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Adolescente mata pai a facadas para defender a mãe
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NotíciasTranscrição
00:00Uma menina, uma menina de 13 anos, matou a facadas o próprio pai de 51 anos em Batiba,
00:09isso após presenciar ele agredindo a mãe. Olha que tristeza.
00:14Ela contou para a polícia militar que o golpeou para impedir que a mãe acabasse morta.
00:20Para a polícia, a mulher contou que ela e o marido estavam discutindo
00:25e o homem a agrediu com um chute forte e também um soco nas costas.
00:30Ainda de acordo com a mulher, a filha tinha escondido a faca nas próprias mãos
00:36para evitar que a mãe fosse esfaqueada.
00:39Mas, ao ver toda a situação, a menina acabou esfaqueando o pai.
00:45O homem foi atingido por quatro facadas e foi socorrido pelo SAMU, mas não resistiu aos ferimentos.
00:53Mãe e filha foram encaminhadas para a delegacia.
00:57A polícia civil informou que a adolescente agiu em legítima defesa.
01:02E, dessa forma, ela foi reintegrada à mãe.
01:06E a gente vai debater esse assunto aqui, porque até que ponto, né,
01:10que as nossas crianças também acabam sendo vítimas de toda essa violência doméstica.
01:15Aqui no nosso estúdio, eu recebo o advogado criminalista, doutor Rivelino Amaral.
01:19Muito obrigada pela sua participação mais uma vez, doutor.
01:22A Alexandre Brito, que é psicólogo, obrigada também mais uma vez.
01:27E Jusceléia Ribeiro Santos, obrigada pela sua participação, pelo seu carinho com o Vale Espírito Santo.
01:34Você, que todo mundo sabe que já foi vítima dessa violência doméstica, mãe de seis filhos.
01:40E um deles também já entrou no meio dessa confusão para te proteger, Jusceléia.
01:47Boa tarde.
01:48Boa tarde, Roberta.
01:50Sim, ele passou a vida toda vendo esses casos de agressão.
01:54E, quando era pequena, ele não fez nada.
01:56Ele ficou simplesmente assistindo.
01:58Que a gente sempre fala lá no projeto sobre a plateia silenciosa.
02:02E ele ficou o tempo todinho convivendo naquele ciclo.
02:05Só que chegou um dia, que foi no dia que eu fui...
02:09Que eu tive que tomar atitude como fazer a denúncia.
02:11Ele acordou de manhã cedo e foi buscar o sobrinho na escola.
02:15E eu fiquei em casa com o meu marido na época.
02:17E ele pegou um cabo e começou a deferir golpes.
02:21E, quando o Felipe chegou da escola, eu estava muito machucada.
02:24E ele, o homem estava na rua.
02:26Nós já vimos chamar a polícia militar e houve, assim, um certo retardo da polícia chegar lá.
02:30E o Felipe foi tirar a pergunta para ele.
02:32Só que aí o negócio foi para todo o auge da violência.
02:37Que o Felipe aplicou um mata-leão.
02:39E ele, assim, ele é uma pessoa de porte avantajada.
02:42E esse homem ficou inconsciente no meio da rua.
02:45Aí, algumas mulheres que estavam próximas, intervimos para que não houvesse homicídio.
02:48E eu falei com ele que ele ia acabar virando assassino.
02:51E aí, ele virou para mim e falou assim, mas isso aí é culpa sua.
02:54Porque você não toma providência nenhuma.
02:57Aí, eu falei com ele que, se ele não cometesse o ato,
02:59eu iria tomar soluções, que era fazer a denúncia,
03:02que foi onde eu parti do princípio de denunciar
03:05e fazer todo o negócio para preservar que nenhum outro deles se tornasse um criminoso.
03:10Porque, senão, haveria um desfecho trágico nessa história.
03:14E, na Carta da Maria da Penha, nós temos várias mulheres que têm esse mesmo problema.
03:18São mulheres que os filhos estão crescendo, na patria silenciosa.
03:21Eles estão crescendo, vendo essa mãe no circo de violência.
03:24E, quando a mãe não toma essa decisão de denunciar,
03:27a criança toma a decisão, o adolescente, como lá no caso de Santa Maria, de intervir.
03:32E, muitas das vezes, acaba em tragédia, igual aconteceu em Santa Maria, de Getibá,
03:36que a filha foi vitimada no lugar da mãe.
03:38Então, assim, a gente olha para esse princípio, assim,
03:41ah, é só a mulher que está sofrendo.
03:42Tem aquela paté silenciosa que está sofrendo muito mais do que a mãe.
03:46Você imagina o nível de tensão que essa menina estava
03:51e a pressão para ela tomar.
03:53E a perda dela é maior, porque ela perdeu, quase que ela perde a mãe
03:56e ela cometeu parecida, que foi matar o próprio pai.
03:59Então, assim, o problema dela, assim, psicológico, vai perdurar por toda a vida.
04:04É uma causa que poderia ter sido minimizada com a denúncia
04:07e tomou proporções gigantescas, né?
04:10Olha que ponto isso pode chegar.
04:12Já que você já tocou nesse ponto da questão psicológica, Alexandre,
04:17A Juscelia resumiu muito bem, ela traduziu uma cena
04:22que quem está do lado de cá, quem não vive isso, não consegue imaginar.
04:27Mas essa é a realidade que uma criança que cresce nesse meio,
04:32nesse ambiente, passa a encarar.
04:35Isso faz com que, realmente, essa violência,
04:39ela vai tomando proporções e vai causando na criança,
04:43nos filhos e na mãe, né?
04:46Alguns danos psicológicos que vão para além de casa,
04:49que vivem num sentimento, às vezes, de espécie de terror, terrorismo,
04:55uma ansiedade de nunca saber quando de novo vai vir essa violência.
04:59Então, começa a ter dificuldades de se relacionar com outras pessoas
05:02e começa a ter algo também que é um pensamento ruim
05:05em relação ao próprio pai e ao agressor,
05:09que pode ser, nesse caso, o pai, pode ser o padrasto, enfim, né?
05:12Porque quando acaba vendo a violência,
05:16a criança é como se deixasse, ou jovem,
05:19é como se deixasse de ser filho para se tornar vítima também.
05:23Então, naquele momento, não age nesse lugar de filho,
05:27age mais de filho, talvez, da mãe,
05:29nesse sentido de levar essa proteção.
05:32Então, esse caso dessa menina de 13 anos,
05:35além dela estar passando por toda essa situação
05:38de ter o parricídio, que é o que? Matar o pai.
05:41Então, ao mesmo tempo que teve a situação em que ela acabou
05:45cometendo esse ato, ela também passa pelo luto dessa perda.
05:51As pessoas, muitas vezes, não entendem que situações como essa
05:54envolvendo pai e mãe é uma verdadeira miscelânea,
05:58um conjunto de sensações.
06:00É amor junto com ódio, é culpa com raiva.
06:03Então, as pessoas até perguntam, por que não deixa antes?
06:07Por que não larga?
06:08Por que não tomou uma decisão racional?
06:10Por que não faz?
06:11Quem está de fora, infelizmente, julga dessa forma.
06:14Mas é um verdadeiro misto de sensações, não é fácil lidar.
06:19E quando você acaba cometendo esse ato,
06:22e ao mesmo tempo lidando com essa pessoa que foi o seu pai,
06:27então, de fato, é muito importante o acompanhamento
06:30psicossocial, psicológico, social,
06:33um acompanhamento mesmo da garantia de direitos,
06:35para que não agrave ainda mais daqui para frente a situação.
06:38Doutor Revelino, quando chega um caso extremo,
06:41como esse que a gente acabou de noticiar,
06:43que aconteceu em Ibatiba,
06:44qual é o entendimento da justiça?
06:47Você sabe que, infelizmente, não é tão incomum isso acontecer, sabe?
06:51E assim, nós, quando começamos a viver em sociedade,
06:55nós definimos que quem ia fazer a nossa segurança era o Estado.
07:00Então, nós atribuímos às polícias o direito de nos proteger.
07:05Só que o Estado, ele não é unipresente,
07:07ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
07:11Então, existem circunstâncias que a lei autoriza a nós
07:15a nos defendermos por conta de que o Estado
07:19não consegue estar lá naquele momento.
07:22Então, a gente pode defender através da legítima defesa,
07:26Estado de necessidade e estrito cumprimento do dever legal.
07:29O que é a legítima defesa?
07:31É, entre aspas, uma autorização que o Estado nos dá
07:34por conta dele não poder estar ao nosso lado para nos defender,
07:38para que nós nos defendamos.
07:40Então, quer dizer, a legítima defesa fala que nós estamos autorizados
07:44a usarmos dos meios necessários para impedir uma agressão atual ou iminente.
07:52iminente é que está em vias de acontecer.
07:55E essa proteção pode ser para mim ou para terceiro.
08:00Então, uma criança, um adolescente que, defendendo a mãe,
08:05se utiliza dos meios para evitar que o pai tire a vida dessa mãe,
08:10ele está amparado pela legítima defesa.
08:13Ele está autorizado a cometer um crime por conta da ausência do Estado naquele momento.
08:19E até onde vai essa legítima defesa?
08:22Até o excesso não pode exceder.
08:24Eu não posso tomar um tapa e sacar uma arma e matar uma pessoa.
08:28Mas eu posso, por exemplo, nesse caso, já é um caso clássico de legítima defesa,
08:33da adolescente, ela se vê numa situação de que se ela não usa faca,
08:38o pai poderia usar a faca contra a mãe ou contra ela mesma.
08:42Então, o Estado autoriza essa pessoa a se defender,
08:45usando moderadamente os meios necessários para impedir uma violência atual ou iminente.
08:53E, em decorrência disso, o Estado não pune essa pessoa.
08:57Então, essa adolescente não vai ser punida pelo Estado.
09:00Vale dizer o seguinte, essas ameaças, elas não são só lesão corporal,
09:05só bater, só tentar matar.
09:08Às vezes, a ameaça é uma ameaça subliminar,
09:12que todo mundo vive em pânico.
09:14E chega uma hora, Roberto, que as pessoas reagem.
09:17Reagem para se protegerem ou para proteger a mãe.
09:20Via de regra é a mãe.
09:22Via de regra, infelizmente, o homem que tira a vida da mulher.
09:26E via de regra por conta de bebida, por conta de droga,
09:30descompasso mental, enfim.
09:32E aí, essas pessoas dessa família estão autorizadas pela lei
09:36para evitarem que ele agrida a mãe.
09:39E a forma de evitar é, infelizmente, atacando esse agressor.
09:43Jusceléia, qual é a memória que você tem,
09:46e também a memória dos seus filhos, depois agora de crescidos,
09:49diante desse ambiente que eles cresceram?
09:51Eles não gostam muito de tocar no assunto.
09:54Eles não gostam de tocar no assunto, assim,
09:57é como se eles tivessem pagado essa página da vida deles.
10:01Eles foram necessários passarem por intervenções psicológicas,
10:04porque, como vem por um lado desestruturado,
10:06toda a família está doente, não é só o homem nem a mulher.
10:09Porque a gente tem muito hábito de falar em violência doméstica.
10:12Mas violência doméstica abrange crianças e até o bebê.
10:15Por exemplo, assim, todo momento que eu estava em época de tensão,
10:18eles também estavam.
10:19Quando que ele vai beber?
10:20Quando que ele vai bater?
10:21Quando que ele vai?
10:22Então, você cria um círculo.
10:23É que as pessoas entendem que violência doméstica é só aquele caso da mulher apanhar.
10:26Quando fala violência doméstica, a Lei Maria da Penha abrange essas crianças.
10:30É que as pessoas têm mania de dizer,
10:31mas é uma lei para proteger a mulher.
10:33Não, a Lei Maria da Penha é para violência doméstica.
10:35Casa doméstica vem de lá.
10:37Então, meus filhos, nós tínhamos tensão.
10:39Por exemplo, assim, nós não íamos no aniversário com ele,
10:42porque nós sabíamos que poderia voltar e nós vivíamos sob tensão.
10:45Porque o ciclo de violência, assim, é a tensão, o ápice, que é a violência em si,
10:50e depois é com a maioria, que é aquela época que você vai perdoar,
10:53que é aquela parte que vira príncipe de novo.
10:55Então, nós vivíamos sempre na tensão.
10:57E essa tensão para uma criança e para um adolescente,
11:00ele causa problemas que refletem na escola.
11:02A gente tem uma muito grande criança na escola que eles são laudados,
11:06o doutor sabe o psicólogo, como autista e hiperativo,
11:10mas eles vêm de lá de violências.
11:12E eles refletem aquilo tudo na escola, no âmbito escolar, no âmbito social,
11:17não consegue ser sociável.
11:19E o menino que ele viu indo lá agressor, ele tem probabilidade de virar agressor.
11:25É isso mesmo, Alexandre?
11:27Essas são as tendências, as hipóteses, que podem vir a florar em algum momento
11:32na fase da vida dessa criança que vai se tornar adolescente,
11:36que vai ser jovem ou adulta, ele pode vir a replicar isso também?
11:39Pode, porque as crianças, às vezes, para se defender de uma raiva do pai,
11:44de um ódio familiar, às vezes ele acaba ficando igual para não sentir raiva.
11:49Entenda-se?
11:50Então, no lugar de odiar meu pai, eu fico igualzinho a ele.
11:54Pode acontecer isso, esse é um processo psíquico,
11:56e pode haver esse deslocamento, essa transferência da raiva para a escola.
12:01Repetir isso com outros colegas, repetir isso com outros adultos,
12:05repetir isso com outras pessoas.
12:07E muitas vezes, nem tem razão disso acontecer.
12:11Então, ele está na escola, não teve nenhum ambiente estressor na escola,
12:14mas, ainda assim, ele pode ter o comportamento agressivo.
12:17Então, a escola tem que ficar atenta aos professores, educadores,
12:21para ver o que essa criança, muitas vezes, está repetindo.
12:24Porque, olha só, quando a criança tem um comportamento agressivo,
12:29quase 100% das vezes é um pedido de ajuda.
12:33Só que a gente, em vez de escutar e interpretar também esse pedido de ajuda,
12:39quer logo colocar a criança no lugar dela,
12:42quer logo punir a criança de volta, ampliando ainda mais a raiva dela.
12:46Então, é claro que você tem que fazer todo o mecanismo
12:48para impedir que a criança demonstre a violência.
12:52O processo educativo é importante nesse caso também,
12:55colocar alguns limites,
12:56mas entender e interpretar essa agressividade
13:00que ela pode estar denunciando,
13:02porque a criança nem sempre sabe falar.
13:04Os adultos têm dificuldade de denunciar,
13:06imagina uma criança.
13:07Então, ela vai demonstrar, no comportamento dela,
13:11uma agressividade que precisa ser compreendida,
13:14e sim, se precisar acionar psicólogas,
13:17ciências sociais e todo o aparato legal
13:19para resolver esse problema.
13:21Doutor Revelino, nesse caso de Batiba,
13:23essa criança já foi reintegrada à mãe.
13:26E que tipo de acompanhamento,
13:28o que diz o estatuto da criança e do adolescente,
13:31que tipo de acompanhamento que a justiça vai pedir que ela tenha,
13:38que ela vai precisar de ajuda, né?
13:39Certamente deve ser encaminhada para uma assistência social,
13:45com acompanhamento psicológico, enfim.
13:47É importante também trazer informação que é assim.
13:49Existem três atores nesses fatos,
13:52quando acontece um crime.
13:53A interpretação do delegado,
13:55que a princípio foi que ela agiu em legítima defesa.
13:57Vai ter uma investigação para se constatar
14:00se de fato isso aconteceu.
14:02Essa investigação é encaminhada,
14:04através de um inquérito policial,
14:05ao juiz que passa para o Ministério Público.
14:07Tem a interpretação do promotor de justiça
14:10se de fato estamos diante de um caso de legítima defesa
14:14e, por fim, do juiz dizendo
14:15sim, isso foi um caso de legítima defesa.
14:18Eu queria só ressaltar e reforçar
14:21que eu já disse mais comungando com o que o doutor Alexandre colocou.
14:25Essa violência, Roberto,
14:27ela não é só violência física, né?
14:29Quer dizer, é uma violência também psicológica.
14:32Vive todo mundo sob tensão o tempo todo
14:34e chega em determinado...
14:36E é uma tragédia, né?
14:38É assim, incalculável,
14:39um filho chegar ao ponto de tirar a vida do pai.
14:42Mas acontece, né?
14:44Eu vejo isso no dia a dia do meu trabalho aí,
14:46de 25 anos de profissão,
14:48algumas vezes isso acontece.
14:50Não é tão incomum como as pessoas podem parecer.
14:53Mas por quê?
14:54Porque é um ambiente tenso que fica...
14:57Você vê como ela colocou?
14:58A gente não podia sair porque a gente não sabia como seria o retorno, né?
15:03E a gente vivia em tensão o tempo todo.
15:06E aí chega uma hora, a pessoa reage, né?
15:08E pode ser um adulto, uma criança, uma adolescente...
15:10Você vê de um lado do outro, né?
15:11Vai reagir.
15:12E aí o Estado, sabendo disso, ele, entre aspas, né?
15:16Permite que a pessoa se defenda.
15:17Porque ele não pode estar lá, porque é tudo muito rápido.
15:20Como ela colocou também muito bem.
15:21Ah, a gente chamou a polícia, mas a polícia demora.
15:24Sim, e não é culpa da polícia.
15:27Às vezes a polícia não consegue chegar.
15:28E isso acontece em três minutos.
15:31Três minutos é uma eternidade para uma cena de violência, né?
15:35Então, quer dizer, a polícia não consegue chegar.
15:38E aí o legislador, quer dizer, quem cria a lei, o deputado, o senador, os vereadores,
15:42pensando nisso, criaram a lei, dando às pessoas a possibilidade de se defenderem.
15:49Luciléia, a gente está recebendo aqui vários relatos no Facebook, né?
15:53Muita gente se questionando como que isso poderia, então, ser evitado.
15:57Por quê?
15:58Qual é a grande dificuldade de uma mulher, você que já viveu isso na pele,
16:02em conseguir se livrar desse relacionamento?
16:06Se livrar do relacionamento abusivo é muito difícil, Roberta.
16:09As pessoas falam assim, ah, a mulher não denuncia porque não quer.
16:12Em primeiro lugar, o que muda essa cultura de violência vai ser somente a educação.
16:18Nós temos que começar a educar os homens de hoje, os meninos de hoje,
16:21para serem homens amanhã.
16:23Todo mundo tem uma parte no índice de feminicídio.
16:26Todos os pais temos, porque essas crianças são educadas por mulheres e por homens.
16:31O segundo divisor que tem é dependência emocional.
16:33Gente, mas uma mulher fica dependente emocional do homem?
16:37Fica.
16:38Eu era dependente emocional, eu faço tratamento psicológico até hoje,
16:42sou acompanhado, porque a mulher que sofre violência também,
16:45ela tem que ser acompanhada tanto por psiquiatra como por psicóloga.
16:49Por isso que a Lei Maria da Penha traz sobre a violência psicológica,
16:52ela é bem pior do que a física, porque a física não tem uma cicatriz.
16:56Eu tenho marcas que ficaram, mas que se não apagaram.
16:59Agora, aquilo que ficou na alma fica ali e vai repercutir.
17:03Todas as falas que foram faladas, tudo vai estar.
17:06Mas a minha cabeça está desse jeito, o do meu filho também está.
17:09Porque eles ouviram coisas que não deviam ter ouvido,
17:11e eles vivenciaram coisas que não deviam.
17:15Então, essa dependência emocional dificulta muito.
17:19Se tirar o provedor que vem a dependência financeira,
17:22que é um grande empecilho da mulher tirar,
17:25se tirar aquele provedor de dentro de casa,
17:27como que fica essa mulher após a denúncia, Roberta?
17:30É um questionamento.
17:31Vamos denunciar, todo mundo fala que a mulher deve denunciar,
17:33é 181, 100.
17:35Após a delegacia, o que acontece com essa mulher?
17:37O provedor é o homem.
17:38Geralmente, o homem traz aquele estigma.
17:40Eles são estigmatizados, porque eles têm que prover na família.
17:43E eles trazem esse estigma.
17:44Então, quando ele vem como provedor e ele sai de casa,
17:47ainda tem esse problema.
17:48Essa mulher fica totalmente estruturada na questão financeira.
17:51Muitas moram de aluguel,
17:53muitas têm muitos filhos
17:55e vivem nessa situação.
17:56Então, a questão dessa menina,
17:58essa menina quando estava com a faca,
18:00não foi a primeira vez essa violência.
18:02Ela já estava esperando coisas piores,
18:04por isso que ela escondeu a faca.
18:05São pontos que você pode ver.
18:07Então, não foi a primeira vez.
18:08Ela já escondeu a faca entre as mãos,
18:09com medo da mãe ser esfaqueada.
18:11Ela estava em extrema tensão e estresse.
18:13Essa menina, provavelmente,
18:15os filhos de mulher de violência,
18:16como o psicólogo pode provar,
18:18eles vivem com estresse próstata,
18:20o mato igual pessoas que vão para a guerra.
18:22Eles não sabem a hora que aquilo vai estourar.
18:25A mãe pode estar dormindo,
18:26o pai chegar e matar.
18:27E, infelizmente, nós não temos um sistema único
18:29que cuide dessas pessoas como elas merecem.
18:33Nós temos uma defasagem muito grande
18:34de psicólogos e psiquiatras
18:36para cuidar, para a demanda dessas mulheres.
18:38O que, depois que aconteceu isso,
18:41dentro da sua família, Jusceléia,
18:43o que isso mudou na sua vida?
18:46Mudou que eu comecei a reparar pontos
18:48que eu não reparava.
18:49Como, por exemplo,
18:50que meus filhos não respeitavam
18:51a autoridade feminina na escola.
18:53Isso não era a primeira vez
18:54que eu recebi a reclamação.
18:56Mas eu não verifiquei
18:57que a causa autora
18:58era a violência que eles viviam em casa.
19:00Então, eles repetiam no colégio,
19:02como o pai não respeitava
19:03a presença feminina,
19:05eles não respeitavam
19:05a autoridade feminina.
19:07Aí, o que eu fiz?
19:08Eu levei alguns para os conselhos tutelar
19:10e exigi que, no ECA,
19:12no Estatuto da Criança e do Adolescente,
19:14existe uma página que fala
19:14que essas crianças têm que ser acompanhadas.
19:16Eles foram acompanhadas.
19:18Um foi encaminhado ao CAPES,
19:19outro foi ao Centro de Atendimento
19:22à Pessoa Vítima de Violência.
19:24E eles foram fazer tratamento,
19:25porque também foram registrados nele
19:27pequenos pontos que poderiam amanhã
19:29se tornarem agressores.
19:31Porque, quando eles não respeitam a figura,
19:32a maior autoridade que tem
19:33para uma criança,
19:34fora a mãe,
19:35é a professora.
19:37E, quando a criança começa
19:38a partir desse princípio
19:39que ele ultrapassa com a professora,
19:41com a mãe já não tem mais respeito,
19:43porque ele aprendeu com o pai,
19:44porque o menino,
19:45principalmente o menino homem,
19:46ele replica as atitudes masculinas.
19:47Por isso que a figura masculina
19:49é tão necessária numa casa.
19:50A lei Maria da Pena
19:51não vem falar que homens são maus.
19:53A figura paterna é essencial
19:55para o crescimento do homem.
19:57Igual você é bem casada,
19:57conheço várias mulheres
19:58bem-sucedidas casadas.
19:59A gente não viemos falar mal de homens.
20:01Nós viemos falar de homens
20:03que, felizmente,
20:04são nocivos
20:04dentro daquele ambiente familiar.
20:07Então, assim,
20:07o menino vai replicar a violência.
20:10Se o pai for um gentil,
20:11o menino será um gentil.
20:12Se o pai for um agressor,
20:13a tendência dele,
20:14e alguns meninos acham bonito.
20:16Por exemplo,
20:17na minha boletim de ocorrência,
20:18fala o quê?
20:18Fala que ele colocou
20:19os dois meninos menores
20:21sentados na cadeira
20:22quando ele começou a me espancar.
20:23e mandou os meninos
20:24usarem adjetivo e palavra
20:26pejorativo para me xingar.
20:27Ou seja,
20:28ele já estava treinando
20:28os dois meninos
20:29para que se tornasse
20:30futura agressora.
20:31No meu boletim de ocorrência
20:32conta que os meninos
20:32ficaram sentados observando.
20:34E se você ver um deles,
20:36quando eu apanhava,
20:36ele corria para ver.
20:39Então, assim,
20:39eles estavam sendo ensinados.
20:40Então, se não houver
20:41essa intervenção psicológica
20:43que teve,
20:43que há até hoje,
20:44que eles estão desconstruindo,
20:46porque 14 anos
20:47aprendendo aquilo tudo,
20:48não desconstrói num dia.
20:49Eles estão desconstruindo
20:50caráter para construir.
20:52Igual você falou
20:52com o Piri Filipe
20:53várias vezes,
20:54interviu conversando.
20:56Até o dia que a tensão
20:57estourou,
20:57que foi a violência,
20:58que foi a tentativa
20:59de feminicídio,
21:00que ele tomou,
21:01ele replicou
21:02tudo que o homem
21:03fez comigo,
21:04ele replicou no homem
21:05tentando matar o homem.
21:06E por pouco
21:07não acontece a tragédia.
21:08Doutor Rivelino,
21:08a gente sabe que podem ser
21:10casos de legítima defesa,
21:11sim,
21:12mas a gente também
21:14sabe que não é
21:15a forma correta, né?
21:16O que seria ideal
21:18no momento como esse?
21:18Ideal seria chamar o Estado,
21:20chamar a polícia, né?
21:22Mas, em algumas circunstâncias,
21:24não dá para esperar a polícia.
21:25Se esperar a polícia,
21:26o tempo passa
21:27e pode acontecer o pior.
21:29E ouvindo a ela,
21:30sabe o que salta aos olhos
21:31que a gente já falou aqui,
21:32inclusive com o Alexandre?
21:36A importância do Estado
21:38nesse contexto.
21:39Por quê?
21:40Olha,
21:40nós criamos a Lei Maria da Penha
21:42para proteger,
21:43via de regras,
21:44mulheres vítimas
21:45de violência doméstica.
21:47Mas o Estado
21:47precisa receber essa pessoa.
21:50Essa vítima,
21:51ela precisa estar segura
21:52de buscar o Estado
21:53e saber que o Estado
21:55vai protegê-la.
21:56Porque, veja, Roberta,
21:57se ela chama o Estado,
21:59a polícia vem,
22:00leva essa pessoa,
22:01o agressor,
22:02e ele é solto,
22:03ele vai para a mesma casa
22:04e ele vai agredi-la novamente,
22:06vai agredir o filho, né?
22:08Então, quer dizer,
22:09ela precisa chamar o Estado
22:11e o Estado acolher mesmo,
22:14receber a mulher,
22:15os filhos,
22:16dar uma nova casa,
22:18uma nova identidade,
22:19um trabalho,
22:21psicólogo,
22:22psiquiatra,
22:22quer dizer,
22:23é um conjunto de fatores.
22:24Porque só chamar o Estado,
22:27a polícia,
22:27não resolve.
22:28E a culpa não é da polícia,
22:30a culpa não é do juiz,
22:31a culpa não é do promotor,
22:32a culpa é do Estado,
22:33é de todos nós.
22:34Quer dizer,
22:34a gente precisa acolher
22:36essa vítima.
22:37E acolher essa vítima é
22:39retirar ela desse contexto
22:40e proteger-la
22:42e até que isso passe.
22:45Porque só chamar o Estado,
22:47só a lei Maria da Penha,
22:48não resolve.
22:50Porque pode até piorar.
22:51Se ela chama...
22:52Porque tanto é que
22:53a lei Maria da Penha,
22:54ela era impulsionada
22:55pelo Estado,
22:56passaram para a vítima,
22:58quer dizer,
22:58só tem a ação
22:59se a vítima quiser.
23:00E ela falava,
23:01depois de três meses
23:02na calmaria,
23:03não,
23:03ele está bonzinho.
23:05Daí, há um mês,
23:06ele matava a mulher.
23:07E aí o Estado retirou
23:08essa possibilidade dela
23:10dizer que quer a ação
23:11ou não, né?
23:12Que a gente chama
23:12tecnicamente de ação penal
23:13privada ou pública.
23:15Hoje a ação é pública.
23:17Então, o Estado
23:17precisa proteger.
23:19Ele precisa
23:21mostrar para as mulheres
23:23que elas podem contar
23:24com o Estado
23:25que ele vai estar
23:25preparado para proteger.
23:27É certo, gente.
23:28Muito obrigada
23:28pela participação de vocês.
23:30Vou falar que
23:31o que os nossos
23:32telespectadores disseram,
23:33que vocês deram um show
23:35aqui em relação
23:35às explicações,
23:37ao que de fato
23:39acontece
23:39debaixo
23:40de um teto
23:41onde existe
23:42a violência doméstica.
23:44E não é apenas
23:45com a mulher,
23:45o que já é uma grande
23:46tristeza.
23:47Isso envolve
23:48as nossas crianças
23:49que eram para estar
23:50brincando,
23:51que eram para estar
23:51estudando,
23:52era para pensar
23:53em outras coisas,
23:54menos em problema
23:55de adulto.
23:56Mas, infelizmente,
23:57a gente está aqui hoje
23:58noticiando um desfecho
24:00trágico.
24:00Obrigada pela participação
24:01de vocês.