- há 6 dias
A dor das famílias que buscam por pessoas desaparecidas
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NotíciasTranscrição
00:00Agora eu chamo a sua atenção para esse dado que a gente vai divulgar agora do Fórum Brasileiro de Segurança
00:04Pública,
00:05que revelou, gente, que todos os dias uma média de cinco pessoas desaparecem no Espírito Santo.
00:12No Brasil, são 183.
00:15Esse levantamento reuni dados de 2019 a 2021 e pela primeira vez foi possível fazer um perfil dos desaparecidos.
00:25Aqui no Estado, 60% são homens e 73% negros.
00:31Um terço dos desaparecidos tem entre 12 e 17 anos e 15% são jovens com idade entre 18 a
00:4224 anos.
00:43Pela internet, eu vou conversar agora com a dona Terezinha.
00:46O filho dela está desaparecido há dois anos e nove meses.
00:51Na época, ele tinha apenas 15 anos.
00:54Dona Terezinha, a gente agradece a sua participação.
00:58Eu queria que a senhora contasse como é que tem sido a sua vida de dois anos e nove meses
01:02para cá,
01:03que a gente não consegue nem imaginar.
01:05Boa tarde.
01:07Boa tarde.
01:08É fácil não estar sendo não, né?
01:10Porque a gente não tem resposta das autoridades, não fala se está procurando.
01:17Ele fala assim que prendeu as pessoas que pegaram ele, mas não fala nada.
01:22Não dá um parecer de nada, porque realmente aconteceu com ele.
01:26Qual foi a última notícia que a senhora teve do seu filho?
01:32Só quando ele sumiu mesmo.
01:34Tem dois anos e nove meses que eu não vejo ele mais, desde agosto.
01:37Nunca mais a senhora recebeu nenhuma notícia, nada?
01:42Nenhuma notícia.
01:43Só falaram que sequestraram ele, colocaram ele dentro do carro, lá no Bela Vista,
01:48e disse que foi um traficante e desapareceram com ele até hoje.
01:52Como é que é, dona Terezinha, a senhora acordar e a senhora dormir todos os dias,
01:59nesses dois anos e nove meses, com essa angústia, com essa interrogação no coração?
02:05Cadê o meu filho? Como é que é isso?
02:08Não é fácil, né?
02:09Porque eu saí daqui, eu fui para a igreja e deixei ele dormindo, né?
02:13Aí, quando eu voltei, já não encontrei ele mais.
02:18Então, não é fácil para uma mãe, né?
02:20Porque uma mãe que enterra um filho, a gente sabe que o filho está enterrado, a gente tem pais.
02:25Agora, quando pega um filho da gente, desaparece e a gente não tem notícia,
02:29nossa, é muito difícil.
02:31Agora, a gente sabe que existe algo muito forte em nós, mães, que se chama fé.
02:36É isso que está sustentando a senhora?
02:40É, eu sou evangélica, né?
02:42E eu tenho muito fé.
02:44Não sei se eu vou achar ele vivo ou morto,
02:47mas eu queria, sim, saber realmente o que aconteceu com ele e o que fizeram com ele.
02:51Para poder, pelo menos, confortar o meu coração, ter um pouquinho de paz, né?
02:55Coisa que a gente não tem hoje em dia, né?
02:57A gente fica sempre perguntando o que aconteceu, o que fizeram com ele.
03:01Será que mataram?
03:02Será que machucaram, torturaram?
03:05A gente não sabe.
03:06É muito difícil.
03:08A senhora se recorda da roupa que ele estava no dia?
03:13Se ele estava usando algum traje, algum acessório específico, algum boné?
03:18A senhora se recorda?
03:20Tem essa imagem?
03:21Ele estava com a bermuda azul.
03:25Quando eu saí de casa, ele estava com a blusa listrada, né?
03:28Deitado na cama.
03:29E depois eu vi que a roupa dele, a blusa azul, que ele tinha acabado de comprar,
03:33que ele comprou no sábado, a blusa e o short dele, a bermuda preta, não estava, novinha.
03:42Eu creio, sim, que ele estava com ela.
03:44Que ele tirou foto antes de sair e estava com ela, com essa roupa.
03:47Tá certo.
03:48Inclusive, a gente está aqui mostrando imagens do seu filho.
03:51Como é que é o nome dele, Dona Terezinha?
03:54Andrei Pernós Manéio.
03:56Tá.
03:56Então, esse é o Andrei, filho da Dona Terezinha.
03:59Se por um acaso, você que está acompanhando o Fale Espírito Santo,
04:02tiver notícias desse jovem que, na época, tinha 15 anos
04:07e agora está aí prestes a completar, então, 18 anos,
04:11é o que o coração dessa mãe mais precisa, é dessa resposta.
04:16Continua com a gente, daqui a pouquinho eu volto a falar com a senhora, viu, Dona Terezinha?
04:22Porque, imagina, né?
04:23Imagina a dor dela, imagina a dor.
04:25Você deve conhecer alguém, ou então já ouviu uma história,
04:28ou então de quem tem um parente desaparecido,
04:30que vive essa angústia todos os dias.
04:34Acordar e dormir sem ter nenhuma notícia.
04:38Então, a gente vai falar sobre esse assunto aqui no estúdio.
04:41Participa com a gente.
04:41Eu recebo aqui o Adriel, que é policial civil.
04:44Muito obrigada.
04:46E decidiu, detalhe, viu, gente, por conta própria,
04:49decidiu criar dois perfis nas redes sociais
04:52para ajudar a divulgar esses casos.
04:55E a gente também recebe o Ed Wilson,
04:57que durante muitos anos, ele trabalhou no Conselho Tutelar,
05:01ele é pedagogo e atuou ajudando muitas mães, né?
05:05E conhece muito bem também esses casos, né, Ed Wilson?
05:08Boa tarde.
05:08Sejam bem-vindos, tá?
05:10Adriel, acho que eu queria que você começasse contando, né,
05:14como que chegam essas famílias.
05:17Qual é o sentimento das mães, dos pais, dos irmãos,
05:22que vão até a delegacia relatar?
05:24Meu filho, meu sobrinho, meu neto desapareceu.
05:28Qual é o estado emocional dessas pessoas?
05:30Roberta, boa tarde.
05:31Boa tarde.
05:33O sentimento é o sentimento de perda, né?
05:35Você não ter uma informação, não saber o que aconteceu,
05:40abala não só o sentimento daquela mãe, do pai,
05:43mas de uma estrutura familiar inteira,
05:45até mesmo da comunidade inteira, né?
05:47Porque, às vezes, o desaparecido é uma pessoa querida na comunidade,
05:51então isso mexe com a comunidade, né?
05:53Então é muito difícil e abala muito o psicológico dessa família, né?
05:57E, às vezes, a família não sabe nem o que fazer imediatamente.
06:02É aí que também eles vão, às vezes, até direto ao Conselho Tutelar, Ed Wilson?
06:06Boa tarde, Roberta.
06:07Boa tarde.
06:09Sim, vão procurar, já aconteceu vários casos, né?
06:14Teve um caso específico que eu fiquei, assim, espantado
06:17em ver a angústia, né, de uma mãe que chegou à procura do seu filho
06:23e porque elas procuram, não só o Conselho Tutelar, né?
06:27Mas procuram, às vezes, até mesmo na unidade de saúde,
06:31elas vão para os órgãos públicos como uma referência, né?
06:35Considerando essa questão do público, de todo mundo se articular, né?
06:39Porque é uma rede de proteção, é saúde, é segurança, é educação, e vai embora.
06:45E eu me lembro dessa mãe chegando lá no Conselho, desesperada,
06:50aonde está meu filho, eu preciso da ajuda de vocês, aonde eu registro,
06:56aonde eu assino aí que meu filho desapareceu.
07:00E assim, embora não seja diretamente o Conselho Tutelar que atua
07:06para poder realizar a investigação, nós temos uma responsabilidade muito grande
07:12que salvaria a vida de muitas famílias se eles entendessem esse papel, o encaminhamento.
07:19Uma vez que uma mãe chega numa situação dessa, eu, como conselheiro ou não, né?
07:26Como cidadão, como servidor público, eu não posso simplesmente dizer a essa mãe,
07:31a essa família, olha, é na polícia e vai.
07:33Por que não fazer um primeiro acolhimento?
07:36Porque uma vez que se trata de uma criança ou de um adolescente,
07:40é interesse também do órgão garantidor, que é o Conselho Tutelar.
07:43O órgão que representa a maior potência no direito de criança e adolescente do nosso país.
07:50Então, uma vez que essa criança ou esse adolescente está assumido,
07:54a gente pode sim fazer um acolhimento ali a essa mãe, a essa família,
07:58registrar também ali e fazer um encaminhamento das informações que já foram dadas a elas
08:05e o que ela foi passada.
08:06Até facilita também na hora de registrar ali o boletim de ocorrência ou de forma online.
08:13Eu até insisto em dizer que a maioria dessas pessoas que vão até nós nos procurar
08:19como uma alternativa, mesmo sabendo que não é uma atribuição direta nossa,
08:25elas vão ser orientadas a irem até a DPCA, que é a Delegacia de Crianças e Adolescentes,
08:31para poder registrar o boletim de ocorrência.
08:34Então, essas pessoas chegam assim desesperadas e nós podemos sim fazer o acolhimento,
08:39embora não seja uma atribuição, está dentro da atribuição do Conselho Tutelar e dos órgãos públicos,
08:45a requisição de serviços como encaminhamento, a saúde, segurança, educação,
08:51nesse caso, a polícia civil.
08:54E é muito importante também, Roberta, a gente ressaltar,
08:56é muito bom a gente estar aqui porque a gente aprende, a gente estuda.
09:00Então, existe uma lei, 11.259 de 2015,
09:04ele deu até reforçando, de 2005, reforçando essa ideia da busca imediata.
09:10Então, existe um paradigma, que ele vai até falar daqui a pouco melhor,
09:14para a gente poder entender,
09:16de que 24 horas a criança ou o adolescente sumiram,
09:20nesse caso específico, que é da minha área,
09:23desapareceu, espera dar 24 horas.
09:26Mas não, essa lei garante a busca imediata.
09:30O que significa a busca imediata?
09:32Se você não consegue registrar o boletim de ocorrência imediatamente,
09:36vá até a delegacia e registra,
09:39porque criança e adolescente é prioridade.
09:42É muito importante, porque existe, né,
09:46essa, digamos, essa crença na população,
09:49de que, ah, é preciso esperar 24 horas.
09:51Aí, às vezes, acaba indo até mesmo direto ao Conselho Tutelar,
09:55é mais um motivo, né, não vou na polícia,
09:57porque não deu 24 horas.
09:58Mas, Adriel, queria que você explicasse,
10:00não existe essa regra, né?
10:02Não, não existe.
10:03E a chefia da Polícia Civil do Estado Espírito Santo,
10:07através do meu delegado, o Dr. Vanderson Presotti,
10:10expressamente pede, né,
10:11que a gente sempre oriente a comunidade que vá,
10:15o cliente que vá, a delegacia,
10:17que isso não existe.
10:18Então, isso é uma lenda, né, que a gente fala,
10:22uma lenda urbana, que isso foi criado aí
10:23há muitos anos atrás,
10:25e se perpetua ainda em algumas unidades, né,
10:29em alguns órgãos, as pessoas ainda
10:32continuam falando que tem que aguardar 24 horas.
10:34E isso não é verdade, gente.
10:37O boletim, tanto para criança ou adolescente
10:39ou para o adulto, né,
10:41salvaguarda algumas questões,
10:42tem que ser feito imediatamente.
10:44Nós temos aí o portal do Disque Denúncia,
10:47tem o portal da Polícia Civil
10:48para registrar o boletim online, né,
10:50depois se dirigir à delegacia, né,
10:52para tomar outras ações,
10:54mas no que rege é isso aí,
10:57não existe esse tempo de 24 horas,
11:0048 horas, ou quantas horas for.
11:02É imediato.
11:03Como eu falei, salvaguarda um adulto, né,
11:05que tem uma rotina e vai de acordo
11:07com a rotina daquele adulto, né,
11:09saiu fora da rotina,
11:10a família, o responsável,
11:12deve procurar os órgãos da segurança pública
11:14imediatamente.
11:15Deixa eu voltar a falar com a dona Terezinha,
11:17que participa com a gente por ligação de vídeo,
11:19para saber se ela foi imediatamente
11:20ou se ela ouviu, na época,
11:22essa história de que tinha que esperar
11:2324 horas ou então 48 horas,
11:25dona Terezinha.
11:28Eu ouvi falar, mas eu fui,
11:30eu fui logo na segunda-feira, né,
11:32no domingo,
11:33aí eles mandaram ir na segunda-feira,
11:35aí eu fui na segunda-feira fazer o boletim de ocorrência.
11:38E aí você, a senhora fez o boletim de ocorrência,
11:42a senhora teve algum retorno da polícia,
11:46eles entram em contato com a senhora,
11:48te dão alguma notícia a respeito do seu filho,
11:51se continuaram,
11:52como é que estão as investigações,
11:53a senhora tem esse retorno?
11:56Ó, eu nem sei como que tá,
11:57porque a gente vai lá e eles não falam nada,
12:00eles só falam assim,
12:01ah, as pessoas, os rapazes que pegou ele tá preso,
12:04mas eles não falam,
12:06então assim, eu até parei de ir,
12:08porque a gente vai lá e escuta sempre a mesma coisa.
12:11E esses rapazes que estão presos,
12:13nunca confessaram nada?
12:16Não, igual tem um aqui que tá preso, né,
12:19não vou falar o nome,
12:20ele me indicou onde tava a faca no dia da briga lá,
12:25me mostrou onde tava a faca,
12:26eu peguei a faca, levei lá, né,
12:28pra ele, do DPJ,
12:30e ele tá até preso,
12:31mas ninguém fala nada,
12:33eles não falam nada,
12:34e ele sabe o que aconteceu,
12:35porque ele tava junto com o meu filho.
12:37Deixa eu trazer esse assunto aqui pro estúdio,
12:38a gente já volta a continuar esse assunto também
12:40com a senhora, a dona Terezinha Adriel,
12:42o que que explica, né,
12:43o que que dificulta,
12:45como é que é esse índice de resultados,
12:49como é que fica esse suporte que a polícia passa a dar pra essa família, né,
12:56esse retorno das investigações?
12:59Então, algumas ações,
13:00elas não são divulgadas, né,
13:02até por causa do sigilo, né,
13:03operacional da polícia,
13:05porque senão ficaria fácil pra, né,
13:07o outro lado se defender com mais tranquilidade.
13:11Então, algumas informações elas não são passadas realmente diretamente à família.
13:16Agora, no caso específico que você tá trazendo,
13:19me parece que não é um caso de desaparecimento,
13:22foi um sequestro, né,
13:23e existe uma investigação paralela a isso aí,
13:26não é um caso, então, de desaparecimento.
13:29Mas acredito que nem todas as informações devem ser passadas pra dona Terezinha
13:33por conta de algumas ações sigilosas, né,
13:36junto com a justiça aí.
13:37O que que diferencia?
13:39Um sequestro, um desaparecimento?
13:41Quais são as características que diferenciam esses casos?
13:44Então, no desaparecimento, a gente busca,
13:47junto com a Senasp, né,
13:49identificar algumas ações, né,
13:51então, o desaparecimento, por exemplo,
13:53voluntário, involuntário, né,
13:55então, que permeiam o quê?
13:57A pessoa que tem um problema psicológico, né,
14:00então, ela sai involuntariamente,
14:02não tem um domínio sobre as suas funções.
14:05Ou aquela pessoa que tem uma dependência química,
14:08então, ela vai buscar, né,
14:10aquele produto, né,
14:12a droga ilícita,
14:13em outros locais.
14:15Então, acaba ficando naquele local,
14:17usando a droga,
14:18então, acaba desaparecendo do meio familiar.
14:20Então, isso é um diferencial do que
14:22a dona Terezinha, né,
14:23falou sobre,
14:24ah, ele estava na pracinha
14:25e vieram,
14:26botaram ele no carro.
14:27Então, ele foi contra a vontade dele.
14:29Então, não foi um desaparecimento real,
14:31que a gente fala,
14:31e sim um sequestro, né,
14:33da pessoa aí naquele local.
14:34Ele foi sacado do ambiente dele, né,
14:36contra a vontade dele.
14:38Então, possivelmente,
14:39existe uma outra investigação andando,
14:41né, paralela a isso aí.
14:43E agora, a gente vai ver o depoimento
14:45da Fernanda, gente.
14:46A irmã dela, a Sara, de 20 anos,
14:48está desaparecida há quase sete meses.
14:51Vamos ver.
14:52O que eu queria relatar é a dor
14:55que estamos sentindo,
14:57o sofrimento que a gente vem,
14:59estamos tendo.
15:02A minha mãe,
15:04todo dia ela chora.
15:07Tem vezes que ela me mandou mensagem
15:09e falou bem assim,
15:10Fernanda,
15:12de madrugada eu escutei a Sara me chamando.
15:15E eu entrei em desespero,
15:18eu começo a chorar.
15:20Eu falo, calma, mãe.
15:21Uma hora ela vai aparecer.
15:24O que a gente está querendo também
15:26é a resposta das autoridades.
15:30Pode levar tempo, anos.
15:33Mas o que a gente está querendo
15:35é a resposta.
15:37Porque a Sara nunca foi assim de sumir.
15:41É a primeira vez dela.
15:44Então, a gente quer contar com vocês,
15:47com a ajuda de vocês,
15:48para nos ajudar.
15:51para a gente ter uma resposta boa.
15:54Obrigada, Fernanda,
15:55pela sua participação.
15:57E a gente consegue sentir na sua fala,
16:00tristeza, né?
16:01O quanto que isso traz uma angústia
16:04para a vida de vocês.
16:05Adriel, geralmente,
16:06o que está por trás, né?
16:08Quando a gente fala, assim,
16:09desses números,
16:10que a gente viu esse perfil
16:11que foi levantado pelo fórum.
16:14Mas, geralmente,
16:15quais são os motivos
16:17que levam ao desaparecimento?
16:20Então, Roberto,
16:21eu mais ou menos já dei uma parte
16:24desse entendimento, né?
16:26Que está voltado nisso aí.
16:27Primeiro,
16:28os problemas psicológicos, né?
16:31Desculpa,
16:31primeiro a dependência química,
16:34depois os problemas psicológicos,
16:35e em terceiro lugar,
16:37fica o desentendimento familiar.
16:38Justamente nessa faixa etária
16:40que você falou
16:41sobre a criança e o adolescente.
16:44Então, existe muito conflito, né?
16:46Hoje em dia,
16:47do adolescente com a família
16:48devido pontos de vista
16:50sobre a realidade da vida.
16:51E isso causa
16:53esse desaparecimento.
16:54A gente coloca até
16:56como fuga do lar.
16:57E precisando muito
16:58do apoio do Conselho Tutelar,
16:59e não como desaparecimento, né?
17:01Justamente esses três itens aí
17:03que permeiam
17:04a grande parte dos desaparecimentos aí.
17:06Essa fuga do lar
17:08é esse atrito
17:09que acaba na fase da adolescência
17:11sendo ainda mais acentuado
17:13no ambiente familiar.
17:15Vocês já atenderam
17:16muitos casos assim, né,
17:17Edilson?
17:18Olha, Roberta, sim.
17:19E essa fala
17:20tem uma importância
17:21muito significativa.
17:23Uma vez que a gente se trata
17:25de crianças e adolescentes
17:27que fogem,
17:29talvez um problema
17:30que está existindo
17:31dentro de casa, né?
17:33Eu posso falar por mim,
17:34ô, Roberta,
17:35porque eu vim
17:36de um contexto, né,
17:38de famílias,
17:40agressões, etc.
17:41Não quero entrar em detalhes,
17:43mas eu não fugi, né?
17:47Mas tem muitas crianças
17:49e muitos adolescentes
17:50que não conseguem mais viver
17:51dentro das suas casas
17:53por causa de diversas
17:55agressões que são
17:58desenvolvidas ali
17:59entre o pai e a mãe,
18:01entre a mãe e o padrasto, né?
18:04E outros casos também,
18:06eu já atendi
18:07crianças,
18:08exclusivamente meninas,
18:09que saíram de dentro
18:11da sua residência, né,
18:13e procuraram, por sinal,
18:14o Conselho Tutelar,
18:15vendo o Conselho Tutelar
18:17como órgão garantidor de direito,
18:18porque estava sendo abusada
18:20sexualmente há alguns anos
18:23e quando falava para a mãe,
18:25a mãe não dava
18:26nenhum tipo de credibilidade.
18:28Então, assim,
18:29são vários contextos, né?
18:30Como ele falou,
18:31é psicológico,
18:32eu tenho familiares
18:34que há anos
18:36decidiu,
18:37desde a adolescência,
18:38viver em situação de rua,
18:41então, assim,
18:41são vários casos,
18:42mas quando esses casos
18:44chegam na gente,
18:45a gente tenta,
18:45de alguma forma,
18:47contribuir para que as famílias
18:49recebam aquilo
18:50que eles podem receber
18:51de informação, né, Roberto?
18:53Ele falou muito bem aqui,
18:55porque, assim,
18:56às vezes,
18:57as famílias chegam
18:58não só num órgão
18:59como o Conselho Tutelar
19:00ou na delegacia
19:02ou qualquer outro órgão
19:03de proteção
19:04ou de assistência,
19:05mas com uma expectativa
19:07que não é a realidade.
19:08Por exemplo,
19:10se uma mãe
19:11ou um familiar
19:12chega no Conselho Tutelar
19:13querendo que o Conselho
19:15Tutelar vá realizar
19:16a busca,
19:17essa não é uma atribuição
19:19do Conselho Tutelar.
19:20A gente pode requisitar
19:21e encaminhar um relatório,
19:23contar um pouquinho
19:24do atendimento
19:25que a gente teve
19:26a priori naquele momento
19:27para os órgãos competentes
19:29da continuidade.
19:30E existem coisas também
19:32que a Polícia Civil
19:33trabalha também com sigilo,
19:35tem coisas que não pode falar
19:37para não atrapalhar
19:38as investigações, etc.
19:40Então, qual é o recado?
19:42Entenda
19:42e confie nos órgãos públicos
19:44porque uma vez
19:46que a gente confia,
19:47a gente sabe
19:48que por mais que demore,
19:49a justiça,
19:50por mais que seja lenta
19:52e a gente sabe disso,
19:53está sendo feita.
19:55É, não é fácil, né?
19:57É assim,
19:58equilibrar esse sentimento
19:59na família
20:00com ao mesmo tempo
20:01sem atrapalhar
20:02as investigações.
20:03Agora, a gente estava
20:04tocando aqui nesse ponto, né?
20:05O quanto que os conflitos
20:07familiares também
20:07podem levar
20:09a essa fuga
20:10que é classificada
20:12também como desaparecimento
20:13foi o que aconteceu
20:14com a sobrinha da Renata.
20:16A gente vai conversar
20:16com a Renata agora, tá, gente?
20:19Apenas 13 anos
20:20ela tinha, não é isso,
20:21Renata?
20:22Sua sobrinha tinha na época?
20:23Ela tem, perdão.
20:24Sua sobrinha tem apenas 13 anos.
20:26Ela tem um tempo.
20:26Ela ficou uma semana desaparecida?
20:29Isso.
20:30Ela acabou sendo acolhida
20:32pelo Conselho Tutelar
20:34e tendo em vista
20:36as investidas do pai, né?
20:38De tentar segurar ela,
20:39controlar ela dentro de casa, né?
20:41Pedindo o básico, né?
20:43Pra ela, pra não sair pra rua,
20:44não se envolver com
20:45com quem não devia, né?
20:47Essas coisas que pai e mãe
20:49desejam pro filho, né?
20:50Então, na superproteção dele,
20:52porque realmente
20:53foi uma superproteção,
20:55eu sou tia, né?
20:56Vizinha e tia, né?
20:57Sou a mãe do coração dela
20:59e, assim, eu via
21:01o esforço dele,
21:03mas a questão dela
21:06se pega também
21:07na questão do que
21:10o rapaz que tá aí,
21:12que eu esqueci o nome dele,
21:13me desculpa,
21:14que tava falando a respeito
21:15da questão psicológica, né?
21:17Que no caso dela,
21:19é isso.
21:20Ela teve um SID
21:21com 3 anos de idade
21:22e não foi acompanhada.
21:24E nas idas e vidas
21:26ao Conselho Tutelar,
21:27a gente não teve esse apoio, né?
21:30Assim, quando eu falo assim,
21:31apoio,
21:32é da questão, assim,
21:33de conseguir, né?
21:35O psicólogo, o psiquiatra,
21:37a gente sabe que não é
21:38atribuição direta
21:39do Conselho Tutelar,
21:40mas o pai teve passagem
21:42pelo CREAS,
21:43teve passagem
21:43por vários lugares
21:45que, assim,
21:46não fizeram um acompanhamento,
21:48a gente não sentiu
21:49esse acompanhamento
21:51legal na questão dela,
21:53entendeu?
21:54Então, assim,
21:55o dela é um parâmetro
21:56que entra nessa questão
21:58que é psicológica mesmo.
21:59ontem, inclusive,
22:01quando fomos buscar ela,
22:03lá no Conselho Tutelar
22:04onde ela estava,
22:06que eu fui buscar ela,
22:09trouxe ela do lugar
22:10onde que ela estava,
22:12mas ela acabou voltando
22:14para o lugar
22:15e aí o Conselho Tutelar
22:16entrou em ação e buscou.
22:17E como é que foi
22:18ficar essa semana,
22:20imagino que deve ter sido
22:21uma eternidade
22:22para a família
22:23buscando a sobrinha?
22:26É algo angustiante,
22:28porque você não sabe
22:29onde procurar,
22:30você não sabe
22:30aonde ir, né?
22:32Você sabe que tem uma pessoa
22:33que você ama,
22:34que você quer buscar,
22:36que você quer encontrar
22:37de qualquer forma,
22:38você move
22:39tudo que você tem
22:40que mover,
22:42conversa com quem você
22:43acharia que você
22:44nunca iria conversar,
22:46né?
22:47A gente chega a esse ponto,
22:49né?
22:49Que a gente não ia pedir
22:51para certas pessoas,
22:52assim,
22:53que você nunca imaginaria
22:54que você entraria
22:55naquele local
22:56para pedir
22:57aquela pessoa ajuda.
22:58Você sabe
22:59se ela está por aqui,
23:00você viu essa pessoa,
23:01vocês que veem todo mundo,
23:03né?
23:03E assim,
23:04mesmo com medo,
23:05às vezes,
23:06a gente vai,
23:07a gente enfrenta,
23:08né?
23:08Que foi o caso
23:09que eu fiz.
23:10Então, assim,
23:11é por amor mesmo
23:12a gente não mede esforços.
23:13Então, assim,
23:14é muito complicado
23:15porque às vezes,
23:15assim,
23:16e não é que a gente
23:17não tem o apoio,
23:18porque eu não posso dizer
23:19assim,
23:19questão do apoio,
23:20de ir lá,
23:21porque a gente sabe
23:21que tem os parâmetros,
23:23que tem as burocracias,
23:25as legalidades,
23:26né?
23:26Que eu acho que é até
23:27um tanto burocrático,
23:28até às vezes ajuda muito,
23:29mas é burocrático,
23:31né?
23:31Porque a demora
23:33acaba que,
23:34por atrapalhar um pouco
23:35também,
23:36né?
23:36É isso.
23:37Deixa eu trazer aqui
23:38para o estúdio,
23:39né?
23:39Porque é muito comum,
23:41Adriel,
23:41a família ficar nessa angústia,
23:44sem fim,
23:45e até mesmo fazer
23:46essa busca, né?
23:48Isso ajuda,
23:49isso atrapalha a polícia?
23:50Como é que funciona?
23:51Ou pode vir realmente
23:53a ser um braço,
23:54né?
23:54A família também
23:54se disponibilizar?
23:56Roberta,
23:57a polícia,
23:58ela orienta que os familiares
24:00não se envolvam diretamente,
24:02né?
24:02Porque até,
24:05o colega pode depois dizer,
24:07existe essa fuga,
24:09né?
24:09Ou desaparecimento,
24:10e a pessoa vai para algumas áreas
24:12de risco, né?
24:13Ou se coloca em risco,
24:15né?
24:15Em companhias de pessoas
24:17que a família não conhece,
24:18então você sai nessa busca
24:20e pode, de um problema,
24:21você criar outro problema,
24:23né?
24:23Porque você sai nervosa,
24:25imagina dirigir um carro,
24:27né?
24:27Com a informação que você
24:28não sabe ser verídica,
24:30sai, bate com o seu carro,
24:31pode machucar, né?
24:32Então, a gente orienta que não,
24:34lógico que a gente não tem
24:35como impedir, né?
24:36As informações que a gente
24:37pede é o seguinte,
24:38você tem a informação,
24:39passa o budismo de denúncia,
24:41né?
24:41Que lá o seu sigilo é garantido,
24:43ou liga para a delegacia
24:44para a gente tomar as ações,
24:45mas se colocar em uma outra
24:46situação,
24:47você acaba trazendo outro problema.
24:48Então, a gente orienta
24:50que não faça isso aí,
24:51entendeu?
24:52Mas não tem como a gente
24:52controlar a situação.
24:55Roberta, tem algo muito interessante
24:56que ela trouxe também,
24:59que foi a questão da busca
25:01de ir até o Conselho Tutelar,
25:03né?
25:04Que é o órgão garantidor
25:06do direito,
25:07ou seja,
25:08ela expôs uma situação
25:09de desaparecimento,
25:11mas ela trouxe uma situação também
25:13que ela foi até um órgão
25:14de proteção,
25:16buscar encaminhamentos
25:17para a saúde,
25:19que foi o que ela
25:20colocou ali.
25:21Quando acontece um caso desse
25:23que vai um familiar,
25:25a mãe,
25:25pai,
25:26tia,
25:26tio,
25:26membro familiar,
25:27buscando um atendimento
25:29no Conselho Tutelar,
25:30que é um órgão de proteção,
25:31que recebe
25:32esse tipo de caso
25:34e faz o encaminhamento
25:36ou a requisição,
25:39esse atendimento,
25:40ele precisa acontecer
25:41de forma imediata.
25:42agora me pergunta
25:43como é que está sendo
25:44dentro das prefeituras.
25:46Qual é a realidade
25:47que nós vivemos hoje?
25:49E eu não estou falando de...
25:51Pode ser de qualquer prefeitura,
25:52Cariacica, Vitória,
25:53Vila Velha,
25:54Serra,
25:54no Brasil inteiro.
25:55Então é triste
25:56para a gente ouvir
25:57uma situação
25:58de que existe
26:00o Estatuto
26:01da Criança e do Adolescente
26:02que fala que
26:03o atendimento
26:04de criança e adolescente
26:06é um direito
26:06e isso não acontece.
26:08E essa atribuição
26:10ela vem do poder
26:13executivo
26:14ou vem do Estado,
26:15vem do prefeito,
26:17vem das secretarias
26:18de assistência,
26:19vem da Secretaria
26:20de Saúde.
26:21Agora há de se perguntar
26:23se estão
26:24numa posição
26:25tão importante
26:26de legislar,
26:28de criar políticas públicas
26:29de assistência
26:30e garantir o direito,
26:32por que a gente
26:33tem que ficar
26:33cobrando direito
26:34sendo que é direito?
26:36Você está entendendo?
26:37É isso que deixa a gente
26:38assim, angustiado,
26:40entristecido
26:41com a realidade política
26:43que nós temos
26:44vivenciado hoje
26:45no nosso Estado,
26:46nas cidades
26:47e no Brasil também.
26:48Tá certo, Odilson.
26:49Muito obrigada
26:50pela sua participação.
26:51Adriel, a gente também
26:52agradece imensamente
26:53a sua presença.
26:53Só para a gente finalizar,
26:56deixa a sua página também
26:57lá no Instagram
26:58que tem ajudado
26:59muitas famílias
27:00com as fotos
27:01de pessoas desaparecidas.
27:03O Instagram
27:04é
27:05arroba
27:05procura
27:05Espírito Santo
27:06e o Facebook
27:07do mesmo nome
27:08Procura Espírito Santo.
27:09Só queria deixar
27:10registrado rapidamente
27:11que a gente está
27:12em busca de realizar
27:14breve, breve
27:15um sonho
27:15de criar
27:15uma organização
27:17aqui,
27:17o procura.org
27:19e em breve
27:20a gente vai estar
27:20dando apoio psicológico
27:21também para os familiares
27:22aí.
27:23Novidades virão
27:24da minha pessoa
27:25em particular, lógico.
27:26Tá certo.
27:27Muito obrigada, gente,
27:28pela participação de vocês.