que a gente precisa
22:26dar um baixa
22:27em toda essa violência.
22:29Não dá mais.
22:30Eu não acho
22:31que a gente evoluiu.
22:31Na verdade,
22:32eu acho que a gente piorou.
22:33O bullying parou
22:33de acontecer,
22:3412 crianças morreram.
22:36Quantas mais precisam morrer
22:37até que se tome
22:38uma atitude?
22:39É uma das ocorrências
22:40mais importantes
22:41que eu tive na minha vida, né?
22:43A que mais marcou
22:44a minha carreira.
22:45Fui promovido por bravura,
22:46ganhei muitas honras,
22:48medalhas.
22:49A gente percebeu
22:51da necessidade
22:52de criarmos
22:53uma associação.
22:54para falarmos
22:55sobre o assunto
22:56e ir em busca
22:57de melhoria
22:58nas escolas,
23:00perceber o que
23:01estava acontecendo
23:01e o que nós
23:02podíamos fazer
23:03para que não acontecesse
23:05nunca mais
23:05o que aconteceu ali.
23:06Eu precisava
23:07arrumar uma forma
23:09de continuar viva.
23:10Que em nome dela,
23:11outras crianças
23:12continuassem viva.
23:14Então,
23:15resolvi lutar
23:15com um pouco de força
23:16que me restou.
23:18E é isso.
23:19A gente continua.
23:20I don't know
23:21how I got this way
23:22I'll never be all right
23:24so I'm breaking my heart
23:28Voltem para a escola
23:29pensaram
23:29que eu não fosse voltar
23:30e tal.
23:31Mamãe não supera
23:31a morte
23:32Eu fiz o que precisava
23:37ser feito.
23:38Eu segui em frente.
23:39O dia em que tudo mudou
23:46Hoje a gente está recebendo
23:47uma escola
23:48a escola Guilherme Almeida
23:49Centenas de alunos
23:52milhares de alunos
23:54estão hoje
23:54vivendo
23:56sob efeito
23:57do bullying
23:58Muitas pessoas
23:59ainda não codificaram
24:01não entenderam
24:01o dano
24:03que o bullying
24:03causa
24:04a jovens
24:04que não estão
24:05preparados psicologicamente
24:07Tem gente que suporta
24:08bem a brincadeira
24:09Tem gente que suporta
24:10bem a brincadeira
24:11que perde o tom
24:12Tem gente que
24:13não suporta
24:14quando a brincadeira
24:15vira coisa séria
24:18E as escolas
24:19hoje precisam
24:20cada vez mais
24:20codificar isso
24:21E nesse momento aqui
24:22o Brasil enfrentava
24:23o que os Estados Unidos
24:24enfrentou
24:25como os tiros
24:26em Columbine
24:26que é um documentário
24:27até dirigido pelo
24:27Michael Moore
24:28documentarista, escritor
24:29O assassinato na Flórida
24:31em massa
24:31também no Texas
24:33no Colorado
24:34e assim por diante
24:34como eu disse
24:35E o Brasil precisa
24:36continuar codificando
24:37ainda mais com as redes sociais
24:38né Pamela
24:39Exatamente
24:39porque o bullying
24:40não é brincadeira
24:41né
24:41é coisa séria mesmo
24:43E tem uma coisa
24:44a maior parte
24:46das crianças
24:47eram meninas
24:49e isso mostra
24:50que há também
24:51um ódio
24:52a meninas
24:53a mulheres
24:53né
24:54essa violência
24:55desproporcional
24:56que corpos femininos
24:57sofrem no Brasil
24:58é outra coisa
24:59que a gente também
25:00precisa ficar atento
25:01E com a escola aqui
25:01com as escolas aí
25:03os educadores
25:03professores
25:04diretores
25:05pais
25:05mães
25:06famílias
25:07a tragédia
25:07na escola municipal
25:08Taço da Silveira
25:09deixou uma mensagem
25:10dura
25:10emocionante
25:12tudo isso que aconteceu
25:13aqui
25:13e que marca
25:14nossos corações
25:15mas uma mensagem
25:16necessária
25:16escolas e famílias
25:18precisam estar mais
25:19atentas do que nunca
25:20ainda mais com o ambiente
25:20digital
25:21e é o que se passa
25:22no coração
25:23e na mente
25:23dos jovens
25:24é fundamental
25:25olhar para os filhos
25:26conversar com eles
25:28e para os conflitos
25:29que eles enfrentam
25:29com amor
25:30abra o seu coração
25:31escute o seu filho
25:32e sua filha
25:33e acolham
25:34o bullying
25:35para a maioria
25:36é muito desafiador
25:38e não pode se ignorar
25:39temos que conversar
25:41abertamente
25:41com quem sofre
25:42oferecer apoio
25:44e não deixar
25:44que o silêncio
25:45se transforme
25:46em revolta
25:47nada se justifica
25:49mas é preciso compreender
25:51que há uma ciência
25:52que já está mostrando
25:53estatisticamente
25:54que a prevenção
25:55começa com cuidado
25:56e cuidar
25:57é antes de tudo
25:58escutar
25:59parabéns pelo trabalho
26:01da nossa equipe de jornalismo
26:03Bárbara Guimarães
26:03mais uma vez
26:04e obrigado aos heróis
26:06os protagonistas
26:07as heroínas desse dia
26:08professores
26:09toda a turma
26:10que ficou
26:10à mercê
26:11desse momento tão trágico
26:13é emocionante
26:13é forte
26:14é impactante
26:14por isso
26:15o melhor da noite
26:16traz também
26:16esse quadro
26:17em que mostra
26:18mais um dia
26:19em que tudo mudou
26:20e depois do intervalo
26:21agradecendo a sua presença
26:22agradecendo a sua audiência
26:23a gente continua
26:24com o entretenimento
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