- há 4 semanas
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00:00Já estou contando com a sua participação, suas dúvidas, suas perguntas aqui no nosso Facebook,
00:04porque, gente, conviver com Alzheimer é um desafio diário para as famílias que cuidam de pacientes com a doença.
00:11Mas como a gente acompanhou aí na reportagem, dá para tornar esse processo menos pesado para todo mundo.
00:18Vem cá, vamos bater um papo sobre esse assunto?
00:20Aqui eu recebo a doutora geriatra, a doutora Kelly Velo e também a Ana Carolina Lopes.
00:26A mãe dela tem 81 anos e o quê? Há quase 17 anos, não é isso? Foi diagnosticada?
00:31Há quase 17 anos.
00:33Ela foi diagnosticada com Alzheimer?
00:34Ela foi diagnosticada precocemente, aos 66 anos de idade.
00:39Primeiramente, a princípio, foi bem difícil a aceitação, né?
00:43Eu que sempre convivi, sempre morei com a minha mãe, quando eu disse aos meus irmãos,
00:48não, que nada, isso é muita coisa na cabeça, não, que nada, é normal isso.
00:55Não é, gente, não é. Ela começou, ali eu vi, né, a moça falando que a mãezinha dela começou com
01:03esquecimento.
01:05Mamãe começou, ela se perdendo na rua.
01:08Eu sou muito conhecida em Vila Velha e aí sempre ela ia na Glória fazer compra, ela ia a pé.
01:15E aí sempre alguém chegava, me ligava, Carol, ó, sua mãe tá perdida aqui na Glória.
01:20Carol, ó, sua mãe tá perdida aqui no Íbis.
01:23Carol, eu achei sua mãe dentro do ônibus e ela não sabe pra onde tá indo.
01:28Foi assim que foi começando, aí depois queimando um arrozinho aqui, queimando um feijãozinho ali,
01:34queimando uma carninha aqui, esquecendo uma coisa ali, outra cá, outra lá.
01:39E foi quando, depois de, ao longo disso, de uns seis anos, nós levamos no especialista, foi quando nós fizemos
01:47o teste.
01:47E realmente ela foi diagnosticada com Alzheimer, foi quando começou o tratamento.
01:53Inicialmente, então, quanto? 60, hein?
01:5566.
01:5666. 66 anos.
01:58A gente pensa que, ah, não, né?
02:00Tem muito ainda pra viver ainda.
02:01Tem muito ainda pra viver, mamãe não tá com isso não, é natural, é normal, é da idade.
02:06É comum uma família encarar dessa forma inicialmente, doutora?
02:10Infelizmente é.
02:11O que retarda muito o início do tratamento, né, precoce.
02:15Que nós temos medicações, que o SUS até disponibiliza,
02:20pra fazer com que a doença evolua mais lentamente,
02:23fazendo com que o paciente consiga ficar funcional por um tempo muito maior.
02:28Porque se ele não tivesse tomando a medicação.
02:30Mas como que a gente consegue diferenciar o esquecimento normal
02:34de algo que possa abrir um alerta pra um Alzheimer precoce?
02:39Então, é sempre bom, primeiro, ir num médico, né, pra fazer alguns exames.
02:45Porque alguns esquecimentos podem estar associados a quadros de depressão.
02:50Alguns esquecimentos podem estar associados à deficiência de vitamina B12.
02:55Há um hipotiroidismo que a pessoa nem sabe que tem, que abriu o quadro.
03:01Então, é muito importante a gente descobrir as causas de demências reversíveis,
03:07pra só então a gente investigar mais profundamente as demências irreversíveis,
03:11onde o Alzheimer está inserido.
03:15Mas essa questão de dizer que é do envelhecimento,
03:19a gente tem que ter muita cautela com isso.
03:21Porque nem tudo...
03:23A gente não nasceu pra envelhecer doente.
03:28Envelhecimento não é sinônimo de doença.
03:30Nós podemos envelhecer com saúde.
03:34Então, essa questão tem que ser investigada,
03:37de preferência, por um especialista em envelhecimento,
03:39que tem um know-how maior, tem um conhecimento maior,
03:42como que tá esse processo.
03:44Eu vou convidar aqui pro nosso bate-papo, gente, a Sônia.
03:47A mãe dela foi diagnosticada em janeiro.
03:50Janeiro agora, gente, mês passado.
03:51Foi diagnosticado com a doença, né?
03:54E num estágio já bem avançado.
03:56É isso, Sônia?
03:57Conta pra gente.
03:58A família vem sofrendo muito, inclusive, né?
04:00Boa tarde.
04:00Boa tarde.
04:03Sim.
04:04Realmente, a minha mãe, ela foi diagnosticada agora, em janeiro,
04:10porque a gente conseguiu, assim, eu consegui, né,
04:14juntar um dinheiro pra pagar um geriatra particular.
04:20Porque pelo SUS a gente não conseguiu.
04:23A gente...
04:24Eu dei entrada, fiquei esperando muito tempo.
04:30E conseguiu uma vez um geriatra em Jardim América, né,
04:34que eu sou de Cariacica.
04:35E conseguiu uma vez, ele falou que ela não tinha motivo
04:39pra eu estar levando ela.
04:41Porque era idosa, era motivo de adaptação,
04:45doutra casa, essas coisas.
04:47Aí disse que ela não precisava de geriatra.
04:51Foi que...
04:53Mas continuou, porque em 2014, ela veio morar comigo,
04:57eu trouxe ela pra morar comigo.
04:59Justamente por isso.
05:00Ela sentia, até então, ela morava sozinha.
05:03E ela sentia muito medo, sentia medo de tudo.
05:06Falava que tava tentando entrar na casa dela.
05:09E aí eu comecei a investigar isso aí, mas não tinha.
05:13Na verdade, não tinha ninguém querendo entrar na casa dela.
05:16Ela imaginava que tinha, tinha um medo muito grande, entendeu?
05:21Aí comecei, pensei, não, porque muitos mestres falaram
05:25é porque é idoso, né, o idoso tem essas coisas.
05:29Pode ser infecção urinária, mas não era.
05:31Então, eu tentei de novo geriatra aí, já não consegui mais.
05:36E consegui levar ela no particular.
05:38E ele diagnosticou ela com Alzheimer avançado, muito avançado.
05:45Deixa eu...
05:46Olha só, início de um mês pra cá, então, você já percebeu que avançou muito também,
05:51por conta dessa falta do diagnóstico precoce?
05:56Você percebeu que a doença avançou?
06:00Sim, avançou muito, porque antes ela inventava só as coisas.
06:04Falava que alguém fez alguma coisa com ela.
06:07Mas aí eu não tava muito importante, porque eu sabia que não era verdade, né?
06:13Até porque eu cuidava dela, eu tava sempre com ela.
06:16E, Sônia, de que forma que ela vem se comportando?
06:18O que que ela vem expressando?
06:20O que que pra vocês resume aí esse avanço muito rápido da doença?
06:25O que que ela tem apresentado?
06:28Olha, tem apresentado, ela não se reconhece mais no espelho do guarda-roupa.
06:34Aí, porque ela acha que é outra pessoa que mora dentro do guarda-roupa.
06:39Então, todo o reflexo que ela vê no espelho, ela acha que tem gente morando do outro lado do guarda
06:47-roupa.
06:48Aí, eu fui cobrir o guarda-roupa, né?
06:52Sempre coberto com coberta.
06:55E sempre tudo fechado, janela sempre fechada.
06:58Não queria...
06:59Ela tinha medo de ficar sozinha num cômodo.
07:02Olha só, enquanto você tá aí falando, eu tô vendo aqui, a gente tá com a doutora Kelly e também
07:08com a Carol, que a mãe dela sofre também de Alzheimer.
07:11Eu tô vendo as duas concordando.
07:13É isso mesmo?
07:13É assim também na sua casa, Carol?
07:15É, é assim mesmo.
07:17E é assustador a princípio pra ela, como ela descobriu agora, é assustador.
07:21Depois vai virar rotineira normal, né?
07:24É assustador até pra família, né?
07:26É, é assustador.
07:28Mas chega a ser até engraçado, tá?
07:30Tem hora que é engraçado, tem hora que mamãe se olha no espelho, ai!
07:34Aí ela pula pra trás, nossa, mas eu tô muito velha.
07:37Não, não sou eu.
07:38Cada hora é uma reação diferente que eles têm, né?
07:41E a gente vai acostumando e se adaptando àquela rotina deles, porque a gente tem que viver o mundo deles.
07:49A família também precisa de ajuda, doutora Kelly?
07:52Porque a gente precisa aprender a lidar com isso, né?
07:55Precisa.
07:55O cuidador, o principal cuidador, que às vezes tem vários, né?
07:59Mas sempre tem aquele que toma frente da situação.
08:03O principal cuidador, ele precisa ter um tempo pra ele.
08:06Ele precisa se cuidar.
08:08Porque você não consegue cuidar de ninguém se você não está bem.
08:11Como é que você vai cuidar de alguém se você também está adoecido?
08:15Não faz sentido, né?
08:16Então, os cuidadores têm que tomar muita atenção e têm que se cuidar.
08:22Fisicamente, mentalmente, porque as perdas que a doença de Alzheimer traz pra família,
08:28elas são constantes e são muito intensas.
08:32Então, é como se você vivesse um luto em vida.
08:34A pessoa está viva, mas as perdas são tão intensas que acaba sendo um luto,
08:39porque você não reconhece mais a sua mãe, a sua mãe não te reconhece mais.
08:44Aquela pessoa que você conviveu anos e anos não está mais ali, mas aquele corpo está.
08:51Então, isso causa muito estranheza, isso causa muito sofrimento.
08:54E é preciso tratar esses sentimentos, né?
08:57O que a gente pode fazer pra retardar isso, né?
09:01Todas as chances que a gente não sabe se a gente vai ter ou não,
09:06mas o que a gente já pode fazer de prevenção, doutora?
09:09Atividade física, 150 minutos semanalmente de atividade aeróbica na forma moderada à intensiva
09:21já ajuda a aumentar o fluxo sanguíneo e ajuda a prevenir, tá?
09:26Não só o Alzheimer também, mas a demência vascular, principalmente se você for hipertenso ou diabético.
09:32Ah, eu não gosto de atividade física.
09:33Uma dança ajuda, doutora?
09:36Vai ser atividade física, né?
09:38Porque a dança, a dança é super completa.
09:40Além de ter uma interação com outras pessoas, né?
09:44Ela tem esse propósito social, ela também tem o propósito do divertimento.
09:49A pessoa vai se divertir, vai ouvir música, que vai elevar aquele astral, aquela vibração.
09:56Então, isso tudo, até pro cuidador que pode dançar com a pessoa que está adoecida,
10:02também pode ser de grande valia pra todos eles.
10:07Não só pro paciente, mas também pro cuidador.
10:09Aquela história que a gente ouve, ah, você comprar uma revistinha e fazer caça-palavras,
10:16isso ajuda?
10:17É mito ou é verdade?
10:18Roberta, é um pouco mito, um pouco verdade.
10:20Por quê?
10:21Porque quando você compra essas revistinhas, você está estimulando o seu cérebro.
10:24E a gente precisa fazer, sempre estimular o nosso cérebro o tempo inteiro com coisas
10:30novas.
10:31Então, aprender uma atividade diferente, aprender uma língua diferente, aprender
10:36alguma coisa instrumental, pintar, bordar, sabe?
10:39Fazer ponto cruz, essas coisas todas manuais.
10:42Coisas diferentes, coisas que você nunca pensou que fosse fazer.
10:46Isso te ajuda.
10:47Ajuda a manter o cérebro vivo, a criar novas sinapses, a acender as sinapses que já estavam
10:53apagadas e que existem já, mas que elas estavam inutilizadas.
10:58Então, sempre fazer coisas novas é de suma importância.
11:01Agora, eu acredito que o sentimento, tanto da Carol quanto da Sônia, é de uma futura
11:07preocupação até mesmo com elas, já que existe o fator genético.
11:11Você tem esse medo, Carol?
11:13Você já se perguntou a respeito dessa doença?
11:17Então, eu me cobro o tempo inteiro.
11:19Eu não uso agenda, tá?
11:22É...
11:23Minha cabeça é meu computador.
11:25No meu trabalho, eu sou empresária.
11:27É tudo no meu cérebro.
11:29E aí, eu tenho essa cobrança comigo.
11:32Então, eu fico ali diariamente me cobrando.
11:35Mas, eu me cuido como?
11:39No psiquiatra.
11:40Parei de fazer terapia, mas aí eu cuido também do meu lado espiritual.
11:46E, o que eu digo ali, né, pra...
11:49Pra Sônia.
11:50Sônia.
11:51Sônia, a palavra-chave é amor.
11:56Amor incondicional.
11:58Tenha esse amor, igual amor de mãe, que é um amor completo.
12:03Que você vai ter tudo.
12:05Isso é o que eu falo pra todo mundo que tem alguém com Alzheimer na família.
12:10Ah, você me emocionou, gente.
12:12É amor.
12:12Que lindo, que lindo.
12:13Porque não é fácil.
12:15Não é fácil.
12:16É uma retribuição a tudo o que os nossos pais fizeram por nós, né?
12:21Principalmente a vida, né?
12:22Principalmente a vida.
12:23Verdade, doutora Kelly.
12:24E até, essas são as palavras também da Maricilda Borges, que é uma telespectadora super querida,
12:29que tá sempre participando com a gente aqui no Fala Espírito Santo.
12:32Ela diz, o amor e o cuidado são fundamentais nesse momento, principalmente.
12:38Sônia, me conta, como é que você tem se relacionado com a sua mãe, né?
12:43A Carol tá aqui falando do amor, né?
12:47Me conta como é que tá sendo a experiência de vocês.
12:51Olha, realmente, o amor é que vem primeiro de tudo, porque não é fácil, não é uma situação muito difícil
13:00de conviver,
13:02principalmente quando você cuida só de um, desse idoso.
13:05Então, quer dizer, você tem que entrar no mundo deles.
13:09Eu, no meu caso, eu bato papo com a mãe, mesmo ela falando do pai dela, que já morreu há
13:16muitos anos,
13:17que ela lembra como se fosse ontem.
13:19Ela não reconhece mais os sobrinhos, mas ela se atacou a mim.
13:25Pra ela, eu sou tudo no momento, você entendeu?
13:27E isso, pra mim, assim, é gratificante num certo sentido, né?
13:35Porque eu sei que ela não esqueceu de mim ainda.
13:39Mas não é fácil, mas o amor que vem primeiro de tudo.
13:44Porque eles se tornam como crianças, você entendeu?
13:48E depende da gente, né?
13:51Exatamente.
13:51E essas pessoas, né, quem está na linha de frente, também precisam de ajuda,
13:56que é exatamente o que a doutora Kelly falou agora aqui.
13:59Então, a família precisa, diante desse diagnóstico, se reestruturar.
14:05Fundamental.
14:06O suporte, ele tem que ser compartilhado, de preferência, pra não sobrecarregar ninguém.
14:12Mas é lógico que sempre vai ter um que tem uma disponibilidade maior de fazer isso.
14:17E a gente não pode esquecer também que cada um sofre a sua maneira.
14:21Então, tem gente que sofre muito tendo esse contato presencial o tempo inteiro, vendo essas perdas.
14:28E tem outros que levam mais numa boa, como a Carol, por exemplo, como a Sônia.
14:33Então, a gente tem que ter um pouco mais de compaixão com todos que estão enfrentando essa doença.
14:39O paciente, os familiares, os cuidadores, que às vezes não são familiares também,
14:44mas que têm um carinho enorme por aqueles que cuidam.
14:46E rezando, né, pra que a medicina cada vez mais avance e traga aí, né, os tratamentos, novidades.
14:54É o que a gente espera.
14:55Obrigada pela sua participação, doutora Kelly.
14:57Obrigada também, Carol.
14:58Um beijo na sua mãe, tá bom?
15:00Um beijo também, Sônia.
15:02Dá um beijão na sua mamãe, tá joia?
15:04Dê um abração nela.
15:06Até mais.
15:07Boa tarde.
15:08Tchau.
15:08Tchau.