“A gente vive numa sociedade com predomínio da imagem sobre as questões pessoais e as redes sociais intensificam a pressão por um corpo perfeito, com imagens editadas e filtros que criam um padrão irreal”, afirma a psicóloga psicanalista Carolina Nassau, entrevistada deste segundo episódio do podcast “Não é invenção”.
Mestra e doutora em estudos psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carolina Nassau conversou com as jornalistas Larissa Kümpel, Layane Costa e Mannu Meg, do Estado de Minas, sobre os impactos psicológicos da busca incessante por um corpo ideal.
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Mestra e doutora em estudos psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carolina Nassau conversou com as jornalistas Larissa Kümpel, Layane Costa e Mannu Meg, do Estado de Minas, sobre os impactos psicológicos da busca incessante por um corpo ideal.
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NotíciasTranscrição
00:00Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética
00:04revelaram em uma pesquisa de 2023 que o Brasil se tornou o segundo país
00:10a realizar mais procedimentos estéticos no mundo,
00:13com mais de 3 milhões e 300 mil intervenções.
00:17O país também é o primeiro no ranking de cirurgias plásticas,
00:21sendo mais de 2 milhões e 100 mil casos.
00:25As mais comuns foram liposperação, 14,1%,
00:29aumento da mama, 10,4%, cirurgia de pálpebras, 9,9%.
00:36Já os procedimentos não cirúrgicos mais populares foram toxina,
00:41butolínica e ácido hialurônico.
00:44Esse é o Não é Invenção, um podcast sobre relações e comportamento.
00:55Eu sou Laiane Costa.
00:57Eu sou Larissa Kimpel.
00:58E eu sou Manu Mag.
00:59E hoje a gente está aqui com a professora e psicanalista Carolina Nassau
01:03para falar com a gente sobre as relações do corpo
01:06e as consequências dessa busca pelo corpo perfeito.
01:09Prazer, muito obrigada pelo convite.
01:12Eu espero poder contribuir nesse papo.
01:16Carolina, conta pra gente um pouco da sua trajetória,
01:20o que você entende sobre esse assunto.
01:24O que você pode falar pra gente?
01:26Bom, eu sou psicóloga, sou mestre e doutora em estudos psicanalíticos pela UFMG
01:34e venho trabalhando com questões contemporâneas.
01:38A minha tese foi sobre o aumento de suicídio na adolescência, possíveis causas
01:45e uma coisa interessante que eu acho que tem a ver com o tema daqui
01:49é que quando a gente fala de busca do corpo perfeito,
01:53a gente associa muito a um problema muito contemporâneo
01:57que chama transtornos alimentares,
01:59que está muito relacionado com a questão do risco de suicídio na adolescência.
02:04A grande maioria dos casos que eu atendi, de meninas,
02:08porque o número é maior entre meninas de 15 a 19 anos,
02:12estavam apresentando transtornos alimentares no momento das ideias ou das tentativas.
02:20Então, eu acho que a gente pode pensar sobre as consequências psíquicas mesmo
02:26desse imperativo social que a gente vive da busca pelo corpo perfeito.
02:32Isso é um ponto.
02:33O outro ponto que eu acho interessante, quando você traz esses dados, Larissa, é assim.
02:39Provavelmente, pelo tipo de cirurgia que você trouxe, se trata a maioria de mulheres.
02:47Então, qual que é o lugar da mulher nessa sociedade brasileira
02:52que busca tanto esse corpo perfeito?
02:57Acho que tem um aspecto social e um aspecto psíquico que a gente pode debater.
03:02E quando você fala das adolescentes, é muito arriscado elas já começarem a pensar
03:10em fazer cirurgias plásticas, fazer intervenções no corpo,
03:15sendo que ainda é tão desenvolvimento, tão com o corpo passando por mudanças.
03:25E como isso pressiona a adolescente a ter uma posição também nas redes sociais?
03:35Como que lida com isso?
03:39Bom, a gente hoje vive numa sociedade magética, com predomínio da imagem
03:46sobre as questões pessoais.
03:49Vamos colocar assim, sobre as questões do ser.
03:52A imagem chega primeiro.
03:54Com as redes sociais, a gente teve um aumento muito grande
03:58do número de ansiedade, depressão, auto-lesão e tentativa de suicídio.
04:04Só que o que acontece com as adolescentes em relação ao corpo?
04:08Elas entram no Facebook, elas não entram mais no Facebook,
04:13elas entram no Instagram e no TikTok.
04:15Elas entram no Instagram e no TikTok e elas veem as imagens
04:21de corpos supostamente perfeitos.
04:24E aí isso vai gerando uma angústia muito grande nelas,
04:28porque elas estão com esse corpo em mutação.
04:31O adolescente, desde que existe a adolescência,
04:34ele se sente inseguro nessa fase, se sente inseguro em relação
04:41à própria beleza ou ao próprio corpo.
04:45E aí ele vai acabar buscando uma solução rápida.
04:48E dentro das próprias redes, a gente tem uma série de grupos
04:53bem tóxicos, que estimulam esses adolescentes a começarem a
04:59ficar sem comer, ficar sem comer e assim.
05:05Se você comer tal coisa doce, por exemplo,
05:09então você vai se punir se cortando.
05:12Existem esses grupos na internet.
05:14Desafios, né?
05:15De desafios e de estímulo pelo pior.
05:19E o que ancora essa busca, o que ancora esses grupos,
05:24é essa busca por um corpo perfeito.
05:28Então é bem... pacientes minhas já abriram e me mostraram
05:34como funciona uma coisa bem tóxica.
05:36Isso que eu tô falando aqui é o light, tá?
05:39E você atende meninas dessa idade?
05:42Atendo, atendo adolescentes e adultos.
05:45E a questão do corpo é uma questão para as mulheres.
05:48Acho que sobretudo para as mulheres.
05:50Independente da idade?
05:51Independente da idade.
05:53Mas na adolescência é pior.
05:55Eu acho que na adolescência é pior.
05:57Hoje a gente começa a ver um fenômeno curioso,
06:01que são os meninos também, a partir das redes sociais,
06:04começarem a se preocupar com pequenas simetrias do rosto.
06:08Porque essa geração é uma geração que é obcecada por simetria.
06:13Então eles querem saber se o olho está corretamente alinhado.
06:17Não é só o corpo, é uma simetria generalizada.
06:21E agora a gente começa a ver, com a ascensão gigantesca das redes,
06:26meninos também buscando uma certa perfeição física.
06:33Mas nas meninas é muito maior.
06:36Eu falo por experiência própria.
06:39Eu chego a uma época, quando começou,
06:41eu acho que o Instagram é o lugar mais tóxico para a nossa cabeça.
06:46Quando a gente fala sobre essa busca por corpo perfeito,
06:49em pensar o que eu posso melhorar, o que minha vida pode melhorar.
06:53Porque tem muito isso também, de você ficar se comparando
06:56quando você vê as vidas perfeitas.
06:59Eu cheguei num ponto que eu falei, eu vou parar de seguir essas pessoas.
07:03Porque tinham muitas pessoas, mulheres, obviamente,
07:07que eu seguia por admirar, não por algo que fizeram,
07:10não pelo que são, mas pela beleza delas.
07:13Sim.
07:14Simplesmente isso.
07:15E aí chegou num ponto que eu estava vendo que eu estava ficando só mal.
07:18E aí eu resolvi, eu falei, não,
07:20eu acho que o melhor que eu tenho a fazer nesse momento
07:22é deixar de seguir essas pessoas, porque eu estou me comparando a elas.
07:25E é um padrão irreal.
07:27Eu não tenho a mesma condição financeira,
07:30eu não tenho a mesma disponibilidade de tempo,
07:33e eu não tenho também os mesmos filtros,
07:35os mesmos editores de imagem.
07:37Então, assim, são coisas que entram na nossa cabeça mesmo
07:40e que se você não tem um autocontrole,
07:44se você não tem um acompanhamento também,
07:46você se entrega, se entrega, não tem como.
07:49E eu acho que não é só a beleza em si,
07:53mas é o ambiente que aquela pessoa está.
07:55Porque é um corpo magro numa praia,
07:57e sempre numa praia, com roupas e biquíni.
08:01Ou numa casa maravilhosa.
08:02Ou numa casa maravilhosa, numa academia,
08:04com um personal específico.
08:06E às vezes aquilo é um corte do dia da pessoa.
08:09Ou às vezes é uma regravação.
08:11É assim, é completamente manipulado aquele dia.
08:14Não dá pra gente querer desejar aquela vida 100%,
08:17sendo que aquela vida não é 100% nem pra aquela pessoa.
08:21Ela também tem os altos, tem os baixos, tem as dietas,
08:24tem outras coisas que não é publicada.
08:27Só que ainda assim a gente sente essa pressão de
08:30eu tenho que viver isso, eu tenho que,
08:32porque é o que a gente está vendo.
08:34Então, fazer esse corte de o que está me atingindo,
08:39até onde eu posso ir, até onde eu posso ver, é essencial.
08:43Porque quando a gente está fraquinho da cabeça,
08:45nossa, se deixa levar.
08:47É o fenômeno da positividade tóxica, né?
08:50Primeiro que é uma vida editada, né?
08:53Então é isso, assim.
08:55Você está transmitindo ali,
08:57cada foto no Instagram, né gente,
08:59é milimetricamente pensada.
09:01Ninguém está tirando foto de roupa de ficar em casa no Instagram, né?
09:06Então é uma vida editada, esse é um ponto.
09:10E existe esse fenômeno da positividade tóxica, né?
09:14Que são essas blogueiras, esse é um dos fenômenos, né?
09:18Que ficam vendendo esse estilo de vida saudável,
09:22achando que estão fazendo bem.
09:24E o lado bem dessa história que é isso,
09:26a gente vai ver um número gigante de meninas e de mulheres
09:31se sentindo mal, se culpando,
09:34sentindo que não é o suficiente, né?
09:37Que ela poderia fazer mais,
09:39porque ela não consegue atingir aquela vida, né?
09:43Então eu acho que a gente hoje vive esse fenômeno
09:46desse excesso de positividade, né?
09:48Então está todo mundo trabalhando muito,
09:51todo mundo está bombando no Instagram, né?
09:55E aí as pessoas começam a se sentir realmente exaustas,
10:00tristes, ansiosas.
10:03Então o efeito dessa busca,
10:05porque não é só o corpo perfeito,
10:07é o corpo perfeito, é a vida perfeita.
10:11É o corpo perfeito dentro da praia,
10:14dentro da casa perfeita,
10:16então é um corpo perfeito dentro de um cenário perfeito.
10:20A gente, eu lembro aqui de algumas,
10:22não sei nem se a gente pode citar o nome,
10:24mas no Brasil é lotado disso, assim,
10:28de blogueiras muito famosas e youtubers,
10:32com milhões e milhões, bilionárias já,
10:35vendendo esse estilo de vida, né?
10:37Famoso em lifestyle.
10:38Ah, não, eu vou falar.
10:40Virgínia, por exemplo, tem três filhas.
10:42É isso que eu queria chegar também.
10:45São três filhas, né?
10:47Com aquele corpo que você não sabe.
10:50Que nem quem nunca consegue ter.
10:53Pois é.
10:54Eu tenho uma filha, por exemplo,
10:56e eu me separei há pouco tempo.
10:58E aí eu entrei, né, de novo no mercado,
11:00aí eu me vejo com um corpo completamente diferente
11:03do que quando eu entrei antes de me casar.
11:06E eu fiquei assim, eu me peguei pensando,
11:08será que eu compro um negócio desse de ozempic?
11:13Como é que chama a outra?
11:15A outra injeção?
11:16O Igov, o Mojaro, no TikTok tá lotado, gente.
11:20Pois é, aí eu fiquei pensando,
11:21nossa, vou olhar aqui quanto que custa
11:23pra eu levantar meu peito.
11:25Porque aí você fica nessa ideia de que
11:27você só vai ser aceito
11:29se você estiver minimamente no padrão, né?
11:34E aí é uma...
11:36Como que a gente faz pra voltar uns passos pra trás?
11:41Porque...
11:42Tem uma chavinha?
11:43É, porque a gente...
11:44A gente...
11:46É, o negócio...
11:47Eu acho que a primeira coisa também é a nossa dependência
11:51com as redes sociais, né?
11:53Eu acho assim, pra adolescente,
11:56eu não indico antes...
11:58Eu não, né?
11:59Os estudiosos, tipo o Jonathan Hyde,
12:01que lançou um livro,
12:02que chegou agora no Brasil,
12:03chamado A Geração Ansiosa,
12:04chegou no ano passado.
12:06Vocês devem ter ouvido falar.
12:08Ele fala, a rede social, só depois de 16 anos.
12:11Eu também tenho uma filha adolescente
12:14e eu já via isso no meu consultório.
12:17E ela insistiu muito pra ter Instagram
12:19e começou a dar um nozinho na cabeça dela, por exemplo.
12:24Então, nós tiramos.
12:25Impactuado, porque a pessoa vê.
12:27A gente sabe.
12:29Não é uma coisa que a pessoa vai falar assim,
12:31não, não tô percebendo.
12:33Não, a gente sabe, a gente percebe.
12:35Então, eu acho que tem várias medidas.
12:38Primeiro, a gente buscar o que a gente quer.
12:40Que estilo de vida que a gente quer.
12:42Segundo, filtrar.
12:44Vamos filtrar o que a gente segue no Instagram.
12:47Entender que isso não é motivacional.
12:50Ao contrário, isso é desestimulador.
12:54Porque, por exemplo, a Virgínia,
12:58a vida que ela vende,
13:00aquilo é uma vida vendida,
13:03utópica, em condições irreais,
13:07pra 98% da população.
13:11Então, você vai se comparar com ela
13:15e ainda poderíamos colocar questões éticas em jogo,
13:19fica complicado.
13:21Então, eu acho que a gente,
13:23a psicanálise busca muito isso.
13:25A gente entender a singularidade da gente
13:29pra gente parar de se espelhar no outro.
13:32Um outro fenômeno que eu acho muito forte
13:35que tem a ver com o Corpo Perfeito, Vida Perfeita e Rede Social
13:37é a comparação.
13:39De 10 anos pra cá,
13:41eu tenho clínica desde,
13:43eu formei em 99 e já formei atendendo.
13:46Então, são 25 anos escutando pessoas.
13:49De 10 anos pra cá, o fenômeno da comparação disparou.
13:53As pessoas estão o tempo todo
13:56se comparando em todos os âmbitos.
13:59Então, a gente acionou uma coisa humana
14:06que é comparar, mas a gente potencializou isso demais.
14:10E isso traz muito sofrimento psíquico.
14:13É muito.
14:15E a questão do corpo, então, nem se fala,
14:18porque é a apresentação.
14:20E se a gente for olhar, por exemplo,
14:22plataformas de encontro,
14:24é muito diferente de você conhecer alguém no bar.
14:27De repente, você vai conhecer um cara que não é tão bonito,
14:30mas é gente boa.
14:32E aí, ele te cativa pela conversa.
14:34Mas se você vai no Tinder e semelhantes,
14:38você vai só pela imagem.
14:42Então, a gente está nesse circuito
14:44de subjetividades muito narcísicas
14:47e a gente está muito fisgado só pela imagem.
14:51E aí, o que acontece quando a gente funciona só pela imagem?
14:54A gente tem uma precariedade do campo simbólico,
14:57do campo semântico,
14:59da possibilidade de a gente narrativizar as nossas dores.
15:03E aí, começa essa confusão que está a sociedade,
15:06que a gente começa a tratar no real do corpo,
15:10por exemplo, com cirurgias plásticas,
15:12com intervenções diversas.
15:14Tem gente que vai ficando deformado.
15:16Aquilo que a gente não dá conta de falar em palavras.
15:20A gente estava comentando sobre isso outro dia, né, Laia?
15:23De umas... não vamos citar nomes,
15:26porque também vários vão se identificar,
15:29mas famosas artistas que com o tempo vão ficando com o mesmo rosto.
15:35E tipo, de tanta cirurgia plástica,
15:37elas vão ficando com a mesma boca.
15:40E são fases, né?
15:42E são etapas.
15:43E aí, por fim, elas estão com a boca, com um sorriso que já...
15:46Já está meio curingada.
15:48Está sorrindo, mas parece que está sorrindo porque está cortado.
15:51Então, assim, é um excesso de cirurgia atrás de cirurgia.
15:56E quando você encontra alguma coisa que você acha que está bom pra você,
16:00no fim, você já quer outra coisa que aquilo já não estava bom o suficiente.
16:05Então, assim, nunca que você vai chegar naquele ponto perfeito.
16:08Sempre vai ter alguma outra coisa que você vai alcançar.
16:11É porque eu acho que é isso, assim.
16:13Porque não é uma busca.
16:14Você tem que se identificar.
16:16Não está correndo atrás de alguma coisa.
16:18Porque quando a gente não se olha, nunca chega.
16:21O pior disso é ver que, assim, não tem um ponto de chegada, né?
16:24Porque depois que você chega lá, a moda vai mudar.
16:27O que está todo mundo fazendo vai mudar.
16:30Igual, um grande exemplo são as Kardashians, né?
16:33Que há uns anos atrás, elas eram com o corpo violão, com muito silicone e tudo mais.
16:39Várias intervenções.
16:40E agora que está voltando muito forte esse culto à magreza, assim,
16:44elas já começaram a tirar, já afinaram um pouco mais, já tiraram alguns enchentos, né?
16:50E aí você vê que a pessoa fica refém daquilo dali.
16:53E a gente que vai vendo as várias fases,
16:56mesmo assim, a gente não consegue, muitas vezes, diferenciar, né?
17:00Que aquilo é uma mutação também.
17:03A pessoa está mudando, ela está se adaptando a uma moda, a um padrão,
17:08que também não vai se manter pra sempre.
17:10Então não adianta também, muitas vezes, a gente tentar se adaptar, tentar se encaixar.
17:14Sendo que daqui a uns dois anos, provavelmente, a gente já não vai estar mais dentro do que é esperado por todo mundo.
17:19Isso é muito esquisito.
17:21E aí tem dois problemas, né?
17:22A gente, primeiro, a gente ser o que todo mundo espera,
17:25que é uma demanda que nunca vai ter fim, né?
17:28Não vai.
17:29A gente, definitivamente, é saudável abrir mão dessa expectativa de ser o que o outro espera da gente.
17:35Se a gente conseguir minimamente ser o que a gente espera da gente, já está bom demais.
17:40E a gente tem que entender se o que a gente espera da gente não é o que o outro espera.
17:44Ainda tem esse processo de desalinhamento.
17:47E a outra loucura, né?
17:50É a gente achar que a gente é a imagem da gente.
17:52Porque quando a gente se olha no espelho, a gente nunca pode perder de vista
17:56que o que a gente está vendo ali, primeiro, é um plano reto,
17:59a gente nunca vai se ver por completo, né?
18:02A gente não tem a capacidade de se ver por inteiro.
18:04E ali é uma imagem.
18:07Então, no fundo, é um outro.
18:10Sim.
18:13Os labirintos da minha mente.
18:18Muita informação.
18:20Os labirintos da minha cabeça.
18:22Loucura.
18:23Mas não é?
18:24Quando você olha no espelho, inclusive, né?
18:26Por exemplo, eu acho que meu cabelo está partido para um lado.
18:29Ah, mas não está.
18:30Não está.
18:31Aí, ele está partido para o outro.
18:33Porque é invertido o espelho.
18:36Tanto que eu tenho uma dificuldade.
18:38Talvez tenha relação.
18:39Eu tenho dificuldade com aquela função da câmera de espelhar.
18:42A selfie.
18:43Que tem uma para espelhar e a que deixa normal.
18:46Eu nunca deixo que é realmente a minha imagem.
18:50Porque, para mim, eu tenho que ficar como eu estou vendo.
18:53Na minha cabeça, aquilo não funciona.
18:55Eu estou vendo aquilo.
18:57A foto tem que sair daquele jeito.
18:59E eu até estranho, assim, quando eu espelho.
19:01E aí, eu fico...
19:02E aí, eu fico...
19:03Às vezes, é um processo na minha cabeça.
19:04Tipo, não.
19:05Você é assim.
19:06Seu lado certo é este.
19:08Que lado certo, gente?
19:09Todos os seus lados são esses.
19:11Calma, mas eu...
19:13Não, mas eu falo assim.
19:14O lado que as pessoas veem, né?
19:16Por exemplo, a tatuagem.
19:17Ela fica invertida.
19:18Essas coisas.
19:19Então, assim, é muita loucura da cabeça.
19:21Os detalhezinhos pequenos.
19:24Isso é tão nítido, né?
19:26Que se você pegar um animal, um mamífero e colocar na frente do espelho...
19:30Já aconteceu com o meu cachorro.
19:32Deve ter acontecido.
19:33Vocês já devem ter visto esse fenômeno.
19:35Ele...
19:36Quando ele entende que ali tem um cachorro,
19:38que nem sempre isso se dá,
19:40ele começa a latir, porque ele acha que é um outro.
19:44E na nossa constituição subjetiva,
19:46a gente também se constitui inicialmente, né?
19:49Achando que o eu é outro.
19:52Então, olha que loucura.
19:54A gente está numa sociedade em que prevalece essa lógica.
20:00É prevalente, reforçada, potencializada
20:03por todos os veículos de comunicação que a gente usa.
20:07Porque hoje as redes sociais são veículos de comunicação.
20:10Então, isso vai mexendo com a pessoa mesmo.
20:15Não é um processo fácil você desalienar disso.
20:19Então, você quer ter o corpo
20:21que quando você olha a tela do seu celular,
20:26você se identifica,
20:28não com a sua imagem,
20:29você se identifica com aquela imagem que você vê.
20:33E às vezes está com efeito, né?
20:35A câmera já distorce.
20:37Hoje a gente vive, né?
20:38Dizem que os dermatologistas recebem, né?
20:41As pessoas falam assim,
20:42eu quero que meu rosto fique assim, igual do filtro.
20:45Nossa!
20:48Pode perguntar.
20:50E com a chegada da entrevista oficial,
20:52a gente está vendo aí várias trends
20:54do pessoal usando a entrevista oficial
20:56para poder modificar a própria imagem.
20:58Como é que isso entra nessa questão?
21:00Ah, eu acho que funciona na mesma lógica, né?
21:03Assim, vai modificar a imagem,
21:06não vai modificar a pessoa, né?
21:09Então, é a gente vendendo imagens
21:12cada vez mais perfeitas.
21:14Então, quantas vezes eu mesma olho assim para a foto
21:18e falo, ah, isso sou eu?
21:19Porque a gente dá aquela produzida para a foto.
21:22Então, aquilo que você está colocando é uma imagem.
21:25Outra coisa é o sujeito.
21:28E aí, na hora que a pessoa vai se deparar, né?
21:31Com ela mesma, na vida cotidiana,
21:36a realidade começa a ficar dura demais.
21:39É isso que é chamado de disforia?
21:42Dis...
21:43É disforia, né? Que fala?
21:45Dismorfia, né?
21:46Dismorfia corporal.
21:47Dismorfia.
21:48É.
21:49Isso que é chamado de dismorfia?
21:51É.
21:52Que é um fenômeno muito comum
21:54nos transtornos alimentares, né?
21:56Que a pessoa, ela olha para o corpo dela
21:58e ela vê uma outra coisa do que ela vê.
22:01Então, por exemplo, uma anorexica.
22:03Outro dia eu até vi,
22:04estava fazendo um curso sobre isso
22:06e aí a moça colocou uma imagem lá.
22:08A menina no espelho é uma menina
22:10que não é cheinha, mas também não é magra.
22:13E aí, atrás do espelho, tem uma menina esquelética
22:17se projetando.
22:18Mas aquilo é o jeito que ela se vê.
22:22Então, a gente tem muito esse fenômeno de dismorfia
22:25que é o que acontece também
22:26nessas transformações de rosto, né?
22:28A pessoa está buscando um rosto ali
22:31que não tem como ela reatingir, né?
22:34Porque ela talvez queira um rosto
22:36de quando ela tinha 20 anos.
22:39E aí aquilo vai ficando completamente disforme.
22:43Mas a pessoa provavelmente não percebe.
22:47Pois é.
22:48É isso que eu ia perguntar.
22:49Quais são os sinais
22:51que a gente tem que ligar um alerta
22:53de que a gente tem que voltar atrás um pouco?
22:57Repensar o que a gente está fazendo
23:01e procurar se cuidar.
23:05Quais são os sinais mais impactantes?
23:09Quais os sinais que a gente consegue ligar?
23:11Mas em relação ao corpo, perfeito?
23:13Os sinais que a gente consegue...
23:17Nós mesmos, que a gente está ficando adoecidas.
23:21Nesse sentido.
23:23Passamos limites.
23:25Do saudável.
23:27Ansiedade, acho que é um sinal.
23:30Comparação excessiva.
23:32Em alguns casos, a gente vê pessoas
23:35com transtorno alimentar meio autorizado
23:38que chama ortorexia, né?
23:40Que é aquela pessoa que só consegue viver
23:42se for uma vida ultra saudável.
23:44Natal e ela comer uma coisa fora,
23:46aquilo desorganiza ela.
23:48Ela tem que ser saudável 24 horas por dia.
23:51E na vida cotidiana, eu acho,
23:53perda de sono.
23:54Esses sinais bem clássicos.
23:56Perda de sono, ansiedade, irritabilidade,
24:01tristeza ou euforia profunda,
24:04apetite aumentado ou diminuído demais.
24:08Então, quando a gente vê que a gente está desregulado,
24:12e hoje em dia a gente pode dizer
24:14que quase todo mundo vive assim,
24:16a gente pode se perguntar
24:18se a gente está legal mesmo.
24:21Uma coisa que você falou
24:23sobre essa questão de simetria
24:25do rosto e tudo mais,
24:27eu fico me perguntando
24:29se às vezes não acontece,
24:31se você talvez já tenha visto
24:33algum caso desse,
24:34de a pessoa ter essa sensação,
24:36esse sentimento de dismorfia
24:39depois de fazer o procedimento.
24:41Querendo ou não,
24:42ela deixa de se ver ali, né?
24:44Ela sempre se conheceu daquela maneira
24:46e transforma, né?
24:48Já vi mais de uma vez, por exemplo,
24:50a pessoa fez a plástica de ceia.
24:53Aí começa,
24:54mas eu achei que um ficou diferente do outro.
24:57E aí aquilo vai numa busca
25:00incessante pela perfeição,
25:03briga com o médico,
25:05começa a atrapalhar a vida amorosa,
25:08sexual da pessoa,
25:10porque ela fez um procedimento
25:12e ela não encontrou no procedimento
25:15a simetria e perfeição que ela buscava,
25:18o que é bem comum,
25:20e aí o procedimento retorna
25:22contra a própria pessoa.
25:25Em vez da pessoa ficar mais satisfeita,
25:29ela fica...
25:30Nossa, e aí pra voltar atrás...
25:34Aí faz duas, três cirurgias,
25:38na mesma parte do corpo,
25:42pra tentar encontrar essa simetria.
25:45Nariz, inclusive,
25:47porque as plásticas são falíveis também, né?
25:50Elas são passíveis de ter falha.
25:53Então, às vezes, a pessoa faz duas, três cirurgias de nariz,
25:56duas, três cirurgias de ceia.
25:58Então, você vai entrando num circuito
26:00que a gente, aqui no Brasil,
26:02os próprios dados mostram
26:04estão muito normalizados
26:06esses dados de intervenção no corpo
26:08como se fosse uma coisa qualquer,
26:10como se fosse uma coisa sem risco,
26:12como se fosse...
26:14Fui ali, fiz uma plástica e voltei.
26:18Até mesmo relembrando
26:20a Virgínia que fez
26:22e aí depois engravidou.
26:24Quando teve esse episódio
26:26de ela ter feito e engravidado,
26:28eu fiquei tipo, gente...
26:30Como assim?
26:32Em um cenário
26:34que eu tenha dinheiro
26:36pra fazer uma,
26:38já era tipo assim, uau!
26:40Aí engravidar depois,
26:42é tipo, eu joguei no lixo
26:44todo o dinheiro
26:46e aí vai voltar o corpo também
26:48porque, querendo ou não,
26:50o corpo tem essas readaptações, né?
26:52A gente tá em constante evolução.
26:54Então, às vezes, o seio,
26:56você colocou, ainda vai crescer
26:58ou vai cair ou ficar mais flácido.
27:00É natural do ser humano.
27:02E aí você vai ficar
27:04a vida toda
27:06nesse ciclo.
27:08Porque eu acho complicado
27:10ver como que realmente
27:12isso se tornou normal, né?
27:14Igual você mesmo disse. A gente vê os dados,
27:16eu, pelo menos eu vejo, eu me assusto.
27:18Mas é uma coisa que já é comum.
27:20Todo mundo aqui, eu acredito que conheça,
27:22pessoas que já fizeram intervenções,
27:24seja cirúrgicas ou não, estéticas, né?
27:26E eu acho complicado você pensar
27:28que tem isso de, às vezes, você ter que refazer
27:30e tudo mais. E que as pessoas
27:32em volta também normalizam isso.
27:34Porque, assim, ah, nossa,
27:36você poderia fazer uma bariátrica?
27:38Porque você não tem, então,
27:40uma lipo? Porque, não sei, às vezes,
27:42as próprias pessoas que estão ao seu redor
27:44te dão toque sobre coisas
27:46que, assim, você nem pensava
27:48em mudar. E eu lembro
27:50disso porque, quando eu tinha, eu acho que
27:52uns 15 ou 16 anos,
27:54uma amiga minha veio, assim,
27:56um detalhe meu que eu nunca tinha
27:58nem reparado, que era até de uma coisa que eu gostava,
28:00não vou falar que ainda não
28:02não pratecei.
28:04>>[AF]: Ainda não tô sensível.
28:06>>[S]: Ainda tá tudo bem.
28:08E assim, ela foi, chegou em mim
28:10e falou, você nunca pensou em fazer
28:12uma cirurgia pra mudar isso aqui? Não.
28:14E eu nunca tinha notado isso.
28:16>>[AF]: Você já tá vendo como o espelho é o outro?
28:18>>[S]: Eu nunca tinha notado isso.
28:20A partir de quando ela falou, assim,
28:22pareceu um comentário meio sem maldade,
28:24eu fiquei com isso na minha cabeça, até hoje eu lembro disso, por isso que eu não vou nem falar, mas...
28:30>>[AF]: Ainda dói? >>[S]: É uma coisa que assim, ainda dói, eu já processei que não, é uma coisa que eu não vou querer
28:36mexer nem nada disso, mas você pensar que a pessoa de fora, chegou num ponto que ela achou que ela poderia
28:43te cutucar e apontar assim, isso daí se você quiser você muda, tá?
28:47>>[AF]: Com esse a gente vai para o quadro Não é Invenção Mesmo, que a gente vai conversar com você, Carolina,
28:53pra gente saber qual que é um caso, conta pra gente um caso, sobre o que você passou, que espelha essa busca
29:02pelo corpo perfeito?
29:04Eu acho que assim, por exemplo, quando a gente pega os dados brasileiros, eu me lembro que sei lá, uns dois anos
29:14atrás eu tava na praia, mas é uma praia fora do Brasil, com a minha família e a gente começou a observar
29:21que era muito nítido quem era brasileiro e quem não era brasileiro, porque normalmente, principalmente
29:27europeu, mais largado, assim, barriguinhas aparecendo, sabe? E as brasileiras, corpo shapeado, né?
29:40Sempre aquela barriga que você olha e fala assim, teve plástica? Teve uma intervenção cirúrgica?
29:45Que os seios nem se fala, né? Todo mundo com aquele peito no lugar, levantado e num tamanho simetricamente
29:55pensado, então a gente começou a distinguir que era muito fácil localizar os brasileiros na cidade.
30:03Eu tava conversando com uma amiga minha recentemente, ela é peruana e ela tem os traços, né?
30:13Dos nativos da América Latina, né? Que são indígenas e tal. E ela me contou que ela foi fazer uma exposição
30:22lá na Europa e ela entrou no Tinder na Europa e viu aquele tanto de padrão, assim, que ela, que nem olharia
30:30pra ela aqui no Brasil, né? Porque eu acho que, mesmo assim, a gente ainda segue algumas coisas que a gente fazia
30:38há 200, 300 anos atrás, que é seguir padrões de países diferentes, de nacionalidades diferentes,
30:45de corpos completamente diferentes do nosso, sendo que a gente veio de outros lugares, a gente teve outras raízes
30:52e aí ela ficava abismada, como que aqueles caras viam ela como uma pessoa que eles queriam ficar e tal,
31:03sendo que aqui no Brasil ninguém desse estilo olha pra ela. E é engraçado isso, né? Como que a gente
31:12consegue, assim, se espelhar e comparar, como você falou, num outro totalmente diferente, numa vivência totalmente diferente,
31:21com o salário totalmente diferente, com o pai, com a herança. >>[AF]: O clima! O clima da pessoa é totalmente diferente!
31:29Eu acho nossa cultura muito dura com as mulheres, realmente duras, assim. Eu escuto, às vezes, né?
31:37Eu atendo, em maioria, meninas e escuto elas me falarem, meu amigo falou que tem nojo de estria, que não fica com a menina que tem estria.
31:45>>[S]: O amigo disso! >>[S]: 16 anos, não sabe nem o que é uma estria!
31:51>>[AF]: Gente, né? E vai impondo, e aí esses padrões estéticos aos quais todas nós estamos submetidas, completamente real,
32:01não gosto de celulite, me mostra quem não tem, né? Então, a gente também, de certa forma, se submete a essa cultura, né?
32:12Essa cultura de um corpo muito objetalizado, um corpo muito objetalizado.
32:19>>[S]: E eu acho que infelizmente, em algum momento, todas nós sentimos essa insegurança.
32:25Eu mesmo, quando comecei a fazer academia, eu começava a reparar no corpo de outras mulheres da academia pra ver se...
32:34Ah, não! Ela tá bonita, toda gostosona, mas ela também tem celulite, então tá tudo bem pra mim ter celulite também!
32:42Ah, ela também tem... A gente fica buscando uma validação o tempo inteiro, porque a gente tá sempre sendo avaliadas.
32:48Então, assim, é muito pesado, é muito... Nossa, ser mulher, no Brasil, é tipo...
32:54E as consequências são várias, né? Até a automutilação, como você falou, né?
32:59Eu não presto, né? Eu não sirvo pra nada. E eu escuto muito esse relato da academia.
33:05Às vezes, as pessoas não dão conta de ir na academia por causa de comparação.
33:09Não suportam ir na academia, porque aí, primeiro, vão se sentir olhadas e vão estar olhando também, né?
33:18Nessa busca desse corpo perfeito, né? Quem é que tem?
33:22E quem tem, né, gente? Assim, é muito engraçado isso, assim.
33:27A gente transforma no ideal, né? Aquela pessoa que provavelmente tem um transtorno alimentar, né?
33:36São as ídolas do mundo fitness, né?
33:42Porque o estilo de vida delas e o excesso de rigidez, aquilo também é digno de se pensar,
33:51senão é patológico, né? E aí, de repente, elas viram lusas.
33:56Elas são o ideal, né? Igual as modelos supermagras na década de 90,
34:03inclusive essa coisa de supermagro tinha caído por causa disso,
34:07pelo excesso de anorexia e transtorno alimentar que isso gerou.
34:11E agora o povo se esmou de voltar com isso, assim.
34:14E eu não sei se vocês já viram, mas assim, já apareceu, por exemplo, pra mim,
34:20alguns vídeos de umas meninas mostrando a costela toda aparecendo.
34:25E naquele nível que, igual você disse, é notável que algum transtorno alimentar
34:30e com legendas do tipo, você consegue também.
34:33Venha se juntar a nós.
34:35Venha ficar doente junto comigo.
34:37Exatamente. O que eu acho mais esquisito disso é que, assim,
34:41é aquilo que falam sobre você criar o problema e depois você dar a solução pro problema, né?
34:47Porque é isso, a gente é bombardeado com esse tipo de coisa de corpo perfeito e tudo mais.
34:52Aí depois vem vendendo um shake, vendendo uma gominha,
34:56vendendo uma injeção diferenciada, fazendo uma publi do cirurgião plástico.
35:02E assim, são problemas que aquelas pessoas, geralmente influenciadoras, né?
35:06Estão martelando na nossa cabeça pra depois dar falsas soluções também.
35:11Porque não é aquilo que vai solucionar o problema da pessoa, né?
35:15Mas eu acho, assim, vou levantar um toco polêmico.
35:20Eu entendo e sei que parâmetros de corpo perfeito normalmente é idealizado o corpo magro.
35:30E, assim, é a tendência, eu também já, isso me atravessa muito,
35:35é uma coisa que, assim, pra mim é muito difícil,
35:38às vezes eu também entro nessa fase, nesse período de não me identificar e tudo mais.
35:43Mas também já vi discursos sobre o corpo gordo.
35:47De tipo, ai, a gente tem que se aceitar e se aceitar de uma forma, sim,
35:52a gente tem que se aceitar, a gente tem que se amar,
35:54mas de uma forma de, ai, vamos se aceitar e vamos comer de tudo.
35:57Vamos não ir à academia, vamos não ser saudável.
36:00Isso também não é o corpo ideal.
36:02Isso também não é o corpo perfeito.
36:04Como é que ela chama? Não sei quem é Carla.
36:07Ah, Thais Carla.
36:09Ela é muito criticada por isso, assim, como se ela vendesse...
36:14Romantizasse a obesidade.
36:16Como se ela romantizasse a obesidade, assim.
36:19Eu acho que a gordofobia, gente, é uma coisa tão séria
36:24que acabou tendo uma reação, né, assim,
36:27porque realmente eu já atendi várias pessoas
36:32e já escutei na vida social, eu não sou uma pessoa magra também,
36:36então eu já ouvi comentários terríveis,
36:39a gordofobia, assim, as pessoas julgam moralmente a pessoa com o corpo gordo.
36:46Isso é o que eu acho mais maluco, assim.
36:48É como se a pessoa, então, fosse preguiçosa,
36:51como se a pessoa fosse menos mesmo.
36:55Na escola, né, assim, isso é muito visível.
37:00Eu já ouvi homem falando, assim,
37:02mulher gorda pra mim não é mulher.
37:04Que isso.
37:06Então existe, aí eu acho que como tudo na vida
37:10tem essas reações extremadas, equivocadas, né, assim.
37:14Mas a gordofobia, ela é muito maior do que a magrofobia.
37:19Então a gordofobia, ela é uma coisa muito colocada na nossa sociedade.
37:24Recentemente, uma pessoa conhecida foi numa festa e falou assim,
37:30reparem como as pessoas falam isso,
37:32nossa, fui em tal festa e fulano engordou muito, né, assim.
37:37E aí as pessoas começam a parar de ir na festa
37:40pra não ser, pro corpo não ser alvo de comentários.
37:44Então a gordofobia na nossa sociedade,
37:46ela não diminuiu, ela aumentou.
37:49>>[AF]: Ainda mais que essa tendência, mas é isso que eu queria saber, assim,
37:52como a gente consegue tratar esse parante, por exemplo,
37:56as pessoas que romantizam a obesidade de uma forma não saudável,
38:06a obesidade é uma doença, né, então ela não é saudável de forma alguma.
38:10Mas como a gente, como você até, como psicanalista,
38:12trata isso de repente pra uma pessoa de, olha, esse não é o meio,
38:18sem parecer também que você tá julgando o corpo,
38:21porque é um conflito muito grande pra pessoa.
38:25>>[PV]: Eu queria dizer uma coisa, esse exemplo da Thais Carla é muito importante,
38:30porque ela é uma das mulheres que mais recebem críticas relacionadas ao corpo.
38:38E ela não, eu sou seguidora dela, e ela não romantiza a obesidade,
38:45o que ela faz, ela não fica mostrando ela comendo,
38:49ela fica mostrando ela fazendo exercício,
38:51ela fica mostrando as roupas, e eu acho interessante isso,
38:55porque tipo assim, é como se o corpo gordo, ele não pudesse existir,
39:00ele não pudesse ser mostrado, ele não pudesse ser exibido,
39:04e aí já é romantização da obesidade, é como se tipo assim,
39:09roupa não tem, calçado não tem, um colar não cabe,
39:13porque o mercado não é esse pensado com as pessoas gordas,
39:18mas ela também não pode, ela não pode se achar bonita,
39:22porque o se achar bonita também é uma ofensa, entende?
39:28>>[AF]: É como se fosse assim, você tá feliz desse jeito, mas você não deveria estar!
39:32Ela não pode achar uma roupa bonita e colocar que de repente ela tá mostrando aquela roupa...
39:38>>[S]: E eu acho, no caso da obesidade, que a gente tem muito o que remar,
39:42em relação a entender assim, eu não acho que a obesidade
39:46seja só um problema de saúde, acho que tem um problema genético mesmo,
39:51relacionado à obesidade, por tudo que eu observo,
39:54porque você vê que a pessoa normalmente que tem uma tendência a engordar,
39:58ela vai passar a vida engordando e emagrecendo, ela vai ser mais gordinha sempre, né?
40:03Eu tenho um espelho de comparação, assim como duas meninas que eu acompanho,
40:08muito próximas, não pacientes, né? E uma é super magra e a outra tem a tendência a ser gordinha,
40:14essa aqui, coitada, a mais gordinha, ela rala pra caramba pra ficar magra, né?
40:20Remédio, ginástica e come muito menos do que a outra que é magra,
40:26e a magra come chocolate todo dia, açaí e tal e não engorda,
40:30então tem um fator que é genético que a gente ainda não conseguiu alcançar,
40:35agora é claro que existe compulsão alimentar, também a gente não pode
40:39achar que todo mundo que tem um corpo gordo é compulsivo,
40:42então eu acho assim que o problema da gordofobia na nossa sociedade,
40:48hoje, é uma coisa gravíssima, gravíssima, porque é exatamente isso,
40:54é um corpo para não ser mostrado, eu nunca esqueço uma vez que eu tava com uma pessoa
40:59e aí passou uma menina gordinha de cropped, aí a pessoa do meu lado falou assim,
41:05queria ter essa autoestima. >>[AF]: Queria ter essa coragem, já ouvi algumas vezes.
41:10>>[S]: E acontece, já ouvi pessoas falando, nossa, fulana é bonita, mas é bonita de rosto, é ridículo,
41:18se ela é bonita, ela é bonita, não é bonita de rosto, ela é bonita,
41:21e sempre tem isso, e eu acho que a gordofobia ela já entra quando,
41:25por exemplo, a pessoa magra come muito e não engorda,
41:28nossa, não engorda de ruim! >>[AF]: A gente tem que terminar, né?
41:33>>[S]: Tá falando pra manga isso, né? Poderíamos ficar horas.
41:37>>[AF]: Eu gostaria, nossa, a minha análise inteira seria tratada aqui,
41:43mas o que a gente queria saber assim, por último, se você poderia
41:47dar algumas dicas que façam as meninas que estão nos ouvindo
41:52a olhar pra si de uma forma diferente, sem se comparar, o que você pode fazer?
41:59>>[S]: É muito difícil dar dica, né? Assim, eu sempre acho, porque na
42:03realidade cada sujeito funciona de um jeito, cada um tem uma
42:09singularidade, uma história com o próprio corpo, com o olhar do
42:12outro sobre esse corpo e com o olhar de si mesmo sobre esse
42:16corpo, né? Mas eu acho assim, que se a gente for pensar, então qual seria uma
42:20dica assim que sirva para todo mundo? Vamos ter mais crítica em
42:23relação à nossa relação com a rede social, vamos tentar
42:27entender melhor do que se trata ali, né? Ali é uma vitrine de
42:33negócios, né? Que a gente tá comprando como vida real,
42:39então acho que a gente tem que ter uma crítica, igual na
42:42década de 80, a gente tinha que olhar a novela que o povo
42:45tomava café da manhã assim, que tinha tudo igual café da manhã de hotel,
42:48você falava, gente, na minha casa não é assim, só que na rede social é muito mais invasivo
42:53porque a gente tá com ela no nosso corpo, na nossa mão o tempo
42:56todo, então eu acho que se a gente puder pensar, é a gente ter
43:01uma crítica maior com os ideais transmitidos pela rede social
43:05e tentar trabalhar um pouco a cabeça da gente, pra gente não
43:10ficar escravizado, aprisionado a ideais que nos fazem sofrer.
43:15É isso, muito obrigada Carol, pelo convite, a gente espera que você volte mais vezes
43:26pra conversar mais com a gente sobre esses assuntos e eu queria
43:31que você deixasse assim, se você tem algum Instagram, alguma
43:35arroba, algum livro, esse é o momento que você pode indicar alguma obra sua.
43:39Então, tem o meu Instagram que eu converso um pouco sobre críticas,
43:43inclusive sobre o Instagram, que é arroba carolnasal e eu tenho um livro,
43:48mas vou publicar outro, que chama Reduzir-se a Nada, que é sobre
43:53o problema do suposto masoquismo feminino, aquela velha frase,
43:57mulher gosta de sofrer? Mulher gosta de apanhar?
44:01Então, é eu desconstruindo essa ideia psicanaliticamente.
44:06Nossa, esse é um ótimo também, esse é um ótimo pra ela voltar aqui
44:11e falar com a gente, que é forte.
44:14Essa é outra pedrada. Nossa, que horrível te ouvir.
44:18Muito obrigada, gente. Obrigada.
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