- há 3 semanas
São mães que muitas vezes entraram no mundo do crime para sobreviver
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NotíciasTranscrição
00:00E agora a gente muda de assunto, presta atenção.
00:02A equipe do Folha Vitória esteve na penitenciária feminina de Cariacica
00:06e viu de perto como é a realidade de mulheres que cumprem pena por tráfico de drogas.
00:13Só em Cariacica estão mais de 400 presas.
00:18No total, o sistema penitenciário Capixaba tem hoje 958 detentas nos regimes fechado, aberto e semiaberto.
00:27A maioria, segundo dados da Secretaria da Justiça, cumprem pena por associação ao tráfico ou tráfico de drogas.
00:38A reportagem especial mostra como vivem essas mulheres.
00:43A solidão, os medos, os arrependimentos.
00:47Muitas foram mães dentro do presídio, outras ali também viram os filhos seguirem seu exemplo
00:55e também entrarem para o mundo do tráfico.
00:58E a gente vai repercutir essa reportagem agora.
01:00Vem cá, participa com a gente.
01:01No nosso estúdio eu recebo o jornalista do Folha Vitória, Gabriel Barros,
01:05que fez esse trabalho muito bacana, ao lado do fotógrafo Tiago Soares.
01:10A gente também recebe aqui a Suelen Castro,
01:13que ela já esteve envolvida no tráfico de drogas, já foi presa.
01:18Ela vai falar pra gente como que era também essa realidade.
01:20A Aline Hessel, que é psicóloga, a gente agradece a participação de todos vocês, viu?
01:26Gabriel, qual foi a realidade, quais foram as cenas que mais chamaram a atenção ao fazer esse trabalho?
01:32Boa tarde.
01:33Boa tarde, Roberta.
01:34É uma realidade dura, né?
01:35Muitas pessoas que estão ali acabam na prisão porque entram no crime achando que vão ter uma vida melhor,
01:42mas acabam se frustrando, né?
01:45Acabando presa, perdendo o contato com a família.
01:47Muitas mulheres, mães, não têm contato com seus filhos.
01:52Outras veem os filhos seguindo o mesmo caminho e o que acaba agravando esse arrependimento.
01:58É uma realidade muito dura que a gente encontrou no presídio de Cariacica.
02:02Você já trouxe a palavra arrependimento.
02:05Qual é o principal motivo que leva a esse sentimento?
02:09Eu acho que a maior dor que essas mulheres sentem é o abandono, né?
02:14Porque muitas famílias acabam não indo visitá-las.
02:18A gente tem quando um homem é preso, por exemplo, geralmente as mulheres vão visitá-los,
02:22vão acompanhar ele durante o período que eles estão detidos, mas no caso das mulheres
02:28isso na maioria das vezes não acontece.
02:30As mulheres acabam ficando sozinhas.
02:33Algumas não têm notícias da família, não têm notícias de como estão os filhos,
02:37os pais, enfim, é uma realidade muito dura para elas.
02:41É exatamente isso, que todas as vezes que nós abordamos esse assunto, é uma tecla
02:46que a gente sempre fala, que essas mulheres são abandonadas.
02:50Todas as vezes que a gente trouxe esse caso, né?
02:53A gente já recebeu aqui em outras ocasiões ex-detentas e elas falam muito sobre isso.
02:58E eu vi você agora, Suelen, concordando com a fala do Gabriel, é isso mesmo?
03:02Boa tarde.
03:03Boa tarde, Roberta. Boa tarde a você de casa.
03:07Essa é a grande realidade.
03:09Perfeita a fala dele, essa é a realidade de hoje.
03:13Mulheres que vão lá, correm atrás, por aqueles que estão atrás das grades,
03:19que se acham seu companheiro, mas que quando a situação é ao contrário, elas são esquecidas lá dentro.
03:26Você ficou quanto tempo no sistema prisional?
03:28Dois anos e oito meses.
03:29Por qual motivo?
03:31Tráfico de drogas.
03:32Como é que foi para você encarar essa realidade lá dentro?
03:35Triste, dura, cruel.
03:37E o que foi mais difícil para mim foi não ter a minha liberdade.
03:43No poder, o direito de ir e vir.
03:46E o abandono de olhar para o céu e se perguntar, e agora cadê os meus amigos?
03:52Porque advogado comeu o meu dinheiro, não fez nada por mim.
03:56Os amigos, nem o sabonete, mãe, parente, ninguém.
04:00A avó do meu filho era a única pessoa que saía cinco horas de distância para me ver.
04:06E, assim, eu falar do presídio para mim, Roberta, é mexer no meu passado.
04:12E é dizer para você que realmente o presídio, ali dentro você aprende coisas cruéis.
04:18Só que também o presídio também dá muitas oportunidades.
04:22Que tipo de coisas cruéis?
04:24Você vê pessoas morrendo por causa de dívidas de droga.
04:31Você dorme e não sabe se você também é a próxima vítima, se você vai acordar.
04:37Foi um dos fatos que me fez abandonar o crack.
04:41Foi isso.
04:42Eu vi uma moça morrendo por causa de dívida de drogas dentro do presídio de Tucum.
04:48E aquilo ali fez com que eu tivesse esse sentimento de mudar.
04:56Não querei mais aquilo para mim.
04:57É incrível, Aline, como que é exatamente essa solidão.
05:01As mulheres, muitas, são abandonadas pela própria família, não só pelo companheiro,
05:07que às vezes também tem envolvimento com o tráfico, mas como que nesse momento muitas repensam, né?
05:12É interessante a gente analisar esse comportamento delas.
05:15Boa tarde, Roberta.
05:17Imagino que o ambiente ali é tão hostil, tão ruim, que minimamente faz com que quem tem ainda ali o
05:25minimamente uma capacidade,
05:26uma condição aqui do lado de fora para pensar numa oportunidade de vida, ainda consegue pensar numa oportunidade de vida
05:33de fato, né?
05:34Mas a gente pode fazer um paralelo aí, por exemplo, com as plantas.
05:37Quando a gente cuida das plantas, se uma planta não está crescendo bem, se ela não está bem nutrida, se
05:42ela não está...
05:42A gente faz o que com ela?
05:43A gente muda ela ou muda ela de lugar?
05:46Quando a gente muda a planta de lugar, a gente dá a oportunidade para ela crescer melhor.
05:51Essas mulheres estão num ambiente onde não proporciona essa mudança.
05:56As que conseguem essa mudança dependem muito, tanto de um apoio externo como de um apoio interno delas próprias.
06:03Mas de fato ali, o que aquele ambiente está proporcionando, infelizmente, não tira o melhor delas.
06:09Agora é interessante. Primeiramente, quero fazer um convite para você aí de casa.
06:12A gente vai disponibilizar aqui um QR Code. Já está aqui, no canto da nossa tela.
06:16Você pode pegar a câmera do seu celular, apontar diretamente para esse QR Code.
06:20Você vai ter acesso à matéria, à reportagem na íntegra.
06:24A reportagem que o Gabriel e o Tiago fizeram, que ficou sensacional e a gente está aqui agora repercutindo.
06:29Quando a gente fala de arrependimento, muitas pessoas não acreditam.
06:34Você sentiu verdade na fala dessas mulheres, Gabriel?
06:39A maioria delas tem uma profundidade, assim, quando falam desse arrependimento.
06:44Muito pelos filhos.
06:46Elas se arrependem a ver que, em alguns casos, uma das pessoas que a gente conversou nessa reportagem do Folha
06:52Vitória,
06:52você pode conferir, ela fala que os filhos acabaram seguindo o mesmo caminho,
06:56acabaram entrando no mundo do crime.
06:58Às vezes, esses filhos seguem até por caminhos mais drásticos do que elas.
07:03É o caso de uma das mulheres, que ela teve um envolvimento com o tráfico de drogas
07:06e o filho acabou tendo um envolvimento com o homicídio, uma situação ainda mais grave do que a dela.
07:12A nossa ideia, na matéria que a gente fez no Folha Vitória, é trazer um alerta para as pessoas
07:16e como que o tráfico pode ser uma porta de entrada para a criminalidade.
07:20É um alerta para as pessoas e como que ele pode acabar com a vida de uma pessoa.
07:24A vida da pessoa, a vida da família, a vida dos filhos que a gente tanto ama.
07:30E a gente vê aí dois caminhos que ilustram bem isso, né, Aline?
07:33Ou essa criança vai ser, em algum momento, retirada ali do seio da mãe, depois de seis meses de vida,
07:40que é até onde o governo permite que tenha esse contato, né?
07:45Ou então, é um outro caso que a gente viu, dos filhos que acabam seguindo o mesmo caminho da mãe,
07:49né, Aline?
07:50É, os pais, eles se tornam uma grande referência.
07:53É importante a gente pensar, claro, que a situação do tráfico, ela envolve uma situação muito complexa
07:58que vai ter soluções complexas.
08:00Então, é uma questão cultural, social, econômica, da polícia, enfim.
08:05Mas não tem uma solução única.
08:07Agora, se essas pessoas estão convivendo num ambiente, na comunidade em que elas moram,
08:12num ambiente cercado de traficantes, cercado de pessoas com exemplos ruins,
08:18as chances dessas pessoas seguirem esse caminho é muito grande, seja mãe, pai, filhos, irmãos.
08:25Então, a gente precisa mudar toda essa realidade e é importante a gente ter esperança que isso pode ser mudado
08:30para a gente dar mais oportunidade para essas pessoas.
08:33Perfeito.
08:34Agora, falando sobre essa relação materna, você é mãe de três filhos, não é isso, Sueli?
08:39Sim.
08:40De que forma, quais foram as consequências dessa sua escolha na vida dos seus filhos?
08:46Eu vou chorar.
08:47A minha amiga pediu, não chora mais.
08:50Eu tenho uma filha que foi arrancada dos meus braços.
08:54Eu tinha 13 anos de idade.
08:57Hoje, eu não tenho o perdão dela.
08:58E é algo que eu carrego.
09:01E eu peço que ela possa me perdoar se ela estiver assistindo agora.
09:06Porque eu fiz escolhas erradas.
09:08E, num momento, eu não podia nem mesmo me ajudar.
09:11Então, como que eu ia ajudar ela?
09:13E eu tenho o meu filho também.
09:16Hoje, já um rapaz, graças a Deus, não fez as escolhas que eu fiz.
09:20Mas eu abri mão dele porque eu estava fazendo a minha casa em ponto de tráfico de drogas.
09:27E a avó dele falou, Sueli, deixa eu levar o seu filho, senão você vai perder ele.
09:32Então, hoje, ô Roberto, eu tenho um bebezinho de um ano com uma vida já transformada, graças a Deus.
09:41Que hoje, Deus me deu a oportunidade de fazer escolhas melhor.
09:45Eu gostaria de ressaltar aqui e falar que eu conheci Jesus dentro do presídio.
09:52E a psicóloga aqui falando sobre estar em ambientes, essa é a grande realidade.
10:00Muitas das vezes, se a família não abraçar, o crime abraça.
10:04O crime está aí para abraçar mesmo.
10:06Menores, que são presas fáceis para eles, porque eu mesmo venho desse mundo aí, os menores para mim era uma
10:17ponte de refúgio, o chamado laranja.
10:19Porque a droga é minha, mas quem leva a culpa é eles.
10:22Porque eles levam pouco tempo dentro da prisão e logo, logo estão em casa.
10:27Você entrou quando ainda era menor para esse mundo?
10:30Sim, aos 10 anos de idade.
10:31Aos 10 anos você entrou para esse mundo?
10:33Sim.
10:33E aí, depois, num momento, você também fez o uso de crianças e adolescentes para gerar esse movimento?
10:41Sim, sim.
10:41Então, você entende muito bem dessa realidade?
10:43Sim, entendo, sim.
10:44E entende também do arrependimento, né?
10:46Entendo. Graças a Deus, entendo.
10:48Gabriel, em que momento que você estava ali, a principal cena que mais chamou a atenção,
10:55o ambiente, o que que, de toda a reportagem que vocês fizeram, o que mais te chamou a atenção?
11:03Eu acho que é o cuidado que as mães têm dentro da aula materna, né?
11:08Para quem não sabe, as pessoas que têm filhos dentro da prisão podem ficar com os filhos por seis meses.
11:14Dentro da penitenciária tem uma aula específica para isso.
11:18Dentro dessa área, a gente tem um cuidado muito grande da própria Secretaria de Justiça
11:23para que essas mães possam vivenciar, mesmo por um curto período de tempo, essa rotina com o filho, né?
11:31Então, é um momento ali que marca a gente, que sensibiliza,
11:38porque você vê que a vida daquela pessoa ali não vai ser a mesma.
11:43Uma das detentas que a gente conversou, inclusive, ela foi presa em 2015,
11:48foi solta para responder o processo em liberdade, quando teve o mandado de prisão expedido,
11:54que ela foi descobrir que estava grávida, né?
11:56Então, ela teve a gestação dentro do presídio, está hoje com o filho dentro do presídio,
12:01mas esse tempo de seis meses que eu comentei está acabando.
12:04Então, ela tem ali a dor de, daqui a um tempo, perder o contato com esse filho, né?
12:11Então, é um momento que sensibilizou bastante a gente quando foi fazer essa reportagem lá em Cariacica.
12:18A gente tem falado muito nessa palavra solidão, né?
12:20Que essas mulheres acabam sendo abandonadas pela família, pelos companheiros.
12:26O que você percebeu? O que elas fazem para lidar com esse sentimento?
12:30É um processo bem delicado, né?
12:33A Sejuiz informou para a gente que elas têm um acompanhamento psicológico lá dentro.
12:38É um processo bem delicado. Elas procuram, na maioria das vezes, encontrar uma ocupação.
12:44Dentro da penitenciária tem algumas atividades, algumas trabalham na biblioteca,
12:48outras trabalham numa fábrica de sapatos, outras atuam na cozinha.
12:52Elas vão criando ali dentro atividades para que elas possam passar o dia
12:57e tentar, de alguma forma, sobreviver a cada dia, né?
13:01Esquecer um pouquinho o mundo aqui fora, a dor que elas carregam,
13:05para lidar com a situação, porque elas se envolveram com o crime
13:08e elas estão pagando por esse crime.
13:10É importante a gente destacar, não é que a gente queira passar a mão na cabeça delas, né?
13:15Elas estão lá cumprindo por uma situação que aconteceu na vida delas.
13:20Mas elas precisam, né?
13:22Passar por isso, né?
13:23Isso. E um dia elas vão sair dali, então é um processo.
13:27Para você, Suelen, como é que era a sua experiência lá?
13:31O que você fazia para tentar driblar esse sentimento de solidão?
13:36A verdade, assim, Roberta, foi Jesus.
13:41Eu encontrei Jesus, comecei, iam pessoas visitar o presídio,
13:47faziam trabalhos lá dentro, evangélicos.
13:49E eu conheci Jesus, comecei a meditar na Bíblia.
13:53E, através dali, eu conquistei, minha pena foi caindo,
13:58nem eu acredito que o advogado abandonou minha causa.
14:01Uma sentença de 15 anos, caiu para 9, depois caiu para 4 anos e 2 meses.
14:06E eu conquistei o trabalho, o chamado semiaberto, e comecei a trabalhar na rua.
14:11O meu namorado, que havia me abandonado lá dentro,
14:15ao saber que eu estava trabalhando na rua,
14:17veio me procurar de volta, né?
14:19Porque, quando você está preso, você não tem ninguém.
14:23Mas, quando você está livre, você encontra pessoas
14:26para tentar te levar para esse mundo de volta.
14:30E eu não quis mais ele, falei com ele que eu não queria mais aquela vida para mim.
14:35E, trabalhando na rua, eu conheci um jovem,
14:39que hoje ele é meu esposo, graças a Deus, evangélico.
14:42Então, assim, eu falo para você, Roberta,
14:45que, para me mudar, a resposta foi Jesus.
14:49E a gente vê, Aline, o quanto que a fé,
14:52ela perpassa por todos os assuntos que a gente trabalha aqui no estúdio, né?
14:56O quanto que ela é fortalecedora e importante também nesses processos
15:01de arrependimento e de mudança, né?
15:03A fé faz parte do ser humano.
15:06E isso, historicamente, na nossa evolução, sempre fez parte da nossa realidade.
15:11E ela pode ter um papel, pode ser uma ferramenta fundamental
15:16para a esperança, para a mudança, para a transformação, para o positivo.
15:21Claro que vai depender muito da pessoa que está fazendo uso daquela ferramenta,
15:25mas que ela pode e pode contribuir com a vida de muitas pessoas,
15:29com certeza, o que alimenta a esperança, a perspectiva de um futuro melhor
15:32e de novos hábitos, né?
15:34É a substituição, de repente, de hábitos ruins por novos hábitos,
15:39mais saudáveis, enriquecedores e promissores para a vida dessa pessoa.
15:43Olha só, tem um comentário aqui da Bianca Batista.
15:46Ela quer saber, Roberta, e as detentas que, depois de seis meses,
15:50não têm contato com a família, o que acontece com os bebês?
15:53O que você pode captar do sentimento dessas mães?
15:56Porque os bebês, depois, eles vão para a família dessas mulheres, não é isso, Gabriel?
16:01Isso, a família entra com o pedido e eles vão para a família,
16:04ficar aos cuidados das famílias.
16:06Em alguns casos, mais raros, eles acabam em alfanatos.
16:10É um momento delicado, né, Roberta?
16:13Porque é a ponte, digamos assim, de salvação dessas mulheres
16:18que elas acabam perdendo ali um contato.
16:20É um momento muito difícil.
16:22A gente consegue imaginar, né?
16:24Nós somos mães e a gente não consegue, na verdade,
16:27a gente não consegue imaginar ficar longe dos nossos filhos.
16:30Essa é a verdade.
16:31Suelen, obrigada pela sua participação.
16:33E a gente quer um dia receber você e sua filha aqui.
16:36Eu tenho certeza que ela vai abrir o coração para essa grande mãe transformadora
16:41que está aqui no programa.
16:42Parabéns também, Aline.
16:43Obrigada.
16:44Gabriel, reportagem incrível que você e o Tiago fizeram.
16:47Convido vocês aí de casa, mais uma vez, a acessarem o folhavitoria.com.br
16:52e conferir a reportagem na íntegra, que está completíssima.
16:56E parabéns a todos os envolvidos.