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  • há 3 semanas
A rua também não tem pavimentação

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Transcrição
00:00Hoje a nossa rota é em Viana, bairro Ipanema.
00:03A gente vai acompanhar um casal que vive por lá,
00:06numas condições não muito adequadas.
00:08Cadê Michelito?
00:09Tô chegando!
00:10Para, garota!
00:11Se assustou, né?
00:12É, veio um susto.
00:13Pois é, minha amiga, é um casal.
00:15É um casal.
00:15Eu já não tenho meus avós, os seus também já partiram, né, amiga?
00:18Também já partiram.
00:19Mas os avós, eles deixam sempre na gente doces lembranças, né?
00:22Aquela memória afetiva.
00:23Eu tenho muita saudade dos meus.
00:24Fugão a lenha.
00:25Fugão a lenha, fogão a lenha.
00:26Essa senhorinha, que a gente vai lá na casa dela agora,
00:29ela, inclusive, ela tem que cozinhar a lenha, sabe por quê?
00:31É porque não tem opção?
00:32Não tem opção, ela vive num sofrimento.
00:34Para chegar um carro na casa dela, é uma luta.
00:36Ela não tem acesso a água tratada, saneamento, esgoto.
00:40Tem nem energia lá, amiga.
00:41Difícil imaginar que isso ainda exista nos dias de hoje, né?
00:44E aqui na Grande Vitória, em Viana, aqui pertinho.
00:46Meu Deus, tem tanta tecnologia, o povo sem o básico.
00:48Não é?
00:49Pois é.
00:49Vamos lá dar um conféria?
00:50Vamos lá, mas antes, você vai ter que relembrar essa história
00:53para saber como é que a gente conheceu esse casal.
00:55Chama aí.
00:55Deixa eu refrescar a sua memória.
00:57Roda!
01:01Sabe aquela música que diz que era uma casa que não tinha teto, não tinha nada?
01:06Então, é mais ou menos por aí.
01:09Na casa de Dona Margarida e Seu José, é tudo muito improvisado.
01:14Por exemplo, não tem piso, só chão batido mesmo.
01:18Dá uma poeira danada.
01:19As paredes são só essa madeira fininha, não tem nada de concreto aqui.
01:24O teto são essas telhas cheias de aberturas.
01:29E para piorar tudo, não tem energia elétrica e nem água encanada.
01:34Difícil imaginar isso nos dias de hoje, mas é a realidade do casal que vive no bairro Ipanema, em Viana.
01:41Cinco horas já está escurecendo tudo aqui.
01:44O máximo que a gente vai dormir aqui é o máximo de sete horas.
01:48Porque luz de querosene, a gente não pode ficar com ela acesa o tempo todo, né?
01:52Porque a pumaça também não faz muito bem para a gente.
01:56Aí tem que ficar no escuro.
01:57Para ficar no escuro, a gente vai para a cama cedo.
02:02O banheiro da casa é esse cômodo.
02:05O vaso é ligado diretamente na fossa.
02:07E não tem chuveiro, não.
02:09Banho aqui é só de caneca, com a água que eles armazenam nessas bacias aí.
02:15A comida por aqui também é pouca.
02:17E para cozinhar, dona Margarida prefere usar esse fogão a lenha, para não gastar muito com gás.
02:23Por não ter energia elétrica, além de viver na escuridão, tem o fato de não poder ter televisão, geladeira, nada
02:32disso.
02:34Dona Margarida até tem um telefone celular, que vive desligado.
02:38Tem que carregar fora.
02:39Uma hora ela é na casa dos meninos, outra hora eu levo, quando eu estou, vou para a igreja, eu
02:44levo para a igreja e carrega lá.
02:49Os dois moram na rua Presidente Kennedy, que fica no bairro Ipanema, em Viana.
02:55As melhorias demoram muito a chegar por aqui.
02:58Aí, gente, a vida já é assim, né?
03:01Com tadinha, com falta de vários serviços.
03:04E aí, a situação piora, porque a senhora tem vários problemas de saúde, né, dona Margarida?
03:09Eu tenho vários problemas.
03:11Tem problema de pressão, problema de coração.
03:14Inclusive, problema de coração é dois, que é o coração, o grande sopro do coração.
03:19Eu tenho problema de coluna.
03:23Eu tenho um problema aqui também, que eu me dói muito de vez em quando, e eu fico assim, toda
03:28abaratinada.
03:29Eu quero saber o seguinte, se a senhora passa um mal aí no meio da noite, precisa pedir socorro, faz
03:34como?
03:35Ah, mas até agora não tem pedido, não tem dado para pedir socorro, não.
03:38Porque, às vezes, meu telefone está funcionando.
03:46Aí, o banho, a gente viu que eles tomam de caneca, né, lá no banheiro improvisado.
03:52E para lavar a roupa, dona Margarida, como é que é o esquema aqui?
03:56Ah, eu esfrego a roupa aí e vou pôr aqui para torcer.
03:59Tem que ser aqui do lado de fora.
04:00É, torcendo um pouquinho de roupa, vazio, eu lavo aqui.
04:06Agora, para lavar vazio, ela tem que ensabuar ela, bem ensabuadinha.
04:12Depois, ligar a mangueira e segurar para enxergar.
04:15E isso é porque vocês conseguiram um pouquinho de água ali da rua?
04:19É.
04:20E conseguiu, da rua de cima, né, da outra rua.
04:23O que faz mais falta para vocês, dona Margarida, a energia ou a água?
04:27As duas coisas fazem falta, mas a água faz mais.
04:33Dona Margarida e seu José Benedito passam esse perrengue todo, mas nunca deixaram de sonhar.
04:40Com as poucas economias, eles compraram esse terreno, financiado, na esperança de finalmente construir a casa própria.
04:48Mas está sendo de pouquinho em pouquinho, porque o dinheiro que o casal recebe não dá para quase nada.
04:55Aqui do lado de fora da casa é a casa que o seu José e dona Margarida estão construindo, não
05:02é isso?
05:02Isso, senhora.
05:03Vocês estão construindo como?
05:05A gente vai fazendo devagarzinho, né.
05:07Compra um metro de areia, meio metro de brita, gasta aquilo que eu compro novamente e vai indo.
05:12E vocês têm fé que vai sair essa casinha?
05:14Vai sair, vai sair.
05:15E vamos pelejando, tem que ter, quanto dia a gente tiver, vamos pelejando.
05:25Apesar de toda a dificuldade financeira, os dois ainda acreditam que um dia o poder público vai voltar os olhos
05:33para eles
05:34e que as coisas ainda vão melhorar.
05:37O maior sonho é ter minha casa, não pagar aluguel e ter a energia e a água aqui, direitinho.
05:45O maior sonho é ter a energia e a água aqui, direitinho.
05:50Até a próxima.
05:51Tchau, tchau.

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