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  • há 3 semanas
Um bate papo com Álvaro Silva, jornalista, escritor e secretário da AEL.

Qual o papel da Academia? A quem serve? O que a entidade pode fazer pela literatura local?

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Transcrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária, aqui pela TV Vitória, podcast e vídeo, né, pelo YouTube.
00:28Com tudo que se fala sobre literatura contemporânea, tudo que se produz, tudo que se lê.
00:34Esse é um programa que a gente utiliza, que é veiculado, para que a gente possa discutir alguns temas ligados
00:40à literatura.
00:42Seja ela do Espírito Santo, seja ela de fora dele.
00:45Eu vou começar esse programa de hoje falando de mim, diretamente de mim.
00:50No final do ano passado eu fui eleito para a Academia Espírito Santense de Letras.
00:55Mas já vou adiantando a vocês que esse é o nosso tema de hoje.
00:59É o que é a Academia Espírito Santense de Letras, qual o papel da academia, o que ela pode fazer,
01:05o que ela não consegue fazer.
01:07Mas antes eu quero dizer a vocês o seguinte, como é que funciona para um indivíduo participar da academia?
01:12Primeira coisa é ele ser escritor.
01:15Segunda coisa, ele ter obra publicada.
01:18Terceira coisa, ele querer participar.
01:19E aí ele se inscreve, manda suas obras, explica para a academia e para os membros da academia por que
01:27ele quer fazer parte.
01:28E os membros da academia é que vão decidir quem vai fazer parte dessa fratelança, dessa entidade tão respeitada em
01:39cada estado.
01:40Academia Espírito Santense de Letras, Academia Carioca de Letras, no caso Fluminense de Letras, né?
01:45Academia Paulista de Letras e, claro, nesse mesmo processo acontece com a Academia Brasileira de Letras.
01:52Bem, eu falei de mim.
01:55Agora eu vou dirigir as perguntas ao secretário-geral da Academia Espírito Santense de Letras,
02:03Álvaro José Silva, que fez a gentileza de participar.
02:08Álvaro, que é escritor, que é romancista, que é contista.
02:12Álvaro, que tem um romance excelente, que foi lido por mim há uns dois anos e que me impressionou muito,
02:18chamado O Faxineiro.
02:19Nós vamos conversar, inclusive, sobre isso, sobre a questão política, porque Álvaro também escreve literatura política,
02:27se é que a gente pode chamar de literatura política.
02:31Mas vamos discutir.
02:32Mas antes eu quero que o Álvaro converse com a gente sobre a academia.
02:35E eu pergunto logo de cara, primeiro agradeço ao Álvaro, né, por estar aqui.
02:40Álvaro que, mais uma vez, né, como todas as pessoas que vêm aqui, Álvaro, ele foi gentil em nos atender.
02:49O convite que eu fiz para Álvaro foi um convite um dia antes, né, e o Álvaro prontamente veio aqui
02:56para conversar com a gente
02:56sobre essa questão da Academia Espírito Santense de Letras.
03:00Álvaro, muito obrigado.
03:01Muito obrigado por você ter aceitado.
03:02E eu pergunto a você logo de imediato.
03:07Há uns 30 anos, eu li uma entrevista do Manuel Puig, o escritor argentino,
03:14em que perguntaram para ele se ele gostava de ler textos de escritores da academia.
03:21E ele soltou a seguinte frase, né,
03:26a academia é coisa de velhos.
03:29A minha pergunta para você, Álvaro, a gente vai começar com a provocação.
03:33Qual é o papel da Academia Espírito Santense de Letras e é um lugar de velhos?
03:38Não, não é.
03:40Embora eu seja velho, não é um lugar de velhos.
03:44Nós temos na academia gente com menos de 40 anos, né,
03:48e gente que produz muito bem, produz com grande qualidade.
03:54E gente que evolui ao longo do tempo, pertencendo à academia.
04:02Evolui, eu falo literariamente.
04:05Certo.
04:05Entendeu?
04:05Então, a academia não é um lugar de velhos.
04:10O ideal seria que ela fosse um lugar de pessoas com relativa vivência literária,
04:19literatura de qualidade, produtora de literatura de qualidade,
04:22e que tivesse condição de entrar a partir dos 35 anos.
04:26Antes disso é muito cedo.
04:28É, eu claro que foi uma provocação, né,
04:30tanto que eu faço pai da academia e não me sinto velho,
04:33embora eu tenha 60 anos, não me sinto velho,
04:36não sinto você uma pessoa velha.
04:38A ideia de velhice não é, não me pareceu, pela frase do Puig,
04:43não me pareceu algo ligado a etarismo,
04:47mas sim, pessoas que estão na academia são pessoas que não evoluem,
04:51como você disse, não evoluem literariamente,
04:53e você acabou de mostrar que é o contrário.
04:55Qual é a função, Álvaro?
04:57Qual a função da academia?
04:58Para que a academia serve e como que ela pode aproximar o leitor da literatura?
05:04A academia, eu diria que ela é mantenedora,
05:09cuidadora da memória literária,
05:12é o lugar que reúne literatos para discutir literatura,
05:18para divulgar literatura, para fazer literatura,
05:22e ela é de suma importância nesse ponto.
05:26Para você fazer uma ideia, a Academia Espírito Santo Tense de Letras
05:30acaba de completar 101 anos,
05:33101 anos de vida sem ajuda alguma,
05:37alguma mesmo, entendeu?
05:42O orçamento secreto não passou por lá em momento algum,
05:46e nem a gente deseja que passe.
05:47A academia sobrevive do esforço dos seus acadêmicos,
05:53expor as ajudas,
05:56e dá vontade que a maioria das pessoas,
06:01que fazem parte da academia,
06:03tem de preservar a literatura,
06:06de divulgar a literatura,
06:07e de fazer crescer em importância a literatura produzida no Espírito Santo.
06:13não obrigatoriamente por capixaba,
06:15tem muita gente da academia que não é capixaba,
06:18mas tem que ser pessoas que obrigatoriamente morem aqui,
06:22porque isso facilita muito a vida da academia.
06:26É uma congregação de literatos.
06:29Mas me diga uma coisa,
06:32vamos ver a figura do leigo,
06:34eu vou tentar me colocar na figura do leigo.
06:37O leigo que vê a academia como um símbolo,
06:41a academia como entidade,
06:45carregada de respeitabilidade,
06:47mas ele não entende qual é o papel da academia,
06:49ele entende qual é o papel de um professor de literatura,
06:52ele entende qual é o papel de um jornalista literário,
06:54ele entende qual é o papel de um agente literário,
06:58mas qual é o papel da academia,
07:01como é que a academia serve à literatura?
07:04Eu vou te dizer,
07:06eu vou citar um nome aqui,
07:09eu não quero ser injusto com os outros,
07:11mas o presidente de honra da academia,
07:13Francisco Aurélio Ribeio,
07:16ele tem nos últimos anos,
07:18ou diria até nas últimas décadas,
07:21sido um resgatador
07:24da memória literária do Estado do Espírito Santo,
07:27ele tem garimpado as primeiras obras literárias
07:32produzidas no Estado do Espírito Santo,
07:36resgatado essas obras,
07:38com a ajuda do também acadêmico Fernando Aquiamé,
07:42muitas dessas obras garimpadas,
07:45foram refeitas, foram relançadas,
07:48estão hoje à disposição das pessoas,
07:51muitas vezes são obras com mais de um século
07:53de publicação,
07:55tudo isso se teria perdido,
07:58nada disso existiria mais,
08:01nas nossas salas cheias de poeira,
08:05estão preciosidades literárias
08:08produzidas aqui no Estado do Espírito Santo,
08:12coisas magníficas,
08:14quando o Penedo falava,
08:16por exemplo,
08:18um livrinho infantil
08:19para estudante de ensino primário,
08:24doutor Voronov.
08:25Sim, ótimo.
08:26Eu me lembro que eu era
08:28secretário de Cultura em Vitória,
08:30e nós tínhamos uma parceria
08:31da academia com a Prefeitura de Vitória,
08:34e publicava,
08:36publicava essas preciosidades que você está falando.
08:38Exatamente.
08:38Esse resgate, né?
08:39Então, além desse resgate,
08:41além de ela ser a mantenedora
08:43da memória literária
08:46do Estado do Espírito Santo,
08:47ela produz literatura.
08:48Entendeu?
08:49E a gente consegue
08:52produzir literatura,
08:53e você sabe disso,
08:55você foi secretário de Cultura da Prefeitura,
08:58com verba da Prefeitura,
08:59muitos livros foram publicados
09:01durante sua gestão,
09:03antes dela e...
09:04E depois dela também.
09:05Depois dela também.
09:06E isso é de uma importância muito grande,
09:09porque a maioria desses livros,
09:10como eles são produzidos com verba pública,
09:13eles não são vendidos,
09:14mas eles são entregues a bibliotecas.
09:17Eles são difundidos,
09:18eles são...
09:20A criançada toma conhecimento da literatura
09:23a partir disso.
09:24É um negócio sensacional,
09:25porque até o ano retrasado,
09:28um projeto foi desenvolvido aqui
09:30no Estado do Espírito Santo,
09:32chamado
09:32A Academia Vai à Escola.
09:34Isso, eu ia tocar esse assunto agora.
09:36Justo.
09:36A gente era chamado
09:38para ir a escolas públicas,
09:42estaduais,
09:43para falar sobre literatura,
09:46para chamar a garotada,
09:47e para mostrar os livros da gente,
09:49para conversar com eles.
09:52E difundir, né?
09:53Difundir.
09:53Difundir também.
09:54Agora, você não imagina
09:56o brilho que se via nos olhos
09:59daquela garotada.
10:00Eu fui a um...
10:03A Academia Vai à Escola
10:04em Campo Grande
10:06e outro naquele bairro Felrosa,
10:09lugar que é chamado até de
10:10um lugar perigoso
10:12aqui do Estado do Espírito Santo.
10:13É lindo ver
10:15como as crianças se interessavam,
10:18como as crianças participavam,
10:20a curiosidade que elas despertavam.
10:22Eu levei livros meus
10:23nas duas vezes que fui,
10:24todos os outros levaram,
10:26e as crianças queriam pegar logo.
10:28E a professora, a diretora,
10:29eu tinha que dizer,
10:30calma, nós vamos dar a entrada
10:31na biblioteca primeiro,
10:33depois nós devemos entrar
10:34na biblioteca,
10:35catalogarmos,
10:35vocês vão ter acesso
10:37a esses livros.
10:38É uma coisa linda isso.
10:39E isso é um serviço,
10:41é um dos serviços
10:42que a academia presta.
10:44Maravilha.
10:46Eu sei por experiência própria
10:48que estar na academia
10:50é um estímulo
10:52a continuar a produzir.
10:55Porque é muito difícil
10:56produzir no Espírito Santo
10:57sabendo que
10:59há uma chance
11:00muito grande
11:01de você não ser lido.
11:03Certo?
11:04Aliás, não é só no Espírito Santo,
11:05é no Brasil inteiro.
11:06Mas existem estados
11:08que têm
11:09uma potência maior
11:10em poder
11:12justamente
11:13divulgar
11:14a sua obra.
11:15Porque existem editoras
11:16nesses estados,
11:17editoras muito fortes,
11:19editoras que têm
11:19contato com os meios
11:21de comunicação,
11:22os meios de comunicação
11:23facilitam
11:24essa difusão.
11:25mas em Vitória
11:26é muito difícil.
11:29O que a academia
11:30pode fazer,
11:32o que ela deve fazer,
11:33para que
11:34essa dificuldade
11:36ela seja
11:38atenuada?
11:40O que é possível
11:42fazer?
11:43A gente tem
11:44feito tudo
11:45e o que
11:46é possível
11:47fazer.
11:49A gente
11:50faz promoções,
11:52a gente faz seminários,
11:54a gente faz palestras,
11:56a gente participa
11:57de
12:01agendas públicas
12:03de publicação
12:04de livros,
12:04como
12:05da Secult,
12:06por exemplo,
12:07e a gente
12:08luta
12:09para que
12:10a literatura
12:11do Estado
12:12do Espírito Santo
12:13tenha
12:13maior visibilidade,
12:16etc.
12:17Mas é difícil
12:18vender livros
12:18aqui.
12:20Hoje,
12:20por exemplo,
12:21nós estamos
12:22ainda lutando
12:23com promessa
12:25não cumprida
12:25do governo
12:27do Estado
12:28para que
12:29livros
12:30de autores
12:31do Estado
12:31do Espírito Santo,
12:33comprados
12:34pela Secretaria
12:35de Educação
12:37em 2014.
12:39Edital público.
12:40Não é edital público.
12:41Edital público.
12:43Fundamental
12:43entender isso.
12:43Com verba empenhada.
12:45Exatamente.
12:46Que
12:47esses livros
12:48sejam realmente
12:49adquiridos,
12:50que os escritores
12:51sejam pagos
12:52e, sobretudo,
12:52e principalmente,
12:53que esses livros
12:54sejam entregues.
12:55E que sejam
12:56ouvidos.
12:56E que sejam
12:57ouvidos.
12:57E que os professores
12:58estimulem a leitura.
13:01Essa questão
13:02me remete
13:03a uma
13:04anedota
13:04que se contava
13:05o sujeito
13:06que escrevia
13:07e não conseguia
13:08ser lido
13:09e tal.
13:09Eu estava triste
13:10andando na rua.
13:11Passou o sujeito
13:12por ele.
13:12Ou eu li
13:13o livro seu.
13:14fostitu.
13:15Então,
13:16aqui no Espírito Santo
13:17é quase a mesma coisa.
13:19Por falta
13:20de apoio
13:21e mais um problema
13:23triste.
13:24As livrarias
13:26estão acabando.
13:28As livrarias
13:29assim,
13:30que foram
13:31tradicionais
13:32no Estado
13:32do Espírito Santo,
13:34citar a livraria
13:35Capixaba,
13:35a livraria
13:36Logos.
13:36Nós nos encontrávamos
13:37muito na Don Quixote,
13:38lembra?
13:39Da Don Quixote.
13:39Depois nos encontramos
13:40na livraria Logos
13:41muito tempo.
13:41Exato, exato.
13:42Durante muito tempo.
13:44Livraria Âncora.
13:45Eu me lembro da livraria
13:45Âncora.
13:46Sabe?
13:47Isso tudo está acabando
13:48e não estão surgindo
13:49outras no lugar.
13:51Eu,
13:51dia desse,
13:52fui no shopping,
13:53no shopping Vitória.
13:56E tem uma livraria,
13:57grande livraria lá,
13:59imensa,
14:00não vou citar o nome.
14:01Tinha até livro lá dentro,
14:03você acredita?
14:04Fiquei impressionado,
14:05falei,
14:06tem livro.
14:07Eu me lembro que eu fui,
14:08quando saiu a biografia
14:10dos mamíferos,
14:11que é meu livro,
14:12uma biografia que eu escrevi,
14:14eu fui até a livraria
14:15Saraiva,
14:16no shopping,
14:18para poder perguntar
14:19se eles o podiam
14:20deixar lá,
14:20disponibilizar o livro
14:21para que eles pudessem
14:22vender.
14:23E eles me disseram
14:24que eu tinha que remeter
14:26os livros a São Paulo,
14:27para que São Paulo
14:29trouxesse de volta
14:30para a Vitória.
14:31Aí eu disse,
14:32tudo bem,
14:33essa é uma burocracia natural,
14:34eu respeito,
14:36mas o livro não precisa
14:37ir para São Paulo,
14:38fisicamente,
14:39não precisa.
14:40O livro sai de Vitória,
14:42vai até São Paulo,
14:43o livro,
14:44o livro físico,
14:45para voltar para a Vitória.
14:47Então,
14:48isso é algo impensável
14:50e, ao mesmo tempo,
14:51é algo que dificulta
14:52a difusão da obra.
14:53Dificulta.
14:54Numa outra livraria,
14:55que não está mais em shopping,
14:57aqui,
14:58Livraria Cultura,
14:59eu lutei durante três meses
15:01para botar livro meu lá.
15:03Eu falei,
15:03caramba,
15:03vocês,
15:04está certo,
15:05a livraria daqui,
15:06a livraria de outro estado,
15:08vocês têm uma loja
15:09aqui dentro de Vitória.
15:11Vocês não querem
15:12botar na vitrine de vocês
15:13uma loja de um autor,
15:15uma obra de um autor
15:16do Espírito Santo?
15:19É inacreditável isso.
15:22É uma coisa impressionante.
15:24Aqui que você reputa isso,
15:26Álvaro?
15:26Você,
15:27não só o Álvaro,
15:28escritor,
15:29mas o Álvaro,
15:31um ativista cultural,
15:32um ativista literário
15:33e um ativista que tem
15:35uma chancela,
15:36que é a chancela da academia,
15:37Espírito Santo de Letras.
15:39Você atribui esse conceito,
15:41eu não vou nem dizer
15:42preconceito, não.
15:43Eu vou chamar de conceito mesmo.
15:45Esse conceito que o Capixaba tem
15:47sobre a produção literária Capixaba,
15:50esse conceito de uma literatura menor,
15:54uma literatura que não precisa ser lida,
15:56eu prefiro ler outros livros
15:58a ler obras de autores Capixabas.
16:01A que você atribui isso aí
16:03e como que a academia pode,
16:05por exemplo,
16:07minimizar esse conceito?
16:09Olha, eu tive um grande amigo baiano,
16:13professor universitário e escritor
16:15chamado Anísio Félix.
16:17Morreu de repente do coração.
16:20era considerado a maior autoridade
16:22em folclore baiano que existia.
16:26Ele tinha obras maravilhosas,
16:27eu tenho dois livros dele em casa.
16:29Um dia eu estava conversando
16:30com ele aqui em Vitória,
16:31ele adorava Vitória.
16:33Ele dizia,
16:34Álvaro, vocês não se divulgam,
16:36vocês não dizem,
16:38eu sou bom.
16:40Salvador é uma cidade suja,
16:42é uma cidade cheia de problemas.
16:44O baiano bate no peito
16:46porque ele é o melhor de todos.
16:48eu não vejo Capixaba no meio da rua
16:51dizendo que isso aqui é maravilhoso,
16:53que isso aqui é ótimo,
16:54que aqui se produz muito ciência,
16:57literatura.
16:58Não vejo.
17:00Vocês não dão valor ao que vocês são
17:02e vocês são muito bons.
17:05Pois bem,
17:06Anísio morreu já faz mais de dez anos
17:09e a gente não consegue ser,
17:12vou usar esse termo aleatóricamente,
17:15não consegue ser barrista.
17:17A gente não consegue se divulgar,
17:19se autopromover,
17:21sabe,
17:21se promover as coisas daqui.
17:25Não precisa dizer que nós somos melhores
17:26que os outros, não,
17:28mas não basta você dizer
17:30moqueca só Capixaba,
17:32o resto é peixada,
17:34tem que entrar nas outras áreas também,
17:38sabe,
17:38dizer que nós somos bons
17:40nas outras coisas também
17:41e ter apoio nisso.
17:43Eu lhe digo sem medo de errar
17:46que o que é possível fazer,
17:48a academia faz.
17:50São 40 acadêmicos,
17:53com a ajuda de uns 15.
17:56Agora,
17:57além disso,
17:58é difícil.
17:59Eu consegui
18:01ter o maior volume de vendas
18:03de livro meu
18:05numa obra
18:06que foi um resgate que eu fiz,
18:07com muita pesquisa,
18:08graças ao material que o meu pai deixou,
18:11sobre aviação.
18:12Sim,
18:13eu tenho esse livro.
18:13E é coisa improvável
18:14que você consiga,
18:17um cara como eu,
18:18que adora romance,
18:19que ele consiga o maior volume de vendas
18:22de obra dele
18:23numa obra sobre aviação.
18:26Você tem um livro sobre café, né?
18:27Tem um livro sobre café,
18:29com receita de café.
18:30É, é.
18:30É, que...
18:31E foi você que me ensinou
18:32uma coisa sobre café
18:33há não sei quantos anos,
18:34acho que antes até desse livro,
18:36uma vez a gente conversando
18:37na Nukishot,
18:37você me disse,
18:39Jó,
18:39não deixe a água ferver,
18:41porque a água queima o café.
18:42Exato.
18:43Né?
18:43E aquilo eu nunca mais esqueci.
18:45Não.
18:45Um dia desse,
18:46alguém falou pra mim...
18:47Nunca deixou mais a água ferver.
18:48Nunca mais,
18:48nunca mais.
18:49Não, é interessante,
18:50um dia desse,
18:50alguém falou pra mim,
18:51isso é mito.
18:52Eu falei, olha,
18:52se Álvaro falou,
18:53não é mito.
18:54É sério.
18:55Eu passei,
18:56uns 20 anos da minha vida,
18:58eu sou apaixonado por café.
19:00Eu passei uns 20 anos da minha vida
19:01colecionando receitas com café.
19:04Até que um dia eu falei,
19:05eu vou botar isso num livro.
19:08Eu escrevi um livro
19:09que me rendeu o apelido
19:11Dona Benta,
19:12não tem problema nenhum,
19:13não, é inevitável.
19:16Café é uma paixão.
19:17Que também vendeu muito.
19:20Sabe, também vendeu muito.
19:22E eu também não esperava
19:23que vendesse tanto.
19:25Agora,
19:26nos romances que eu escrevi,
19:29o que eu mais gosto...
19:30Eu gosto do faxileiro.
19:31Eu gosto do faxileiro.
19:32Pela temática,
19:34política dele,
19:35e pelo...
19:36É quase uma coisa policial.
19:38É.
19:39Porque tem um desfecho...
19:40Tem.
19:41De enigma,
19:42tem um desfecho de mistério
19:44muito interessante.
19:45Eu me coloquei muito naquele romance.
19:48Naquele romance que mistura
19:49realidade com ficção.
19:51Os meus romances todos
19:52misturam realidade com ficção.
19:53Mas o faxineiro,
19:55eu escrevi com carinho danado,
19:57porque eu vivi em parte aquilo.
19:59Eu, no início do livro,
20:02eu descrevo
20:03uma passeata de estudantes
20:05que aconteceu em São Paulo.
20:08E...
20:09Você estava nela?
20:10Eu estava.
20:11Eu estava.
20:12É por isso...
20:12Uma vez,
20:13eu estava conversando
20:14com um amigo,
20:15ele falou,
20:16Álvaro,
20:17como é que você conseguiu
20:18criar aquela passeata
20:20tão bem?
20:20Aquela de você.
20:21Eu não criei.
20:22Eu estava lá.
20:24Eu estava lá.
20:24Eu vi um policial
20:26cair do cavalo,
20:26sentar a testa no meio fio
20:28e se levantar
20:29com a arma na mão,
20:31dois metros de mim.
20:34procurando descobrir
20:35quem tinha jogado
20:36a bola de gude no chão
20:37e o cavalo caiu.
20:38E eu, desesperado,
20:40esfregando a mão assim,
20:41do lado,
20:41para ver se tinha sobrado
20:42alguma bola de gude ainda
20:43dentro da minha calça.
20:46Não tinha sobrado.
20:49Eu gostei muito.
20:51Eu gostei
20:51porque não é
20:53algo muito comum
20:55aqui no Espírito Santo,
20:57pelo menos que eu tenha conhecimento,
20:59sobre quem escreva
21:02sobre a questão política.
21:04Eu me lembro de você,
21:04Toninho Neves escreveu também.
21:06Toninho Neves era fantástico.
21:07É.
21:07Mas pouca gente escreve
21:09sobre esse período,
21:11que é o período
21:11dos anos de chumbo,
21:14que foram muito fortes
21:16em Vitória também,
21:17mas pouca gente escreve.
21:18O Fernando Tatagiba
21:19escreveu alguma coisa,
21:20Bernadette também chegou
21:21a citar alguma crônica,
21:23mas a contundência literária
21:27está na sua obra.
21:29É.
21:29E eu pesquisei muito aquilo
21:31e eu coloquei
21:33algumas coisas incríveis
21:34naquilo,
21:34porque, por exemplo,
21:35eu morei muitos anos
21:36em São Paulo.
21:37É por isso que o romance
21:39se passa em parte
21:40em São Paulo.
21:42Eu era apaixonado,
21:43sou até hoje apaixonado,
21:45por cuscuz paulista.
21:46É uma comida maravilhosa.
21:48E nunca vi aqui em Vitória
21:50um cuscuz paulista.
21:51Então, no faxineiro,
21:53eu criei uma lanchonete
21:53que vendia cuscuz paulista.
21:56E ali na lanchonete
22:00nasce o motivo pelo qual
22:04o romance existiu.
22:06Quer dizer,
22:07o sujeito vai comer
22:08um cuscuz paulista,
22:10ele é uma pessoa
22:11em estágio avançado
22:12de câncer,
22:14que tinha vivido
22:15em São Paulo,
22:16que tinha enfrentado
22:17a ditadura,
22:18que tinha sido vítima
22:19da ditadura.
22:20e lá nessa lanchonete
22:21ele olha para o jeito
22:22que está no caixa
22:23e fala,
22:23eu me lembro desse homem
22:25de algum lugar.
22:26É o torturador.
22:26É o torturador
22:28de incensão.
22:28E eu coloquei isso
22:29dentro do cuscuz paulista.
22:32É.
22:32Criei essa lanchonete
22:33que nunca existiu,
22:35que ficaria na Praia do Campo,
22:37e se um dia eu tiver condição,
22:39eu vou vender
22:40o cuscuz paulista
22:41aqui no Espírito Santo,
22:42que vai dar mais dinheiro
22:43que literatura.
22:44Oh!
22:45Rapaz, que ótimo.
22:46Você está com algum
22:47projeto novo, Álvaro?
22:49Literário?
22:49Estou com um romance,
22:50estou escrevendo
22:51esse romance devagar,
22:53porque eu não gostei
22:54do final que eu imaginei
23:00para ele,
23:00estou mudando.
23:01Esse romance já tem um título,
23:03chama-se
23:03Passageiro em Trânsito,
23:06e é a história
23:07de um brasileiro
23:07que mora há muitos anos
23:09em Portugal,
23:11resolve rever o Brasil,
23:15ele quer passar por Vitória,
23:16depois ir para o Rio de Janeiro,
23:18mas cai um temporal,
23:20ele fica preso,
23:21não consegue sair de Vitória,
23:23de repente ele encontra uma mulher
23:25e se lembra dela.
23:27Ótimo.
23:28Ótimo.
23:28É autobiográfico também?
23:30Não, não, não, não.
23:31Isso aí,
23:32tem algumas coisas que eu vivi,
23:34mas eu quero colocar
23:35mais coisas referentes
23:36ao Espírito Santo.
23:37Maravilha.
23:38Conversamos hoje
23:40com Álvaro José Silva,
23:42querido amigo,
23:44ótimo escritor,
23:46secretário da Academia
23:47Espírito Santo de Letras,
23:48que foi capaz aqui
23:50de elucidar algumas dúvidas,
23:52que eu tenho certeza
23:53que são dúvidas de muita gente,
23:54sobre o papel da academia,
23:56e conversamos um pouquinho só,
23:59menos do que eu gostaria,
24:01sobre a literatura
24:02que o Álvaro produz,
24:04mas já deixo o convite
24:06para um retorno,
24:08para a gente conversar
24:09somente sobre seus livros
24:10e sobre a participação política sua,
24:14e como ela aparece
24:17nos seus textos também.
24:18Beleza?
24:19Valeu, gente.
24:21Muito obrigado
24:21pela participação de vocês,
24:23por estarem ouvindo a gente,
24:24ouvendo.
24:25Muito obrigado a Álvaro.
24:27Se quiser falar alguma coisa
24:28para o pessoal,
24:29Álvaro, fica à vontade.
24:30Quero dizer que foi um prazer
24:32estar aqui com você.
24:34Meu confrade.
24:35Confrade.
24:36Meu confrade.
24:37Espero voltar
24:38a conversar com vocês.
24:39Ótimo.
24:40Valeu, gente.
24:41Até semana que vem,
24:42mais uma edição
24:43do Vitrine Literária.
24:45Um grande abraço a todos
24:46e muito obrigado mais uma vez.
24:47Valeu.
24:49Você ouviu o Vitrine Literária
24:52com o professor e escritor
24:54Francisco Grijó.
24:55Tudo sobre literatura contemporânea.
24:58Temas, autores, obras, debates, análises,
25:02curiosidades e bate-papo
25:03com autores e editores.
25:05Tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau,
25:08tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau,
25:08tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau,
25:08tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau
25:08Obrigado.

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