- há 13 horas
Um papo com Pe. Anderson sobre fé, literatura e juventude, em seu livro de estreia: "A Jornada".
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrime Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, tudo bem? Estamos de volta.
00:23Vou continuar conversando com o Padre Anderson, mas antes, como toda introdução necessária,
00:28nós estamos aqui no Vitrime Literária com o Francisco Grijó, podcast e página de vídeo do Folha Vitória, podcast da
00:37Rede Vitória.
00:38Nós vamos continuar o bate-papo com o Padre Anderson sobre esse livro interessantíssimo.
00:45Aliás, vamos começar de uma forma diferente. A pessoa quer adquirir o seu livro. Como é que ela faz?
00:53É um prazer de novo estar com você e com todos.
00:56Você tem o livro na Livraria de Leitura, sites de Amazon, você pode encontrar, também Anjos, a Editora,
01:05a Livraria Loyola, no Mundo Digital, que você pode adquirir.
01:09Ótimo, ótimo, ótimo.
01:11Bem, nessa continuidade aqui, nessa continuação, vamos falar sobre uma mulher.
01:18porque no programa passado nós conversamos muito sobre fé, sobre religiosidade, vamos continuar conversando,
01:24mas falamos muito do antagonismo do Diego com o Rodrigo.
01:29Mas existe uma figura feminina, aliás, duas.
01:32Uma não me atraiu muito, que é a Cida.
01:35Não me atraiu muito e eu quero saber por que Cida?
01:38Eu achei a Cida, falei, eu quero saber o que ele quis com a Cida.
01:42Eu falei, calma, é a Cida.
01:44E a outra é a Gabriela, porque a Gabriela é a figura que leva o Diego e depois ela se
01:51alia ao Rodrigo.
01:53Então, a minha pergunta, vamos começar com o Cida, então.
01:56Por que Cida?
01:57Cida é a única personagem que eu tenho rosto, que tem identidade, que é uma amiga minha.
02:02Ela até sabe.
02:02E é Cida também?
02:03Não, o nome dela é Mari Estela.
02:05Só que ela chama Mari Estela ou Mari.
02:07Ela tem aquela risada?
02:08Ela tem aquela risada.
02:09Ela tem aquela risada.
02:10Então, ela é a única personagem que eu espelho nela, que a história é um pouco ela.
02:14Ela, quando eu faço viagens pra fora, em excursões, ela é a nossa guia.
02:19Então, ela é a tradutora e assim por diante.
02:21Então, ela faz parte da minha vida, a amizade, e eu falei com ela.
02:24E ela que é a dona da editora.
02:26Ah, certo.
02:26E eu falei com ela, olha, esse personagem aqui é pra você.
02:29É a sua presença.
02:30É a pessoa que vai estruturar, que vai conduzir o grupo, as burocracias, pra tirar essa burocracia da densidade do
02:37livro.
02:38Então, essa figura.
02:39E ela é muito religiosa, muito católica.
02:41Cida porque é aparecida.
02:42Ela gosta muito de aparecida, não é só aparecida.
02:44Então, ela é aparecida, vulgo, Cida.
02:47Já a Gabriela...
02:48É, a Gabriela é uma personagem mais densa, né?
02:51Quem é a Gabriela?
02:52Gabriela é namorada do Diego.
02:54É ela que traz Diego para a comunidade.
02:57Gabriela...
02:58Me diga uma coisa, não me pareceu também, também não me pareceu, como leitor, que a Gabriela tenha tido a
03:04intenção de uma transformação do Diego, né?
03:07Ela leva, simplesmente.
03:08Só levou, só levou, só levou.
03:10Mas, Gabriela é aquele ser humano que nasceu na igreja.
03:14É aquela pessoa que nasceu na comunidade religiosa, aquele jovem que cresceu com todos os nãos.
03:20Tentando controlar os seus impulsos, a santidade proposta pela religião.
03:26Só que até que aparece um Diego na vida dela.
03:30A princípio, essa pessoa, que acontece muito, ela vai para o mundo, ou seja, arranja o namorado fora, com o
03:36objetivo de evangelizar aquele namorado.
03:39Mas, geralmente, ao contrário, elas são engolidas pelo namorado.
03:43Então, a pessoa que é religiosa e que arranja o namorado não religioso, é muito comum, em vez do outro
03:49se tornar religioso, ela ir para o mundo.
03:52Então, o Diego apresenta para ela um mundo que ela não conhecia.
03:57Da sexualidade, da bebida, da liberdade, das possibilidades.
04:03Eles têm essa vida afetiva sexual um pouco presente antes da viagem.
04:07Isso.
04:07Um pouco mais contida, mas tudo bem.
04:09E ela começa a encontrar esse prazer da vida, que a princípio lhe foi negada.
04:15E ela gosta um pouco.
04:17É, aceita ir na viagem.
04:20Ela não tem tanta intimidade com o Rodrigo.
04:22Mas, no passar do tempo, os questionamentos do Rodrigo vão mexendo com ela.
04:27Tanto é que, no segundo, posso dar esse spoiler?
04:33Ela briga com...
04:34Acaba quase que terminando.
04:36Eles já estão mais velhos ou continuam com a mesma idade?
04:38Não, continuam a viagem.
04:39Ah, na viagem, durante a viagem.
04:39O primeiro aqui, eu estou na pré-jornada aqui na Galiléia.
04:43Isso.
04:44O segundo, eu estou em Jerusalém.
04:45Em Jerusalém, você me falou já.
04:47Em Jerusalém.
04:47Então, ali, Diego se desvencila do grupo.
04:51Ela acaba gostando da...
04:54Ela diz assim, eu gosto da verdade do Rodrigo.
04:59Eu gosto da liberdade do Rodrigo.
05:01E aí começa o diálogo entre os dois.
05:02Mas como, Gabriela?
05:04Você que me trouxe para a vida e eu sei que o mundo lá fora não é isso.
05:08Não é essa a verdade.
05:10Mas como você coloca isso, padre?
05:11Você não está colocando uma metáfora de que o mundo material é bem mais interessante do que o mundo religioso?
05:17Mas, às vezes, é mais vendido, mais convencido.
05:20É mais convincente.
05:22No primeiro livro, eu trago um pouco sobre isso.
05:24O Diego fala, então, tem uma parábola da Bíblia, que ele fala assim, então pode se converter a qualquer hora?
05:29É.
05:30Aquela parábola que Jesus fala de...
05:32Chamou o empregado às cinco da manhã, às nove, às três, ao meio-dia, às cinco.
05:37E aquele que trabalhou uma hora só, ele vai receber a mesma moeda de prata.
05:42E aí conclui-se.
05:44Se você se converte na última hora da sua vida, você vai ter a mesma coisa que eu.
05:48Aí o Rodrigo, então...
05:50Então, fazer o quê?
05:50Não adianta?
05:51Não precisa se converter antes?
05:52Não, não precisa.
05:53Então, eu posso ter a minha vida lá fora e depois se converter?
05:56Pode.
05:57Pode.
05:58Ah, então, o que adianta?
05:59Mas é aquela ideia.
06:01Qual a concepção que eu tenho de vida e de felicidade?
06:07O mundo, a gente fala de mundo, né?
06:09Seja, o fórum religioso, ele é mais convincente, é mais atrativo do que, às vezes, nós, religiosos.
06:17O próprio Jesus diz isso, né?
06:18Os filhos do mundo são mais espertos do que os filhos da luz.
06:22Você foi muito feliz no romance?
06:27Você foi muito feliz ao colocar o padre, o padre Mateus, com uma figura tremendamente paciente, né?
06:36É de uma paciência abissal.
06:39Porque existem os antagônicos ao padre, às vezes, padreco, né?
06:45E fazendo questionamentos baseados na ignorância.
06:49Mas na ignorância no sentido real, de ignorar, de desconhecimento.
06:52Mas há os questionamentos baseados na arrogância.
06:56Sim.
06:56E eu vejo o padre Diego segurando a onda o tempo todo.
07:00O padre Mateus.
07:01O padre Mateus, desculpe.
07:02Segurando a onda o tempo todo.
07:06Isso é possível?
07:07Sim.
07:08Eu procuro ser isso.
07:10Embora o padre Mateus não seja eu, mas eu procuro ser isso.
07:13Com as minhas dificuldades todas, mas eu procuro ser paciente, dar resposta às pessoas.
07:17Sim, nós religiosos podemos atrair, podemos afastar.
07:21Vemos aí na própria literatura, nos filmes, a imagem estereotipada do religioso, do padre, da freira, dos conventos.
07:31Que mais afastaram as pessoas do religioso, da igreja, do que aproximaram.
07:35Temos padres pedófilos, temos padres com seus problemas, temos tudo isso.
07:38Que pode ser uma, e é uma pedra de tropeço.
07:41Mas temos muita gente boa.
07:42Temos muita virtude.
07:43Essa é a ideia, a ideia da jornada, a jornada da juventude, que é uma transformação.
07:51É o objetivo da jornada?
07:53O objetivo da jornada é qual?
07:54Exatamente.
07:55É apresentar, apresentar e discutir ou converter?
08:01Houve até agora na jornada da juventude em Portugal, que o cardeal de Portugal soltou uma entrevista,
08:07foi muito mal compreendido, rodou nas redes sociais.
08:10Ele dizia que a jornada da juventude não tinha o objetivo de converter ninguém.
08:15Na verdade, o objetivo principal é socialização.
08:18É o Papa se reunir com a juventude do mundo inteiro.
08:22E fazer com que aquele jovenzinho que vive na sua basezinha lá, ele entenda que o mundo,
08:26cara, tem bandeira do mundo inteiro.
08:29Eu tenho gente, eu não estou sozinho.
08:31Eu não estou sozinho.
08:32Tem gente que pensa como eu penso no mundo inteiro.
08:36Isso é impacto bonito demais.
08:38Na jornada você vê aquelas bandeiras, sabe, do mundo.
08:41E aí é muito legal, é gostoso a troca.
08:44Por exemplo, quando eu fui a Sydney, na Austrália, na pré-jornada, fomos para uma escola,
08:50ficamos no colégio e de repente chega um grupo de vietnamitas.
08:54E chega um grupo da Holanda, no mesmo colégio que o nosso, para a gente.
08:59E eu é padre novo, tinha três anos de padre.
09:01Eu já tinha celebrado a missa e eles não tinham participado a missa ainda.
09:04E aí me pediram se eu podia celebrar a missa para eles.
09:07Que lindo!
09:08Sensacional!
09:09Que língua você fez?
09:10Aí pronto, aí eu falei, olha, consegue um vinho.
09:12Conseguiram um vinho lá e tal, eu tinha hoxa.
09:15Tá bom.
09:15Aí os vietnamitas cantaram na língua dele, houve leitura na língua dos holandeses,
09:20houve, sabe, e eu fiz o rito em português.
09:24Só que o rito católico é o mesmo rito no mundo inteiro.
09:28Então o católico, os jovens às vezes entendem.
09:30No Brasil, nós que vamos para a jornada, geralmente são jovens engajados.
09:34Na Europa, nem sempre, as igrejas pagam para os jovens irem para quem sabe fiz alguma coisa.
09:43Então tem de tudo na jornada que acontece.
09:46E eu trago esses elementos para cá.
09:48É, você inclusive traz um elemento que é também antagônico à ideia de cristandade,
09:56à ideia de fé, que é a droga.
10:00Existe a Gabriela e o Rodrigo, eles são pervertidos naquele momento.
10:05Eles se transformam em indivíduos que usam o entorpecente até para poder prejudicar o Diego.
10:13Para acabar com a ligação que estava se estabelecendo entre o Diego e o Matheus.
10:20Essa coisa da droga, você também tirou do dia a dia?
10:24Sim.
10:25Na verdade, o que acontece?
10:26O Rodrigo e a Gabriela, eles têm ciúmes da amizade do Diego com o padre.
10:31Eles estão vendo que estão perdendo um amigo.
10:34Eles falam isso, vamos resgatar nosso amigo.
10:35Vamos, eles estão perdendo.
10:37Eles não estão gostando do novo Diego que está acontecendo, que está mudando.
10:42Então, eles vão fazer de tudo para poder queimar a imagem do Diego em relação ao padre.
10:48Só que o padre tem essa noção, sabe das dificuldades, sabe ler as histórias, o coração das pessoas.
10:54E ali ele vê a luta que existe, existencial entre todos eles daquele ônibus, daquela viagem.
11:01E detalhes, tá?
11:02A jornada tem um outro significado.
11:05Uma outra metáfora.
11:07Eles estão o quê?
11:08Numa viagem internacional, avião e ônibus.
11:12Num ônibus caminhando dentro de Jerusalém, dentro das cidades.
11:17Eles não podem, eles não têm liberdade de pegar e sair.
11:20Ah, voltar para vir à casa.
11:21Não pode.
11:22Tem viagem internacional, não tem dinheiro.
11:24Então, eles estão reclusos, 15 ou 20 dias, num lugar.
11:29O que significa?
11:31Imagina um jovem de uma periferia que vive numa boca.
11:35E ele vai para o final de semana num momento religioso, no encontro, final de semana, na igreja.
11:40Nossa, que maravilha!
11:42Só que ele volta a morar no ambiente dele.
11:45Então, o ônibus, a jornada, é a metáfora da vida.
11:48Como eu vou me converter, estando no mesmo ambiente que me provoca coisas ruins?
11:54Ou que não me colabora?
11:56Então, quando o Rodrigo e a Gabriela fazem uma força para que ele não mude,
12:01e ao mesmo tempo ele não tem para onde ir, ninguém tem para onde ir.
12:04Eu estou lidando com alguém que está convertendo dentro de casa.
12:07Às vezes acontece isso no casamento, um filho ou uma filha que vai para uma igreja, que se converte.
12:14Mas dentro de casa, com os próximos, o ambiente não ajuda.
12:17Eu lembro quando eu era padre na periferia, na grande São Pedro, aqui em Vitória,
12:20fizemos um encontro, um retiro, e tinha um jovem com um drogado.
12:24E esse jovem começou a gostar.
12:27Só que ele era da boca, ele fazia parte do sistema de...
12:30E ele estava sendo perseguido pelo tráfego, pela conversão dele.
12:34O que fizemos?
12:35Tivemos que enviar esse cara para São Paulo.
12:39Para São Paulo.
12:41Na liberdade dele.
12:42Porque ele queria viver isso, só que o ambiente dele não ajudava.
12:47E acontece na maioria das pessoas.
12:48O ambiente não favorece para que eu tenha uma nova vida.
12:52E a jornada é essa metáfora.
12:53Ou seja, eu estou numa viagem, num ônibus, e ao mesmo tempo tenho forças contrárias.
12:58Eu tenho gente o tempo todo, eu estou lidando com as minhas emoções.
13:02Da conquista de algo novo, mas da perda de outro.
13:05Não é possível ter tudo.
13:06Você coloca a ideia de água profunda como um local, me parece, como algo do qual você não escapa.
13:16Eu só vou te perguntar isso.
13:18E o contrário, Padre Andres?
13:20E o contrário?
13:20O indivíduo que é convertido, que viveu a vida inteira dentro da igreja,
13:27e de repente ele, por motivos variados, ele sai daí.
13:34Há salvação para esse indivíduo?
13:36Por quê?
13:37Não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, deixa eu
13:39reformular.
13:40Não é a salvação, a salvação post-mortem, não é a salvação de Deus.
13:44É um indivíduo desses, ele destoa da ideia de jornada da juventude.
13:52Águas profundas vêm do chamado de Jesus Cristo aos apóstolos de poder ir para águas mais profundas,
13:57para poder pescar seres humanos, pescar, ou seja, sair da margem.
14:02Quem um dia entrou na água profunda dificilmente sai.
14:07Porque uma vez mergulhado profundamente, feito uma experiência profunda, é difícil, sabe?
14:12Sabe aquela coisa mais gostosa que você já comeu, você teve prazer na vida,
14:16e você resolve abrir mão dessa coisa gostosa?
14:20Como é que racionalmente, cara, eu comi aquela coisa maravilhosa, eu quero comer de novo.
14:26Cara, eu tive aquele prazer maravilhoso, eu não encontrei esse prazer.
14:29Como é que uma pessoa que teve uma experiência profunda, tamanha, queira voltar para a margem?
14:34Desde que a experiência profunda seja positiva.
14:36E seja real.
14:37E seja real.
14:38E seja real.
14:39Profundidade é nisso.
14:40Então, ou seja, ao mesmo tempo, esse livro, ele traz não para quem está fora da igreja,
14:45mas justamente levar o católico, aquela pessoa de igreja, a uma profundidade que a maioria não tem.
14:51Eu trago elementos aqui e respostas, questionamentos, que os católicos não se pensam, não têm racionalidade para isso,
15:00eles não estudam para isso.
15:02Então, eu quero levar as pessoas ao profundo da radicalidade da fé.
15:08Águas profundas é isso.
15:09Então, não vamos ficar na margem?
15:10Você quer entender a razão disso?
15:13Vamos aprofundar.
15:14Vamos aprofundar nisso tudo.
15:17Existe um axioma, e eu concordo absolutamente com ele, até porque é difícil a gente discordar de um axioma, né?
15:25Mas de que não se pode, não se consegue escrever um bom livro se a gente não ler bons livros.
15:33Eu sei o quanto você é ocupado.
15:35Eu sei o quanto...
15:36Nós estamos gravando aqui, para quem não sabe, nós estamos gravando num dia em que eu não gravo com ninguém,
15:42mas como eu queria muito entrevistar o Padre Anderson, ele fez a gentileza de vir, mas disse,
15:47Crijo, ó, no dia que você grava eu não posso.
15:49Então, nós estamos gravando no outro dia.
15:52Eu sei a sua ocupação e sei o quanto que você representa para aquela comunidade de Dilabé.
15:58Sei mesmo, para a paróquia.
16:01Mas você tem que ler.
16:02Você lê.
16:04Você não escreveria esse livro aqui?
16:07Porque, não há condição de você ter essa narrativa, essa narrativa, né?
16:12Essa rapidez de narrativa, sem leitura.
16:16O que você lê?
16:17Então, a base teológica que eu faço, a resposta do Padre Mateus, são chamados os Padres da Igreja.
16:24Que é a patrística na teologia.
16:27Então, quando eu fui para Roma estudar, já padre, fui fazer o meu mestrado em teologia.
16:32Eu fui fazer o mestrado nos Padres da Igreja.
16:34Quem são os Padres da Igreja?
16:35São os oito primeiros séculos do cristianismo.
16:38Então, ali tem a fundamentação cristiana.
16:41Todos os dogmas possíveis.
16:42Católicos ou protestantes estão ali naquele período.
16:45Então, eu li esse período.
16:47E dou aula para seminarias dos futuros padres há onze anos.
16:51De patrística.
16:52Então, eu conheço esses homens, esses textos, que eu fico encantado.
16:57Esses homens, quando eu comecei a tomar conhecimento deles, abriu minha cabeça, assim, de uma forma absurda.
17:03Mas em tema?
17:04Eu estou perguntando?
17:04Não, sim, mas aí eu leio.
17:06Tem estilística, né?
17:07Não, mas sim, eu os leio.
17:09Aí vem a inspiração de transformar o texto teológico, que às vezes é pesado, numa linguagem mais simples.
17:16Então, a minha leitura, que eu leio às vezes semanalmente, ou preparando aula para os meninos,
17:21eu vou lendo, tendo contato, lembrando de novo, e vai criando uma história.
17:25Você lê textos que não sejam religiosos?
17:27Ah, leio, leio.
17:28O que você gosta de ler?
17:29Leio.
17:29Ave Maria do céu, me diga.
17:31Eu sou péssimo de memória.
17:34Leio.
17:35Carnal, estava aquele livro lá do Carnal com o padre Fábio e tudo mais.
17:39Eu gosto de...
17:40Que outro livro que eu estava lendo ultimamente?
17:42A Lida da Morte, de uma médica que fala da hora de fazer as pazes com a morte.
17:46Ou seja, na hora de...
17:46Adoro falar de morte.
17:48Adoro, adoro, adoro.
17:50Ela fala de poder preparar as pessoas para a morte.
17:53Então, um pouco de tudo ali eu tento ler.
17:55Aí, isso aí é o arcabouço para você criar.
17:58Certo?
17:59Sim.
18:02Frequentemente, quando eu começo a dar aula, logo nos primeiros dois meses de aula,
18:07que a gente está ainda trabalhando a teoria literária, os alunos me perguntam muito,
18:13Grinjó, a Bíblia é literatura?
18:15E o que eu digo para eles é o seguinte, a Bíblia é um livro de fé.
18:18Então, eu prefiro não tocar, não entrar no mérito, porque talvez eu fale alguma coisa
18:25que não vai ser bem recebida por um católico, ou por um protestante, ou por qualquer outra pessoa.
18:30Então, eu prefiro não entrar no mérito.
18:33Mas, para você, eu posso perguntar.
18:35A questão é, você vê a Bíblia, Velho Testamento e Novo Testamento, né?
18:40Você vê a Bíblia como texto literário?
18:43A Bíblia é uma enciclopédia.
18:47Uma enciclopédia, e que ali nós temos, como já diz a palavra, é uma coleção de livros.
18:53Para nós, católicos, são 73 livros.
18:58Eu não sabia disso.
18:59É, são 73 livros.
19:01O Velho Testamento?
19:02Não, tudo?
19:03Tudo.
19:03A Bíblia é católica, a protestante é 66, 66.
19:06Então, a Bíblia católica tem 73 livros.
19:09O Novo Testamento são 27 livros.
19:12E nesses livros, nós temos estilos diferenciados.
19:16Temos cartas, temos estilos de sapienciais, temos livros históricos.
19:22Então, ou seja, eu tenho que categorizar que tipo de livro e que momento está lendo.
19:27Que foi colecionado e colocado num só.
19:30Só que eu não posso ler esse mesmo livro da mesma maneira, da mesma forma.
19:34Eu tenho que ter esse conhecimento.
19:35Além dos gêneros literários que nós temos em cada um.
19:41Sim, certo.
19:41O gênero apocalíptico, o gênero de parábola e assim por diante.
19:46Eu vou, então, conhecendo a forma de cada um deles.
19:49Assim como você vai pegar na literatura brasileira ou literatura internacional, que tem as suas categorias.
19:55De ficção, de romance.
19:57Eu tenho livros ali um pouco meio romanciados dentro da Bíblia.
20:02Eu tenho livros ali que, por exemplo, não falam o nome de Deus.
20:05Crônicas.
20:07Sabe o que é?
20:08Crônicas mesmo?
20:09Cântico dos Cânticos.
20:10Cântico dos Cânticos.
20:11Salomão, né?
20:12É, não fala nem o nome de Deus.
20:14É a história de um amor.
20:16De um amor.
20:16De uma gazela.
20:17Ou seja, você pensar o titulo como uma gazela.
20:19Ou seja, eu tenho que entender.
20:21Alguém erótico, né?
20:21Que alguns, inclusive no passado, não queriam colocá-lo no cano sagrado.
20:26Entendeu?
20:26Por ser tão disforme.
20:29Então, é um estilo que eu tenho que entender.
20:31É, o Novo Testamento, quando se fala em questão de violência, né?
20:36Eu falo, olha, o Novo Testamento é em cima de um assassinato.
20:40Matam Jesus e quatro caras resolvem escrever.
20:45Independentemente do que eles escrevem, né?
20:48Mas, eu olho para o Velho Testamento diferentemente como eu olho para o Novo.
20:52Ah, sim, com certeza.
20:54Você me fez me lembrar uma coisa.
20:58A minha tese de mestrado é baseada no ateu.
21:03José Saramago.
21:05Sim, Saramago.
21:05Saramago, ateu.
21:06José Saramago.
21:07Eu estava no mestrado em Roma.
21:08Que escreveu um livro extraordinário.
21:11Vários, vários.
21:12Não, mas o Evangelho, segundo Mateus, é fantástico.
21:15Eu estava em Roma e vim de férias para o Brasil.
21:18O Evangelho, segundo Mateus, o último livro de Saramago que ele escreveu é Caim.
21:24É, Caim.
21:25Quando eu peguei aquele livro e comecei a ler, caraca, que maneiro.
21:30Mas, por outro lado, que isso?
21:33O que que é?
21:34Caim, ele vai fazer o quê?
21:36Ele pega a história de Caim e Abel.
21:38E ele vai dizer, Caim matou Abel por causa desse pseudo-Deus que vocês acreditam, que negou a oferta dele.
21:46Então, a culpa não é de Caim.
21:48A culpa é de quem?
21:49Desse Deus que vocês acreditam.
21:51E aí, ele pega Caim, que foi prometido que não iria morrer.
21:54Ele cria uma história de Caim andando no mundo bíblico, no antigo orçamento, em vários lugares.
21:59Aí, vai para Abraão, com o sacrifício de Abraão.
22:03Isaac, vai para Jó, vai para... vários personagens.
22:06Ele é como uma história, né?
22:08Uma história.
22:08Eu li aquilo.
22:10Caraca.
22:11E eu estava lendo, na época, o Santo Agostinho.
22:14Aí, o que eu fiz?
22:15Pô, Santo Agostinho também, ele lia a Bíblia e achava a Bíblia chata, chula, linguagem ruim, até a sua conversão.
22:24Aí, o que eu faço?
22:25Saramago lê a Bíblia assim, o mesmo Agostinho lê a mesma Bíblia de outra maneira.
22:32E eu começo a conversar os dois.
22:35Só que o Agostinho enfrenta no seu tempo o maniqueísmo.
22:39Então, ou seja, a minha tese foi a defesa de Deus por Agostinho contra os maniqueus, com ressonância na obra
22:47Caim, de José Saramago.
22:48Você não publicou isso?
22:49É, meu orientador, que é americano, falou assim, publica isso.
22:53Interessante.
22:54Em o Evangelho segundo Jesus Cristo, há um diálogo de Jesus com o diabo, que é um primor, é um
23:01primor literário.
23:02É um negócio impressionante.
23:02O diálogo que ele cria com Isaac e com Jacó é belíssimo.
23:06Por quê?
23:08Isaac, Abraão só para poder sacrificar o cordeiro.
23:11E aí o menino pergunta, pai, cadê o cordeiro?
23:14Deus a providenciar, Deus a providenciar.
23:17Aí chega na hora, não tem o cordeiro, ele pega, amarra o filho e aponta a faca.
23:22E depois acaba não matando.
23:24E aí ele cria um diálogo, descendo a montanha.
23:28Pai, quem mandou fazer isso?
23:31Foi Deus, filho.
23:33Mas Deus mandou matar o filho?
23:36Aí ele começa a trabalhar os dilemas psicológicos do filho vendo o pai, em nome de Deus, levantando a faca.
23:43Sensacional.
23:44Essa é belíssima.
23:46Padre Anderson, o nosso tempo acabou de novo.
23:49Olha, foi um prazer conversar com você, ótimo.
23:52Você já é uma figura que eu respeito muito e agora respeito também como escritor.
23:57Espero, estamos esperando agora o segundo volume, né?
24:00Estou escrevendo.
24:00Que deve sair o quê? Ano que vem?
24:02Espero eu, início do ano que vem.
24:03Ótimo.
24:04Eu agradeço muito a sua participação.
24:06Pessoal, espero que vocês tenham gostado também desse papo aqui.
24:09Se você quiser falar alguma coisa.
24:10Não, muito obrigado.
24:11Agradeço a oportunidade.
24:12Se quiser mais informações, nossa rede social, PE Anderson Gomes.
24:15Aí você pode interagir e até mesmo dar o link para vocês de poder adquirir o livro.
24:19Muito obrigado.
24:19Beleza.
24:20Valeu, gente.
24:21Um grande abraço para todos vocês.
24:22Até a próxima semana.
24:25Abraço.
24:26Você ouviu Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
24:33Tudo sobre literatura contemporânea.
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24:44Legenda por Sônia Ruberti