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As consequências para crianças que são usadas pelos pais para pedir dinheiro.
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00:00Aqui no nosso estúdio eu recebo a advogada Camila Dias. Obrigada, doutora Camila, pela sua participação aqui com a gente.
00:06A Aline Hessel também, psicóloga, está sempre participando aqui no programa.
00:10Aline, vamos começar falando, isso é crime, né? Isso que a gente viu, né? O que diz o estatuto da
00:14criança e do adolescente?
00:15Isso é exploração de menores, né, Roberta? Então, isso é um crime grave.
00:20Qualquer crime contra crianças e adolescentes já são crimes, né, tidos como crimes graves.
00:25Mas, nesse caso específico, como tem muitas variáveis que só agravam, ele se torna um crime realmente relevante.
00:34Agora, é crime. A mãe foi presa. Vamos pensar na realidade dessas crianças que já estão ali, num ambiente que
00:42não é nada adequado para elas.
00:44E ainda vê a mãe sendo presa. Qual o impacto disso tudo na cabecinha dessas crianças, Aline?
00:49Boa tarde, Roberta. Boa tarde a todos.
00:52Olha, Roberta, é uma situação muito complexa, que são muitas variáveis que precisam ser consideradas.
00:58Desde questões socioeconômicas, o que levaram essas mães a estarem ali, até as condições que essas famílias vivem,
01:06a necessidade que essa mulher, essa mãe tem de estar ali, o quão real é ou não.
01:12E as ferramentas que ela está utilizando ali para obter recursos, que está sendo de uma forma inadequada, que é
01:18o uso dessas crianças.
01:19Agora, o impacto que isso vai ter na vida das crianças é com o tempo que a gente vai ver,
01:25mas notoriamente, sabidamente,
01:27a gente sabe que não será positivo.
01:30Tanto pela situação de vulnerabilidade que essas crianças estão, mesmo que talvez hoje elas não tenham essa consciência,
01:36mas em algum momento essa consciência pode vir.
01:39A exposição a situações de perigo, a um ambiente de risco, onde não há um cuidado ali com ela,
01:45desde a saúde, desde a integridade física, até condições psicológicas mesmo.
01:50E, por fim, a retirada da mãe dessa criança, que, por fim, naquele momento, a criança não está vendo a
01:56maldade da mãe ali.
01:57Então, tem um trabalho que deve ser feito aí, eu acredito que a justiça prega por proteger o vínculo dessa
02:05mãe com essa criança,
02:06mas com um cuidado muito grande, como que esse vínculo vai ser mantido por essa mãe?
02:10Você tocou em vários pontos importantes e um me chamou bastante atenção,
02:14quando você disse que talvez a criança, ali naquele momento, talvez ela não entenda,
02:19e por estar com outros amiguinhos, irmãos, talvez ela não entenda a gravidade daquilo,
02:25que era para ela estar brincando, era para ela estar estudando.
02:28Em algum momento da vida, o fato da criança não viver a devida infância, isso também pode trazer consequências no
02:36futuro, Aline?
02:37Certamente. A infância, ela tem uma série de fases que são necessárias para o desenvolvimento de um adulto saudável.
02:45O brincar faz parte, o estudar faz parte, a segurança faz parte.
02:51Por isso que existem leis, e aí, acho que a colega aqui pode falar de uma maneira até mais conceitual,
02:56mas existem leis que nós, como sociedade, precisamos proteger essas crianças.
03:01Então, a infância, a educação, a criança em si, não é só responsabilidade da mãe e do pai.
03:09Nós, como sociedade, precisamos prezar e cuidar dessas crianças.
03:12Então, acho que a gente vai falar aqui, quando vermos uma situação dessa, precisamos também agir.
03:17Quando a gente vê uma criança numa situação de risco, de vulnerabilidade,
03:21é nossa responsabilidade também cuidar dessa criança,
03:24porque, no futuro, essa falta de brincar, de estudo e de segurança,
03:30provavelmente vai ter um adulto comprometido para a sociedade.
03:34O que esse adulto vai trazer de volta para a sociedade, provavelmente não vai ser muito produtivo.
03:39E aí, tem muita gente que vê essas cenas no nosso dia a dia e pensa assim,
03:43ah, o problema não é meu, né?
03:45Isso não está acontecendo com o meu filho, isso não está acontecendo com a minha família.
03:49Mas não, é também da nossa responsabilidade.
03:52O que a gente, enquanto sociedade, o que a gente pode fazer por essas crianças, Camila?
03:56O problema é nosso, né?
03:58O problema é social.
04:00Então, em um ponto de vista, imagina que essas crianças que já estão crescendo assim,
04:04sem perspectiva de vida, né?
04:06Uma criança que deveria estar brincando e estudando para ter um futuro melhor,
04:09uma criança que já está à margem da sociedade desde a sua tenridade.
04:12Então, sucesso na vida fica difícil assim.
04:15Então, serão os futuros, infelizmente, quem sabe aí, marginais,
04:20quem sabe largar da sociedade, que estarão, o quê?
04:22Furtando, fazendo, cometendo crimes e vão nos ferir da mesma forma.
04:26Então, esse é um ponto.
04:27Segundo, o que nós fazemos diante de uma cena como essa?
04:31Denúncia, né?
04:33É o primeiro ponto, porque nós não podemos ir lá e retirar essas crianças dali.
04:36O que a gente retirar?
04:38A gente pode responder também por algum...
04:40Podemos, é, porque eles têm a responsabilidade, por pior que pareça para nós,
04:45são dos seus genitores, é de pai e de mãe.
04:47Então, se são os próprios que estão deixando a desejar nessa criação,
04:52então, quem responde acima deles é o órgão competente, que responde por essas crianças.
04:57A gente pode denunciar onde?
04:58No conselho de tutelar.
04:59No conselho de tutelar, o mais próximo que tiver, né?
05:01Se estiver fechado, porque tem plantão, mas caso tenha dificuldade,
05:07você está ali vendo naquele calor do momento, comunique à polícia,
05:09alguém próximo, para estar indo até aquele local,
05:12tomar alguma providência mais rápida, porque tem força para isso, policial, né?
05:16Porque no caso, por exemplo, da matéria, as mães deixavam as crianças,
05:19elas não estavam nem por perto.
05:21E são crianças, não são nem adolescentes, que ainda conseguem, dependendo do caso,
05:26dar uma fuga, né?
05:27Ainda assim, não deveriam estar.
05:29Mas eu digo, por serem tão pequenos, estão à margem de qualquer perigo.
05:34Então, assim, não deveriam estar ali no tempo, no lugar...
05:37Isso também caracteriza o abandono?
05:39Caracteriza.
05:40Crianças foram deixadas, né?
05:43Nenhuma criança pode ser deixada por nenhum adulto, seja ele qual for, né?
05:48Escola, responsável, a sociedade, pai, mãe, enfim, avós.
05:52Então, ali eles já estavam e ainda estavam em situação de exploração.
05:56Então, assim, a situação é realmente, ao todo dela, é muito, muito complexa.
06:01E ainda tem um detalhe, tá?
06:03Na hora de comer, o que mais dói é que essa mãe ainda comia primeiro, né?
06:08Depois que ela dividia, compartilhava as refeições ainda com os filhos.
06:14E muitas das mães, a gente sabe que na frente é a história da fome.
06:20Por trás também, a gente não sabe, né?
06:22Pra que elas estão usando, qual a finalidade também daquele dinheiro.
06:26E a gente também sabe que existem programas sociais pra atender exatamente esses casos de fome.
06:30Agora, se os programas conseguem atender todas as mães, é óbvio.
06:33A gente tem que cobrar das nossas autoridades.
06:35Mas usar a imagem da criança é ainda mais apelativo, Aline?
06:41Porque a gente fica sensibilizado, né?
06:43Sim.
06:44Eu acho que aí, Roberta, a gente pode minimamente diferenciar dois pontos.
06:48Uma coisa é a mãe ou o pai que estão usando a criança pra ganhar dinheiro,
06:54colocando elas ali num trabalho infantil.
06:56O outro são mães e pais em situação de vulnerabilidade,
07:00que não tem com quem deixar essa criança e está ali no sinal pedindo dinheiro.
07:05Claro que nós, como sociedade, podemos não identificar ali inicialmente
07:09se é um crime ou não que está sendo cometido.
07:12E aí, acredito que chamar os responsáveis por isso, a polícia, o conselho tutelar,
07:16eles vão estar aptos ali pra ser avaliado e pra avaliar.
07:20Então, acho que a gente diferenciar isso também, né?
07:23Porque o fato de ser pobre e estar pedindo dinheiro não é crime.
07:28Agora, colocar a criança para trabalhar, para pedir dinheiro,
07:32tirando ela da escola, tirando ela da infância dela, é outra coisa.
07:37E era exatamente isso que acontecia ali.
07:39Exatamente.
07:40Porque quando as mães...
07:40Ele ficava o dia inteiro, de 9 às 11, ou seja,
07:43e ainda citou na matéria que uma das crianças chegou a conseguir 700 reais por dia.
07:48Isso é muito dinheiro arrecadado pra uma criança um dia,
07:51ou seja, é uma exploração real.
07:53Não era uma questão apenas, analisando a grosso modo, de uma necessidade.
07:57Não era porque precisava de um prato de comida.
07:59Era algo realmente apelativo, utilizando a imagem das crianças.
08:03Olha só o comentário da Marlene, que mandou pra gente aqui no Facebook.
08:07Ela disse o seguinte,
08:08Roberta, aconteceu aqui também na Praia de Itapari, que eu tenho um comércio, né?
08:12Aí tem três meninos, eu acho que se tivessem oito anos, era muito.
08:17Aí eles estavam pedindo aos clientes dinheiro pra comprar paçoca pra eles venderem.
08:22Aí eu perguntei a eles, né, pelos pais, por que que os pais não estão aí?
08:25Eles não responderam nada.
08:27Aí eu falei com essas crianças, que ia chamar o conselho tutelar.
08:31Eles simplesmente correram, né?
08:34Ou seja, se eles correram quando falaram de conselho tutelar,
08:38é porque certamente alguma outra vez já passaram por essa situação.
08:42Sim, é que mesmo os pais colocando eles nessa situação de vulnerabilidade,
08:47ainda continuam sendo pai e mãe.
08:49A referência de amor, de afeto, por pior que seja, ainda continua.
08:53E o tirar dos pais é mais uma dor, é mais uma dificuldade que aquela criança vai ter que lidar.
09:00Claro que, diante das circunstâncias, isso tem que ser avaliado como uma possibilidade.
09:04Se estar com o pai e com a mãe é um prejuízo maior do que aquela criança estar numa outra
09:09situação.
09:10Mas, certamente, geralmente, né, os órgãos responsáveis tentam aí abordar essa mãe.
09:15Eu acho que essa tem que ser a principal responsabilidade.
09:17Cadê esse pai? Já não houve aí um abandono do pai também com relação a essas famílias?
09:22E um trabalho com essas mães e com essas mulheres de conscientização,
09:26uma busca de oportunidade, avaliar as condições em que elas estão
09:30e criminalizar aquilo que, de fato, está acontecendo ali,
09:33que não vai contribuir para aquelas crianças.
09:36Agora, teve uma fala ali que me chamou muita atenção,
09:38de uma criança, quando a repórter pergunta qual era o sonho deles, né?
09:43Teve um que falou, ah, eu sonho em ser jogador de futebol, quero comprar uma chuteira.
09:47Quando a gente fala em sonho, né, o sonho da criança,
09:50eu acho que isso, acho que é o que mais mexe comigo até mesmo, sabe?
09:55Porque eu sou uma pessoa muito sonhadora, eu corro atrás dos meus sonhos.
09:57Como é que essa criança vai correr atrás de um sonho,
10:00se ela não está tendo essa oportunidade?
10:02Porque a gente sabe que a principal ferramenta para a gente realizar um sonho
10:05é através do estudo, né?
10:07Não, com certeza.
10:07Ela já está partindo de um início aí, menos 10, né?
10:12Enquanto outras crianças estão com alimentação, moradia, estudo,
10:18noite de sono, afetos e cuidados e seguranças,
10:21essas vão ter um rendimento muito diferente dessas crianças.
10:25E aí, como a colega aqui falou,
10:28provavelmente aumentam-se as chances dessas crianças no futuro
10:32não serem cidadãos que vão contribuir com a sociedade.
10:36As chances de se tornarem mais expostas à criminalidade é muito maior.
10:41Agora, eu sei que dói.
10:43Quando a gente vê essa cena,
10:45quando vê uma criancinha vendendo bala,
10:47batendo no vidro, pedindo dinheiro,
10:49ou então até mesmo querendo limpar o vidro do carro,
10:52elas não alcançam nem com a mão, gente.
10:54Elas não têm nem altura para alcançar a limpeza do vidro do carro.
10:59Eu sei que dói.
11:00Mas qual seria a atitude correta nesses casos?
11:03Eu sei que a gente, às vezes, quer ajudar aquela criança naquele dia de frio,
11:08então naquele momento de calor, que a gente também quer ajudá-la a comprar uma água.
11:13O que seria um indicado nessas horas?
11:16É difícil, né?
11:17A gente está falando aqui como profissional e ao mesmo tempo como mães.
11:20Eu, nessa hora, não consigo responder enquanto profissional.
11:24São os humanos, acima de tudo.
11:26E nós também não vamos saber, aquilo que também a colega falou,
11:29no primeiro momento, se aquela criança que está vindo, ela está sendo explorada,
11:33se ela está fazendo parte de um momento ali onde a família toda sai para poder,
11:37vamos conseguir o nosso do dia, a gente não tem o que comer.
11:39Então, nós não podemos julgar uma família que sai unida em prol daquilo para eles.
11:44Então, a começar em mim.
11:46Muitas vezes, se eu tiver, eu pego sim, sabe?
11:49Eu compro uma bala sim, eu deixo...
11:53Claro que a gente pode fazer coisas muito maiores do que isso.
11:56Não é isso que vai tapar a barriga de ninguém, não é.
12:00Mas a gente usando o que foi pontuado aqui, se é errado ou se não é,
12:05eu não vejo como errado, mas eu acredito que a gente não possa sustentar isso.
12:10E agora...
12:11Sabe o que eu aprendi com uma amiga minha?
12:12Até interessante compartilhar, já que a gente está aqui como mãe,
12:15como profissionais também, é ter algo no carro.
12:18Às vezes, tem um biscoito, tem um casaco, né?
12:20Às vezes, isso também.
12:22A gente não está ali, ao mesmo tempo, estimulando aquela criança,
12:25mas também não está tapando os olhos.
12:26Sabe que uma vez eu fui entregar, que eu também carregava uns biscoitos, né?
12:30Até estimulava meus filhos a entregar para entender como é que funcionava.
12:34Na hora que eu fui entregar, o menininho que estava vendendo uma pastilha,
12:37ele falou bem assim, não, moça, é porque eu preciso de comprar um arroz.
12:40Aí eu dei seta, tinha uma padaria, na verdade, comprei várias coisas.
12:45Mas ele falou, é porque eu só queria o arroz, eu não queria o biscoito, não.
12:47Eu achei até bonitinho da parte dele, porque ele foi sincero.
12:50Então, fica assim, são várias coisas, né?
12:53A gente tenta ajudar, e não é que sempre a gente consegue ajudar.
12:56Não sabe se está no caminho certo, correto, mas o correto mesmo é a gente fazer uma denúncia
13:01para que o caso seja tratado lá na raiz.
13:04Isso, e também buscar instituições.
13:07Eu acho que no momento que a gente está ali no sinal e que a gente está nessa dúvida,
13:11que é uma dúvida de todos nós,
13:13se a gente já contribui de alguma forma para instituições sérias que estão ligadas à ajuda à infância
13:19ou outras pessoas em situação de vulnerabilidade,
13:22isso também traz um conforto do não vou dar agora, não posso dar agora,
13:26mas eu faço a minha contribuição para a sociedade.
13:28Então, eu acho que quem tem, quem pode, é um bem que a gente faz para todos,
13:33tanto para quem recebe, como também para quem doa.
13:35Então, eu acho que buscar essas instituições é uma excelente ferramenta para ajudar essas crianças.
13:40Tá certo, gente. Obrigada pela participação de vocês, viu?
13:43Um abençoado final de semana para nós.